




























O Clube das Choclatras























ABAS





"Carole Matthews  uma das poucas
escritoras que, como Marian Keyes,
tem o dom de contar histrias agradveis,
sedutoras e bem-humoradas."

DAILY RECORD




A
lgumas mulheres so viciadas em compras; outras, em champanhe. J umas curtem bons livros; outras esto sempre nas melhores boates.
Lucy Lombard, porm, s no consegue viver sem uma coisa: CHOCOLATE. Delicioso, cremoso, docinho, tudo de bom! Insubstituvel, no h nada que ele no cure, desde
corao partido a dor de cabea. E nossa amiga no est s; compartilha sua paixo por essa iguaria com outras trs viciadas, Autumn, Nadia e Chantal. Juntas, elas
formam um grupo seleto, denominado Clube das Choclatras. Sempre que h uma crise, rias se renem em seu santurio, o Paraso do Chocolate. Com um namorado galinha
que vive prometendo mudar, um chefe paquerador, um marido viciado em jogo, um casamento sem amor, assunto  o que no falta entre elas...


Os livros de Carole Matthews so sucesso de pblico e critica em lodo o mundo. O senso de humor peculiar dessa autora vem atraindo incontveis fs. Alm de aparecei
nas listas dos mais vendidos do New York Times e do Sunday Times, vrios de seus romances foram parar em Hollywood. Carole Matthews participa de programas de TV
e rdio. Quando no est escrevendo romances em sua casa, em Milton Keynes, e trocando e-mails com os fs, adora comer chocolate e viajar para lugares distantes.
Se voc quiser descobrir o que anda acontecendo com Lucy Lombard e as demais participantes do Clube das choclatras, no perca o prximo romance de Carole Matthews,
A Dieta das Choclatras.









Contra-capa

"Voc se divertir muito com as inmeras cenas hilariantes deste livro!"
OK! MAGAZINE


"Uma histria divertida e romntica, muito gostosa de ler." MARIE CLAIRE


S
e voc compartilha da paixo de Carole Matthews por chocolate, visite o site www.thechocolateloveisclub.com e conhea fatos interessantes sobre esse alimento, prepare
as deliciosas receitas oferendas pela autora e leia seus incrveis contos.
Ou acesse www.carolematthews.com para conhecer seu delicioso universo. Caso deseje entrar era contato, escreva para ela: cmatthewsmail@aol.com





A pesquisa para realizar este livro no foi nada fcil - tanto chocolate, em to pouco tempo! Gostaria de agradecer a todos que contriburam para meu trabalho, transformando 
o fascnio por chocolate em uma grande obsesso. A Lucy e Barry Colenso e aos funcionrios da Thorntons - sobretudo a Paul Hales - pelas informaes e pelo entusiasmo. 
A Sue Castlesmith, do Centro de Conferncias Hayley, pelo fim de semana dedicado ao consumo de chocolate, que quase serviu como uma terapia aversiva.  minha me, 
que se disps a comer vrios bombons. A Davina McCall, pelos excelentes DVDs de ginstica que me ajudaram a equilibrar um pouco o consumo de calorias. E a meu querido 
Kev, por ter compartilhado comigo a rdua tarefa de consumir tanto chocolate, com a disposio de sempre.















Captulo Um


   
  Q
uero mais - disse eu. - Tem certeza? - indagou meu fornecedor, arqueando as sobrancelhas. - Sei qual  o meu limite. - Mas est exagerando na dose - avisou ele. 
- At mesmo voc, viciada convicta.
      - Jamais!
      Nos momentos de crise, eu sempre recorria  minha droga favorita, o Madagascar, oriundo de uma nica plantao. No existia nada, absolutamente nada, que ele 
no curasse. Era um santo remdio para qualquer coisa, de corao partido a dor de cabea, e garanto que j tivera de enfrentar uma boa dose de ambos os problemas.
      - Pode ir passando. - Acenei com a cabea, solenemente, e meu fornecedor me deu a droga, levando-me a suspirar de alvio. Chocolate. Hum. Hum. Humm! Delicioso, 
cremoso, adocicado, tudo de bom! Eu sempre queria mais!
      Bastou dar a primeira mordida e seu sabor reconfortante e agradvel j comeou a apaziguar minha dor. s vezes, era tudo de que precisvamos.
      - Est melhor?
      - Um pouco - respondi, com um leve sorriso.
      - As demais vo chegar daqui a pouco e, ento, voc vai se sentir melhor.
      - Eu sei. Obrigada, Clive. Voc  um amor.
      - Faz parte do servio, queridinha. - Acenou-me com seu jeito afeminado; nada que surpreendesse, por sinal, j que ele era gay.
      Depois de pegar minha mercadoria, escolhi um sof no canto e deixei-me afundar nele. Meus msculos tesos relaxaram aos poucos e, assim que senti o forte aroma 
de baunilha, minha mente desanuviou tambm.
      No era a nica a ter esses desejos. De jeito nenhum! Fazia parte de uma mini-associao, de scias perfeitas, batizada de Clube das Choclatras. Nosso grupo, 
assumidamente culpado, era formado por apenas quatro participantes, que se encontravam ali, no Paraso do Chocolate, sempre que podiam. Aquele lugar era o den dos 
viciados - o equivalente a um antro de pio para todo choclatra. Ficava escondido numa ruela de pedras, num bairro elegante de Londres, cujo nome no iria revelar, 
evitando assim que meu segredo fosse exposto e que um bando de mulheres deslumbradas e ansiosas estragasse nosso recanto especial. Era o mesmo que acontecia quando 
se descobria um local maravilhoso para passar as frias - incontveis quilmetros de praias desertas, de areia branca, com restaurantes e casas noturnas pequenas 
e aconchegantes. Ento, a pessoa fazia propaganda dessa atrao turstica, ressaltando seus pontos positivos, e, j no ano seguinte, ela ficava entupida de gente, 
que chegava em um dos vos superbaratos da Easyjet. Da, ningum conseguia se mover na praia cheia de corpos gorduchos, com suas cangas artesanais de alguma loja 
varejista e sons portteis. Os restaurantes aconchegantes passavam a servir batata frita com lingia, e as casas noturnas a oferecer bebidas pela metade do preo 
e mquinas de espuma. Assim sendo, por enquanto, o Paraso do Chocolate seria o reduto de uma minoria seleta. E eu torcia para que continuasse assim!
      Apoiei a cabea no sof e subi aos cus de novo, ao meter outro pedao de chocolate maravilhoso na boca. Suspirei mais uma vez.
      Sou Lucy Lombard e acho que posso ser considerada a fundadora do clube, pois tive a sorte de ser a primeira a achar o Paraso do Chocolate. Naquele dia, um 
encontro improvisado do grupo havia sido marcado s pressas. Quando uma de ns enviava a mensagem de texto EMERGNCIA CHOCOLATE, todas tentavam deixar suas obrigaes 
de lado e iam de imediato ao nosso santurio. Era o mesmo que dizer a um mdico de planto que seu paciente tivera uma parada cardaca. Daquela vez, fui eu quem 
solicitou a reunio. Mal podia esperar para contar a elas o que acontecera; no iriam acreditar. Bom, pensando melhor, iriam, sim.
      Autumn chegou primeiro. Entrou assim que coloquei na boca o ltimo pedao de chocolate.
      - O que houve? - perguntou, sem flego. Autumn Fielding era o tipo de pessoa superatenciosa.
      - Marcus. De novo - comentei. Teoricamente, esse deveria ser meu querido namorado, mas depois eu falo mais sobre ele.
      Autumn deixou escapar uma exclamao de desprezo.
      Muito tempo atrs, eu costumava ir at ali sozinha e me isolar num canto qualquer. No gostava de comer na frente de ningum, ainda mais quando estava saboreando 
chocolate. Imagino que os viciados tampouco gostem de ser observados enquanto fumam seus cachimbos de craque ou injetam herona. E meio degradante ser flagrado em 
plena depravao. (A no ser que a pessoa curta ser observada.) Eu no chegava a babar, mas, s vezes, tinha a sensao de faz-lo.
      H que se convir que qualquer atividade que envolva baba deve ser realizada em privacidade.
      Foi numa das minhas inmeras idas quela chocolataria que conheci Autumn. Quando ela chegou, no havia um lugar sequer disponvel, exceto ao meu lado, ento 
ela se sentou ali e a gente se deu bem de imediato. Tambm pudera, impossvel algum no gostar dela - a menos que essa pessoa deteste gente solcita. Mas eis aqui 
um pequeno conselho. Ateno, pais: se chamarem sua filha de Autumn, ela certamente ter cabelos ondulados, ser ruiva e votar no Partido Verde - exatamente como 
minha amiga.
      Autumn parecia feita de chocolate, com alto teor de cacau. No mundo da psicologia desse alimento - eu tinha certeza de que havia um -, isso indicava que ela 
ocultava seu lado obscuro. Minha amiga costumava mordiscar o chocolate, economizando cada pedao ao dar as pequenas dentadas. A meu ver, esse hbito fazia com que 
se sentisse menos culpada com relao aos pobres. Eu sabia que era o que lhe passava pela cabea quando sucumbia  tentao de comer chocolate. Enquanto ns nos 
preocupvamos com a quantidade de calorias consumidas e com o tempo que elas permaneceriam nos nossos quadris, Autumn pensava nas crianas famintas que sobreviviam 
com uma tigela de arroz por dia e nunca podiam comer chocolate. Eu no pensava nessas crianas; procurava bloque-las por completo da mente, j que, para ser franca, 
j tinha muito com que me preocupar em casa.
      - A gente precisa tomar chocolate quente para se animar - sugeriu ela, tirando o cachecol, provavelmente feito por alguma adolescente mexicana pobre, que ganhava 
uma libra por ano para tricotar numa favela cheia de lixo. Eu precisava comer mais chocolate para me sentir melhor.
      - Clive - chamei nosso amigo e fornecedor do balco. - As outras vo chegar daqui a pouco. Pode preparar chocolate quente pra gente?
      - Claro - disse ele, j pondo mos  obra.
      Nadia chegou. Abraou-me e lanou-me um olhar penetrante.
      - Ele no  bom para voc.
- Eu sei. - Todas sabamos. Ela nem precisou perguntar por que eu estava chateada. Sempre era por causa do Marcus. - J pedi chocolate quente.
- timo.
Nadia Stone foi quem acabou transformando nossa dupla num grupo. Chegou um belo dia ao Paraso do Chocolate, na hora do almoo, e, com semblante estressado e choroso, 
pediu uma grande variedade de doces para o companheiro e scio de Clive, Tristan, com mais afobao do que bom gosto. Tanto eu quanto Autumn nos solidarizamos com 
ela, por termos passado por isso milhares de vezes. Ento, foi mais do que justo ampar-la naquele momento.
Autumn e eu j havamos comeado a nos encontrar ali uma vez por semana, em algumas ocasies at duas, quando nossos nveis de estresse assim o exigiam. Aquela altura, 
todas tnhamos uma espcie de acordo informal.
Nadia era a nica de ns que j era me. Seu filho, Lewis, tinha trs anos e tomava muito seu tempo - no  o que acontece com todos? Ela estava chorando no dia 
em que a conhecemos justamente por ter passado vrias noites sem dormir, mas, agora, a situao j estava melhor. Lewis vinha dormindo melhor e Nadia conseguia realizar 
suas atividades no mundo real.
Ela no era mesmo muito criteriosa na hora de escolher o chocolate. Embora afirmasse se tratar de seu nico alvio, parecia devor-lo sem nem ao menos sabore-lo. 
Um verdadeiro crime para mim. Se a pessoa tem um vcio, deve ao menos curti-lo. Nadia comia chocolate para se sentir melhor, suponho que tal como ocorre com 99 por 
cento da populao feminina. Como eu, mantinha as convenientes curvas do manequim quarenta. Mas jogava a culpa na gravidez, afirmando que nunca conseguira voltar 
ao normal depois de ter tido um filho. J eu culpava o fato de ela roubar todos os chocolates do menino antes de ele chegar perto. Nadia j admitira comer o recheio 
dos biscoitos de Lewis quando ele estava distrado.
- Odeio este clima britnico. - A ltima participante de nosso grupo a chegar foi Chantal. Deixando-se cair na poltrona, meneou a cabea para tirar os pingos de 
chuva dos cabelos brilhantes.
Procedente da ensolarada Califrnia, Chantal Hamilton tambm era casada, como Nadia. Seu marido, Ted, uma espcie de gnio do setor financeiro da cidade, tinha muita 
grana. Embora ela fosse a mais velha de todas ns - quase quarentena -, era, de longe, a mais linda e charmosa. Alta, magra, sempre impecvel, incrivelmente bela 
e talentosa. Se fosse uma gua, seria puro-sangue. Chantal cortava os cabelos curtos e escuros com um dos melhores cabeleireiros de Londres - um dos que apareciam 
na televiso o tempo todo. Nunca se via um fio fora do lugar. No salo, ia para a sala VIP e tomava champanhe enquanto a penteavam. Era mesmo outro mundo! Nossa 
amiga usava sapatos que faziam meus ps doerem s de olhar. Alm disso, freqentava lojas que requeriam hora marcada com consultores que deixariam clientes com contas 
bancrias normais de cabelo em p. Chantal Hamilton tinha mesmo tudo na vida.
Tudo, menos um marido que quisesse transar com ela.
Srio! Nos dias atuais, quando supnhamos que todos eram loucos por sexo, Chantal e Ted faziam amor uma vez por ano. Duas, se ela conseguisse embebed-lo no Natal 
com a mistura letal de vodca e um troo que ela chamava de "gemada". Eca! Mas, no Dia dos Namorados ou no aniversrio dela, era tiro e queda; depois disso, tudo 
saa dos eixos! E bem que ela gostaria de ver Ted colocando tudo nos eixos!
Apesar de toda a sua educao e de seu visual sofisticado, Chantal tambm era uma consumidora de chocolate inveterada, que se recusava a admitir o vcio. Nossa amiga 
americana insistia em dizer que apenas gostava de doces. Um mecanismo de defesa, sem dvida alguma.
- Por que tivemos que vir? - perguntou ela. - Precisavam ter visto a bunda do fotgrafo que acabei de dispensar. - Comer chocolate no era sua nica forma de lidar 
com a total indisposio do marido de exercer seus direitos conjugais. A bem da verdade, Chantal preferia comer seus fotgrafos a dispens-los. - Espero que seja 
por um bom motivo.
- No  - respondi, melanclica.
Clive trouxe uma bandeja com quatro xcaras de chocolate quente com chantili e raspas de chocolate, e colocou-as na mesa de centro. O lquido formava anis de vapor 
no ar. Era disso que precisvamos para aquecer nossos ps gelados; era do que eu precisava para aquecer meu corao partido.
- Fiz mil-folhas - disse-nos ele, erguendo os olhos para o cu de forma dramtica, em sinal de xtase. - Camadas finas de massa, aromatizadas com gengibre, cravo, 
noz-moscada e canela. -Todas soltamos exclamaes de aprovao. -Vocs tm que provar.
E quem ramos ns para discutir?
- Aqui est, queridinhas. - Ouviram-se suspiros coletivos de expectativa  medida que eu passava os pratinhos.
Eu e as demais participantes do clube nos acomodamos melhor nos sofs macios e fundos. Sorvemos o chocolate quente juntas e soltamos outro suspiro - de aprovao.
- E ento? - perguntou Chantal.
Um bigode j se formara no alto da boca de Autumn, que estava com os olhos arregalados de expectativa" Fitei aquele grupo de amigas ntimas.
- Esto bem acomodadas? - Elas assentiram. Em seguida, todas, ao mesmo tempo, pegamos as generosas pores de mil-folhas de chocolate. - Ento, vou comear...





Captulo Dois







      
  Q
uem come chocolate tem que fazer ginstica: essa  uma regra das bsicas que regem o universo. Por esse motivo, nas tardes de tera-feira, eu fazia ioga. Saboreei 
o ltimo pedacinho do tablete de chocolate e joguei a embalagem no lixo. As seis da tarde, peguei a bolsa de ginstica debaixo da mesa, esperando dar o fora do escritrio 
o mais rpido possvel.
      Naquela poca, trabalhava na Targa, uma empresa de informtica especializada em recuperao de dados - seja l o que fosse isso. Eu s sabia que trabalhava 
ali havia mais tempo que em qualquer outro lugar, como secretria temporria, desperdiando por completo as timas notas que obtive com muito sufoco na faculdade 
de comunicao - apesar de muita gente achar que se tratava de uma graduao do tipo "moleza". Na Targa, vigoravam nveis endmicos de estresse e de doenas, e se 
usavam com freqncia folgas abonadas. Acho que as aulas de ioga surtiriam mais efeito em algumas de minhas colegas do que em mim. Sempre que uma delas engravidava, 
o pessoal da empresa dava um jeito de demitir a pobre coitada, s que isso levava algum tempo e requeria bastante jogo de cintura. Ento, nos ltimos anos, substitu 
por longos perodos vrias funcionrias em supostas licenas-maternidade. A legislao trabalhista no era seguida aqui.
      Uma das razes que me levavam a gostar de trabalhar na Targa era sua localizao perigosamente prxima ao Paraso do Chocolate. Se eu fosse rpida, podia dar 
um pulo l na hora do almoo. Minha atual misso no escritrio era atender aos diversos e amplos caprichos de seis vendedores, sob o olhar perscrutador do gerente 
de vendas, Aiden Holby.
      - E a, gata? - perguntou ele, ao passar por minha mesa. -Vai colocar as pernas atrs do pescoo esta noite?
      A Targa tambm era uma empresa politicamente incorreta. Assdio sexual e insultos a funcionrios chegavam at a ser encorajados - sobretudo porque era a nica 
forma de aliviar o estresse constante. J na contratao se exigiam capacidade de flertar de modo aberto e uso de vasto linguajar ofensivo.
      -Vou. A ioga me chama.
      - Eu daria tudo para v-la se inclinar naquelas roupinhas de ginstica apertadas.
      - E mesmo? Ele ergueu a mo.
      - No interrompa este meu momento tipicamente masculino!
      - Pode ir sonhando - disse-lhe, j me dirigindo  porta.
      - Vou tomar uns drinques com os rapazes no Space Bar, mais tarde - comentou ele, abrindo um sorriso cativante. - Por que no d um pulo l?
      - Obrigada, mas no posso ir.
      - Queria convid-la para tomar aquela vodca com chocolate de que voc tanto gosta.
      Era tentador. S havia uma coisa melhor que chocolate puro: mistur-lo com bebida alcolica.
      - No vai dar, mesmo - disse eu, esforando-me para me mostrar virtuosa.
      - Pretendia embebed-la na esperana de que me seduziria. -Voc no ia conseguir pagar por tanta vodca.
      Aiden deu uma risada.
      - Boa-noite, gata. At amanh.
      Ele sempre me chamava de "gata". Eu no sabia se era porque realmente me achava bonita ou porque, como j haviam passado tantas temporrias por ali, era uma 
denominao genrica, aplicvel a todas, para evitar a incmoda tarefa de ter que lembrar todos os nomes. Eu nunca o chamava de gato, embora ele fosse.
      Aiden Holby tinha um charme fora do normal. A mulherada do escritrio, sobretudo as que j tinham certa idade e se impressionavam com tudo, achava que ele 
era o mximo. Alto, moreno e lindo de morrer. O irrepreensvel sorriso descarado e o olhar brilhante e malicioso no passavam despercebidos por mim. De vez em quando, 
eu me pegava falando muito bem dele nos encontros das choclatras, que comearam a cham-lo de "paquera". No que eu tivesse, de fato, uma queda por ele - de jeito 
nenhum! Alm disso, Aiden "Paquera" Holby era um solteiro convicto e eu, uma mulher comprometida, envolvida numa relao antiga. Sempre fui totalmente fiel ao Marcus, 
embora minhas amigas do clube muitas vezes considerassem essa minha lealdade insensata.
      
      
   Captulo Trs
      
      
      
      
      
      
 J
untei-me  multido que se dirigia ao metr e, aps algumas paradas, cheguei  academia em que tinha aula de ioga. No era l mil maravilhas, mas estava dentro do 
meu parco oramento. Na verdade, ultrapassava meu parco oramento, mas eu no iria arrancar os cabelos por causa disso. Ali no se viam acabamentos de cromo ou vidro 
fosco. Apesar do odor constante de desinfetante barato nos vestirios, no era to limpa quanto poderia ser e eu s ficava o mnimo necessrio debaixo daquelas duchas. 
Alm disso, nas salas de ginstica era possvel sentir sempre um leve futum de suor e os aparelhos de ar-condicionado nunca funcionavam direito. O pior era que fazia 
calor pra caramba naquele dia - do tipo que fazia Toffee Crisps, tabletes de chocolate com caramelo e flocos de arroz, derreterem na bolsa. Foi o que constatei, 
pois esse era meu jantar. Se ia at ali fazer aulas para punir o meu corpo com freqncia, ento elas tinham que acompanhar meu consumo de calorias. Eu travava uma 
batalha eterna para no ultrapassar os limites do que se considerava uma pessoa rechonchuda. Era baixinha, loura natural e no muito cheia, considerando meu vcio 
- embora provavelmente me descrevessem como "curvilnea" ou "exuberante", se algum dia me tornasse tema de um escndalo em tablide. "A Luxuriosa Lucy" ou "A Sensual 
Lucy" seriam meus cognomes nas manchetes. No vou nem considerar algo do tipo "Lucinha Carnudinha".
      Antes, eu tinha um monte de aspiraes, mas, agora, j no tenho tantas. S sei que no quero passar o resto da vida preenchendo formulrios e levando caf 
para pessoas que nem se do ao trabalho de me conhecer, porque sabem que no vou ficar ali por muito tempo. Depois de todos aqueles anos, eu continuava pagando as 
dvidas da universidade. Sabia que, um dia, iria parar de torrar todo o meu dinheiro com excesso de calorias e comear a economizar para ingressar no mundo da razo. 
Embora estivesse contemplando a mudana, apesar de j estar na segunda metade dos trinta, eu me sentia bem comigo mesma.
      No era uma solteirona frustrada, tampouco uma casada complacente. Tinha um namoro firme - s vezes. Marcus Canning me adorava e pretendia se casar comigo, 
algum dia. Fazia cinco anos que estvamos juntos e, naquele momento, ele j estava assumindo, lentamente, certo "compromisso", o que era timo.
      Quando me aproximei da academia, eu me senti meio desanimada. Fazia ioga para diminuir o estresse, mas no sabia se estava dando muito certo. Bastava me deitar 
durante a aula, com os punhos cerrados de forma tensa, para pensar: Anda logo com isso!; j os demais alunos aparentavam estar supersatisfeitos, ouvindo um daqueles 
cantos estridentes de pssaro e a voz montona da nossa professora, Persephone. Tambm era difcil para mim manter os joelhos na posio destruidora de pernas do 
Ltus. Alm disso, fazia de forma bem aptica a meia-postura do arado. Essa minha dedicao ao lado espiritual me impedia de encontrar com o Marcus s teras. Eu 
o amava tanto que era difcil deixar de v-lo todos os dias; na verdade, tinha que me obrigar a fazer outras coisas, j que ele no gostava nem um pouco de mulheres 
pegajosas demais.
      De vez em quando, ele me ligava e me convencia a no levar adiante meus esforos de ficar em forma. Meu namorado me atraa para seu apartamento oferecendo 
generosas quantidades de chocolate e vinho tinto. Podem dizer que no tenho fora de vontade, mas o fato  que eu sempre acabava cedendo, embora ocasionalmente fizesse 
uma cena por ter que faltar. Marcus nunca levava minha relutncia a srio, ciente de que bastava estalar os dedos para eu fazer o que ele quisesse. Alm do mais, 
uma taa de vinho fazia bem para o corao - sabe-se l o que dizer das outras quatro que eu acabava tomando. Dois quadrados de chocolate amargo por dia tambm eram 
benficos para a sade. Aumentavam o nvel de endorfina e antioxidantes, o que era timo. Com que freqncia os cientistas erravam? Hein? Ento, no fim das contas, 
ir ao apartamento dele para tomar vinho e comer chocolate talvez fosse muito mais vantajoso para mim que arriscar leses na aula de ioga. E, sejamos realistas, independentemente 
de ser um fato cientfico, a maioria das pessoas sempre preferiria birita e chocolate a sade e hata-ioga, e eu no era uma exceo.
      Marcus sabia muito bem que no resistia ao seu apelo, muito menos ao do Mingles, chocolate com menta. Naquele dia, no entanto, apesar de eu ter fitado o telefone 
por longos momentos durante o dia, ansiando que ele me salvasse da postura do tringulo, no me ligou. Cheguei a telefonar para ele algumas vezes - umas dez -, mas, 
da, percebi que estava exagerando. De qualquer forma, todas as ligaes caram direto na caixa de mensagens.
      Tirei um Toffee Crisp do meu kit de emergncia, guardado na bolsa, e devorei-o. Fazer exerccio, mesmo ioga, de estmago vazio me fazia sentir fraca. Para 
ser sincera, s recentemente eu me havia tornado f dos prazeres do chocolate com especificao de origem. Eu o adorava de qualquer jeito, mas minha paixo, naquele 
momento, eram os do tipo gourmet, feitos com gros selecionados de uma nica plantao, procedente de diversas regies do mundo: Trinidad e Tobago, Equador, Venezuela, 
Nova Guin. Lugares exticos, todos eles. Na minha humilde opinio, esse era o melhor chocolate. Equivalia  grife Jimmy Choo no mundo das chocolatarias, embora 
a trufa fosse uma competidora ferrenha. (A rigor, se comparada ao chocolate, ela seria mais um doce, mas no quero ser pedante demais.) Para no dizerem que era 
exigente demais, tambm me empanturrava de Mars Bars, Snickers e Double Deckers, como se eles fossem sair de moda. Como boa especialista, cresci consumindo chocolates 
das marcas Cadbury e Nestl, sendo os meus favoritos Curly Wurly e Galak, que, na minha opinio, foram ficando cada vez menores no decorrer dos anos. Andava meio 
desiludida com os Walnut Whips tambm; para mim, j no eram mais os mesmos. No que eu tenha deixado de consumi-los - podem considerar isso pesquisa de qualidade.
      Devorei a ltima poro de Toffee Crisp ao passar pela porta da academia e saudei com entusiasmo Becky, a recepcionista magrrima cuja aparncia deixava claro 
que a tentao do chocolate nunca batera  sua porta. Passei rpido por ela, para trocar de roupa.
      - Ah, Lucy - chamou-me a recepcionista. - A aula de ioga foi cancelada hoje. Persephone teve um problema nas costas.
      No era l uma boa propaganda para a ioga, era?
      - Droga! - exclamei. - Eu estava louca para relaxar. - Podem me chamar de mentirosa, no me importo.
      - Por que voc no faz a aula de ginstica com bola sua? - sugeriu Becky. -Tem a de musculao tambm.
      Eu achava ambas cansativas demais. Gostava de ioga justamente porque a gente pode fingir que est se esforando muito, quando, na realidade, no est fazendo 
quase nada. Se algum parasse de se movimentar numa aula de aerbica, todo mundo notaria. J se algum cochilasse na de ioga, todo mundo acharia que a pessoa conseguia 
meditar.
      - Prefiro esperar a prxima aula - disse eu, como se estivesse desapontada. Que posio do ngulo que nada!, pensei, sentindo-me subitamente alegre. Tentei 
deixar transparecer certa empatia: -Tomara que a Persephone melhore logo.
      - Ela deve voltar daqui a alguns dias.
      E agora? Talvez devesse ir tomar um drinque no Space Bar, com meus colegas de trabalho. A oferta da vodca com chocolate era tentadora A idia de socializar 
um pouco com o Paquera me atraa, mas eu ia ter que agentar as incontveis piadinhas sobre ioga no s dele, como dos outros rapazes.  possvel que o Paquera tentasse 
me embebedar e talvez - talvez - eu tentasse seduzi-lo. Melhor no enveredar por a. A Targa incentivava encontros que fortalecessem o bom relacionamento da equipe, 
mas, s vezes, eles envolviam bebidas alcolicas e acabavam em constrangimentos, demisses e processos de assdio sexual. Eu teria que enfrentar Paquera no escritrio, 
no dia seguinte. Alm do mais, j tinha um namorado maravilhoso.
      O apartamento dele ficava ali perto. Poderia pegar o metr e fazer uma surpresa agradvel para ele. Avaliando as possibilidades, optei pelo calor dos braos 
do Marcus. Muito mais sensato. A idia de v-lo me encheu de nimo e decidi ir mesmo at l.
      
      
      
      
      
   Captulo Quatro
   
   
   
   

 A
 linda cobertura do Marcus ficava num edifcio em estilo georgiano, num bairro badalado de Londres. Ele a comprara no ano anterior. Na poca, fiquei meio desapontada, 
pois esperava que, aps sua sada do apartamento que compartilhava com trs rapazes, iria me chamar para morar junto, mas ele disse que no se sentia pronto para 
isso. No entanto, deu-me as chaves, uma demonstrao importante de confiana em qualquer relacionamento. Alm disso, assegurou-me que aquele apartamento era um bom 
investimento para o nosso futuro. Quando ns finalmente morarmos juntos -  o que vai acontecer, mais cedo ou mais tarde -, o Marcus j ter feito um bom p-de-meia, 
que poderemos usar como entrada para a compra de nossa casa. Como o marido da Chantal, ele ganhava muito bem no setor financeiro, sendo totalmente viciado em trabalho. 
Meu namorado se dedicava por completo ao emprego e a mim, claro.
      O Marcus  louro, bonito e charmoso; eu tinha muita sorte de ter um namorado como ele. s vezes, quando me sentia meio insegura, chegava a pensar que no 
estava  altura dele. Para quem cresceu sendo chamada de "bochechuda", parecia estranho ter um namorado assim. Quando ele entrava num lugar, atraa os olhares de 
toda a mulherada, s vezes at dos homens tambm. J minha aparncia era mais comum - nada mal, s que nunca seria descoberta na rua por algum caador de talentos 
da Agncia Storm em busca de uma modelo mais madura e cheinha.
      Conheci Marcus numa livraria, o que sempre me pareceu muito romntico. Eu estava comprando um novo exemplar de Orgulho e Preconceito, pois o meu caa aos pedaos, 
e ele adquiria Cidades Horrveis: os 50 Piores Lugares para se Viver no Reino Unido. Foi amor  primeira vista, pelo menos no meu caso. Marcus pediu meu nmero de 
telefone e, embora eu sonhasse todos os dias com a sua ligao, s me telefonou um ms depois. Mais tarde, ele me confessou que encontrou meu nmero enquanto examinava 
os contatos da agenda do celular e que j nem sabia de quem era. Acabou ligando por pura curiosidade; foi meu dia de sorte.
      Aps colocar a chave na fechadura, eu avisei, como de costume:
      - Oi, querido, cheguei! - Era uma brincadeira nossa. Senti de imediato o aroma delicioso de algum condimento. - Humm! - No tinha percebido como estava faminta. 
S havia comido uma coisa naquele dia: chocolate, chocolate e mais chocolate, o que no era nenhuma novidade. Quando entrei na sala, Marcus veio em minha direo, 
saindo da cozinha. Estava de avental e segurava uma colher de pau.
      - O que est fazendo aqui?
      - Cad o "Oi, querida, eu te amo"? - perguntei, jogando a bolsa de ginstica no cho e indo beij-lo. - Que cheiro delicioso! - Circundei sua cintura e abracei-o 
com mais fora. - Estou muito impressionada. Deveria fazer isso mais vezes. O que est preparando?
      - Nada demais - respondeu, distraidamente.
      - Humm! - Passei o dedo na colher de pau, pegando um pouco do molho delicioso e lambendo o dedo para prov-lo. - Tem suficiente para duas pessoas?
      -Tem, mas s para duas mesmo.
      - Ah, que bom!
      Com a mo livre, ele tirou meus braos de sua cintura.
      - Na verdade, estou esperando algum. - E no voc, dizia, o tom de voz.
      - Ah, ? -Tentando esconder a decepo, segui-o, enquanto ele voltava para a cozinha. A decorao ali era fantstica, com vidro fosco e cromo, os mesmos materiais 
que deveriam ter sido usados na minha academia. Era sofisticada demais para Marcus, j que ele sempre comprava alimentos congelados e pedia comida para viagem. Havia 
um monte de guarda-louas vazios, alm de vrios eletrodomsticos intocados. Bom saber que ele estava descobrindo os prazeres da culinria. Enquanto meu namorado 
mexia a panela, abri a geladeira. - Quem est vindo?
      - Um velho amigo de infncia - respondeu.
      - Humm! Meu doce favorito! - Ali estavam duas taas de musse de chocolate, muito tentadoras. - Foi voc que fez?
      - Bom...
      - Um homem de talentos ocultos - brinquei. -Tem alguma sobrando?
      - Infelizmente, no.
      Tambm vi champanhe na geladeira, de muito boa qualidade.
      - Algum especial?
      - No - respondeu, meneando a cabea com veemncia. - S um colega. Voc no conhece. Pensei que tinha aula de ioga hoje.
      - Foi cancelada - expliquei, notando que a garrafa de vinho tinto sobre o balco j estava pela metade. - A professora machucou as costas.
      - No  uma boa propaganda para a ioga.
      - Foi exatamente o que pensei. - As vezes ns dois nos conectvamos de tal forma que podamos at ler os pensamentos um do outro.
      - No quis fazer outra aula?
      - Estava muito cansada. Alm disso, queria ver voc. - Apoiei a cabea em seu ombro, enquanto ele mexia o molho. Bati o olho no livro de receitas, aberto sobre 
o balco. - Uau! Frango marroquino com azeitonas! E musse de chocolate de sobremesa? Est caprichando, hein?
      - Achei que valia a pena o esforo. Gosto de cozinhar. - O livro de receitas era um que eu lhe dera de Natal dois anos atrs. Como se Tornar Cupido na Cozinha. 
Engraado ele no ter preparado nenhuma daquelas receitas para mim.
      - O que  isso? - Ergui a tampa de outra panela.
      - Pur de batata com aafro - respondeu, com alguma relutncia.
      - Humm! Um verdadeiro banquete. Espero que seu amigo no seja do tipo que s come hambrguer com batata frita.
      Afastou-se de mim, mais uma vez.
      - Vou tentar ligar para ele agora, para ver se consigo cancelar.
      - No cancele por minha causa! Eu gostaria de conhec-lo. Tem certeza de que no h comida suficiente? Acho que d. - E ela dividiria com Marcus a musse de 
chocolate.
      - Melhor deixar para outro dia. - Pegou o telefone e discou um nmero. - Ns vamos ficar falando dos velhos tempos, voc vai achar chato.
      A tigela que Marcus usara para fazer a musse estava jogada na pia. Peguei-a e passei o dedo pelo que sobrara, lambendo-o para provar. Estava timo. Se eu estivesse 
sozinha, lamberia todo o recipiente, mas no queria dar uma de desesperada.
      - Est dizendo que vou atrapalhar?
      - Escute... - comeou a dizer Marcus, sem terminar a frase.
      - Est bom. - Senti-me triste por no querer que eu ficasse. Ele tinha um jeito de ser peculiar. Quase nunca saamos com os amigos ou a famlia dele. Preferia 
ficar a ss comigo. E eu no deveria achar isso bom? S que s vezes pensava que ele no me achava boa o bastante para ele. Bobagem, eu sei. O prprio Marcus dizia 
o tempo todo que eu era uma boba. - S vou ficar para dizer oi e, depois, vou embora. Eu no deveria ter vindo sem avisar. Achei que voc estaria de bobeira.
      - Normalmente estou - admitiu. - Mas j faz tempo que marcamos esse encontro.
      -Voc no disse nada.
      - No achei que se interessaria. - O telefone continuava chamando. - Mensagem de voz - comentou, impaciente. - Oi,  o Marcus. Ligue para mim.  urgente.
      - No devia cancelar. Eu vou embora, se quiser. - Tentei no parecer complicada. - Posso ajudar em alguma coisa antes de ir? Quer que eu ponha a mesa?
      - J est pronta. Voc no precisa ficar.
      - Ah. - Nem tivera a chance de tomar uma taa de vinho. - Est bom. Vou pegar algumas roupas minhas no quarto, pois quero levar tudo para lavar l em casa, 
e, depois, vou embora.
      - timo. - Deu-me um beijinho na bochecha. - A gente se v amanh. De repente, podemos ir ver um filme.
      - Boa idia. - Embora estivessem passando filmes demais com Angelina Jolie no papel principal.
      Sa da cozinha e fui at o quarto. Puxa! Pelo visto, ele tinha feito uma faxina geral! Tudo estava arrumadrrimo! Nada de roupas espalhadas na cama, nada de 
roupas sujas jogadas nos cantos: cada coisa em seu lugar. E havia velas por toda parte, lindos candelabros de ao inoxidvel, como os das igrejas. Muito elegante. 
Separei minhas roupas das dele, no cesto.
      - O quarto est lindo - comentei, ao voltar. - Adorei aquelas velas. Por que resolveu compr-las?
      Marcus enrubesceu. Para um cara htero, adorava decorao, s no gostava de admitir. Seu apartamento era impecvel. Sofs de couro branco contrastando com 
almofadas vermelhas, sobre piso de madeira escura. Os objetos de arte combinavam uns com os outros e eram contemporneos.
      - Passei por uma loja outro dia e as vi na vitrine - explicou ele. - Achei que ficariam legais aqui.
      - E ficaram mesmo - concordei com ele, pondo a roupa suja na bolsa de ginstica, que ficou abarrotada. Pendurei-a no ombro. - Muito romnticas. - Fiz um beicinho, 
o mais sedutor possvel. - Mal posso esperar para us-las.
      Ento, reparei que a mesa de jantar fora posta para dois, de um jeito igualmente romntico. Ele colocara mais velas ali e um buqu de rosas vermelhas, provavelmente 
compradas noutra loja. No me lembrei de nenhuma ocasio em que ele tivesse preparado um jantar para mim com flores na mesa - nem mesmo no Dia dos Namorados. Alm 
das rosas, vi uma pequena caixa de chocolates e reconheci a embalagem.
      -Voc foi ao Paraso do Chocolate - constatei, surpresa.
      Ele nunca ia l, sabia que aquele era meu territrio, meu ponto de encontro com as amigas. De sbito, meu corao foi  boca. E, naquele momento, a campainha 
tocou. Marcus gelou, como eu.
      - Deve ser seu amigo - consegui dizer, embora mal pudesse respirar. Marcus ficou sem saber se abria a porta ou se continuava onde estava. A campainha tocou 
de novo. - Quer que eu v abrir?
      - No. No.
      Fiquei sem saber o que fazer, enquanto ele abria a porta lentamente. No me surpreendeu constatar que o velho colega de Marcus era, na verdade, uma morena 
pequena, lindssima. Assim que ela entrou, beijou-o na boca.
      - Oi, querido - disse.
      Marcus recuou ligeiramente e lanou um olhar preocupado em minha direo. A amiga virou-se tambm.
      - Ol - cumprimentei-a, estendendo a mo e esforando-me para sorrir. Ela apertou-a, com a mo delicada e gelada, to esqueltica quanto o resto do corpo. 
- Lucy - continuei alegremente -, namorada do Marcus.
      Foi a vez da moa recuar.
      - Esta  minha amiga Joanne - apresentou ele, tenso. Fitei-o.
      - Um velho amigo de escola, no foi o que me disse? - Olhei para Joanne. - Quando estudaram juntos? No ensino fundamental? No mdio? Ou ter sido na dura escola 
da vida?
      A velha amiga encarou Marcus.
      - No sei bem o que est acontecendo aqui, mas no tenho a menor inteno de participar. - Deu as costas, dirigindo-se  porta.
      - J - chamou ele, agarrando a manga de sua blusa. - No v. Percebi que estava na hora de dar o fora dali.
      - Puxa, Marcus - disse-lhe eu, com amargura. -Voc me respeita to pouco assim?
      - Posso explicar - implorou  moa, e percebi que continuava olhando para ela, no para mim.
      - Melhor voc ficar e ouvir o que ele tem a dizer - disse a ela. - Eu  que vou embora. - Como Marcus no fez nada para me impedir, peguei minha bolsa de novo 
e caminhei at a porta. Dirigi-me  sua nova paixo: - Foi um prazer conhec-la. Acho que vai adorar o jantar. O cheiro est timo, chegou at a disfarar o de um 
cara fedorento. Ah, os chocolates so timos. Espero que se engasguem com eles.
      Fiz o possvel para manter a dignidade e sa de cabea erguida.
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Cinco
      
      
      
      
      
      
      
 M
eu apartamento no era to charmoso quanto o do Marcus, mas, bem ou mal, era meu lar. Morava em Camden, num cubculo que ficava em cima de um salo de beleza, outrora 
administrado por minha recm-partida me, quando ela era cabeleireira. No disse "recm-partida" porque ela morreu, mas porque se mudou para a Espanha. Depois de 
ter vivido anos separada do meu pai volvel, casou-se com um sujeito mais velho e rico, e parou de trabalhar. Ficava de pernas para o ar o tempo todo, em sua maravilhosa 
vila na Pennsula Ibrica. Agora, pagava para que outras pessoas lhe fizessem penteados. Para ser sincera, eu a vi to pouco nos ltimos tempos que no faria diferena 
se tivesse batido as botas. Ela ainda era dona daquele imvel em Camden, ento eu continuava a morar ali, porque me cobrava um aluguel barato e no se preocupava 
quando me esquecia, sem querer, de pag-lo. Em compensao, eu no punha o lugar abaixo, nem deixava o banheiro inundar, como a maioria dos inquilinos costumava 
fazer.
      O salo passara a ser administrado por um cara muito legal, chamado Darren. Era ele que cortava o meu cabelo e fazia escova, quando eu precisava, sem me cobrar 
nada, j que eu ficava de olho no salo quando estava fechado. Se me mudasse, ainda por cima teria que pagar o cabeleireiro. O corte que o Darren fazia em mim era 
um daqueles modernos e repicados, muito apreciados pelas apresentadoras infantis da BBC. Eu achava que me fazia parecer mais jovem e travessa. Ou talvez s realasse 
minhas bochechas rechonchudas. Eu deveria apresentar Darren a Clive e Tristan um dia. Os dois faziam chocolates maravilhosos, mas bem que podiam modernizar os cortes 
de cabelo. O estilo que usavam requeria gel demais e suas luzes louras eram medonhas. Acho que ambos adorariam Darren. Ele era magrrimo, o infeliz, devia pesar 
uns cinqenta quilos e tinha quadris iguais aos de uma garota de doze anos. Clive e Tristan o fariam engordar num piscar de olhos.
      Voltando  minha famlia. Meu pai, por sua vez, casou-se com uma mulher muito mais jovem, que, apesar de tambm ser cabeleireira, no conseguiu dar um jeito 
na careca mal disfarada dele. Porm, o lado positivo da relao dos dois no tinha a ver com as habilidades dela no salo de beleza, mas sim com o fato de o papai 
morar na Costa Sul; assim, eu o via ainda menos que mame.
      Abri a porta do apartamento, joguei a bolsa de ginstica no cho e fui correndo para a geladeira, sem nem ao menos acender a luz da cozinha. Sentada no cho 
gelado, com a porta do refrigerador aberta, reencenei 9 1/2 Semanas de Amor, sozinha. O sorvete sabor Phish Food, da marca Ben & Jerry, foi o primeiro a ser devorado. 
Nem usei colher, simplesmente tomei-o com a mo. No metr, a caminho de casa, pude conter o choro, mas, naquele momento, grossas lgrimas rolavam pelas mas do 
meu rosto, salgando os pedaos de chocolate em forma de peixinhos e o marshmallow do sorvete. Quando ele acabou, peguei os tabletes de chocolate com amendoim, Snickers, 
e devorei trs praticamente sem mastigar. Depois, o chocolate com recheio de coco, Bounty Bar. s vezes, eu me perguntava por que no colocavam em cada uma das embalagens 
individuais um chocolate amargo e outro ao leite, evitando assim que tivssemos que ficar escolhendo, entretanto, naquela noite, nem prestei ateno nas cores ao 
met-los na boca. Havia tambm uma caixa de chocolates com especificao de origem do Paraso do Chocolate. Clive teria um ataque se me visse comendo seus quitutes 
gelados, e no em temperatura ambiente. Apesar da minha dor, eu me dei conta de que seria um verdadeiro desperdcio consumi-los naquele momento. Optei por uma barra 
de chocolate ao leite da Cadbury, trs tabletes de Alpini, da Thornton, e uma caixa de chocolates Celebrations, de vrios sabores, da Mars, que mal pude esperar 
para abrir.
      Enquanto comia, nem pensava no Marcus e no desprezo com que me tratara, mais uma vez. Naquele momento, eu s estava interessada em mim e no chocolate reconfortante. 
Um bombom atrs do outro, quase sem parar: de laranja, coco, caramelo. Mal sentia seus sabores. Mas, quando, por fim, parei de me empanturrar, comecei a passar mal. 
Dor de estmago. Enjo. Fui ao banheiro, enfiei o dedo na garganta e vomitei tudo. Ento, devidamente expurgada, tirei a roupa e deitei na cama, de barriga para 
cima,  espera do amanhecer.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Seis
   
   
   
   
 N
a manh seguinte, a face refletida no espelho do banheiro estava mais branca que a neve e cheia de olheiras. Apoiei-me na borda da pia e inclinei-me profundamente, 
com nsia de vmito, furiosa comigo mesma. Aquela no era a primeira vez que Marcus me tratava mal, mas nunca antes eu tivera que enfrentar sua infidelidade cara 
a cara.
      Dediquei cinco anos de minha vida a Marcus Canning. Cinco dos meus melhores anos. E me sentia uma perfeita idiota por t-los desperdiado com ele. Nunca terminava 
o namoro porque ele mesmo dizia que eu era a nica sem a qual ele no podia viver. Quer dizer ento que, vez por outra, quando conhecia uma jovem legal - algum 
magra e bonita como J -, num bar ou sabe-se l onde, resolvia checar se eu era mesmo a nica sem a qual no podia viver, ou se havia se enganado. Da, ele mergulhava 
de cabea na aventura. At chegar  concluso de que podia viver sem ela, mas no sem mim. Ento, voltava. Para isso, tinha que implorar vrias vezes e, no fim das 
contas, eu acabava cedendo e o aceitava de volta. Era por isso que eu consumia em excesso o chocolate Madagascar, oriundo de uma nica plantao. Mas chegara a hora 
de dar um basta naquilo.' Daquela vez, terminaria tudo com ele.
      Depois de tomar banho, escovei os dentes, permitindo que o sabor mentolado tirasse o gosto amargo da minha boca. Caramba, por que no faziam pastas de dente 
de chocolate? Seria muito melhor. Por que no tnhamos inventores de pastas de dente para o pblico feminino? Eles as fariam nos deliciosos sabores de tiramisu e 
brownie de chocolate, no com o desagradvel gosto de menta. Eca! Vesti-me, colocando as roupas que eu jogara no cho do banheiro na noite anterior. No tomei caf-da-manh, 
j que a idia de abrir a geladeira de novo me deu ojeriza. Acenei com alegria forada ao passar por Darren, o cabeleireiro, que acabara de chegar ao salo. Mas, 
em vez de ir, pelo caminho de sempre, ao escritrio, peguei o metr rumo ao apartamento de Marcus.
      Respirei fundo, antes de entrar, mas no havia sinal dele e de sua amante, J. Tal como eu previra, ele j tinha sado para trabalhar. Viciado como era, gostava 
de chegar s 7h30. Odiava pensar na possibilidade de seus colegas chegarem mais cedo e levarem vantagem. Sua manh comeava s 6h30 em ponto, com uma corrida e um 
banho gelado, e acho que nem eu nem a nova amante faramos com que mudasse sua rotina.
      Havia sinais, entretanto, de que a noite fora divertida. J pode ter se achado no meio de um tringulo amoroso, mas, pelo visto, no se importou de ficar, 
quando julgou que um dos ngulos havia sido descartado. Resqucios do jantar continuavam na mesa: pratos sujos, guardanapos amarrotados e uma taa de champanhe com 
marca de batom. Na caixa de bombons do Paraso do Chocolate restava um chocolate - um verdadeiro sacrilgio para mim, que, ento, o comi, desfrutando da breve euforia 
que me fez sentir. Se deixaram chocolates ali, devia ser porque mal puderam esperar para ir para a cama. Duas almofadas vermelhas do sof estavam no cho, um descuido 
incomum no caso do Marcus. O fato de elas se encontrarem espalhadas no tapete branco e felpudo, de plo de carneiro, j era suspeito. Fui at o quarto e, claro, 
no estava to organizado quanto no dia anterior. Ambos os lados da cama haviam sido desarrumados, o que s podia significar uma coisa. De qualquer forma, se eu 
ainda precisasse de confirmao, havia uma garrafa de champanhe e duas taas ao lado da cama. Pelo visto, Marcus no dormira sozinho.
      Com passadas pesadas e o corao aflito, fui  cozinha. Outra viso devastadora. Marcus no havia arrumado nada. Os pratos estavam empilhados na pia e as sobras 
do frango marroquino com azeitonas e do pur de batata com aafro continuavam em suas respectivas panelas, no fogo. Virei o contedo de uma na outra, peguei uma 
colher e levei a mistura ao quarto. Abri o guarda-roupa, deparando-me com as camisas e os ternos perfeitamente organizados de Marcus. Equilibrando a panela no quadril, 
meti a colher e peguei uma poro caprichada. Abri o bolso do terno favorito dele, da Hugo Boss, e joguei tudo ali. Era preciso reconhecer que o pur estava muito 
bem-feito, leve e cremoso.
      Movendo-me diante do guarda-roupa, continuei a espalhar a comida gourmet nos ternos e, quando acabei, ainda havia sobras. Ao que tudo indicava, os pombinhos 
estavam sem apetite. Concentrei-me nos sapatos: prateleiras e mais prateleiras cheias deles, todos de marca, casuais de um lado, formais de outro. Ele tinha muito 
mais do que eu. De Ted Baker, Paul Smith, Prada, Miu Miu, Tod... Meti colheres cheias de comida em cada um deles, pressionando-as na rea dos dedos para causar mais 
impacto.
      Depois, levei a panela para a cozinha e deixei-a no lugar. Do jeito que estava me sentindo, Marcus teve sorte por eu no ter ateado fogo no apartamento. Em 
vez disso, abri o congelador. Meu namorado - na verdade ex - tinha um fraco por frutos do mar. (E por outras mulheres, claro!) Abri um saco de pitu congelado. Na 
sala, tirei as almofadas do sof e enfiei vrios ali dentro, em diversas partes. No quarto, ergui o colcho da bela cama com acabamento em couro e coloquei os pitus 
restantes ali, fazendo presso. Dali a alguns dias, produziriam um odor peculiar.
      E, ento, para fechar com chave de ouro, voltei  cozinha e peguei a garrafa de vinho tinto, que estava pela metade - aquela da qual nem pude sentir o cheiro 
-, e derramei-a no tapete branco e felpudo. Depois, joguei minha chave no meio da mancha. Em seguida, peguei meu batom, um bem vermelho, chamado Escarlate Ferino 
- um nome bastante apropriado, se querem saber -, e escrevi no sof de couro branco, com letra caprichada: MARCUS CANN1NG, VOC NO PASSA DE UM BABACA TRAIDOR.
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Sete
      
      
      
      
      
      
      
 E
, ento, liguei para vocs. - Meus lbios tiritavam, agora que havia colocado minhas amigas a par do mais novo captulo da novela que era minha desastrosa vida amorosa. 
Quando peguei a xcara de chocolate quente, minhas mos tambm tremiam. Segurei-a com fora at sentir o calor relaxar meus dedos.
      - Caramba! - exclamou Autumn, de olhos arregalados.
      -  assim que se faz! - incentivou Nadia. - Fez muito bem mesmo. O Marcus  um tremendo canalha!
      A vingana do pitu me pareceu um toque perfeito quando a realizei. Agora, j no tinha mais tanta certeza disso.
      - Acho que ele nunca vai me perdoar por isso - sussurrei.
      - E por que perder tempo pensando se Marcus vai perdo-la? - perguntou Chantal. - Foi aquele idiota que colocou voc naquela situao terrvel. Ele  que deveria 
tentar ser perdoado. Abra os olhos, Lucy. Pare de ser to subserviente.
      - E se ele mandar me prender por crime contra a propriedade?
      - No se atreveria a fazer isso - respondeu Nadia.
      Clive e Tristan haviam se sentado conosco, aproveitando para saborear o mil-folhas. No havia nada de que gostassem mais do que uma boa fofoca.
      - O que acham, rapazes?
      - Voc agiu certo - assegurou-me Clive, dando tapinhas em minha mo. - Conseguiu unir drama e indignao. Poderia at se tornar uma homossexual honorria.
      Clive e Tristan, os donos do Paraso do Chocolate, e, como tal, nossos fornecedores, protegiam suas melhores clientes como se pertencessem a eles. Com freqncia, 
ajudavam-nos a resolver nossos problemas. Entretanto, como eram mais afeminados que o comediante travesti Eddie Izzard, eu sabia que seus conselhos, s vezes, eram 
unilaterais. Alm disso, se resolvessem todos os nossos dilemas no quesito relaes, arruinariam os negcios! Seus lucros cairiam no mnimo 50 por cento se eu ficasse 
uma semana sem ir ali; entretanto, essa era uma possibilidade, de qualquer forma, bastante implausvel. Nunca conseguiria ficar uma semana sem ir at l pelo menos 
uma vez.
      Tristan, um ex-contador e choclatra convicto, era, supostamente, o empreendedor. Planejava abrir filiais do Paraso do Chocolate em todo o pas, competindo 
com a cadeia Starbucks. J Clive era o mestre chocolateiro. Comeara a carreira como chef confeiteiro num dos melhores hotis de Londres, dando vazo  sua eterna 
paixo por chocolate ao preparar magnficas sobremesas exticas. Quando ele e Tristan se conheceram, abandonaram seus trabalhos e abriram o Paraso do Chocolate. 
Clive agora se dedicava  criao dos mais deliciosos quitutes j conhecidos por um homem - ou melhor, por uma mulher. E, embora fossem gays superassumidos, sabiam 
muito bem como satisfazer as mulheres.
      - Voc ligou para o Paquera? - quis saber Chantal. - Se no foi trabalhar, ele deve estar querendo saber o que houve.
      - No - disse, fungando. - Nem me lembrei do escritrio.
      - Me d o seu telefone - ordenou ela. -Vou ligar e dizer que voc vai na hora do almoo. - E assim fez. Enquanto escutava Chantal dar uma explicao sincera 
e ambgua sobre minha ausncia, tentei afastar o pensamento de que aquela histria circularia pela Targa caso se tornasse conhecida, o que sempre acabava acontecendo.
      - Ele est preocupado com voc, o Sr. Aiden Holby - informou Chantal ao desligar. - Parece ser charmoso.
      Para Chantal, todos os homens que tinham menos de quarenta anos e respiravam eram charmosos. Mas, naquele caso especfico, tinha razo. Esperem um momento 
- como eu podia pensar assim, se ainda me sentia arrasada? Forcei-me a dizer, animada: - E  charmoso mesmo.
      -  isso a! - incentivou Chantal. - H vida aps o Marcus. Voc s tem que agentar as pontas. Clive, pode trazer mais chocolate?
      Autumn e eu tambm queramos mais.
      - E trufas - sugeriu ele, acariciando seu lindo cavanhaque. -  disso que precisamos. So ideais para crises. - E foi reabastecer nosso estoque.
      - Eu no quero - disse Nadia, levantando-se. - Tenho que pegar o Lewis na creche. De agora em diante, adeus liberdade. - Ergueu as mos, fazendo um gesto resignado.
      Como as demais no tinham nada a ver com crianas - exceto pela convivncia que haviam tido na escola, na infncia -, simplesmente assentiam nos momentos adequados, 
quando Nadia comeava a expor suas preocupaes a respeito da complicada tarefa de ser me. A mudana de alimentao do Lewis, de lquidos para slidos, fora um 
tpico bastante longo - embora, nesse caso, tenhamos ressaltado que o chocolate era um slido, e quem resistiria a ele? Depois, Lewis passou a comer, com satisfao, 
pizza, lingias e chocolate - bom menino!
      Nadia participava dos nossos encontros freqentes sempre que possvel, para evitar que a mente enferrujasse. Essas eram as palavras dela, no as nossas, apesar 
de concordarmos com nossa amiga. As vezes, ela mesma esquecia e, sem perceber, comeava a nos relatar como o filho gostava de explorar o contedo do nariz - um tpico 
de conversa que ns, rapidamente, mudvamos. Pouco a pouco, fomos desencorajando seus piores excessos e mantendo o assunto o mximo possvel no mundo dos adultos.
      Nadia tinha a mesma idade que eu, embora aparentasse ser bem mais velha. Suas responsabilidades se tornavam um fardo, em algumas ocasies. Tinha um lar, um 
marido e um filho adorveis, mas, para ser sincera - como ela era conosco -, havia momentos em que nossa amiga morria de tdio com a vida que levava.
      Uma de suas grandes dificuldades era ser asitica e o marido no. Fora deserdada pela famlia por ter evitado o casamento arranjado com Tariq, um primo de 
terceiro grau ou coisa assim. Fora banida da famlia enorme e acolhedora e nunca mais havia visto nenhum de seus parentes. O lado positivo daquela histria era que, 
desse modo, ela fora poupada das incontveis visitas de suas inmeras tias bem-intencionadas, com seus vasilhames cheios de bhaji de cebola; o lado negativo era 
que ela tinha que enfrentar tudo sozinha.
      Quando Nadia engravidou, achou que isso propiciaria, ao menos, uma aproximao com suas duas irms, com quem sempre mantivera fortes laos de amizade. Mas 
no foi o que ocorreu. Ento, ns, do Clube das Choclatras, acabamos nos tornando suas irms substitutas.
      Apesar de ter escapado de um casamento asitico tradicional, Nadia parecia estar sendo subjugada por um homem que regredira cinqenta anos. Aps o nascimento 
do beb, Toby exigira que ela no trabalhasse e, ento, Nadia ficara em casa com Lewis - um luxo a que eles no podiam se dar. Ele tinha uma empresa de servios 
hidrulicos e todas ns sabamos o quanto esse tipo de negcio podia ser lucrativo; no obstante, filhos custam to caro quanto chocolate gourmet. Nadia aceitou 
a imposio do marido, mas, para tanto, teve que abdicar da carreira de relaes-pblicas numa editora badalada, que ela adorava. Na minha opinio, ela devia ter 
algum ressentimento por causa disso. Para tentar consol-la, procurava convenc-la de que aquele emprego j estava "ultrapassado". Mas, no fundo, Nadia sabia que 
eu daria tudo para ter uma posio daquelas.
      Ela me deu um beijo no rosto e pegou o ltimo chocolate do meu prato.
      -Talvez consiga me encontrar com vocs no final da semana.
      - Obrigada por ter vindo. - Eu realmente me sentia agradecida, j que sabia como era difcil para ela arrumar tempo para si.
      Como Autumn tinha um horrio maluco, mas flexvel, costumava ir aos encontros, chegando a ficar cerca de uma hora, quando necessrio. Tinha um emprego interessante; 
trabalhava num centro de reabilitao de drogados - sei que deve haver um termo politicamente correto. O nome do programa era MANDA VER!, ou FIQUE FRIO!, ou DANE-SE!, 
algo nessa linha, no me lembro bem. Ela dava aulas de arte, especificamente de trabalho com vitrais, que, com certeza, devia ser muito til para os que estavam 
tentando largar a herona. Eu no deveria ser to irnica, j que ela se dedicava de corpo e alma aos seus protegidos e realmente se importava com eles - talvez 
at demais. O nome Autumn, de alguma forma, deve ter ativado algum gene de conscincia hiperativo que costumava faltar nas classes altas. Todas ns a adorvamos, 
apesar de suas excentricidades, porque nosso vcio em comum nos unia.
      Ela era uma inglesa tpica, muito branca e atraente, alm de ser amvel e simptica. Seu nico defeito aparente era adorar tecidos de algodo grosseiros. Eu 
descreveria o que estava vestindo, no fosse essa idia to penosa para mim. Era abominvel, meio hippie, sem p nem cabea. Uma saia de chiffon esvoaante com jaqueta 
de brim e... um tecido de algodo grosseiro. S vou dizer isso. Se, por um lado, o nosso gosto no que dizia respeito ao chocolate era igual, por outro, no que se 
referia  moda, era totalmente diferente. Eu, na condio de secretria-aspirante-a-executiva, usava roupas elegantes, terninhos e vestidos bem cortados. O fato 
de comprar na varejista Primark era irrelevante. Pelo menos, no chegava nem perto das roupas de caridade usadas por minha amiga. Entre ns, Autumn tambm era a 
que mais tinha princpios. Reciclava tudo (alm das roupas) e, embora pudesse comprar um carro, preferia andar de bicicleta a dirigir. Tambm preferia botas de militar 
a sapatos Jimmy Choo, que ela tambm poderia comprar, se quisesse. Dava para notar que ela no regulava muito bem. Eu vivia tentando convenc-la a comprar sapatos 
Jimmy Choo, para ento do-los aos menos favorecidos - como eu, por exemplo - aps us-los algumas vezes. Minha amiga tambm usava detergente biodegradvel e alvejante 
menos agressivo ao meio ambiente. Chegou at a deixar de usar cremes hidratantes, optando por lavar a face com a prpria urina. Por sorte, esse ltimo experimento 
no durou muito, j que lhe dera um odor peculiar - embora ela negasse. Algum dia, todos ns iramos feder a xixi, mas, a meu ver, no havia motivo algum para acelerar 
o processo.
      Apesar de Autumn ser jovem - s tinha vinte e oito anos -, era muito madura emocionalmente. Ao que tudo indicava, levou uma vida protegida, tendo sido educada 
num internato de classe alta e, depois, numa boa universidade. Vinha de uma famlia abastada, ou, em outras palavras, cheia da grana. Mais aristocrtica, impossvel: 
ela era o nmero noventa e sete, ou algo assim, na linha de sucesso ao trono. Tenho certeza de que sua vida teria seguido o rumo designado se o nome dela fosse 
Fenella, Genevieve ou Eugenie.
      Autumn estava sempre sem namorado, por um lado, por viver ocupada demais e no ter tempo de conhecer homens, e, por outro, porque ningum devia querer sair 
com ela vestida daquele jeito. Alm disso, gostava de debater longamente o mrito das turbinas elicas como fonte de energia sustentvel, mas a maior parte dos homens 
comuns no gostava de falar disso. Seu nico conforto era o chocolate e, por isso, e muitas outras coisas, eu a admirava.
      A rigor, eu trabalhava das nove s cinco, mas, como relevava de maneira inconseqente os termos do meu contrato de trabalho, sumia de vista de vez em quando. 
Como temporria, uma categoria, ao que tudo indicava, pouco fidedigna, quem iria me mandar embora? Paquera, pelo visto, concordava e me dava bastante liberdade no 
quesito tica de trabalho.
      Chantal era a mais sortuda de ns, pois trabalhava por conta prpria, embora no necessitasse, uma vez que era riqussima e, se quisesse, no precisaria levantar 
um dedo sequer. Ento, como eu, desdenhava os expedientes normais de trabalho. A nica diferena era que ela podia se dar a esse luxo; j eu vivia equivocadamente 
com a fantasia de que no precisava trabalhar. O marido de Chantal, Ted, era de uma famlia tradicionalmente abastada. Os dois viviam numa manso coberta de glicnias, 
prximo  antiga casa de Mick Jagger; de vez em quando, Chantal via a ex-esposa dele, Jerry, na floricultura local. Tinham um barco, que ficava ancorado no rio Tmisa 
e nunca era usado, uma vila no Sul da Frana, que permanecia vazia durante a maior parte do ano, e um retiro de fim de semana na Cornualha, que visitavam ocasionalmente. 
Era um estilo glamouroso ou o qu? Para completar, o gato do Ted no lembrava nem de longe os usuais prodgios sem queixo que normalmente agraciavam os escales 
mais altos da sociedade inglesa. (Falo como se tivesse muita experincia nessa rea, mas no tenho.)
      Chantal trabalhava como jornalista freelancer, com freqncia para uma revista norte-americana chamada Style USA, que mostrava as residncias dos nativos daquele 
pas em cidades diferentes, em todas as partes do mundo. Ela cobria a Inglaterra, o que a obrigava a viajar pela nao, com um fotgrafo a tiracolo, entrevistando 
pessoas dispostas a abrir as portas de suas casas e exp-las nas pginas brilhantes da revista. Morava ali havia mais de dez anos e j trocara o hbito de beber 
caf pelo de ch, tomando-o com leite, no com limo. Era uma pessoa que abandonara suas razes norte-americanas.
      Chocolate podia ser um afrodisaco conhecido, mas nem ele nem nada do que Chantal tentasse surtiam efeito nas partes baixas de Ted. Nem mesmo uma noite com 
uma pintura corporal de chocolate preparada carinhosamente por Clive dera certo. Parecia incrvel que uma esposa que no encontraria dificuldades em atuar num filme 
com Hugh Grant tivesse um marido totalmente desinteressado por ela. Tinha de implorar que ele transasse com ela. Sinto muito, sei que  meio indelicado, mas ela 
mesma nos contou isso num dos seus freqentes desabafos sobre a sua vida sexual inexistente. Ele jogava a culpa na presso do trabalho, no golfe, em tudo. Todas 
as desculpas dele foram minuciosamente avaliadas durante nossas sesses de anlise e chocolate - um fato que o faria relutar mais ainda em dormir com a esposa, se 
soubesse. Ento, em suma, o que eu queria dizer  que todas tnhamos nossos problemas.
      - Ligue para mim se precisar, Lucy - instruiu Nadia. - Estou falando srio! Erga esse rosto. Voc agiu certo com Marcus.
      Minha reao foi erguer o rosto de modo desafiante. Entretanto, sabia que no agira certo. Nenhuma delas precisava ficar sabendo da minha exagerada comilana 
a ss. Todas ns temos nossos segredos, no? Imagine a que ponto Marcus me fizera chegar. Eu vinha controlando bem minha compulso alimentar, mas bastou um transtorno 
emocional para minha auto-estima ir por gua abaixo e eu voltar ao desvario bulmico. Mais um legado por ter precisado aturar na escola o apelido de Bochechuda. 
Por que no fui Lucy Gostosona? Por que tive bochechonas, em vez de garotos implorando para me ver peladona?
      Por falar em peladona, achei que Marcus ligaria para mim de manh, para dizer algo, qualquer coisa sobre o que acontecera, talvez at para se desculpar, mas 
no, no ligou. Quando voltasse ao apartamento naquela noite, tenho certeza de que ele tentaria falar comigo e de que no iria gostar nem um pouco do que diria depois 
de ver como me diverti com seu guarda-roupa, sof e tapete.
      Tristan e Clive trouxeram as trufas e ns as saboreamos. Autumn era, supostamente, uma vegetariana radical, mas sua alimentao parecia consistir apenas em 
chocolate. Ela tambm achava que as hortalias tinham sentimentos. Eu, por exemplo, no fazia idia do quo sensvel o espinafre podia ser e do quo compassivo era 
o repolho. Chantal costumava usar chocolate como substituto para sexo, mas, ultimamente, nem isso estava funcionando.
      - Como vo as coisas, Chantal? - perguntei, querendo desviar a ateno do meu prprio relacionamento fracassado.
      - Continuo aguardando uma boa noite na cama - respondeu ela, jovialmente.
      - Ento, neca de pitibiriba?
      - Estamos to ocupados que sequer nos deitamos no mesmo horrio. Ento, fazer algo juntos, o que quer que seja, nem pensar. Passo trs noites fora por semana. 
Quando fico aqui, ele raramente chega antes da meia-noite e, a essa altura, j apaguei h muito tempo. Saio de casa antes das sete, quando meu querido marido ainda 
est sonhando. Mesmo que no tivssemos problemas, essa situao j seria complicada.
      - Chantal - disse Tristan. - Sou gay e, ainda assim, consideraria dormir com voc.
      -Voc  um amor. - Chantal deu-lhe um beijo no rosto. - At que a gente resolva isso, tenho que buscar outros meios de me satisfazer. - Ela piscou o olho para 
mim, mas, naquele meu estado de esprito, no sorri. Eu sabia que a situao crtica no casamento de minha amiga no era s culpa dela; porm, na minha opinio, 
no ajudava nada ela dormir com todos os caras que apareciam na sua frente.
      Talvez eu estivesse sofrendo demais por Marcus para sentir compaixo. - Por falar nisso - prosseguiu ela -, tem um fotgrafo lindrrimo esperando por mim, 
e no quero que ele desanime. Ento, vou nessa. Tem certeza de que est bem agora, Lucy? -Tenho. Srio.
      - Vou ligar para voc amanh. - Pegou a bolsa da Anya Hindmarch e foi embora.
      - Tenho que dar uma aula daqui a pouco - disse Autumn, olhando para o relgio. - Melhor ir andando. Lembre-se: h males que vm para o bem. O universo deve 
ter algo melhor esperando por voc.
      Gostava do fato de ela acreditar que o universo tinha tudo definido para ns e que o que acontecera no se limitava  incapacidade do meu namorado de ser fiel.
      - Um grande abrao! - exclamou, j me dando um. Suspirei e comi outra trufa. Um dia gostaria de sentir uma doura que no resultasse direto do consumo de chocolate.
      - Acho melhor ir trabalhar tambm. - O tom de voz traduziu meu estado de esprito nada animador. - Vou pagar a conta, Clive. - Achei que era minha vez, j 
que eu convidara todas.
      - Nem pensar, queridinha. J est traumatizada demais. Deixe essa crise por nossa conta, cortesia do tio Clive.
      - So mesmo uns anjos! - exclamei. - Se um de vocs se cansar de ser gay, sou uma pessoa fcil de amar!
      Clive me abraou e beijou.
      - Um dia voc vai encontrar um htero to sexy quanto eu. Algum que retribua seu amor.
      - Acho que este dia ainda est longe - disse, ressentida.


      
   
   
   
   
   
   
   
   
   
   Captulo Oito
      
      
      
      
      
      
      
 N
adia chegou  concluso de que precisava pintar a porta de entrada. A casa estava se deteriorando cada vez mais e, apesar de Toby, seu marido, ter prometido fazer 
isso, no dava o menor sinal de que pegaria um pincel. Na minha opinio, a porta descascada se harmonizava perfeitamente com o resto da rua. Tratava-se de uma rea 
de Londres que continuava  espera de um desenvolvimento acelerado. Os corretores viviam prometendo tal crescimento, mas a maioria das propriedades continuava decadente, 
ignorada por restauradores e jovens profissionais. Bares e cafeterias modernas abriram - fazendo crer que a revitalizao da rea havia comeado -, mas fecharam 
em questo de meses, devido  falta de clientes. Foi justamente por causa dessa situao, no entanto, que Nadia e Toby puderam se instalar ali, em vez de irem a 
Northampton e Peterborough, tal como a maior parte de seus amigos. Eles se dirigiam cada vez mais rumo  Estrada MI em busca de casas mais baratas, melhores colgios 
e menos poluio. Quando Nadia via o lixo nas caladas e as pichaes nos muros, s vezes tinha dificuldade de se lembrar por que queriam viver ali. Toby dizia que 
era melhor para os negcios, mas ela duvidava disso. No havia escassez de encanadores em todas s partes hoje em dia? At os amveis moradores de Northampton deviam 
ter goteiras nas casas, como os demais mortais.
      Nadia pegara Lewis na creche e, a partir dali, teria pela frente uma tarde de tarefas domsticas. Uma pequena montanha de roupas para passar a aguardava. Tambm 
precisava fazer compras, j que no havia comida para o resto da semana. Ao se aproximar de casa, notou que a van de Toby estava estacionada ao lado de fora; ficou 
triste. A tarde apenas comeava e ele devia estar trabalhando. A presena dele ali, naquele horrio, s podia significar uma coisa.
      Abrindo a porta da frente, ela o chamou, tentando parecer animada:
      - Sou eu, Toby! -Tirando o casaco de Lewis, disse: -Venha, fofo. Vamos cumprimentar o papai.
      Lewis subiu as escadas correndo, na sua frente, enquanto ela tirava o casaco. Sentia-se desleixada em suas roupas gastas. Fazia muito tempo que no usava seus 
costumeiros conjuntinhos chiques de executiva. Agora, seu senso de moda se restringia a um estilo montono e peas com etiquetas "fcil de lavar" e "no amassa" 
eram as suas preferidas. Estilo vinha em segundo lugar. Olhando-se no espelho, prometeu a si mesma dar um jeito nos cabelos. Sua cabeleira de tom castanho perdera 
todo o brilho, talvez pelo uso de produtos mais baratos, daquelas marcas prprias de supermercados, e por estar a maior parte do tempo presa, num rabo-de-cavalo, 
para que ela no tivesse muito trabalho. Chegava  altura dos ombros, quando solta, e precisava de um corte com urgncia. Talvez devesse cortar o cabelo bem curtinho, 
para vender os fios aos que faziam apliques - mas quem pagaria por eles naquelas condies? No era apenas a porta de entrada que precisava ser renovada.
      Tentando subir as escadas com suavidade, foi atrs de Lewis. Como previra, ao chegar com o filho ao minsculo quarto de hspedes que servia de escritrio, 
Toby estava sentado ao computador, com olhar culpado. J Nadia se sentia culpada por causa do prato de biscoitos de chocolate ao lado do computador. Ela gastara 
- desperdiara - algumas libras de sua verba cada vez mais escassa com biscoitos, tentando convencer-se de que eram para Lewis, quando, na verdade, sabia muito bem 
que eram para si prpria. J Toby no pensava assim. Outra coisa lhe dava sentimento de culpa.
      - Resolvi passar aqui para adiantar umas faturas, enquanto espero a prxima visita - explicou ele. Nadia gostaria muito de acreditar nele. -Venha dar um beijo 
no papai - pediu, e Lewis atirou-se em seus braos. O filho certamente no estava desapontado por ver o pai em casa naquele horrio.
      Nadia tentou espiar por sobre o ombro do marido, para ver no monitor se, de fato, havia faturas na tela, mas ele clicara o mouse e s se via o protetor de 
tela. S Deus sabe como ele precisava enviar algumas faturas! As contas estavam se acumulando e no havia dinheiro suficiente no banco para pag-las.
      - Achei que tinha um monte de trabalho esta semana - disse-lhe ela, usando as palavras dele.
      - Deixei o Paul encarregado de tudo por um tempo. Ele sabe se virar.
      Ela suspirou.
      - Quer almoar com a gente?
      - Um sanduche cairia bem.
      - Sanduche  tudo o que a gente tem, mesmo - disse ela, com mais rispidez do que gostaria. Ele a fitou. - Preciso de dinheiro, Toby. O armrio da cozinha 
est totalmente vazio. Tenho que ir ao supermercado hoje.
      O marido passou as mos pelos cabelos.
      - Voc est gastando muito, querida. O que faz com todo o dinheiro que eu dou?
      - Voc no me deu nada para as despesas da casa na semana passada - lembrou. - Tenho cinco libras na bolsa, nem mais um tosto. - Nadia se sentira mal no Paraso 
do Chocolate de manh, pois sabia que no tinha dinheiro para pagar sua parte da conta. No fundo, tinha conscincia de que no devia se encontrar com tanta freqncia 
com as amigas, mas aquela chocolataria havia se tornado seu santurio, seu nico refgio num mundo cada vez mais louco. S ali podia compartilhar seus problemas; 
ainda assim, as outras no sabiam nem da metade. Claro, tinham conhecimento de que sua vida no era um mar de rosas, mas no faziam a menor idia de toda a histria. 
Nenhuma delas se importava de pagar sua parte da conta, at mesmo nas raras ocasies em que ela tinha algum dinheiro sobrando.
      - Estou meio apertado esta semana, amor. Use o carto.
      Ela tinha um monte de cartes de crdito, mas j usara o limite de todos.
      - No posso continuar a fazer isso, Toby. No estamos conseguindo pagar as contas. Temos que cobrar essas faturas o mais rpido possvel.
      -  o que estou fazendo - retrucou, com brusquido. - J disse que  o que estou fazendo.
      - Lewis, v brincar um pouquinho com Bob, o construtor. Preciso conversar com o papai.
      O menino desceu do colo do pai e foi at o quarto, em busca de seu brinquedo preferido.
      Nadia ajoelhou-se ao lado do marido, apoiando a mo em sua coxa, acariciando-a distraidamente.
      - Estou com medo, Toby. A situao est fugindo do nosso controle. - Seu olhar se dirigiu ao monitor.
      - Sei lidar com isso - disse, tenso.
      - Mas eu no.
      At ele ir para a despedida de solteiro de seu melhor amigo, em Las Vegas, sua nica experincia com jogo fora a compra semanal de bilhetes de loteria, por 
uma libra. Quando o prmio se acumulava, s vezes, ele gastava cinco libras. Isso no fazia dele um jogador inveterado. Mas os cinco mil dlares que ganhara na viagem 
despertaram sua compulso latente. Toby julgou que era "dinheiro fcil". Desde ento, viciou-se nos sites de jogos on-line. Ao longo de trs anos, investira toda 
a sua renda e suas economias na tentativa de ganhar uma "bolada". A cada dado lanado, carta virada e giro das mquinas caa-nqueis, ficavam mais endividados.
      Nadia sempre imaginara que o tpico jogador compulsivo fosse um sujeito grandalho, com um charuto igualmente enorme, freqentador de cassinos europeus, que 
apostava o iate, a lambreta, o Rolex e a reputao na roleta. No imaginava que jogadores inveterados fossem homens de famlia caseiros - caras comuns com cabelos 
desalinhados e olhos vidrados, encanadores dedicados que passavam as tardes diante do computador, apostando sem titubear a sanidade, a felicidade e o casamento... 
para alimentar a compulso. Agora, Nadia tinha idia dessa realidade.
      - Quero que d um basta nisso, Toby. Tem que buscar ajuda. Ele agarrou os braos dela.
      - No preciso de ajuda, Nadia. Falta pouco para eu ganhar muita grana. - Com os dedos, indicou um centmetro. - E tudo vai ser seu. Um casaro, um carro. 
Roupas de grife. Frias incrveis. A gente vai poder levar o Lewis para a Disneylndia, todo ano, se quiser. - Contraiu o maxilar e fitou-a de modo sombrio. - Lembre-se 
de que voc no trabalha, Nadia.
      - Mas posso tentar conseguir um emprego de novo. Ajudaria a pagar algumas das nossas dvidas.
      - Quero que fique em casa com o Lewis. Sabe muito bem disso. Basta ler todas as histrias que saem nos jornais sobre crianas negligenciadas nas creches. Que 
ele passe as manhs l j  ruim o bastante.
      - Tenho certeza de que isso s acontece numas poucas instituies. Lewis adora a creche, so todos timos com ele.
      - No quero que estranhos cuidem dele.
      - Mas no temos dinheiro, Toby. No podemos continuar assim. Ele se levantou e a afastou.
      - E acha que no sei disso? Por que outro motivo eu estaria fazendo isso? - Deu uns tapinhas em cima do computador. - Por ns, para que a gente tenha uma vida 
melhor. No quero ser encanador o resto da vida, nem ficar preso a um telefone vinte e quatro horas, sete dias por semana. Quero viver. Com isso, temos alguma chance. 
Voc faz idia do quanto posso ganhar?
      - Mas acontece que voc no ganha.
      - No d para discutir isso com voc, Nadia. Parece que no entende! Ah, que droga] Vou trabalhar. - Com isso, retirou-se aborrecido, descendo as escadas com 
passadas pesadas e batendo a porta de entrada.
      Lewis foi ao escritrio, segurando Bob, o construtor.
      - O papai foi embora?
      Ela assentiu, sentando-se na cadeira do computador e chamando o filho.
      - Mas ele no se despediu de mim.
      - Seu pai est com a cabea cheia, filho - explicou-lhe, acariciando seus cabelos.
      O mais triste era que Nadia entendia a presso sofrida pelo marido. Ele resolvera ser o nico ganha-po, o que no facilitava em nada as coisas. Ela adoraria 
voltar a trabalhar para ajudar, mas a verdade era que, mesmo se conseguisse um emprego, arcar com os custos de uma creche em perodo integral consumiria todo o seu 
salrio e, dada a situao com sua famlia, no tinha como pedir que algum ficasse com seu filho. No s o custo da creche era exorbitante, como tambm o de tudo 
o mais. Os preos pareciam ter disparado. As famlias mais simples mal conseguiam manter um teto sobre a cabea. As roupas e os sapatos de Lewis custavam o mesmo 
que os dos adultos. At mesmo antes de o vcio de Toby se tornar incontrolvel, ele j tinha de dar um duro danado para sobreviver. Nadia sentia pena do marido, 
mas queria que ele se tratasse.
      Com o mouse movimentou o cursor na tela. Tal como imaginou, o site chamativo e reluzente de um cassino, o Palcio do Dinheiro, apareceu, cintilante diante 
de seus olhos. L estava o templo cultuado pelo marido, onde ele arruinava suas vidas sem arredar o p de casa. As luzes brilhavam, vultosas somas faiscavam na tela 
- dinheiro, riquezas incomparveis. Um chamariz irresistvel, que atraa pessoas com promessas de fortuna e vida fcil, o que nunca acontecia.
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Nove
   
   
   
   
 C
hantal entrou no carro do fotgrafo. Era um Mercedes preto, elegante e luxuoso, com trao nas quatro rodas. Ali dentro estava o que havia de mais novo no que dizia 
respeito a equipamentos fotogrficos. Ela j trabalhara com ele antes e sabia que era um profissional competente. Salvo engano, eles chegaram a flertar um pouco, 
na ocasio. Como fora uma sesso de fotos de apenas um dia, seria interessante checar se ele estava  altura do potencial que ela vira nele. Teriam um longo caminho 
pela frente, at chegar ao Lake District; levariam quatro, talvez cinco horas, se ele no ultrapassasse o limite de velocidade. Chantal torcia para que o fotgrafo 
gostasse de boas msicas e fosse bom de papo, pois, assim, a viagem seria mais agradvel. Ela s tivera de chegar na hora marcada e levar chocolate. Fora ao Paraso 
do Chocolate e comprara um pedao generoso de um confeito recheado com pedaos de gros de caf - uma das vrias especialidades de Clive. O aroma era delicioso e 
a cafena certamente ajudaria a mant-los acordados.
      Deveria ter ligado para Ted para avis-lo de que viajaria a trabalho e s voltaria no dia seguinte,  noite, mas estava brava com ele - para variar. Se o marido 
ficasse preocupado, melhor! Se ela no estivesse em casa, talvez sentisse falta dela. At parece! Ela tentava transar com o marido havia meses. Na noite anterior, 
ela se deitara nua e pressionara o corpo contra o dele, acariciando com as pontas dos dedos seu bumbum musculoso - e ele enrijecera, mas no da forma que ela esperava.
      "Me deixe em paz, Chantal", foi o que lhe disse, e ela teve que se esforar para no chorar. Sentiu-se desapontada, magoada e frustrada. Fazia catorze anos 
que estavam casados. Alguns deles felizes. Embora tivessem passado pela crise dos sete anos, Chantal no sabia se passariam pela segunda fase. Ainda desejava o marido, 
continuava ansiando que a amasse, mas ele, pelo visto, no sentia o mesmo. Se no conseguissem resolver aquela diferena essencial entre ambos, valeria a pena dar 
continuidade quele casamento sem amor? Bom, no era de todo sem amor, faltava apenas sexo. Um dia, os dois haviam sido grandes amigos. Gostavam das mesmas comidas, 
curtiam bons vinhos e champanhe, adoravam o mesmo tipo de msica, apreciavam peas teatrais, riam das mesmas piadas. Ted era bonito, inteligente, espirituoso e rico. 
Sem dvida alguma, um timo partido. Quando ela o conhecera na festa de uma amiga, em Hampton, sua vitalidade a deixara sem flego. E tambm sua virilidade. Dormira 
com ele na primeira noite. Transaram diversas vezes, at se saciarem, exaustos e apaixonados. O que acontecera desde ento? Por que o corpo da esposa j no o atraa? 
Por que se retraa quando ela o tocava?
      A maioria de seus amigos no fazia idia de que havia algo errado em sua relao. Para o mundo exterior, formavam o casal perfeito. No obstante, s vezes, 
a relao era um verdadeiro inferno. Chantal perdera a conta das vezes em que se deitara e ficara acordada, ardendo de desejo, ao lado de um homem fabuloso que, 
no entanto, no tinha a menor vontade de satisfaz-la. S as amigas do Clube das Choclatras conheciam a verdade. No fosse por elas, com certeza seu mundo teria 
desmoronado. As amigas ouviam as histrias sensacionais que ela contava, sobre seus casos, sem julg-la. Como no conheciam Ted, Chantal considerava que ele era 
uma parte de sua vida que podia
       manter a distncia, como se tivesse uma corda de salvamento. Se elas o conhecessem, tampouco entenderiam por que ele no era um garanho na cama.
      Chantal achava que o sexo era essencial para se realizar como mulher e esposa e se sentir amada e desejada. Ser que Ted a amava de fato, apesar de no querer 
relaes ntimas? Ela no sabia ao certo quando tudo comeara a deteriorar. Ao longo dos anos, desistira de muitas coisas para ficar com ele. Fora uma ambiciosa 
reprter de revistas. Se tivesse ficado nos Estados Unidos, a essa altura teria se tornado a "explosiva" Anna Wintour, ou equivalente, liderando uma das principais 
revistas de moda. Em vez disso, desistiu da carreira em prol da do marido. Ted, um ambicioso gnio das finanas, fora promovido a diretor de uma subsidiria do banco 
de investimentos Grenfell Martin. A desvantagem era que o posto ficava em Londres. Mas ela se despediu dos amigos, da famlia e da carreira brilhante e o acompanhou. 
Seu atual cargo na revista Style USA no era to dinmico quanto esperava, mas, com o declnio de sua vida sexual, encontrara ali uma srie de vantagens ao longo 
dos anos, uma compensao para a ausncia de desejo de Ted e o casamento fracassado.
      Aquela seria uma sesso de fotos de uma casa recm-reformada, situada s margens do lago Coniston. Os donos eram um casal que sara de Boston havia vinte anos 
para morar na Inglaterra: ele, um conhecido escritor de viagens, ela, uma exmia amazona. De acordo com Chantal, ambos se dedicaram  renovao da casa, para que 
voltasse a apresentar o esplendor georgiano tradicional. Seus colegas norte-americanos ficariam loucos por aquela construo. Podia at ver as pginas da revista, 
com cores suntuosas e iluminao suave. Escreveria o artigo rapidamente e, ento, teria tempo de sobra para outras distraes. A revista era generosa, tanto com 
os salrios quanto com a cobertura de despesas. Naquela noite, ela e o fotgrafo ficariam em um hotel elegante, com cama de quatro colunas, banheira de hidromassagem 
e champanhe Dom Prignon gelando no frigobar. Todo o necessrio para um encontro romntico. Chantal riu por dentro.
Abaixou o pra-sol do carro para conferir, no espelho, se seus cabelos escuros e curtos estavam no lugar. Ningum lhe dava seus trinta e nove anos. A maquiagem estava 
impecvel, bem como seu sorriso mais sedutor. Se o marido no a queria, havia homens que a desejavam.
O fotgrafo, Jeremy Wade, sentou-se, por fim, no banco do motorista, ao seu lado.
- Acho que est tudo pronto - disse ele.
      - timo! - exclamou ela, dando-lhe um largo sorriso. - Vamos conferir que prazeres o Lake District tem a oferecer.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Dez
      
      
      
      
      
      
 B
oa-noite, Autumn. - Da entrada da sala, Addison acenou-lhe, quando ela guardava os fragmentos de vitrais, encerrando o expediente. - Oh! - exclamou ela. - Boa-noite. 
Bom v-lo de novo. - Prendeu o cabelo atrs da orelha, procurando em vo deix-lo menos assanhado. Por que desejou, de uma hora para outra, estar com uma roupa mais 
atraente?
      Diretor de desenvolvimento empresarial, Addison Deacon comeara a freqentar o Instituto Stolford, onde ela trabalhava, para incentivar a incluso das jovens 
em empresas locais, objetivando, com isso, romper o ciclo criminoso em que a maior parte delas se metia. Embora enfrentasse uma batalha rdua, nunca deixava de ostentar 
na face negra e radiante o sorriso amplo, que deixava  mostra dentes branqussimos. Era alto, bem-apessoado e musculoso; ningum, muito menos ela, podia ignor-lo 
quando ele entrava num lugar. A cabea raspada e os culos de sol, usados o tempo todo, tornavam-no mais parecido com o tipo de homem com o qual os jovens teriam 
de lidar do que com algum disposto a ajud-los. Mas Autumn admirava o jeito afvel e descomplicado com o qual tratava os adolescentes problemticos.
      - Trabalhando at mais tarde, de novo?
      Autumn deu de ombros.
      - Sabe como ! - No queria contar a ele que no tinha motivo para ir para casa, pois se sentia mais feliz ali, entre os renegados pela sociedade, entre os 
jovens que se esforavam para aprender suas tcnicas artsticas, do que em seu lar, num confortvel apartamento.
      -Vai me deixar levar voc para jantar um dia desses?
      - Ahn... - balbuciou ela. - H...
      - Pense nisso com carinho - pediu-lhe, sorrindo. - No vou forar a barra. - Em seguida, olhou para o relgio. -Tenho que ir. Reunio sobre verbas com o conselho.
      Autumn conseguiu dizer:
      - Boa sorte!
      -Vou precisar. - Addison acenou-lhe de novo e foi embora.
      -Tchau - gritou ela, aps sua sada. Suspirou e voltou a se concentrar nos afazeres. - Sua idiota. Como podia ser to imbecil? - sussurrou para si mesma ao 
guardar os vidros nas caixas. Por que no disse, simplesmente, "Claro, seria timo sair para jantar"? Por que se deixava dominar pela timidez na presena dele? Era 
por isso que no tinha namorado; era por isso que continuaria sendo uma solteirona triste e abandonada, enquanto todo mundo se casava e tinha filhos; era por isso 
que sua nica companhia era uma maldita caixa de chocolates.
      Autumn olhou-se no espelho da parede. Seus alunos o haviam feito, enfeitando as bordas com amores-perfeitos e um gato ligeiramente estrbico. s vezes, a verdade 
era cruel.
      
      
      * * *
      
      
      
      
      Quando finalmente chegou ao edifcio em que morava aps um rduo dia de trabalho no centro de reabilitao, Autumn estava exausta. S pensava em tomar um banho 
quente na banheira, saborear seu chocolate amargo favorito e deixar a gua e o efeito do acar mitigarem suas preocupaes. No era difcil ensinar aos jovens ofcios 
bsicos, como tcnicas de mosaico e vitral, que faziam parte do programa MANDA VER! Eram sobretudo as moas que participavam das aulas, e quase todas aprendiam as 
tcnicas com rapidez, gratas por contar com aquelas poucas horas de normalidade, em que no tinham de pensar nos horrores de sua vida cotidiana. Mas, em algumas 
ocasies, dava d fitar seus semblantes endurecidos e transtornados - faces que mostravam como eram frgeis emocionalmente. Em seus corpos abundavam cortes, muitas 
vezes por auto-imposio, equimoses provocadas por brigas sob o efeito de narcticos e marcas de agulhas, caractersticas de seu vcio. E esses eram apenas os sinais 
visveis.
      Autumn se sentia arrasada ao ver a capacidade dos seres humanos de agir com crueldade entre si. A maioria dos jovens que iam ao instituto conseguira escapar 
de situaes domsticas complicadas, que os mantinham no vcio. Entretanto, Autumn sabia que algumas de suas alunas voltariam para os parceiros ou famlias de que 
haviam fugido to logo as feridas sanassem. As lembranas do motivo de sua escapada esmoreciam assim que o efeito dos narcticos passava. Autumn trabalhava naquele 
instituto havia quatro anos; nesse perodo, testemunhou o retorno das mesmas faces repetidas vezes. Parecia que, por mais que os jovens lutassem para deixar o vcio, 
sua vida no mudava. Para Autumn, lidar com essa realidade era a parte mais difcil. Considerava psicologicamente exaustivo observar os adolescentes de que ela aprendera 
a gostar e cuidara em situaes crticas serem atrados para o vcio como mariposas que rumam para a luz. Autumn sabia que Addison se sentia assim tambm.
      Fechou o cadeado da corrente da bicicleta, prendendo-a no gradil do prdio. Era meio incongruente deix-la ali, velha e arranhada, prximo aos Mercedes e Porsches, 
o meio de transporte mais comum naquela rea. Autumn subiu as escadas. Quando chegou ao seu andar, deparou-se com o irmo sentado ao lado de fora, com duas malas 
grandes de viagem.
      - Oi, mana.
      - Richard? O que est fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa?
      - Um mal-entendido - explicou o irmo, pesaroso. - Ser que posso ficar algum tempo aqui?
      - Aqui? - Abriu a porta, seguida por ele. - O que houve com o seu apartamento?
      - J era - informou, sem rodeios.
      A irm jogou a bolsa no sof e virou-se para ele.
      - J era? Como assim?
      Richard deixou as malas em um canto e sentou-se.
      - Eu devia uma grana para um sujeito e... bom digamos que ele recebeu o apartamento como sinal.
      - Seu ap deve valer quinhentas mil libras, Richard. E uma dvida e tanto! - Autumn estava chocada; j ele no demonstrava a menor preocupao com o ocorrido. 
- Oficialmente, nem  seu. - Assim como ela tambm no era a proprietria daquele apartamento. Os dois imveis haviam sido comprados pelos seus pais. De outro modo, 
como ela poderia viver prximo  Sloane Square, com seu salrio de professora de artes por meio perodo? Embora a riqueza dos pais a deixasse pouco  vontade, s 
vezes era bastante til.
      - Ento? Posso ficar? - pediu o irmo.
      No havia motivo para que ele no ficasse ali por algum tempo. Ela no tinha um namorado que se opusesse - infelizmente. Mal tivera condies de ir jantar 
com um cara legal quando surgira a oportunidade. Havia dois quartos no apartamento, embora pequenos. S precisaria mudar suas roupas de lugar para dar espao s 
do irmo. Pelo visto, ele no trouxera muita coisa; dava a impresso mesmo de ter fugido.
      - Andou aprontando de novo? - Autumn sabia que Richard se envolvera com drogas no passado. Duas internaes carssimas em uma clnica de reabilitao luxuosa 
deveriam t-lo curado da dependncia de narcticos; o lugar era totalmente diferente do instituto em que ela trabalhava. Richard no fazia idia da sorte que tinha. 
Naquela poca, tambm contrara dvidas com maus elementos, o que o deixou com olhos roxos e braos quebrados. Autumn se perguntou se o irmo voltara  ativa. Fumar 
maconha de vez em quando no lhe teria custado o apartamento. Gostaria de saber em que se metera daquela vez.
      - No - negou, massageando as tmporas. Desviou o olhar. - No aconteceu nada que eu no possa resolver. Mas no conte para os velhos que estou aqui.
      Isso no seria difcil. Os pais viviam to ocupados que ela e Richard raramente os viam. Trabalhando como advogados em tribunais bastante movimentados, no 
eram do tipo que apareciam sem avisar. Suas obrigaes limitavam-se ao contato nos aniversrios e no Natal, alm do pagamento das contas dos filhos nesse nterim. 
No que Autumn tivesse algo de que se queixar. Tanto ela quanto o irmo haviam tido uma educao privilegiada. Ela fora excelente estudante de viola e adestramento 
de cavalos. Richard jogara rgbi e plo. Anualmente, iam com os pais a regies exticas do mundo nas frias: Monte Cario, Montserrat, Mustique. Comparada s adolescentes 
desesperadas com as quais trabalhava, ela tinha muito que agradecer.
      Autumn e Richard haviam estudado no mesmo internato. Um lugar rigoroso e antiquado em que os alunos ainda usavam sobrecasacas. No entanto, os dois puderam 
contar um com o outro, e ela, dois anos mais velha, fizera o possvel para que aqueles anos transcorressem sem dificuldades para o irmo. Era ela que cuidava dele 
e, ao que tudo indicava, continuaria a faz-lo quando adulta. Richard sempre se metera em confuses, e Autumn sempre fora sensata. Mas, independentemente do que 
ele fizesse, continuava sendo seu irmo caula e ela o amava. Esperava manter essa proximidade com Richard, mas sabia que ele no lhe contava certos aspectos de 
sua vida. Conhecia pouqussimos amigos dele. O irmo desfilava o tempo todo com namoradas ricas, que ela tambm no conhecia bem. No que fossem relaes duradouras.
      - Abriria o jogo se estivesse acontecendo algo grave?
      - Claro que sim! Voc  minha irm querida.
      - E voc  meu irmo traquinas, que sempre me deixa preocupada! -Te adoro. Estou bem. Na boa. Est tudo legal. Se fosse verdade, por que estaria ali, sem teto? 
Autumn suspirou.
      Mais cedo ou mais tarde, acabaria descobrindo o que houvera. Quando ele estivesse pronto, contaria tudo.
      -Vou arrumar a outra cama para voc.
      - Juro que no vou encher teu saco, mana. Nem vai notar minha presena.
      - Est precisando de grana?
      - Bom... - Deu de ombros. - Uns trocados cairiam bem, se puder me emprestar.
      - Vou ver quanto tenho. - Autumn sempre tinha um dinheiro guardado para os tempos difceis. Olhou de soslaio o irmo, que lhe deu um de seus sorrisos charmosos 
e acanhados. Parecia que tempos difceis haviam chegado.
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Onze
      
      
      
      
      
  Q
uando finalmente fui para o escritrio, aps o almoo, Paquera saiu do seu setor para falar comigo. - Est tudo bem, gata? - At parece que se importa. - Suspirei. 
Ele esperou pacientemente, enquanto eu, aborrecida, tirava o casaco e abria e fechava as gavetas da minha mesa sem motivo algum. Nem mesmo a espiada no estoque de 
chocolate que eu tinha l dentro me animou. Paquera tambm deu uma olhadela.
      - Humm! - exclamou ele. - Double Decker! - Era um chocolate com avel, caf e flocos de arroz.
      - Nem vem! - avisei-o. - So meus e vou precisar de todos hoje.
      - Mas pode me dar um pedao - pediu. - No fundo, quer fazer isso.
      Com relutncia, dei-lhe um Double Decker.
      - Se eu ficar sem chocolate mais tarde e comear a agir meio esquisito, a culpa vai ser sua.
      Ele pegou o chocolate assim mesmo, abrindo-o de imediato. No tive outra escolha, seno unir-me a ele e abrir outro, para darmos a primeira mordida juntos.
      - Sinto muito pelo atraso - sussurrei. Enquanto mastigava, Paquera mostrou-se preocupado.
      - Problemas?
      - Com o meu namorado - expliquei. - Ontem tive uma experincia traumatizante com ele.
      - Humm. Pervertida?
      - No, pervertida, no. Terrvel. Pssima. - A cena horrorosa da nova paixo de Marcus entrando no apartamento dele com seu belo sorriso e seus seios rijos 
me veio  mente. Agh! Peguei os papis sobre a mesa com raiva. Tinha ficado meia hora trancada no banheiro do Paraso do Chocolate para dar um jeito na aparncia 
e disfarar os olhos inchados de tanto chorar, antes de enfrentar o mundo.
      - Quer me contar?
      - Na verdade, no. - Meneei a cabea. - Mas j posso adiantar que minha relao terminou de uma vez por todas.
      - Lamento ouvir isso - disse, dando um meio sorriso.
      - Por que est sorrindo?
      - Adoro quando voc fica brava. Suas bochechas ficam rosadas.
      - No ficam.
      - Lembra at aquela boneca, a Repolhinho.
      - Some daqui, Aiden. - Podia no ser o tratamento tpico dispensado a um chefe, mas eu no estava nem a. Tambm no era nada politicamente correto dizer  
sua assistente pessoal que ela se parecia com uma Repolhinho.
      -Veja o lado bom - prosseguiu ele. - Agora que est solteira, posso cantar voc.
      -Tente s para ver - disse, entre dentes. Ele soltou uma risada.
      - Nem todos os homens so babacas.
      - Ah, ?
      - Alguns de ns somos solidrios e carinhosos.
      - Sei. E a engenheira Carol Vorderman no sabe somar.
      - Precisa de algum que tome conta de voc.
      - No preciso de ningum. - Muito menos de um gerente de vendas sabicho e sedutor. - Posso muito bem me virar sozinha.
      Paquera meneou a cabea.
      - Ele  um idiota se terminou com voc.
      - No disse que ele tinha terminado comigo.
      - Acontece que, se voc tivesse terminado com ele, no estaria to arrasada. - Detesto quando um cara vem cheio de lgica idiota. Ento, olhei-o de cara feia, 
mas ele no titubeou: - Suponho que, em meio ao seu trauma, lembrou-se de que temos a reunio mensal de vendas, agora  tarde.
      - Ah, caramba! - Bem que eu podia ter tirado o dia de folga. Seria obrigada a passar a tarde inteira na reunio, fazendo anotaes que no conseguiria ler 
depois. Detestava quando tinha de trabalhar de verdade. Normalmente, tentava tornar o processo mais agradvel, comprando uma daquelas caixas grandes de biscoitos 
de chocolate da Marks & Spencer, que eu inclua na conta da empresa, mas, naquele dia, havia esquecido. Teria que enfrentar a reunio a seco, sem sequer umas migalhas 
que servissem de consolo. Droga!
      - Vamos comear daqui a uns cinco minutos - informou ele. - Os rapazes j esto na sala de conferncias.
      Fiz um muxoxo, em sinal de desaprovao. Estresse em casa e no trabalho. Queria morrer! Ou, pelo menos, ir para um spa. -Tem certeza de que conseguir participar?
      - Claro. Por que uma coisinha corriqueira como minha vida desabando influiria na reunio de vendas?
      Paquera abraou-me, diga-se de passagem, de uma forma por demais ntima para um chefe.
      - Ah, vamos! Ningum vai perceber que est de corao partido. Seu segredo ficar guardado a sete chaves comigo. - Dei-lhe um sorriso cansado. - Com essa tonelada 
de maquiagem que colocou, nem vo notar que chorou.
      Eu odiava os homens. Todos eles.









Captulo Doze




      
      
 C
om efeito, a equipe de vendas j estava aguardando na sala de conferncias quando chegamos. Ento, sentei-me depressa e tentei demonstrar eficincia. Meu Deus, eu 
deveria ganhar um Oscar por minhas atuaes naquela empresa. Os rapazes estavam sentados informalmente  mesa, com Aiden na extremidade, prximo a um cavalete com 
folhas brancas amassadas. Isso significava que seria uma reunio de apresentao; assim sendo, relaxei um pouco. No creio que teria agentado um encontro com debates 
sobre tticas, cumprimento de metas e socos na mesa. Se algum notou a ausncia dos biscoitos de chocolate, no chegou a se pronunciar.
      Mas, dali a pouco, um representante de vendas me veio com essa:
      - Cad os biscoitos? Eu o odiava.
      - No tem biscoito hoje, gente - interveio Aiden. - Cortaram. A Targa est pensando na silhueta de vocs, um exemplo que todos deveriam seguir.
      Ouviram-se expresses de desaprovao. Aiden era muito atencioso, s vezes. Meus ex-chefes certamente jogariam a culpa em mim. Fitei-o com satisfao, e ele 
retribuiu meu sorriso.
      Enquanto Paquera dava incio  reunio, contemplei a paisagem, observando os terraos de Londres, que iam at o centro financeiro, onde meu ex-namorado devia 
estar ocupado, concentrado no que fazia de melhor. J eram quase duas da tarde e Marcus ainda no havia entrado em contato comigo. Se eu tivesse partido o corao 
de algum daquele jeito, ao menos teria a considerao de ligar no dia seguinte para ver como a pessoa estava, ou para pedir desculpas pelo comportamento abominvel. 
Era mais uma prova de que ele no se importava nem um pouco comigo.
      Aiden Holby estava de p, gesticulando muito enquanto falava. Lembrei-me de que devia estar anotando tudo para enviar uma circular  equipe de vendas mais 
tarde. Ento, comecei a rabiscar freneticamente no bloco de anotaes, at meu chefe calar-se e sentar-se.
      Ele piscou para mim, sorrindo de forma encorajadora. Seus olhos eram realmente muito bonitos. Agora que estava solteira, teria que me familiarizar de novo 
com aquela histria de azarao. Cruzei as pernas e me concentrei em pensamentos sedutores. Bem que um flerte me ajudaria a esquecer o Marcus. De modo geral, no 
concordava com relacionamentos na empresa e nunca tinha me metido nessa, at porque detestava aquelas piranhas que transavam com os chefes e iam trabalhar cheias 
de animao. No era correto, era? Mas quem sabe eu no podia abrir uma exceo, s daquela vez?
      Um dos representantes estava de p, dando-nos detalhes a respeito de um novo software que fora lanado e coisa e tal. Esforcei-me para prestar ateno, mas 
no consegui me concentrar. O rapaz usava termos tcnicos e eu no fazia a menor idia do que ele dizia. Paquera fitou-me e sorriu. Ser que algum mais no escritrio 
havia notado a qumica que rolava entre ns dois? No que eu tenha encorajado meu chefe enquanto namorava com o Marcus. Sei o que  levar um chifre e nunca faria 
isso com ningum. Mas como estava solteira...
      Movimentei a perna de modo chamativo e umedeci, de leve, o
      E lbio inferior. Em minha boca, via-se um sorriso irnico. Paquera observou-me de novo. Ergueu a sobrancelha e dirigiu o olhar para minha perna. Eu usava 
um sapato de salto altssimo, e talvez ele tivesse um fetiche por ps, pois prestou especial ateno neles. Seu olhar tornou-se insolente. Sorri ainda mais. Ainda 
bem que estava de cala, pois tive a impresso de que o chefe me despia com os olhos, naquele momento. Tenho de admitir que senti um arrepio na espinha. Que tnico 
maravilhoso para meu corao partido! Virei o corpo na direo dele, imitando seus movimentos. No era assim que se demonstrava interesse por algum? No que fosse 
esse o caso. S queria me divertir, animando um pouco aquela reunio chata pra caramba.
      O representante continuava a discorrer sobre o assunto... Eu sabia que me arrependeria disso depois, mas inclinei-me na cadeira e passei as mos de leve por 
meu lindo corte de cabelo, ao mesmo tempo em que erguia ainda mais a perna. Foi quando percebi por que Paquera sorria, mas, ento, j era tarde demais. Eu havia 
colocado a cala em estado to catatnico pela manh, que no notei que a calcinha do dia anterior tinha ficado enrolada na perna direita. Ela passara pelo meu tornozelo, 
ficara pendurada no sapato e, como eu ainda estava levantando a perna, no houve tempo de peg-la. Com esse movimento, a calcinha lils, de lacinho e po, escapuliu 
pelo meu p e voou pela sala, levando o representante a interromper o discurso.
      Paquera deu um salto da cadeira e pegou-a antes que casse no cho.
      - Nada mal! - exclamou ele. Fez-se um silncio pesado. - Bom lance! - Cada miligrama de sangue do meu corpo foi parar no meu rosto. - Obrigado, Lucy. Seu entusiasmo 
 muito apreciado.
      Pensei que s se atiravam calcinhas em estrelas de rock de certa idade...
      Toda a equipe caiu na gargalhada e eu sabia que a melhor maneira de acabar com aquela histria seria cair na risada tambm, mas no consegui, j que estava 
prestes a chorar. Paquera piscou para mim de novo e guardou a calcinha no bolso do terno, dando um tapinha nele depois. Eu queria morrer. Se a equipe risse mais, 
eu, de fato, teria um troo.
      Depois disso, a reunio ficou tumultuada, j que ningum mais conseguiu se concentrar. Abaixei a cabea, envergonhada, fingindo escrever, para que meus cabelos 
cassem no rosto e escondessem minha humilhao. Passados quinze minutos, Aiden desistiu de tentar restabelecer a ordem.
      - Vamos encerrar a reunio agora - informou ele. - Vou passar o restante das informaes para a srta. Lacinho, quer dizer, srta. Lombard, que vai enviar tudo 
para vocs depois.
      Mais risinhos abafados. Meu apelido no escritrio certamente passaria a ser Lucy Lacinho ou Lucy Lastex - o que eu havia conseguido evitar desde o ensino fundamental. 
Tive vontade de dizer a eles que me chamassem, de uma vez, de Bochechuda. Aquele dia no poderia ter sido pior. Pensei em ir at o ltimo andar do prdio e me jogar.
      Enquanto eu fingia organizar minhas coisas, todos os demais foram saindo. Talvez eu pudesse passar o resto da tarde ali, se me esforasse. Talvez pudesse ficar 
ali at meu contrato com a Targa terminar. Talvez eu devesse pedir as contas, para nunca mais ter que encar-los. Arriscando-me a dar uma olhada de esguelha, vi 
que todos haviam se retirado, menos Paquera. Eu o ignorei e continuei a no fazer nada. Por fim, ele pigarreou.
      - Srta. Lombard. - Quando me obriguei a fit-lo, ele estava com a calcinha na mo. - Acho que isto lhe pertence. - Mostrou-a sem sequer tentar embol-la, de 
forma discreta; muito pelo contrrio, segurou-a pelas extremidades, agitando-a diante do prprio rosto, como se fosse um daqueles vus usados pelas mulheres rabes 
nos harns. Bateu as pestanas para mim. - Isso no significa que estamos noivos - brincou.
      - Estou usando calcinha - informei, secamente. Ele deu de ombros.
      - Que pena!
      Meu maxilar contraiu-se mais ainda.
      - Essa  a que eu usei ontem.
      - Sei. Poderia me explicar melhor, por favor?
      - No. Eu s queria que voc explicasse para a equipe o que realmente aconteceu.
      - Se ao menos eu soubesse! - exclamou, sorrindo. - Pode ficar tranqila, vamos falar do seu modelito com lacinho inmeras vezes daqui em diante.
      Enrubescendo, agarrei minha calcinha, tirando-a das mos dele. Estava quente por causa de seu toque.
      - Isso  o mais perto que voc chegar das minhas calcinhas. Aiden comeou a se retirar, com um meio sorriso.
      - Gata - disse, por sobre o ombro -, esses pos cor-de-rosa esto super na moda.














Captulo Treze





      
 J
 era possvel entrever o Hotel Keating House s margens do lago Coniston, circundado por uma floresta. A viagem fora um inferno, j que havia obras em vrios trechos 
e o "trfego estava pesado", tal como anunciado nos informativos de rdio. Assim sendo, Chantal e Jeremy chegaram muito mais tarde do que o previsto. O fotgrafo 
havia sido uma companhia agradvel, contara fofocas, entretendo-a com histrias sobre os servios que prestara para a revista e os jornalistas com quem trabalhara. 
No comera uma quantidade excessiva do chocolate, o que era uma boa qualidade em um homem. Chantal ficara sabendo que, embora no fosse casado, vivia com uma mulher 
mais jovem, que tinha um filho de um casamento anterior. Uma relao destinada ao fracasso, bvio. Ela chegou  concluso de que Jeremy Wade seria uma boa transa 
naquela noite. Boa mesmo.
      Passava das sete quando chegaram ao hotel e se registraram. Chantal no conseguiu convencer Jeremy a nadar um pouco na piscina, antes do jantar. Ele explicou 
que tinha de checar os e-mails; ela tambm tinha, mas podia fazer isso mais tarde. A medida que envelhecia, Chantal achava mais difcil manter a boa forma; era preciso 
malhar muito para compensar o consumo de chocolate. Os dois marcaram um encontro no bar s 20h30, para tomarem um drinque antes do jantar. Ento, ela fora nadar 
sozinha. Havia tempo de sobra para os dois se entenderem. Na verdade, tinham a noite inteira.
      A piscina estava tranqila. Alguns executivos barrigudos nadavam, ofegando pesadamente ao completar as voltas. Um casal jovem e risonho namorava na banheira 
de hidromassagem. Um sujeito lia, sozinho, um exemplar do Financial Times numa das espreguiadeiras, com uma toalha enrolada no pescoo. Bem-apessoado e musculoso, 
ergueu o olhar quando Chantal entrou, dando-lhe um sorriso apreciativo. Ela retribuiu e, em seguida, mergulhou de cabea, com habilidade. Aps doze voltas em estilo 
crawl, sabia que ele ainda a observava, pois sentiu seu olhar na pele nua. Se estranhos como aquele sujeito no desgrudavam os olhos dela, por que era to difcil 
para seu prprio marido apreciar sua sensualidade? Chantal afastou o pensamento, sacudindo as gotculas do corpo, e saiu da piscina. Enxugando-se, fitou de novo 
o sujeito da espreguiadeira.
      Ele abaixou o jornal.
      - Voc nada muito bem.
      - Nadava melhor antes - admitiu Chantal. Fizera parte da equipe de natao no ensino mdio. - Agora, nem tanto. No tenho mais tempo de praticar.
      - Achei que se saiu muito bem.
      - Obrigada.
      -Vai passar alguns dias aqui?
      - S hoje.
      - Negcios ou lazer?
      - Negcios - respondeu Chantal.
      - Eu tambm. Vai jantar sozinha? -Vim com um colega.
      - Que pena! - exclamou, sorrindo e dando de ombros.
      - , que pena! - concordou ela. Mas, na verdade, no era, considerando o que ela planejara para Jeremy Wade.
      
      
      quela altura, j se arrumara e estava pronta para o jantar. Colocara um vestido preto justo na bagagem. Era decotado na frente e atrs e tinha uma fenda na 
coxa. Meio bvio, mas ela s tinha uma noite, no podia perder tempo com uma seduo lenta. Era pegar ou largar. Chantal levara suas jias e colocara o brinco de 
diamantes de um quilate - presente de Natal de Ted. Na certa, ele mandara a assistente compr-lo. No devia ser ingrata, o marido era um homem ocupado, e ela adorara 
o presente. Usava tambm um colar de ouro com pendente de brilhantes e um Rolex de ouro. Ganhara tudo de Ted. Definitivamente, no podia reclamar do gosto ou da 
generosidade dele. O marido s regulava mesmo o prprio corpo.
      As nicas jias que no usara foram as alianas de noivado e casamento; nesta, fora incrustada uma pedra preciosa de tamanho considervel. Ela as havia deixado 
na penteadeira. Podia ser antiquada, mas no achava correto transar com elas no dedo. Concesso  moralidade ou no, era melhor do que nada. A colcha da cama j 
fora dobrada para a noite e um chocolate embrulhado com papel dourado fora deixado sobre o travesseiro. Abriu-o e saboreou-o. Sem graa, com gosto de menta, mas 
e da? Era chocolate e no iria desperdi-lo.
      Ela se olhou no espelho. Bonita e frgil, concluiu. Uma combinao fatal. Ainda assim, estava pronta para alguma ao; pegou a bolsa e desceu para jantar.
      
      
      * * * 
      
      Jeremy j estava no bar quando chegou.
      - Uau! - exclamou ele. -Voc est linda!
      - Obrigada. - Chantal sentou-se no banco ao seu lado.
      - Estou me sentindo um pouco informal.
      Ela observou a cala jeans e o suter de caxemira cinza. O aroma de sua loo de barba era penetrante, como limes recm-cortados. Ele havia mesmo caprichado!
      - Eu acho que est timo.
      - Tomei a liberdade - disse ele, oferecendo-lhe uma taa de champanhe. Ela gostava cada vez mais daquele homem.
      - Perfeito. - O barman serviu-lhe a bebida.
      - Um brinde a Style USA - props Jeremy. Chantal brindou com ele.
      - A ns - acrescentou ela.
      - S temos que ir at a casa amanh, s dez. Pensei que podamos relaxar um pouco.
      - Engraado - disse Chantal. -  exatamente o que eu tenho em mente.
      O jantar foi maravilhoso e a companhia no podia ter sido melhor. J tinham tomado caf e, embora ela quisesse levar Jeremy logo para a cama, reservou algum 
tempo para saborear todos os chocolates oferecidos na sobremesa. Alguns minutos a menos no fariam diferena. Aquela era a hora de degustar.
      -Vamos tomar a saideira no bar - sugeriu Jeremy.
      - Tem uma garrafa de champanhe gelando no meu quarto - disse Chantal. - Poderamos ir at l para ficar mais  vontade.
      Jeremy hesitou por alguns instantes, mas aceitou.
      - Est bem. Vamos.
      Ela saiu primeiro, seguida por ele. Os dois aguardaram o elevador, com timidez, na recepo. A msica "Copacabana", de Barry Manilow, tocava no elevador. Chantal 
pressionou o boto de seu andar; ento, pegando a mo de Jeremy, puxou-o em sua direo, sentindo seu calor atravs do vestido fino. O corao dele batia acelerado 
Ela inclinou a cabea e tentou beij-lo. Jeremy se afastou.
      - Sabe, no creio que eu possa fazer isso. Chantal sentiu uma onda de pnico. No podia ser! Ele soltou sua mo.
      - Estou envolvido com algum.
      - Eu tambm. Sou casada.
      - Ento, isso no est certo.
      - Ningum vai saber.
      - Eu vou - ressaltou Jeremy. - Lamento, Chantal. Voc  uma mulher muito atraente, mas... - Ele mordeu os lbios.
      O elevador parou e as portas abriram.
      - Bom, ento, boa-noite - despediu-se ela.
      - Se a situao fosse diferente, se eu no estivesse comprometido, no pensaria duas vezes.
      -Tudo bem - disse Chantal, com firmeza. Foi difcil esconder sua decepo. At aquele momento, a noite transcorrera de acordo com seus planos.
      - O jantar foi timo.
      - No precisvamos nos separar agora.
      - Boa-noite - disse Jeremy, dando-lhe um beijo no rosto.
      - Boa-noite.
      Ela saiu do elevador e ficou parada, triste, no corredor. Jeremy ia para o outro andar e as portas do elevador comearam a fechar. Ele lhe acenou brevemente, 
sem jeito.
      Chantal foi at o quarto e abriu a porta. Poderia checar os e-mails e dormir cedo. O laptop estava na mesinha de centro - lembrando-a de que desejara se concentrar 
em outra coisa. Tirou os brincos e a pulseira, colocando-os junto de suas alianas, na penteadeira. Em seguida, ao tirar o colar, massageou o pescoo, andando de 
um lado para outro. No conseguiria dormir, excitada daquele jeito. Pensar na noite com Jeremy a estimulara sexualmente e no se satisfaria sozinha. Para uma mulher 
de trinta e nove anos com a libido a toda, a masturbao era o passatempo mais degradante. Chantal sabia disso por experincia prpria. No o faria, de forma alguma. 
Queria transar. Sexo ardente e selvagem. Simples assim. Alm do mais, no fazia diferena com quem.
      Soltou um suspiro. Pelo visto, teria de colocar o plano B em ao.
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   
   Captulo Catorze
   
   
 O
       sujeito que Chantal vira na piscina estava sentado no canto do bar, tal como esperara. Ela pediu um Cosmopolitan ao barman e, virando-se na direo dele, 
sorriu. Ele entendeu a deixa e, pegando seu drinque, foi at ela.
      - O que aconteceu com o seu encontro?
      - Foi de negcios - respondeu. - Este j  de lazer. O copo do homem estava quase vazio.
      - Quer tomar mais um drinque? - perguntou ele.
      - Cairia bem. Ou podamos ir at meu quarto tomar o champanhe que deixei gelando.
      O sujeito sorriu.
      - J tinham me dito que as americanas eram bastante ousadas.
      Chantal nem se deu ao trabalho de informar que morava na Gr-Bretanha havia dez anos e que j fazia muito tempo que seguia algumas das excentricidades da nao. 
Aquela altura do campeonato, ela se sentia como uma espcie de hbrido entre os dois pases.
      -  verdade - confirmou ela. Chantal no queria perder tempo com conversa-fiada, nem queria saber se ele tinha esposa, filhos, cachorro. Tampouco fazia diferena 
se vendia software, equipamentos ou narcticos. Queria dormir com ele naquela noite e despedir-se pela manh. Alm disso, queria provar a si mesma que podia conquistar 
qualquer homem. Detestava ter que admitir isso, mas a recusa de Jeremy fora um duro golpe. Teve a sensao de estar sendo rejeitada por Ted de novo. E se estivesse 
chegando a uma idade em que j no encontraria estranhos dispostos a dormir com ela? O que aconteceria, ento? Algumas mulheres podiam usar roupas estonteantes, 
flertar a noite inteira com garanhes no bar e, ainda assim, ir para casa sozinhas. Ser que se tornaria uma dessas pobres coitadas?
      Ele deu de ombros e ps o copo no balco.
      - Ento, vamos.
      Sentiu alvio e regozijo de imediato. Era um prazer que no obtinha de nenhuma outra forma, independentemente da quantidade de chocolate que comesse. Chantal 
tomou o resto do Cosmopolitan - um drinque de que, na verdade, no precisava. No tinha que ficar de porre para agir daquela forma. Preferia estar totalmente sbria 
para desfrutar de suas conquistas.
      Foram ao elevador e, daquela vez, no houve nenhum mal-estar, tal como ocorrera com Jeremy. Sentia-se apenas a corrente eltrica entre os dois; ambos sabiam 
o que queriam.
      No elevador, Chantal apertou o boto de seu andar. Assim que as portas se fecharam, ele tomou a dianteira. Puxou-a para si bruscamente, a boca buscando a sua, 
a mo metendo-se no decote do vestido, expondo seu seio; ela arfou quando ele a beijou ali, roando os dentes no mamilo. Os dedos dele contornaram a coxa, deslizando 
sob a calcinha, e a penetraram. E Chantal estava pronta, louca de desejo.
      As portas do elevador se abriram, e os dois saram aos trancos e barrancos, entrelaados, movendo-se s cegas at chegar ao quarto dela. Com as mos trmulas, 
ela abriu a porta. Ele a puxou para a cama, tirando a cala e levantando o vestido dela. Abaixando a parte de cima, deleitou-se de novo com os seios, penetrando-a 
com o vestido de mil libras enrolado na cintura dela. Deu-lhe estocadas frenticas, levando-a ao orgasmo rpida e furiosamente. Ficaram deitados, arfando, e, em 
seguida, ela sentiu o membro dele enrijecer de novo. Tirando o vestido de Chantal, o sujeito levantou-a da cama, fazendo-a inclinar-se na cadeira prximo  penteadeira. 
Ento, penetrou-a por trs, como se ela fosse uma cadela no cio. Dali, com as pernas trmulas, os peitos apertados com fora por ele, Chantal se via no espelho, 
sendo fodida por um belo estranho. Levantando-a de novo, ele a sentou na penteadeira, pressionando as coxas dela ao seu redor ao possu-la. Ela se inclinou, agarrando 
o mvel, espalhando as jias e derrubando o abajur no cho, e gozou de novo.
      - Est melhor agora? - perguntou-lhe, sorrindo.
      - Estou, estou sim - respondeu ela.
      Ele pegou sua mo e conduziu-a at a cama.
      - Quer abrir o champanhe?
      - No. - Chantal enroscou-se na cama. Satisfizera seu desejo. Sexo annimo, sem papo furado, preliminares nem compromisso. Seria timo se ele fosse embora. 
- Estou cansada. - Na verdade, estava exausta. Esgotada tanto fsica quanto emocionalmente.
      O sujeito deitou-se ao seu lado, ainda acariciando seu traseiro.
      -Voc  muito gostosa!
      Era o que ela queria ouvir. Era o que ela queria que outro homem lhe dissesse. Chantal mordeu os lbios. No choraria. Jamais choraria por isso.
      - Nem sei qual  o seu nome - disse ela, virando-se para fit-lo. Mas ele j adormecera.







Captulo Quinze

      
      
 C
hantal forou os olhos a se abrirem. Estava com o corpo dolorido e, ainda por cima, com dor de cabea, por causa da bebida. As coxas e a parte ntima ficaram machucadas.
      Conseguira o que queria na noite anterior, mas sempre - que agia daquele jeito sentia um gosto amargo na boca. Naquele momento, teria que encarar o sujeito 
 luz do dia e detestava essa parte.
      Virando-se, deu-se conta de que no havia ningum no outro lado da cama. No ouviu rudo algum no banheiro. Suspirando aliviada, sentiu-se agradecida por ele 
ter se levantado e ido embora antes que ela acordasse. Gostava de homens que agiam assim; os que ficavam para tomar caf-da-manh eram um saco. Sentira prazer na 
noite anterior, mas fora imprudente. Ele a agarrara to depressa, trepando de forma to arrebatadora, que ela se esquecera de lhe pedir para usar camisinha. Chantal 
teria de ir logo ao farmacutico, para conseguir a plula do dia seguinte. O temor da gravidez no chegava a ser um problema, e sim de contrair Aids ou alguma outra 
doena sexualmente transmissvel. O que ela fizera fora uma tremenda estupidez. Chantal meneou a cabea, arrependida. Na prxima vez, teria de tomar mais cuidado.
      Olhou para o relgio. Um pouco antes das sete. Teria tempo de tomar um longo banho quente, checar os e-mails e comer algo, antes de se encontrar com Jeremy. 
Um croissant de chocolate e um caf forte pelando seriam suficientes para anim-la naquele dia; s esperava que fizessem parte do cardpio. Era uma pena que Jeremy 
no houvesse feito parte do menu da noite anterior, como ela planejara, mas tudo bem. Como precisavam trabalhar juntos, talvez tivesse sido melhor no acordarem 
juntos. Ele  que perdera uma noite selvagem. Chantal sorriu, orgulhosa.
      Espreguiou-se, arqueando as costas. Talvez fosse melhor checar os e-mails antes de fazer qualquer outra coisa. Ela olhou de esguelha para a mesa de centro, 
mas o laptop no estava ali. Estranho. E, ento, caindo em si, ps-se em estado de alerta. Examinou o quarto. No s sentiu falta do laptop, como tambm de sua bolsa. 
Pulando da cama, foi at a penteadeira, ficou de quatro e examinou o piso, em que espalhara as jias de madrugada. Com efeito, no havia nada ali. Agachando-se, 
abraou a si mesma. O canalha a tinha roubado. Trepara com ela e, depois, levara seus pertences. Havia no mnimo quinhentas libras em dinheiro, na bolsa, alm de 
todos os seus cartes de crdito. Teria de ligar para os bancos e cancel-los. Se ele conseguisse obter os dados de seu laptop, encontraria as senhas l; ento, 
faria a festa!
      Chantal esfregou os olhos. Era um pesadelo. Um maldito pesadelo, de primeira categoria. No entanto, aquilo no era o pior. As jias valiam muito dinheiro. 
Todas cravejadas com diamantes da mais alta qualidade. Tentou lembrar em quanto haviam sido avaliadas, segundo a ltima estimativa do seguro. Teria sido trinta mil? 
Claro que no. Caramba, sua cabea doa s de pensar! Ser que o seguro cobriria tudo, considerando que ele no havia arrombado a porta, mas entrado com seu consentimento? 
O sujeito s deixara seu relgio, que, por acaso, ela estava usando. Chantal sabia que deveria se sentir grata por essa pequena compensao. Meu Deus, aquele pilantra 
provavelmente estava rindo  toa.
      Como ela explicaria aquilo a Ted? Como explicaria aos demais? Por acaso podia ir at a recepo, pedir aos funcionrios que chamassem a polcia e informar 
que fora roubada por um dos hspedes do hotel, que ela mesma convidara para foder no seu quarto? Ela  que estava fodida. Totalmente. Qual era o nome dele? Ah, ela 
no fazia a menor idia; no entanto, seu charme era indiscutvel. Alto, moreno e atraente - mais para heri romntico que para ladro de meia-tigela. E era muito 
bom de cama. Mas a que custo!
      Chantal cerrou os olhos, desejando apagar tudo aquilo. Tanto por uma trepada sem compromisso...










Captulo Dezesseis




      
 E
u estava no Paraso do Chocolate. Era hora do almoo e eu havia desistido da alternativa mais saudvel de comer um sanduche natural, optando por um chocolate quente 
e uma megafatia de bolo, do mesmo sabor. Havia muito movimento naquele dia, e s um lugar disponvel,  janela. Por mim, tudo bem. Poderia ver a multido de pessoas 
passando, sem pensar nos meus problemas. Fazer compras no era uma atividade prazerosa para mim; menos mal, pois j tinha vcios suficientes, como chocolate, Marcus 
e humilhaes em pblico, s para citar alguns.
      Naquela manh, depois do incidente do lanamento de calcinha, pedi que Paquera aceitasse minha demisso. Na verdade, nem precisava ter feito isso, j que era 
temporria e podia ter apenas ligado para a agncia, requisitando transferncia para outro escritrio. Ele soltou uma gargalhada e afirmou que se divertia demais 
comigo para me dispensar. Naquele momento, eu refletia sobre isso, perguntando a mim mesma se seria realmente uma boa idia ficar.
      Como eu resolvera ir at ali na ltima hora, no tivera tempo de enviar mensagens s outras participantes do clube, convidando-as para se encontrar comigo 
ali. Seria bom contar com elas naquele dia, pois eu no era muito popular entre a mulherada do escritrio. Elas nunca me convidavam para almoar. Talvez sentissem 
cimes, j que eu trabalhava com o Paquera, o dolo da empresa. Se eu estivesse no lugar delas, faria exatamente o contrrio: tentaria fazer amizade comigo, para 
me aproximar dele.  bvio que todas no passavam de manipuladoras de baixo nvel. Marcus ainda no tentara fazer contato, o que me deixara com uma dor de estmago 
permanente. Quem sabe o bolo no ajudaria? Eu tinha que voltar para o escritrio com o nvel de acar em alta, se quisesse chegar ilesa ao final do expediente.
      A porta abriu e entrou um cara lindo. Todos os gatos que entravam l costumavam ser gays, pois eram amigos de Clive e Tristan. Entretanto, seria um verdadeiro 
pecado contra a humanidade se aquele ali s gostasse de homens. Ele pediu um cappuccino e uma bandeja de chocolates de origem controlada - uma alma gmea! -, e, 
ento, olhou ao redor, buscando um lugar para sentar-se. Felizmente, por sorte minha, o nico lugar disponvel era ao meu lado. Algumas moas, sentadas no sof macio, 
comearam a ajeitar as sacolas, como se estivessem prestes a sair; torci para que ficassem mais. Foi o que elas, gentilmente, fizeram.
      -Tem algum a? - perguntou ele.
      - No. - Tentei no parecer ansiosa demais. Atrs do balco, Clive tentava atrair minha ateno, mas eu o ignorei.
      - Posso me sentar?
      - Claro - respondi, benevolente, fazendo um gesto em direo  cadeira vazia.
      - Este lugar  timo, no ? - comentou ele, acomodando-se. - Eu adoro estes chocolates. Acabei de descobrir esta chocolataria, mas j se tornou meu local 
favorito.
      -  o meu tambm. - Eu j estava apaixonada. Podiam me chamar de volvel, mas realmente esqueceria Marcus com um cara desses. Ele tinha cabelos louro-escuros 
e desalinhados, que combinavam perfeitamente com os olhos azul-claros. Alm do mais, era choclatra. Senti que seria o parceiro ideal. Na verdade, eu deveria me 
manter longe de louros, pois, como diz o ditado, uma ovelha m pe o rebanho a perder! Chequei depressa o dedo anular do cara antes que me apaixonasse perdidamente 
por outro cafajeste... Nenhuma aliana. Sinal verde.
      - Correndo o risco de fazer uma pergunta batida... - Ele sorriu ao notar que j estava sendo pouco original. Humildade, eu gostava dessa caracterstica. -Voc 
vem muito aqui?
      - Venho - respondi. Minha nossa, que tal: Lucy Lombard, aceita este homem como seu legtimo esposo? Sim.
      - Eu me chamo Jacob - apresentou-se ele. - Jacob Lawson. Jacob. Lucy Lombard, aceita este homem, Jacob Lawson, como seu legitimo esposo? Ah, claro que sim!
      - Lucy - disse, sem flego. - Lucy Lombard.
      -  Muito prazer. - Ele se inclinou, estendendo-me a mo. Cumprimentei-o, esperando que a minha no estivesse lambuzada de chocolate. Ele riu e retribu o sorriso, 
aberta, calorosa, acolhedora; esperava estar transmitindo os sinais corretos. Aps as formalidades, Jacob se concentrou nos chocolates. -Voc trabalha aqui perto?
      Eu me senti culpada ao olhar o relgio, pois j deveria estar no escritrio. Um dia Paquera iria me repreender pelos atrasos. Tomara que no fosse naquela 
tarde! Diria para ele que havia precisado passar na farmcia para comprar tampo vaginal, o que sempre desarmava os chefes.
      - Tenho um emprego temporrio num escritrio aqui perto, numa empresa grande, que lida com tecnologia da informao.
      Ele meneou a cabea, como se estivesse impressionado.
      - E voc? - perguntei.
      Jacob estava de terno e carregava uma pasta de ao inoxidvel.
      - Trabalho como freelancer na indstria do entretenimento. Minhas funes variam.
      - Uau! - exclamei. - Uau! - Eu podia parecer mais idiotizada, mas j no estava mais to segura. Com relutncia, chequei o relgio. - Olhe, sinto muito, mas 
eu realmente tenho que ir.
      Ele fez uma expresso desapontada.
      - Por que no nos encontramos de novo? - sugeriu ele. Fiquei to desconcertada que mal pude falar. Um dia como
      mulher livre e desimpedida e j estavam me convidando para sair!
      - Seria timo.'
      - Vai ter um evento com degustao de chocolate e champanhe no Hotel Savoy, na semana que vem. Quer ir?
      Se eu queria ir? Tive vontade de me atirar aos ps dele e chorar de alegria. Ele estava evitando que eu me tornasse uma solteirona recalcada, vtima de obesidade 
mrbida.
      - Seria timo! - Algum tinha que me sacudir, eu parecia um disco arranhado.
      - Aqui est meu carto. - Jacob deslizou-o pela mesa. Era branco e nele s constava seu celular. Cheio de estilo, hein?
      - Obrigada - disse eu, buscando uma caneta e um pedao de papel na bolsa. Acabei anotando meu nome e telefone na parte de trs da nota do Paraso do Chocolate. 
- At mais, ento.
      Dirigi-me  porta depressa, piscando de forma teatral para Clive ao me retirar. Jacob acenou quando passei pela vitrine. Apertei, no bolso, o carto dele. 
Esperava que me telefonasse. Esperava desesperadamente que me telefonasse.
   Captulo Dezessete
      
      
      
      
 O
i, gata - disse Paquera, enquanto eu caminhava, apressada, at minha mesa. - Legal voc se unir a ns. - Sinto muito - sussurrei. - A crise que venho enfrentando 
na minha vida  grave. Tenho que agentar firme.  o que estou tentando fazer.
      Poderia lhe contar a sorte que tive de ser convidada para um encontro, mas, como eu mesma mal podia acreditar, decidi ficar de bico calado, para variar um 
pouco. Aiden Holby resolveu sentar-se no canto da minha mesa. Excitava-me quando ficava perto de mim; ento, na tentativa de evitar que se aproximasse demais, eu 
armava pequenas barricadas na beirada da mesa, com arquivos, porta-canetas e at meu porquinho cor-de-rosa, de plstico, em que guardava meus clipes. Mas nunca dava 
certo. Ele simplesmente afastava minhas defesas e sentava-se sem a menor cerimnia. Naquele momento, seu traseiro firme estava bem perto do meu brao.
      Como se j no bastasse meu encantamento, meu chefe perguntou:
      - O que vai fazer neste fim de semana?
      Caramba! Paquera tambm queria sair comigo? Dois convites no mesmo dia? Devia estar secretando uma tonelada de feromnio, ou qualquer que fosse o hormnio 
que fazia os homens se jogarem nos ps de algum. E eu que pensava que ele s vinha sendo atencioso comigo por causa do estoque de chocolates que eu mantinha na 
minha gaveta.
      - No sei. - Precisava agir com cautela. - Por qu?
      - O departamento de vendas est promovendo um evento de confraternizao para toda a sua equipe no fim de semana. Vamos fazer canoagem no Pas de Gales. Est 
a fim de ir, gata?
      Ah, ento no era um encontro comigo.
      - Canoagem? Por que no fiquei sabendo disso?
      - Porque est nos seus arquivos e voc nunca se d ao trabalho de ler - explicou ele, pacientemente. - A Tracy Seildequ organizou a excurso antes que o 
nenm nascesse e ela tirasse licena.
      Essa era a empresa prestativa e compassiva para a qual eu trabalhava.
      - Os rapazes querem que voc v.
      Meu corao acelerou, embora no estivssemos marcando um encontro amoroso. Era bom sentir-se querida por algum mesmo que fosse pela equipe de vendas.
      - E mesmo?
      - E - confirmou ele. - Querem ter certeza de que algum muito ruim v, para que eles paream campees quando comparados a essa pessoa.
      O balo estava cheio, da trouxeram um alfinete e bum!
      -Valeu! - disse eu, com tristeza.
      -Vai ser divertido.
      Minha idia de diverso era um evento com degustao de chocolate e champanhe no Hotel Savoy, em companhia de um gato, no ficar ensopada no Pas de Gales.
      -Voc vai receber como se fosse um dia de trabalho qualquer - insistiu ele. -  um incentivo adicional.
      Na verdade, j no precisava dizer mais nada. Eu tinha meu preo, que, de modo geral, relacionava-se com dinheiro de qualquer espcie. No seria to ruim assim 
ficar ensopada no Pas de Gales e, ainda por cima, ser paga por isso.
      - Vou dar uma olhada na agenda - disse-lhe, friamente. - Estou saindo com algum agora e a gente pode ter marcado alguma coisa.
      Foi a vez de Paquera parecer irritado.
      - Pensei que o Marcus tinha acabado de terminar com voc.
      - Mulheres como eu no ficam dando sopa por muito tempo - informei-lhe, presunosa.
      Meu chefe soltou um suspiro, exasperado. Achei que estava com tudo sob controle.
      - Se me pagar o dobro, eu vou.
      - Voc sabe negociar, Lucy Lombard - disse ele, meneando a cabea. - Esteja aqui s seis da manh no sbado. Um micronibus vir nos buscar.
      Seis da manh no sbado? Pela madrugada! Nem sabia que esse horrio existia!
      Ento, era Paquera que ostentava um largo sorriso ao voltar para sua sala. Juro que no balo de histria em quadrinhos sobre sua cabea estava escrito: R~r~r.
      Tentei compensar meu almoo prolongado trabalhando com afinco. Fiz o possvel, mas, por algum motivo, no consegui me concentrar. Depois de lidar com algumas 
cifras de vendas e organizar umas coisas, comi uma barra de chocolate ao leite com caramelo, Daim Bar, antes conhecida como Dime Bar, um nome perfeitamente adequado 
que, na minha humilde opinio, no precisava ter sido mudado. Junto com esse chocolate que eu havia guardado na minha mesa, tomei um ch de mquina automtica e 
fiquei de bobeira, durante algum tempo. Ento, s quatro, quando j estava me desanimando, Derek Sujo, da sala de correspondncia, apareceu. Ganhou esse apelido 
no por causa de sua higiene pessoal, mas por ter o hbito de contar um monte de piadas extremamente sujas, que adequava a todo tipo de ocasio. Naquela tarde, trazia 
um imenso buqu de rosas vermelhas, embrulhadas em papel rosado.
      - Para voc, querida - disse ele, piscando o olho. - Algum deve ter se divertido ontem  noite!
      - Que liiindas! - exclamei, ao receber o buqu. - Deixaram carto?
      - No.
      Se ele o tivesse perdido no meio do caminho, eu no ficaria nada surpresa. Derek Sujo abriu um dos olhos com o dedo, ao se retirar, dizendo:
      - Admirador secreto.
      Coloquei as flores sobre a mesa. Pude ver Paquera esticando o pescoo para dar uma olhada nelas. At mesmo sem carto, eu j sabia quem as enviara. Isso era 
coisa do Marcus. Alguns dias com a nova amante e j estava mudando de idia. No agia sempre assim? Toda vez que ele me deixava, eu achava que era para sempre; da, 
l vinha o Marcus, rastejando. Minha garganta ficou seca. O que deveria fazer? Ligar e agradecer-lhe? Ou ficar na minha e aguardar seu prximo passo?
      Enquanto pensava no meu dilema, o aviso sonoro do celular ressoou. Havia uma mensagem de texto de Chantal. EMERGNCIA CHOCOLATE, dizia. VEJO VCS @ 6.
      timo. Acomodei-me na cadeira e suspirei aliviada. As meninas me diriam o que fazer.
      
      
      
      
      
   Captulo Dezoito
      
      
      
      
 O
  que  que eu vou fazer? - lamuriou-se Chantal. Acabara de nos contar a histria do sexo violento e do roubo. Sem dvida alguma, a incerteza a respeito do buqu 
de rosas era insignificante comparada  experincia traumtica de Chantal. Estvamos reunidas num canto do Paraso do Chocolate, acomodadas nos sofs macios. Nossa 
amiga, com a face plida e as mos trmulas, pegou a xcara e sorveu o chocolate quente.
      - Fui assaltada em um hotel cinco estrelas. No era uma espelunca miservel do centro da cidade, mas um hotel campestre. Passei a maior parte da minha vida 
em Nova York e sei muito bem reconhecer vigaristas. Eu j deveria estar mais do que escolada no assunto. Como pude ser to idiota? To ingnua?
      E, no acrescentei, "to desesperada".
      Autumn tambm no estava com um aspecto muito bom. Ficou claramente chocada com a terrvel notcia dada por Chantal. Segurou a mo dela.
      - Voc tem que ir  polcia.
      - Como posso fazer isso? - questionou ela. - Se eles iniciarem uma investigao, ento Ted, com certeza, acabar descobrindo. Como poderia manter tudo em segredo?
      - Meu Deus, Chantal, teve sorte de s ter sido roubada - comentei. - Ele poderia at ter matado voc.
      - Antes tivesse feito isso - disse ela, desolada. - Ted vai me matar, de qualquer forma, se ficar sabendo.
      - Ento, no vamos deixar que isso acontea - afirmei, da forma mais tranqilizadora possvel. - Conseguiu averiguar o nome do cara na recepo do hotel?
      - No. - Ela meneou a cabea. - No me deram nenhuma informao a respeito dele. Pelo que sei, pode ter usado um nome falso. No duvido nada que ele j tenha 
aplicado esse golpe vrias vezes. Tenho certeza de que  um vigarista profissional. Caramba, fui mesmo uma tapada, um alvo incrivelmente fcil.
      Ela parecia estar prestes a chorar, algo que nunca fazia. Era a primeira vez que eu a via to abalada.
      - Clive, Clive! - chamei-o. - Precisamos de mais doces reconfortantes. Rpido!
      - No quero comer nada - protestou Chantal.
      - No seja ridcula - disse-lhe eu. - Chocolate no  comida,  remdio. - Alm do mais, esse reforo faria bem a mim e a Autumn. Queria que Nadia tivesse 
vindo ao encontro, mas ela me enviara uma mensagem contando que no poderia sair, pois precisava ficar com Lewis. Ficar desapontada por haver perdido essa reunio.
      - Voc tem que parar de fazer isso - aconselhou Autumn, com muita sinceridade. - No pode pegar homens que no conhece.  perigoso.
      - Eu sei. - Chantal meneou a cabea. - Essa foi a ltima vez. Juro. Aprendi a lio.
      Pensei, mas no cheguei a dizer, e pagou bem caro por ela. Minha amiga no precisava que eu enfatizasse a verdade nua e crua.
      - Ns temos dinheiro de sobra - disse Chantal, suspirando, trmula. -Vou ter que sacar quantias pequenas da conta, para comprar outras jias, o mais rpido 
possvel.  a nica coisa que posso fazer.
      -Ted no vai notar nada?
      - Eu controlo todas as contas domsticas - explicou. - Ele confia em mim.
      A ironia de seu comentrio no passou despercebida.
      - No pode simplesmente afirmar que perdeu tudo e requerer indenizao do seguro? - No era l muito tico, mas, se ela tivesse contado que fora roubada, o 
seguro no cobriria tudo, de qualquer forma?
      - Por causa do valor em questo, provavelmente eles enviariam a polcia, investigadores ou sei l quem. Ted tambm iria querer saber por que eu levei minhas 
jias mais caras numa viagem de negcios. No acho que seja a soluo. Tenho que descobrir um jeito de evitar que ele se d conta do que aconteceu.
      Clive trouxe mais chocolate quente e uma bandeja com brownies de caf e nozes, que aceitamos de bom grado.
      - A cara de vocs no est nada boa - disse ele, ao observar nossos semblantes abatidos. Sentou-se conosco.
      - Chantal transou com um cara e foi roubada - expliquei-lhe e, ento, revelamos todos os detalhes srdidos.
      - Os homens so uns canalhas - comentou ele, gesticulando com uma das mos.
      O que me fez lembrar que ainda precisava falar da tentativa de Marcus de fazer as pazes, enviando o buqu de rosas.
      - Contou para elas que um gato deu em cima de voc na hora do almoo? - prosseguiu Clive.
      E tinha de falar tambm do encontro amoroso com Jacob Lawson. Eu as coloquei a par de tudo rapidamente. -Vamos sair juntos na semana que vem.
      - timo! - exclamou ChantaL - Mas s use bijuteria barata. No quis dizer a ela que era s o que eu usava mesmo.
      - Ele pareceu ser um cara legal - comentei, com timidez. - Tomara que ligue.
      -  claro que vai ligar - disse Autumn, solenemente. Era sempre otimista. Seu copo definitivamente nunca ficava meio vazio.
      - Queria contar outra coisa para vocs. - Todas ficaram atentas. - Marcus me mandou um imenso buqu de rosas hoje.
      - Elas esto l fora, num balde d'gua - informou Clive. - Assim, no vo murchar. - Ele j havia comentado que esperava ver outra coisa de Marcus murchando.
      - O que ele disse? - quis saber Chantal.
      - Nada. No havia carto.
      - Mas, ento, como sabe que foi o Marcus que o enviou?
      - Quem mais enviaria trs dzias de rosas vermelhas depois de me trair?  obra dele. Tpico. Eu s queria saber o que devo fazer. Seria melhor ligar ou esperar 
que ele entre em contato comigo?
      - S me prometa uma coisa - pediu Chantal. - Se eu tenho que parar de dormir com estranhos, voc tem que parar de aceitar o Marcus de volta.
      - Chantal s deixa os caras fazerem sacanagem uma vez - ressaltou Clive.
      - Sei, obrigada pela observao. - Soltei um suspiro profundo. - Ento, acham que no devo fazer nada?
      Todos assentiram. Muito fcil para eles dizerem isso, mas, para mim, Marcus era um vcio maior que chocolate, e sem tantas calorias.
      
      
   Captulo Dezenove
      
      
      
      
      

Q
uando Autumn chegou ao seu apartamento, havia um sujeito saindo. Usava uma jaqueta de couro preta e culos espelhados, apesar de estar se retirando de um ambiente 
fechado. O nariz dava a impresso de ter sido objeto de muitos socos.
      - Oi - cumprimentou ele, ao passar por ela. Em seguida, desceu rapidamente as escadas.
      Autumn entrou em casa de cenho franzido.
      - Richard? - chamou, da sala. - Quem era aquele cara?
      - Ah, um amigo meu - respondeu ele, de forma vaga. A irm seguiu o som de sua voz at a cozinha. O irmo estava prximo  pia, enchendo a chaleira de gua. 
- Quer ch? Parece exausta!
      - Uma amiga minha est em maus lenis - contou-lhe. - Tentei ajud-la.
      -Voc sempre atraiu gente intil, Autumn.
      - Incluindo voc?
      - Poxa, est sendo cruel.
      - Era mesmo s um amigo, Racharei? - Ela sentou-se  mesa, enquanto ele preparava o ch.
      - Posso ter amigos, no posso? Vai ser muito chato morar com voc se no puder trazer ningum aqui.
      - Temi que fosse um dos caras para quem voc deve dinheiro. Pode ficar aqui, Richard, mas no quero que traga problemas para dentro de casa.
      O irmo j ia pr a chaleira na mesa, quando ela notou que havia uma camada de p branco na superfcie. Passou a mo para limp-la, mas, ento, com sensao 
de repulsa, percebeu o que era. No se tratava de resduo de algum produto de limpeza ou talco, mas de cocana. Ela tinha certeza. Umedeceu um dos dedos e passou-o 
ali. Sabe-se l por que fez isso, pois, embora trabalhasse no centro de reabilitao, sua experincia com entorpecentes se limitara a algumas tragadas de maconha 
em uma festinha chata na universidade, s por educao. No conseguiria diferenciar talco de cocana. Mas, pela expresso de Richard, era bvio que ele conseguia.
      - No me olhe assim - pediu ele, irritado. - No sou um viciado em crack que mora na periferia. No sou igual s pessoas com quem voc lida. Sabe muito bem 
que  aceitvel na nossa classe. Ando com uma galera que curte um p de vez em quando. No  o crime do sculo. Todo mundo faz isso. Basta ir a qualquer boate e 
ver o que acontece. No  pior do que tomar uma garrafa de vinho. E me ajuda a relaxar, alm de me deixar ligado.
      Autumn notou que suas pupilas estavam dilatadas e seus gestos, frenticos. Perguntou-se como deixara de notar tais sinais at aquele momento.
      - Foi por isso que perdeu o emprego? O apartamento? Richard fungou com fora e passou o dedo sob o nariz.
      - S me endividei um pouco, nada mais.
      - Quanto est cheirando?
      - Quase nada - insistiu ele. - E s uma diverso.
      - Como queria acreditar em voc! O irmo deu de ombros.
      - Deveria provar. Fazemos umas festas muito legais. Voc precisa sair, conhecer mais gente.
      - Usar drogas? - perguntou sarcasticamente.
      -Tem coisas piores que cheirar umas carreiras de coca.
      - Pense nas conseqncias, Richard. Todos os dias vejo gente que arruinou a vida por causa das drogas.
      - Voc tambm tem um vcio - zombou ele. - J vi como devora chocolates. Metendo tudo de uma vez nessa boquinha voraz.
      Autumn retrocedeu.
      - Isso no tem o menor cabimento. No d para comparar chocolate com cocana.
      - No d? Voc  viciada, tanto quanto eu. Pode afirmar que nunca mais vai consumir sua droga? - perguntou, com um sorriso afetado. - Se sente tima toda vez, 
no  mesmo? Nada mais a deixa assim. A nica diferena, mana,  que a sua droga  permitida.
      - No preciso arriscar tudo o que tenho para comer chocolate. O irmo estreitou os olhos.
      - No quer provar coca, s uma vez? Vai se sentir bem melhor. -Tambm poderia provocar minha morte.
      - Mais cedo ou mais tarde, todos vamos bater as botas. - Ele deu uma risada amarga. - Posso comer carne diariamente e morrer jovem, de infarto. Que jeito mais 
sem graa de ir para o alm! Prefiro viver dessa forma a passar a vida toda confinado numa camisa-de-fora. A cocana  um vcio incrvel. Sinto que posso dominar 
o mundo quando cheiro. Melhora a auto-estima e todo mundo gosta de mim. No quer sentir isso tambm?
      - Mas a realidade  que voc perdeu tudo: a sua carreira, o seu apartamento.
      Ela queria acrescentar "a sua dignidade", mas achou que seria ir longe demais. A cocana era uma droga que alimentava o ego do dependente e distorcia sua percepo 
da realidade. O usurio se tornava egosta, ficava imune a seus prprios problemas e insensvel aos sentimentos dos outros. Autumn queria ajudar Richard, evitar 
que ele arruinasse ainda mais a prpria vida. Mas quem a ajudaria?
      
      
      
      
      
   Captulo Vinte
      
      
      
      

 N
adia pusera Lewis para dormir cedo. O banho e a histria de ninar, naquela noite, haviam sido realizados em tempo recorde, para a decepo do filho. Ela compensaria 
tudo no dia seguinte. Naquela noite, queria passar o maior tempo possvel com o marido. No havia muito para o jantar, que, na verdade, consistia em um pacote de 
penne de marca prpria do supermercado, uma lata de tomate e outra de atum barato, que quase no se distinguia de rao para gato. No era o tipo de refeio que 
previra fazer quando se tornara dona de casa em tempo integral. Nadia se imaginara preparando banquetes deliciosos e rpidos todas as noites, como os do chef Jamie 
Oliver, com queijo de cabra, cuscuz e rcula. No entanto, sentada diante de Toby, ela empurrara a massa com indiferena no prato, enquanto o marido disfarava heroicamente 
e comia com prazer.
      - Humm! - disse ele, limpando a boca com um pedao de papel-toalha que Nadia usava como substituto econmico para guardanapos naqueles dias. - Estava delicioso!
      Ambos sabiam que no era verdade.
      - Vou voltar para o escritrio agora, amor - informou-lhe. - Preciso adiantar um trabalho.
      E ambos tambm sabiam que no era o que ele faria ali. Nadia afastou o prato.
      - A gente no pode continuar assim, Toby. Fiz as contas hoje. Estamos devendo trinta mil libras.
      - No seja ridcula, no  tudo isso.
      Ela foi at o aparador, pegou um monte de contas e as ps na mesa, diante do marido.
      - Renovamos a hipoteca da casa duas vezes para quitar nossas dvidas, Toby. Liguei para o banco hoje de tarde e eles disseram que no vo nos emprestar mais 
dinheiro. No sei como vamos fazer.
      Nem lhe contou que pesquisara todos os anncios de financeiras de alto risco nos classificados de jornais. Estavam chegando a um ponto em que ela, de fato, 
no via nenhuma alternativa e, se enveredassem por esse caminho, jamais conseguiriam se livrar das dvidas.
      - Sei disso, Nadia. No  to grave assim. No me atazane mais com isso!
      - No estou atazanando. Queria que voc abrisse os olhos. - Estava quase chorando. - No tenho dinheiro para comprar comida, Toby. Lewis precisa de roupa. 
Ele est crescendo to rpido que perde os sapatos em questo de meses. J deixamos de pagar as contas de gs e de luz.
      Ela vendera a maioria das roupas velhas de Lewis e boa parte de seu prprio guarda-roupa numa empresa de comrcio eletrnico, para arrecadar um dinheirinho. 
A casa mal tinha mveis, quase no possuam bens, portanto no restava mais nada para ser vendido. Nadia nunca levaria as amigas do Clube das Choclatras at ali, 
pois seria embaraoso demais se vissem sua casa caindo aos pedaos. Quando conheceu Toby, tinha um timo emprego numa editora e, embora os dois no dispusessem de 
rios de dinheiro, viviam bem, arcando com as despesas. Como tudo fora por gua abaixo daquele jeito?
      - Posso comear a trabalhar e ganhar algum dinheiro - disse ela. - Isso ajudaria a gente.
      - Acabaria usando seu salrio para pagar a creche. De que adiantaria?
      Nadia j pensara nisso e chegara  concluso de que, mesmo que s restassem algumas libras, valeria a pena.
      - Eu poderia entrar em contato com a minha famlia - sugeriu. - Contar pra eles que estamos passando por dificuldades. De repente, vo ajudar. - At ela sabia 
que as chances de isso acontecer eram escassas. Desde o dia em que optara por se casar com Toby, eles a excluram. Seria humilhante para Nadia recorrer a eles, mas 
no lhe restavam muitas opes. Melhor implorar para a famlia que ir para a cama com algum agiota, embora no houvesse tanta diferena assim.
      - Beleza pura! - ironizou Toby. - Conte para todos que seu marido no consegue sustentar a famlia. Eles adorariam saber disso.
      E ele tinha razo. Talvez ajudassem mas exultariam com a desgraa alheia. O pai de Nadia era um executivo bem-sucedido, dono de uma lucrativa rede de joalherias. 
Nada o deixaria mais satisfeito que constatar que Toby Stone no fora uma boa escolha para a filha mais velha.
      O marido meneou a cabea.
      - No quero que eles voltem a pr as garras em voc, Nadia. Especialmente seu pai. Se isso acontecer, vou acabar perdendo minha esposa.
      - Se no parar de jogar, vai me perder de qualquer forma.
      - Ento, se  assim que se sente, no h motivo para discutir isso. -Toby levantou-se e caminhou at a porta.
      - Quero ajudar voc. A gente precisa enfrentar isso juntos, mas, se no se der conta de que isso  um problema, vou lutar por uma causa perdida.
      -Tenho muito que fazer - disse ele, retirando-se da sala.
      Nadia juntou os pratos e levou-os para a cozinha. O que ela iria fazer agora? Abrindo o guarda-loua, tateou at encontrar o que buscava. Empurrou para o lado 
o pacote de biscoitos de chocolate. Se ao menos conseguisse apaziguar sua dor com ele... Entretanto, s vezes, o chocolate por si s no era suficiente. Escondida 
no fundo, atrs de um pote de farinha raramente usado, havia uma pequena caixa de remdio. Olhando de esguelha para a porta da cozinha, ela pegou-a e tirou um dos 
comprimidos da embalagem. Comeara a tom-los um anos aps o nascimento de Lews, por causa de uma suposta depresso ps-parto. Fora ao mdico e se debulhara em 
lgrimas. Seu clnico geral, normalmente um cavalo, havia sido bastante compassivo e lhe receitara de imediato antidepressivos, que atuariam durante o dia, e sonferos, 
que a ajudariam a dormir  noite. No entanto, no conseguira revelar ao mdico seu verdadeiro problema. Nunca contara a ningum. Ningum sabia que seu marido era 
um jogador compulsivo. Tomou o antidepressivo com um copo de gua, ciente de que estava chegando a um ponto no qual nem os comprimidos iriam ajudar.
      
      
      
      
   Captulo Vinte e Um
      
      
      
      
 T
em algo para me dizer? - indagou Ted. O corao de Chantal parou de bater momentaneamente. Ser que ele descobrira o que acontecera? Naquele dia, por acaso, estavam 
em casa juntos, preparando-se para dormir. Eram momentos que ela comeara a temer. - As alianas - prosseguiu ele. Ela acompanhou o olhar dele at seus dedos. - 
No est usando as alianas.
      - Ah! - exclamou Chantal, tentando disfarar o pnico. -Tive um pouco de alergia nas mos. Talvez por causa do detergente.
      - Detergente? - O marido soltou uma gargalhada. - Querida, desde quando voc usa detergente?
      - Sabonete - corrigiu ela, depressa. - Deve ter sido o sabonete. O marido pegou sua mo.
      - No vejo nada de errado.
      - Obrigada, Dr. Hamilton. - Esforou-se para sorrir, mas estava apreensiva. - Meus dedos j melhoraram. S evitei usar as alianas por algum tempo, at ter 
certeza, de que estava bem. - No restava opo; teria de sacar dinheiro da conta o mais rpido possvel para comprar peas convincentes.
      - Achei que tinha algo para me dizer. - Chantal notou o brilho em seus olhos, mas sabia que ele estava falando srio.  bvio que ela queria lhe contar uma 
coisa. Almejava revelar que j no podia ir atrs de estranhos para se satisfazer sexualmente. Caramba, no chegara nem aos quarenta, tinha suas necessidades. E 
ele? De modo algum ela iria passar os prximos vinte ou sabe-se l quantos anos em uma unio assexuada. Ela no apenas ansiava por sexo - embora, puxa vida, como 
fazia falta quando era inexistente! -, como tambm por uma maior proximidade afetiva. No achava que relaes pudessem sobreviver sem isso.
      - Alguma vez se deu conta de como nossa vida  vazia? Chantal fitou o marido.
      -Vazia?
      - Sabe... - Ele fez um gesto indicando o ambiente luxuoso. - J se perguntou para que serve tudo isso? Que sentido tem?
      -  bonito de se ver - disse a esposa. - Ns gostamos de coisas bonitas.
      - E  por isso que vou ao escritrio todos os dias e trabalho feito um louco?
      -  o que todo mundo faz.
      - Mas as pessoas tm um objetivo. Dedicam-se tanto para sustentar a famlia, aqueles que amam.
      - No temos uma famlia.
      - E se tivssemos? Seria to ruim assim?
      - Preferiria cortar os pulsos.
      - Ento, isso tudo  s pra gente?
       - E por acaso  algum crime?
      - No, mas a vida se resume a isso?
      -Voc aprecia tudo o que temos tanto quanto eu.
      - Aprecio?
      Francamente, ela j no sabia do que o marido gostava ou no. Chantal suspirou. Estava cansada e desanimada. Talvez Ted estivesse deprimido. Talvez precisasse 
ir ao mdico, para tomar algum antidepressivo. Talvez isso estimulasse sua libido tambm. No era o momento de falar disso; ela tinha muitas outras coisas com que 
se preocupar quela altura. Eles tinham evitado confrontar a relao at ento; poderiam esperar um pouco mais.
      Ted tirou a camisa e foi ao banheiro. Encontrava tempo para ir diariamente, durante uma hora,  academia da empresa, embora "trabalhasse feito um louco"; ento 
seu corpo era malhado e musculoso. O mais triste era que ela ainda o amava e desejava; tudo o que queria era ser correspondida. Todas as revistas femininas contemporneas 
publicavam inmeras dicas sobre como apimentar a vida amorosa; contudo, no se encontravam artigos sobre como impulsionar uma que decara e cessara por completo.
      Era fcil relegar a relao fsica. Primeiro, os beijos tornavam-se mais escassos; logo, deixavam de ser dados, exceto por selinhos superficiais no rosto. 
Ento, os afagos sucumbiam e a freqncia das transas diminua cada vez mais, com a interferncia da rotina. Quanto menos se beijava e se fazia carinho, mais fcil 
era evitar qualquer tipo de contato ntimo. No incio do namoro, Chantal e Ted faziam amor quase toda noite. Em seguida, comearam a ter relaes uma vez por semana 
e, depois, uma vez por ms. quela altura, ela nem se lembrava da ltima vez em que se haviam deitado juntos e abraados. Fazia seis meses? Mais? Quando Ted a puxara 
para perto na cama? At mesmo um carinho amigvel serviria. Algumas das palavras mais sensuais, a seu ver, eram "quero fazer amor com voc", s que elas no faziam 
parte do vocabulrio do marido havia muito tempo.
      Ted saiu do banheiro e meteu-se debaixo dos lenis. Antes dormia nu, lembrou Chantal, mas agora usava bermuda e camiseta. At mesmo o contato entre as partes 
expostas parecia ofend-lo.
      Ela foi ao banheiro, removeu a maquiagem e lavou o rosto, limpando-o bem. Evitou pensar no que fizera na noite anterior e na estupidez de seus atos. Quando 
terminou, uniu-se ao marido na cama.
      Ted estava deitado no lado dele, j respirando profundamente. Chantal encolheu-se atrs do marido. Talvez pudessem salvar sua relao - era o que ela de fato 
esperava. Sabia que o amava e no queria que aquela ligao acabasse. Acariciou com os dedos as costas do marido. Deveriam conversar sobre o que o estava incomodando. 
No era correto da parte dela desconsiderar os sentimentos dele, mesmo que sentisse que as preocupaes de Ted eram, de certa forma, inapropriadas.
      - Ted - chamou ela, com suavidade. - Queria que me abraasse.
      -Tenho que levantar cedo amanh - retrucou ele.
      Apesar de suas boas intenes, Chantal sentiu a prpria irritao.
      - E seria exigir demais que abraasse sua esposa?
      - Durma - recomendou, puxando as cobertas para cobrir os ombros.
      Mas ela sabia que agora ficaria acordada, olhando fixamente para o teto.
      
      
      
      
      
   Captulo Vinte e Dois
      
      
      
      
      
      
 A
cho que eu nunca tinha visto o nascer cio sol em Londres e nem pretendia me empenhar em v-lo de novo. De alguma forma, consegui chegar ao escritrio s seis da 
manh, no sbado, e, naquele momento, aguardvamos na calada do prdio a chegada do micronibus. Como as brincadeiras estavam animadas demais para o meu gosto, 
preferi aguardar um pouco mais afastada do grupo, evitando falar at estar bem acordada. Havia um banco de ao ali perto e, para ser sincera, minha vontade era deitar 
nele e voltar a dormir.
      - Oi, gata! - Paquera se aproximou de mim. - Que bom que chegou a tempo!
      Creio que esse comentrio se referia ao fato de eu sempre me atrasar durante a semana e de nunca chegar s nove. Soltei um resmungo, sem conseguir pensar num 
argumento para me defender. Ele me deu uma xcara de caf.
      - Obrigada! - disse, impressionada por minhas cordas vocais funcionarem to cedo. O caf-da-manh nem me passara pela cabea.
      Era to cedo e minha mente estava to desacostumada quele horrio que nem me lembrei de levar chocolate. Passaria as prximas cinco horas num micronibus 
sem qualquer tipo de comida? Como sobreviveria?
      -Trouxe muffins integrais e naturais, com recheio duplo de chocolate, da cafeteria.
      Eu podia mesmo me apaixonar por esse cara.
      - Voc gostou das rosas?
      - Gostei - concordei, suspirando. - Mas no quer dizer que vou aceit-lo de volta. - No contei a Paquera que me aconselharam a no fazer isso, sob hiptese 
alguma, e que, tecnicamente, o prprio Marcus no pedira nada. Era preciso ter em mente que um buqu de rosas no equivalia a uma proposta de casamento.
      Paquera sorveu o caf, pensativo, de cenho franzido.
      - Acha que foi o Marcus que mandou as rosas?
      -  Quem mais me mandaria? - Pelo amor de Deus, no era a Jennifer Lopez! Tinha pouqussimos admiradores. - Quem mais, a no ser meu ex-namorado galinha, teria 
motivos para envi-las?
      Ele deu de ombros, mas a testa manteve-se franzida. Ento, a equipe de vendas comeou a bater palmas, j que o micronibus chegara. Eu me senti muito desanimada.
      Cinco horas depois, j estvamos num recndito qualquer do Pas de Gales - um lugarzinho de nome impronuncivel, com um rio que parecia turbulento demais para 
a Gr-Bretanha. Era mais adequado para uma regio longnqua e extica. A gua, turva, entrecortada de grandes rochas, cobertas de musgo, parecia correr a uma velocidade 
alarmante.
      Durante a viagem, eu me sentara junto de Martin Sittingbourne, nosso representante de vendas mais velho e chato. Ele me contou sobre a me idosa, que vivia 
com ele; o hbito dela de colocar a dentadura no aqurio; as ondas de calor sentidas pela esposa e as dificuldades com a terapia de reposio hormonal; os filhos, 
que estavam na universidade, mas no passavam de uns vagabundos; o vizinho, que no suportava, por causa da enorme fileira de cipreste-de-layland que plantara ao 
lado do seu terreno. Fiquei sabendo que o cachorro de Martin, Sr. Monty, estava cheio de vermes e de problemas na prstata. Ainda bem que a de Martin funcionava 
direito, do contrrio eu ficaria sabendo de todos os detalhes. Acho que nem cheguei a abrir a boca, exceto por um ocasional ah nos momentos apropriados. Nem mesmo 
o muffin com recheio duplo de chocolate tornou a jornada mais prazerosa. De vez em quando, Paquera olhava para mim e sorria. Sabia perfeitamente como era Martin, 
e devia estar se divertindo  beca ao ver que eu era a atual vtima do sujeito. Teria sido mil vezes melhor ir ao lado do meu chefe - o que no chegava a ser um 
elogio, considerando a qualidade do seu rival.
      Eu mal podia esperar para sair do micronibus, s que, assim que chegamos ao nosso destino e vi a cabana precria e o tamanho totalmente inadequado do troo 
inflvel que iria levar a gente ao longo do rio turbulento, quis entrar no veculo e voltar para Londres. No sabia que era alrgica ao ar livre; s de ver o que 
me esperava, senti falta de ar.
      -Tudo bem, gata? - quis saber Paquera.
      -Tudo - disse, alegre. - Parece ser muito legal.
      -  superdivertido - informou-me ele. - J fiz canoagem no Nepal, no Peru e no rio Colorado. Voc vai adorar.
      Eu podia mesmo odiar esse cara.
      Um dos organizadores estava entregando macaces cor-de-laranja quando cheguei. Depois de me olhar de cima a baixo, ele me deu um, que fui colocar no vestirio 
frio e mido. Tirando a cala jeans, ajeitei a calcinha. Tinha tomado o cuidado, daquela vez, de deixar em casa a calcinha lils, de lacinho, optando por usar uma 
branca e confortvel. Tentei vestir o macaco laranja, mas estava difcil pass-lo pelas coxas... Minha Nossa, estava apertado demais! Por um lado, achei legal o 
sujeito responsvel pela roupa ter achado que aquele tamanho serviria em mim; por outro, eu corria o risco de impedir a circulao sangnea nos meus rgos vitais. 
Com muito sacrifcio, consegui meter as gordurinhas no macaco, tentando no perder nenhum centmetro de carne ao fechar o zper com a maior dificuldade. No sabia 
ao certo se deveria checar o resultado diante do espelho rachado, j que estava me sentindo como um misto de gari e laranja. Quando finalmente coloquei o colete 
salva-vidas, mal podia me mover.
      Andando feito uma pata-choca, eu me juntei ao grupo, que j estava entrando no bote. Aparentavam estar bem mais animados que eu. Seus macaces estavam folgados. 
Deram-me um capacete e um remo, que peguei com certa animosidade. Por que tnhamos que fazer aquele tipo de exerccio para estimular a confraternizao da equipe? 
Por que no podamos estreitar os vnculos num bar? Ou num spa, em um fim de semana, durante o qual nos conheceramos melhor fazendo as unhas? Apesar de eu no fazer 
a menor questo de ver os ps do Martin. Tentei bloquear a imagem e o rudo da corredeira. Por que aquela gua parecia to menos agradvel que qualquer outra que 
eu j vira? Quem, em s conscincia, iria se dispor a fazer aquilo? Fitei Paquera, que sorria para mim. Podia apostar que toda aquela maldita aventura fora obra 
de Aiden Holby.
      -Vem, gata - chamou Paquera. - Sente aqui, ao meu lado.
      No sei por que, isso me fez sentir melhor. Acomodei-me sem muita firmeza na lateral do bote. Aquilo no parecia seguro.
      - Enfie o p nessa tira - ordenou ele, apontando para uma faixa no fundo da embarcao, que no me deu a sensao de dar conta do recado. -Vai impedir que 
voc caia.
      Meus olhos se arregalaram de imediato. No imaginava que poderia cair da porcaria do bote! Isso acrescentou um novo terror  experincia, que eu no havia 
considerado antes. Meti o p na tira com tanta fora que provavelmente teria de ser amputado para ser retirado.
      Ento, sem mais nem menos, acabaram nos tirando da margem segura e nos empurraram na direo da torrente furiosa. Bastou o bote comear a sacudir de forma 
inofensiva no rio e eu j estava odiando o passeio. Deveria ter tomado algo, um remdio qualquer para enjo.
      - Fique atrs de mim - gritou Paquera. - Vou tentar proteger voc nas partes piores. Bote mais fora no remo, nos trechos mais difceis.
      Isso significava que aquele trecho no era difcil? Como previsto, logo adiante, com um movimento to brusco quanto o de uma atrao de parque de diverses, 
fomos levados pela correnteza at o meio do rio e o bote comeou a se mover de modo assustador.
      - L vem a primeira corredeira - gritou Paquera.
      Se pudesse escolher, preferia no saber disso. A brisa aumentou e senti o vento bater com mais fora no rosto quando a correnteza ficou mais forte. Comecei 
a gritar. Antes mesmo que qualquer coisa acontecesse, eu soltei o berro mais alto da minha vida. Ento, fomos jogados de um lado para outro pelas ondas, que se agitavam 
prximo aos penedos. Fui ficando cada vez mais encharcada. Pelo visto, o plano de Paquera de me proteger dos trechos piores do rio no dera certo.
      - Bote mais fora no remo - vociferou ele.
      Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, um jato de gua bateu no meu rosto, fazendo-me cair de costas no meio da embarcao. Parecia uma tartaruga emborcada, 
com pernas e braos virados para o ar. Aps ricochetear naquele trecho agitado, o bote finalmente foi mais devagar. A equipe gritou e soltou exclamaes de aprovao. 
Haviam enlouquecido? Paquera riu. Esticando-se, agarrou o cinto do meu colete salva-vidas e puxou-me do fundo do bote. Segurou-me at eu me equilibrar e voltar ao 
meu lugar.
      - No foi um barato? - perguntou, exultante. De jeito nenhum!
      - Uma curtio! - Minhas entranhas tinham virado picadinho. No entanto, antes que eu tivesse tempo de me recuperar, a brisa aumentou de novo. Soltei outro 
berro, antes mesmo de visualizar a corredeira seguinte.
      - Segure firme. Esta  mais forte - informou meu chefe. Ah, que timo!
      O primeiro jorro de gua entrou direto na minha boca, que, nem preciso dizer, estava aberta por causa dos gritos. Enquanto tossia, tentando evitar morrer engasgada, 
veio outro jato, que fez meu p sair da tira de segurana e me lanou para fora do bote. Senti estar sendo engolida pelo rio. Sabia nadar, mas quem disse que conseguia 
distinguir a superfcie naquela situao? Rodopiava sem parar e pude entender perfeitamente o que acontecia com o edredom quando o colocava na mquina de lavar. 
Emergindo, por fim, abri os olhos, pestanejando ao ver a face de Paquera bem diante da minha. De sbito, senti duas mos fortes me agarrarem, tentando me tirar do 
rio. Mas meu macaco se enrascou num penedo e me prendeu. Ele me puxou com mais fora e, assim que fui arrastada para o bote, ouviu-se o som de algo se rasgando.
      - Pensei que voc no ia escapar dessa, gata - comentou meu chefe.
      O capacete escorregara e, naquele momento, tapava meus olhos. O colete salva-vidas cobria quase toda a minha cabea e meu lindo macaco cor-de-laranja estava 
totalmente rasgado. No agentara o esforo de conter todas as minhas gordurinhas. Eu estava sentada na extremidade do bote, tossindo at no poder mais, com os 
pulmes cheios de gua, o corao partido, o tnis cheio de peixinhos e o traseiro exposto a quem quisesse ver.
      O rosto de Paquera estava perto do meu, com um largo sorriso.
      - Isso  o mais perto que voc vai chegar das minhas ndegas - disse-lhe, tensa, antes de cair no choro.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Vinte e Trs
      
      
      
      
      
 O
meu corpo todo doa, at a raiz dos cabelos. Quando o micronibus estacionou diante do escritrio, gemi muito ao me movimentar. -Vem, gata. - Paquera estendeu a 
mo, ajudando-me a sair do veculo como se eu fosse uma velhinha. Dormi durante todo o percurso de volta a Londres - emocional-mente exausta por quase ter morrido 
afogada. Como ningum mais cara na gua, o pessoal ficou cheio de si, dando tapinhas nas costas uns dos outros, comemorando com gestos amigveis. Eu odiava a todos. 
Sobretudo os que viram o meu bumbum de perto; por esses, meu desprezo era ainda maior. Na segunda, ligaria para a agncia e solicitaria uma mudana de emprego o 
mais rpido possvel.
      A equipe se despediu e, em seguida, desapareceu na escurido, deixando-me a ss com Aiden Holby na calada, naquela noite gelada. - O que voc vai fazer agora, 
gata? - perguntou-me. -Vou para casa tomar um longo banho quente.
      - Achei que, por hoje, voc j tinha ficado na gua por tempo suficiente - observou ele.
      - Engraadinho! - exclamei.
      Ele fez uma carcia suave no meu rosto, com o polegar.
      - Que bom que voc est bem!
      "Bem" significando que eu estava machucada, em estado de choque e totalmente humilhada, mas viva. Paquera teria que preencher um monte de formulrios para 
a empresa se eu tivesse batido as botas. Seria bem-feito para ele se eu tivesse morrido.
      -Vamos rachar um txi? - indagou ele. - Quero ter certeza de que voc vai chegar direitinho. Sabe-se l que infortnios podem acontecer entre o prdio da empresa 
e Camden!
      - No precisa dar uma de paladino - pedi, secamente. - Eu me viro. No se preocupe.
      - Para mim, no tem problema nenhum. Moro perto de voc.
      - Ah,?
      - Belsize Park.
      E, antes que eu esboasse alguma reao, ele chamou um txi e acomodou meu corpo dodo l dentro. Informei ao motorista meu endereo e o sujeito rumou, lentamente, 
at l. Fiquei sem saber o que dizer, j que nunca me vira numa situao to ntima com Paquera. No que sentar no banco de trs de um carro preto, meio sujo, fosse 
l muito profundo, mas sabem o que eu quis dizer. Estvamos meio prximos um do outro, sozinhos e tudo o mais. Eu, que havia morrido de frio a tarde inteira, aps 
a imerso no rio, me senti muito bem naquele momento. Enquanto eu permanecia calada, Paquera virou-se para mim e perguntou:
      -Voc se divertiu hoje?
      - No, no me diverti.
      Ele soltou uma gargalhada, achando que eu estava brincando. -Temos que combinar de voltar, algum dia.
      Nem pensar!
      - Seria timo!
      O txi estacionou diante do meu apartamento e continuamos ali, com o motor ligado.
      - Bom! - comeou a dizer Paquera. - Chegou a hora da despedida.
      - . - Ser que deveria convid-lo para tomar algo no meu apartamento? Ou pareceria que eu estava tentando lev-lo para a cama, o que no era minha inteno? 
Meu ap devia estar totalmente bagunado, e acho que nem mesmo leite tinha em casa. No entanto, havia uma venda ali perto, que nunca fechava. Eu poderia comprar 
o necessrio. Outra opo seria no tomar caf e comer chocolate; isso, eu sempre tinha na geladeira.
      Enquanto eu pensava em todas as alternativas, Paquera suspirou e se inclinou na minha direo. Durante alguns segundos, perguntei-me se ia me beijar. E se 
eu estivesse com bafo, por ter engolido peixes no rio? E, porque certamente isso deve ter acontecido.
      - Aonde vamos agora? - quis saber o taxista, no momento certo.
      Paquera, com os lbios prximos dos meus, informou o endereo. Ento, ele me deu um beijo na boca. S um selinho - mas, de qualquer forma, muito agradvel. 
Embora no tenha sido um beijo cinematogrfico, foi bem mais ntimo do que se poderia esperar de dois colegas de trabalho.
      - Ahn... Eu... E melhor eu ir andando - balbuciei. Ele me fitou de forma penetrante.
      -Voc  muito legal, Lucy Lombard - disse ele, com um sorriso sensual.
      - Obrigada!
      Sa do txi e fiquei na calada, observando-o afastar-se. Paquera continuou a olhar para mim, at sumir de vista.
      Fui at meu apartamento. Pois bem, o que eu deveria achar daquilo? Se meu crebro no estivesse to cheio de gua, talvez eu conseguisse refletir sobre o assunto. 
Destranquei a porta e joguei minhas coisas no cho. A secretria eletrnica estava piscando. Fui ouvir as mensagens.
      A primeira dizia: Oi, Lucy, aqui  o Jacob Lawson. Espero que se lembre de mim. Meu Deus! Ele ligou! No tinha certeza se o faria. Telefonei para dizer que 
a degustao de chocolate vai ser na tera. Se ainda quiser ir, ligue para mim. Meu nmero  blablabl. Fui eu que acrescentei o bl, no o Jacob. Seria precipitado 
ligar para ele de imediato? Afinal de contas, no era to tarde assim, s meia-noite. Com certeza no estaria dormindo quela hora. Pensando melhor, talvez estivesse. 
Uma degustao de chocolate na tera  noite! Dei alguns passos de dana, feliz, no meio da sala. Eu era mesmo demais por conseguir conquistar um cara como aquele. 
Teria que faltar  aula de ioga de novo e perder, mais uma vez, a postura do co com a boca voltada para baixo; entretanto, seria em prol de uma boa causa.
      A segunda mensagem era: Oi, Lucy. Aquela voz dispensava apresentao. Sou eu. Pensei em voc hoje. Ouvi um grande suspiro do outro lado da linha. Olhe, eu 
j a perdoei por ter estragado as roupas, o sof e o tapete. O pur com aafro nos sapatos foi um toque de mestre. Ser que ele j tinha descoberto de onde vinha 
o mau cheiro? Talvez no me perdoasse pelos pitus quando os encontrasse. Estou com saudades, Lucy. Sei que agi errado. E queria saber se poderia me perdoar tambm.
      Ca prostrada no sof e olhei fixamente para o telefone. Toda a euforia por causa do encontro com Jacob acabou. Marcus ligara. E quase implorara por meu perdo. 
E agora? No havia outro jeito: seria obrigada a ir para a cozinha e comer chocolate at chegar a alguma concluso. Ser que conseguiria perdo-lo? Nossos erros 
estavam, realmente, no mesmo patamar? Marcus partiu meu corao e eu sujei as roupas e os mveis dele.
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   
   
   
   Captulo Vinte e Quatro
   
      
      

 E
nto, era hora do almoo, no domingo, e eu, mais uma vez, convocara uma reunio com as participantes do Clube das Choclatras. Enviara mensagens para todas, que 
estavam a caminho. At mesmo Nadia, que convencera Toby de que seria timo cuidar de Lewis por algumas horas.
      Meu corpo estava ainda mais dolorido naquele dia, com hematomas em todas as partes. Uma xcara de caf quente e um brownie marmorizado, com chocolate branco 
e amargo, eram uma fonte de consolo. O sol brilhava l fora - um acontecimento rarssimo em qualquer estao na Gr-Bretanha - e o calor tnue que se sentia atravs 
da janela era reconfortante.
      Chantal foi a primeira a chegar; abriu a porta com ares de quem tinha uma misso a cumprir. Deixando-se cair no sof ao meu lado, sem prembulos, perguntou: 
- O que acha?
      Ela esticou a mo, para que eu a examinasse. No anular, exatamente onde deveriam estar, viam-se as alianas de noivado e casamento.
      - Conseguiu recuper-las? - Bati palmas, feliz por ela.
      - No seja tola! - repreendeu-me. - A vida nunca  to simples assim. A aliana de casamento custou 7,99, a de noivado, 19,99.  de vidro legtimo, no adulterado. 
- Ergueu o anel at a luz. - O original valia mais de dez mil libras. - Quase engasguei com o caf. - E eu me pergunto, sabe, por que pagamos to caro. Acha que 
d para notar?
      Para olhos pouco treinados, no creio que fosse possvel diferenci-los.
      - Comprei-os numa lojinha barata, de acessrios, l na Oxford Street. - Eu no imaginava que Chantal j ouvira falar naquela rua. Ela era do tipo que freqentava 
as lojas carssimas da Knightsbridge. -Voc acha que o Ted vai perceber?
      - No, desde que no olhe de perto.
      - Minha querida -- disse ela, soltando uma risada ansiosa -, a essa altura do campeonato, no tem o menor perigo disso acontecer, pode ter certeza! - Chantal 
examinou a bijuteria com mais ateno. - Temos bastante dinheiro na conta para que eu "faa um emprstimo" mdico, por algum tempo. Vou devolver tudo assim que der. 
Talvez aceite mais trabalhos como freelancer. Trinta mil libras j devem ser suficientes para comprar meus bebs de volta, ou, ao menos, imitaes de boa qualidade. 
Ted nunca vai descobrir.
      Ainda bem que no estava tomando outro gole de caf. Caso contrrio, eu o cuspiria por toda a mesa. Imagine ter grana suficiente no banco para tirar trinta 
mil paus sem o marido se dar conta de nada. Eu precisava de um marido assim. No entanto, gostaria tambm de um que dormisse comigo, de vez em quando.
      Autumn foi a prxima a dar as caras. No estava animada, como de costume; simplesmente chegou e se sentou com discrio numa poltrona. Parecia estar exausta.
      - Autumn, o que foi que houve?
      Meneando a cabea, como quem est cheio de tudo, ela explicou:
      - Meu querido irmo vai ficar algum tempo l em casa. Est passando por dificuldades. Digamos que no  um convidado muito fcil.
      Se ele estava irritando Autumn, devia ser um verdadeiro pesadelo.
      - Quer falar sobre isso? - perguntei.
      - No. - Ela deu um sorriso tenso. - Tomara que ele no fique muito tempo. Mas  timo poder contar com esses momentos longe de casa. O que vo pedir?
      -Vou querer um cappuccino e nozes cobertas com chocolate - disse Chantal, com firmeza, j se dirigindo ao balco para fazer o pedido. Autumn seguiu-a. 
      Quando estvamos nos sentindo melhor - com o nvel de acar devidamente recuperado depois de saborear nossos quitutes reconfortantes -, contei-lhes meu dilema 
com Marcus.
      - Ele ligou ontem e pediu que o perdoasse. S que eu estava penando na canoagem no Pas de Gales.
      - No. - exclamou Chantal, sem ao menos parar para pensar no assunto. -Voc no vai aceitar aquele crpula de volta, Lucy. De jeito nenhum!
      - Talvez ele tenha mudado. - Autumn tentou acalm-la. - Desta vez.
      - Faz s cinco dias que ela pegou o cara trepando com outra. Como pode ter mudado?
      O argumento de Chantal fora mais convincente. Autumn parecia ter se dado por vencida, embora ela mesma admitisse encontrar pontos positivos at mesmo nos viles 
dos filmes de James Bond.
      - E Jacob me convidou para sair - informei. Talvez no devesse comentar nada sobre o beijo no txi com Paquera; achei que complicaria demais as coisas.
      - V em frente! - incentivou Chantal. - Invista em novos horizontes. Mande o Marcus para o inferno! No ouse ligar para ele!
      Certo.  isso mesmo que eu teria que fazer. No ligue para o Marcus. No fale com ele. No agradea as lindas flores. E, sobretudo, nunca mais o veja. Simples 
assim. Mas por que meu corao se enchia de tristeza s de pensar num futuro sem ele?
      Antes que eu ponderasse mais a respeito das minhas perspectivas, Nadia chegou. Estava corada e resfolegante, como se tivesse corrido para chegar aqui.
      - Foi difcil sair de casa - explicou ela. - Puxa, mas como eu precisava disto.
      - Eu vou at l - disse Autumn, levantando-se para ir at o balco fazer o pedido de Nadia. - O que voc quer?
      -Tanto faz. - Ela suspirou. - Qualquer coisa. E um tremendo alvio estar aqui.
      - Sei o que vai cair bem - disse Autumn, indo at Clive.
      - Estvamos admirando as novas jias da Chantal - contei. Ns a colocamos a par, rapidamente, da transa e do roubo de nossa amiga, pois ela no fora ao nosso 
ltimo encontro. Os olhos dela ficavam cada vez mais arregalados  medida que amos contando a histria.
      -  Que idiota eu fui - comentou Chantal, amargamente. - Ento, agora vou ter que sacar trinta mil libras da nossa conta conjunta para substitu-las.
      Com isso, Nadia comeou a chorar.
      - Vai dar tudo certo - disse eu, abraando-a, intrigada. No achei que o problema de Chantal, por mais complicado que fosse, pudesse provocar tamanho desespero 
emocional. - J conhece a nossa amiga, ela dar um jeito.
      - Nadia no est chorando por isso - observou Chantal. - O que est acontecendo, querida? - Pegou um guardanapo e enxugou as lgrimas dela. - Lewis est bem?
      Ao ouvir o nome do filho, Nadia recomeou a chorar.
      Autumn voltou com um cappuccino e vrios doces para a amiga.
      - Ela no teria deixado o filho em casa se houvesse algo de errado com ele - afirmou, sentando-se de novo. - Ssh, ssh, calma... - sussurrou, reconfortando-a. 
- A situao no pode estar to ruim assim.
      - Est - disse Nadia, deprimida. Autumn empurrou a xcara de caf em sua direo e ela comeou a tom-lo, contendo o choro. Todas esperamos que se recuperasse. 
Por fim, ela tentou sorrir. - Eu no ia contar nada para ningum. Morro de vergonha!
      - Querida - disse Chantal -, acabei de transar com um pilantra que conheci num hotel e ele ainda me roubou. Existe algo mais constrangedor que isso?
      O comentrio quebrou a tenso e todas rimos  custa da nossa amiga, fazendo Nadia se sentir mais  vontade para prosseguir.
      - Eu e o Toby estamos endividados - revelou. - At o pescoo. - Evitando nossos olhares, ela se concentrou no caf e brincou com os chocolates no prato. - 
Devemos o aluguel, nossas contas de carto de crdito esto fora de controle, no tenho dinheiro sequer para comprar comida. - Lgrimas rolaram por seu rosto outra 
vez.
      -Toby est desempregado? - perguntei, com suavidade.
      - No  isso - disse ela, enxugando as mas do rosto. - Ele teria trabalho  vontade, se quisesse. - Nadia respirou fundo, trmula. - Acontece que  viciado 
em jogos na internet. Pronto! - Ela tentou sorrir. -  a primeira vez que conto isso para algum.
      Chocadas, todas ns a fitamos com solidariedade, enquanto ela procurava se recompor.
      - Ele passa horas na frente do computador,  noite, tentando ganhar, mas acaba aumentando ainda mais as nossas dvidas. No posso nem falar do assunto com 
ele. Acha que podemos sair dessa se continuar jogando, pois pensa estar prestes a ganhar uma bolada. Acontece que essa situao vem se arrastando h anos e a situao 
s piora.
      - Ah, Nadia! - Autumn lhe deu um abrao apertado.
      - Enquanto isso, no tenho mais a quem recorrer - explicou Nadia. - J refinanciamos a casa duas vezes para pagar dvidas. Ento, ns comeamos tudo de novo. 
Agora o banco se recusa a emprestar mais dinheiro. Estou pensando em procurar um agiota. No sei mais o que fazer.
      - Quando voc disse "ns", acho que quis dizer "Toby" - observei.
      - Que babaca. - exclamou Chantal.
      - Eu o amo! - disse Nadia, de forma categrica. - Estamos nisso juntos. No sei se a jogatina  uma espcie de doena, mas acho que ele no consegue se controlar 
sozinho. Quero ajud-lo. Tenho que ajud-lo!
      No quis parecer crtica, mas no resisti e perguntei:
      - No pode voltar a trabalhar?
      - E o que eu gostaria de fazer, mas ele no quer nem ouvir falar nisso. Diz que vamos gastar todo o meu salrio com a creche. Eu realmente no tenho ningum 
que possa ficar com o Lewis. Toby odeia a idia de deixar o nosso filho numa escolinha o dia inteiro. J cheguei a pensar em procurar minha famlia e pedir ajuda, 
mas eles no entenderiam.
      Ou talvez entendessem at bem demais, pensei.
      - Voc no pode trabalhar - disse Chantal. - No no estado em que est. Precisa recuperar as foras, para s ento pensar num emprego. Quanto vocs esto devendo?
      As mos de Nadia tremiam. Perguntei-me como conseguira manter isso em segredo. Ela deu um sorriso desanimado.
      - Trinta mil libras - respondeu. - Foi o que me fez chorar. Achei que era uma ironia, sabe, ser a mesma quantia que voc vai gastar com jias...
      Creio que todas ns percebemos a incongruncia - at mesmo Chantal, e vocs sabem como so as norte-americanas no que diz respeito a isso. Bom, aquilo com 
certeza pusera o meu dilema com o Marcus no devido lugar.
      - Voc pode ficar com esse dinheiro - disse Chantal. - Pode ficar com ele. - Todas ns nos viramos para fit-la. -  a nica forma! - afirmou, retribuindo 
nossos olhares surpresos. Era mesmo o jeito de Chantal. Nadia ficou muda. - Mas tm algumas condies. V para casa e cancele a conexo de internet. Hoje mesmo!
      -Toby nunca aceitaria isso! - explicou Nadia.
      - Diga para ele que voc no vai mais admitir que ele jogue. No ser nada fcil. Ter que ser dura com o seu marido, at ele reconhecer que precisa de ajuda.
      - Mas da ele no vai comear a freqentar outros lugares, para usar a internet?
      - Pode at ser, mas, pelo menos, ser mais complicado para ele.
      - O engraado  que chequei alguns dos sites preferidos dele, e todos tinham links diretos com o No  Jogatina. O que deveria ter surtido algum efeito sobre 
ele. - Nadia meneou a cabea, com tristeza. - No somos a nica famlia assolada por essa dependncia.
      Chantal se inclinou para pegar a bolsa.
      - Vou fazer um cheque para voc agora mesmo. Eu ia retirar o dinheiro aos poucos, para disfarar, mas no estou nem a. Voc est precisando muito mais do 
que eu. - Esticou a mo, admirando com orgulho o anel com a pedra de vidro. - O jeito vai ser me contentar com as falsas, por enquanto.
      Os lbios de Nadia comearam a tremer de novo.
      - No tenho nem palavras.
      - Depois, precisa conseguir um emprego - insistiu Chantal. - No d ouvidos s objees de Toby. Tem que trabalhar para aumentar a auto-estima e ter mais estabilidade. 
No estou preocupada com a grana; pode me pagar quando puder. Sou uma agiota boazinha. - Riu, com carinho, para a amiga. - Aceito quantias menores.
      - No pode fazer isso, Chantal - disse Nadia. -  muito dinheiro.
      - E para isso que servem as amigas - afirmou, de forma despreocupada, ao assinar o cheque com afetao. - Saque esta quantia, amanh cedo. - Colocando a folha 
na mesa, ela a empurrou na direo de Nadia. - Eu insisto.
      - Posso ficar algumas vezes com o Lewis quando voc conseguir trabalho - ofereceu Autumn. - Meu horrio  flexvel. Desse modo, no vai gastar tanto com a 
creche e ele ficar com algum de confiana.
      Nadia desistiu de conter o choro.
      - No mereo vocs! - disse, aos prantos.
      Todas estvamos com os olhos marejados de lgrimas.
      - Em que posso ajudar? - perguntei. - No sei cuidar de crianas, tampouco tenho dinheiro sobrando. Eu me sinto uma verdadeira intil. - Na verdade, o saldo 
da minha conta bancria estava no negativo, embora no tanto quanto o de Nadia. Minhas dvidas eram irrisrias, comparadas com as dela. - Em que posso ajudar?
      - Voc  um amor, Lucy - afirmou Autumn. -  por sua causa que estamos juntas.
      Ns nos abraamos em torno da mesa.
      - Por que no vai pegar mais uns docinhos para a gente? - sugeriu Chantal.
      - Isso  o que eu chamo de uma boa idia! - disse eu.
      
      
   Captulo Vinte e Cinco
      
      
      
      
      
 A
 notcia de que eu tinha me aventurado na canoagem e na confraternizao da equipe com as ndegas  mostra se espalhara depressa pelas salas da Targa. No eram nem 
dez da manh e, toda vez que eu passava, inocentemente, por alguma mesa - qualquer que fosse -, ouvia risadinhas dissimuladas. Seria bem difcil manter a cabea 
erguida naquele lugar at a hora do almoo. Alm disso, se a situao continuasse daquele jeito, eu acabaria devorando todo o meu kit de emergncia de chocolate. 
Fui at a mquina automtica de caf, onde Helen, do Departamento de Recursos Humanos, foi me abordar.
      - Lucy! - exclamou no tom de voz tpico, falso e amistoso demais, usado pelas velhas rabugentas daquela rea. Como elas aprovavam os registros de horrios 
que eram enviados at minha agncia mensalmente, desempenhavam um papel importante para mim; assim sendo, eu fingia gostar delas. Abri a boca de modo a formar o 
que poderia ser considerado um sorriso em algumas partes do mundo. - Meu Deus! J soube do inferno que foi a canoagem! Com toda certeza!
      - Disseram que foi salva por Aiden Holby! Isso mesmo.
      - Ele a tirou da gua? E verdade que voc ficou sem o macaco? Ele ps mesmo a mo na sua bunda?
      Tirou. Pode-se dizer que sim. No, s olhou.
      - Ele  um gato! - prosseguiu Helen, sem se dar conta de que eu no dissera sequer uma palavra. Suspirei e digitei um cdigo para pegar minha bebida naquela 
imitao barata de ponte de comando de Jornada nas Estrelas. Por fim, depois de desvendar a senha do computador, um fio tnue de lquido escuro comeou a cair numa 
xcara de plstico. - Eu tambm no deixaria aquele gostoso sair da minha cama, mas  bom voc tomar cuidado - disse ela, rindo. - Ele est saindo com a Donna, 
do processamento de dados. Ela vai ficar fula da vida se descobrir o que anda acontecendo.
      Saindo com Donna, do processamento de dados? Fiquei sem flego. Paquera estava namorando outra mulher? E a moa ficaria sabendo do nosso pequeno incidente, 
j que ele era um segredo to bem guardado? No foi exatamente idia minha me jogar numa corredeira s para que o Sr. Aiden Holby provasse que era um tremendo super-homem, 
no  mesmo? Mas Donna, do processamento de dados, teria todo o direito de se chatear se ficasse sabendo que ele fora meio atrevido no banco de trs do txi. Que 
cretino! Divertindo-se  minha custa, saindo com outra naquele nterim!
      Com Helen prestes a digitar a combinao requerida por sua bebida, aproveitei a oportunidade para dar o fora dali, enquanto ela ainda estava entretida.
      Eu j me encontrava sentada  minha mesa, tomando seja l o que fosse que consegui tirar da mquina e devorando sem a menor d um Toffee Crisp, quando Paquera 
entrou e acomodou-se na borda da mesa. Seus cabelos estavam desgrenhados e eu adorava quando ficavam assim. Davam a impresso de que ele tinha acabado de cair da 
cama. Entretanto, no queria gostar deles naquele dia.
      - Seus hematomas j desapareceram, gata?
      - Estou ocupada - disse, secamente, enquanto buscava na gaveta algo que desse a impresso de que eu estava trabalhando. - E no me chame de "gata".
      - Ah. Quer dizer que estamos meio azedos hoje. Hormnios?
      - D um tempo!
      - Como est se entupindo de chocolate desse jeito, deve estar no perodo pr-menstrual.
      - Ah, e voc  um grande especialista no assunto, no  mesmo? - Parei de "me entupir" de chocolate. - Pois a  que se engana. Est redondamente enganado.
      - Ento, se no est enfrentando dificuldades hormonais, por que o mau humor?
      - No estou de mau humor.
      - Olhe, dessa rea eu at que entendo. E est, sim, aborrecida. Na verdade, acho que nunca vi uma gatinha to arredia.
      Fiquei calada, mas fiz o possvel para no deixar transparecer nenhuma emoo.
      - Por acaso tem a ver com sua introduo  canoagem? - perguntou ele.
      Eu fiquei calada, mas comecei a dedilhar, com fora, o teclado do computador.
      - Sei que o pessoal do escritrio est se divertindo com essa histria hoje, mas, a meu ver, acho que voc se saiu muito bem. Eu diria que tirou dois, de dez, 
no quesito habilidade -- disse ele, srio. - Mas, com certeza, ganhou dez com louvor em interpretao artstica.
      - Some daqui!
      - No saio at voc me contar o que houve. Parei de digitar e me inclinei sobre a mesa.
      -  Por que no me disse que estava saindo com algum? - Paquera pareceu ficar intrigado. - Quando me deu um beijo no txi, eu no sabia que voc andava com 
outra.
      -Teria feito diferena?
      - Claro que sim! Eu no teria deixado.
      - Voc no me deixou - retrucou ele. - Ficou l, imvel. Lindamente inexpressiva. - Eu no pude contestar meu chefe, j que era uma descrio bastante adequada. 
- E, na verdade, no estou saindo com ningum.
      Naquele momento, sabia que o tinha pegado. Cruzei os braos.
      - E a Donna, do processamento de dados?
      - Ah, a Donna. - Ele esfregou o queixo. - Ns samos, sim, uma vez, faz umas trs semanas. Foi um desastre. Mas ela no caiu na gua nem mostrou o bumbum; 
ento, talvez no tenha sido to ruim assim. Chegamos a falar em sair de novo. Mas no creio que faamos isso.
      - Ah. - Fiquei sem saber o que dizer. Pelo visto, a informao da Helen no era muito precisa. Seria de pensar que as velhas rabugentas, ao menos, estivessem 
a par de tudo.
      - Ento,  esse o problema? Quer sair comigo?
      - No! - balbuciei.
      - Podemos combinar, se quiser.
      - Eu j disse que estou saindo com algum.
      - Sei. Dormi no ponto e o barco partiu. Ou seria melhor dizer bote? - Soltou uma gargalhada, rindo da prpria piada.
      - D o fora! Procure outra vtima para encher o saco! Ele comeou a se retirar, ainda dando risadas.
      - A propsito, gata, acabou de digitar isithfirip tiggh splink plart. Quer que eu encontre um trabalho de verdade para voc?
      Fiquei rubra. No suportava aquele cara. E, para provar isso, meti a mo na bolsa, procurei o refinado carto de Jacob Lawson e liguei para ele.
      
      
      - Oi, Jacob - disse eu, quando ele atendeu. -  a Lucy Lombard. Recebi seu recado. Seria timo encontrar voc amanh, se ainda puder ir.
      
      
      
      
      
   Captulo Vinte e Seis
      
      
      
      
 U
m encontro no Hotel Savoy era muito melhor que ir at minha aula chatrrima de ioga. Em homenagem  ocasio, usei o carto de crdito de tarde, para comprar um vestido 
preto de alcinhas, justo e provocante, de preo bem salgado para o meu oramento. Coloquei sapatos estilo Chanel, pretos e sensuais, e um bolero de pele sinttica. 
At eu achei que minha aparncia estava tima, quando entrei, cambaleando, na recepo do hotel para me encontrar com Jacob. Estava  altura de Scarlett Johansson 
- mesmo sem os lbios cheios e rubros.
      Meu companheiro j estava l, apesar de eu ter chegado no horrio, para variar um pouco. Eu tinha muitas qualidades, mas pontualidade, definitivamente, no 
era uma delas.
      - Oi! - Jacob me deu um beijo no rosto e me entregou uma rosa vermelha. Um gesto to romntico que eu quase desmaiei. Ningum tinha agido daquela forma comigo 
antes. O Marcus, ento, nem pensar. -Voc est tima! - elogiou ele.
      - Obrigada. - Ele tambm estava bem-arrumado. Usava um terno preto, com uma camisa desabotoada no colarinho. Era bvio que malhava e tinha um leve bronzeado, 
incomum naquele clima. Embora fosse louro, transmitia um ar de gigol italiano, no bom sentido.
      - J reservei uma mesa. - Segurando-me pelo brao, ele me conduziu at a varanda, da qual se viam as guas cinza-azuladas do rio Tmisa. Ns nos sentamos a 
uma mesa prxima ao piano. O pianista tocava uma balada romntica. Se no me engano, "Some Enchanted Evening", de Rodgers e Hammerstein. Uma garrafa de champanhe 
rose j estava gelando no balde. Havia delicados bolinhos, chocolates e trufas em uma bandeja de trs andares, para degustao.
      - Boa-noite, Sr. Lawson - disse o garom. - E bom v-lo de novo.
      Jacob enrubesceu um pouco, o que me pareceu charmoso. Quer dizer que aquele era um dos seus redutos preferidos? Estranho. No o tomava como um freqentador 
do Savoy; tinha mais jeito de cliente do Fifteen ou do Oscars, lugares onde celebridades secundrias se encontravam. Observei a decorao opulenta: belos lustres 
de cristal no teto, espelhos com detalhes em vitral e flores enfeitando paredes. Autumn adoraria aquilo. Um imenso ramo de orqudeas decorava a parte central do 
recinto. A msica do piano era relaxante. Ouvia-se um leve burburinho - nada de gargalhadas ou ritmos pesados. Tratava-se de um local luxuoso, aonde meu companheiro 
ia com assiduidade. Hum. Intrigante.'
      O garom nos descreveu os doces. Havia torta-musse de chocolate branco com hortel fresca e cobertura de creme de framboesa; trufas orgnicas, preparadas com 
cacau de Madagascar, meu favorito, nos sabores de ch de jasmim, maracuj e limo-galego, desidratados ao sol no Ir. A descrio j estava me deixando em xtase. 
Nossas taas foram servidas de champanhe. Quando Jacob passou a minha, brindamos.
      - A ns - disse ele.
      - A ns - repeti, sonhadora.
      Aquele era o tipo de degustao de que eu gostava - nenhuma perda de tempo com aperitivos e prato principal, e o consumo imediato do que interessava: sobremesas! 
Comeamos a saborear o chocolate e, para ser franca, eu me senti no paraso. Chocolate, champanhe e um cara legal - que mais uma mulher podia querer? E nessa ordem! 
No seria difcil me acostumar com isso.
      Jacob soltou exclamaes de prazer ao provar os muffins de chocolate.
      - Este  o meu pior vcio - assegurou-me ele. - Por isso tenho que malhar muito na academia.
      -Voc me disse que trabalhava na indstria do entretenimento? -Tome, prove este. - Passou-me um dos muffins. - No est maravilhoso?
      - Em que rea voc trabalha?
      - Ah - disse Jacob -, meu trabalho  muito chato. No vai querer que eu fale dele.
      - Seria timo!
      - Lido com a parte de servios.
      - Relacionamento com clientes?
      - Esse tipo de coisa - assentiu. - Mas preferiria falar de voc. A questo era que meu trabalho com Paquera tambm era chato.
      Eu mencionei Paquera? Foi sem querer. No ia pensar nele, nem no Marcus, tampouco em qualquer outro cara, alm daquele homem incrvel ao meu lado. O que ser 
que minhas amigas pensariam se me vissem naquele momento? Ficariam embasbacadas. At eu precisava me beliscar para me assegurar de que era real. Fazia sculos que 
eu no passava uma noite to romntica.
      - Obrigada, Jacob - disse, com sinceridade. - Foi uma tima idia.
      - No h de qu! Achei que tinha encontrado outra viciada quando nos conhecemos no Paraso do Chocolate. - E acertara em cheio. - Agora prove este aqui - sugeriu, 
oferecendo-me outro bolinho, os dedos curvando-se sobre os meus. - Dos deuses! - exclamou ele, num tom de voz afetado, beijando os dedos com um gesto teatral.
      Ri de sua brincadeira e saboreei o creme de chocolate suave e a massa extremamente delicada. Meu companheiro maravilhoso quis saber:
      - No est timo?
      - Maravilhoso! - Realmente, estava mais que divino. Clive teria um orgasmo se provasse algumas daquelas criaes. Ento, Jacob inclinou-se e deu-me um beijo 
suave e sensual na boca. Eu mesma estava quase nas nuvens.








Captulo Vinte e Sete



      
 C
onforme o combinado, Nadia fora descontar o cheque de Chantal assim que o banco abrira, na manh de segunda-feira. Abrira uma conta separada para depositar o dinheiro, 
apenas no seu nome. Toby no ia gostar nada disso, mas, de qualquer forma, no sabia de nada. Nadia ainda ia desconectar a internet do computador, o que deveria 
acontecer a partir daquele dia. Embora Chantal achasse que era melhor partir para a briga, Nadia preferia a ttica sutil - embora tivesse de admitir que fora condescendente 
demais nos ltimos anos. Aquela dependncia do jogo acabaria de uma vez por todas. Ela se certificaria disso, mas tentaria faz-lo com o menor sofrimento possvel.
      Nadia jamais imaginara que as amigas do Clube das Choclatras a apoiariam daquela forma. O que comeara como simples divertimento e interesse comum pelo mundo 
do chocolate acabara se tornando sua tbua de salvao. Agora no sabia o que faria sem elas. O alvio que o emprstimo de Chantal lhe trouxera era indescritvel. 
Podia parecer clich, mas Nadia sentiu, de fato, que um peso lhe fora retirado dos ombros. Externamente, a amiga era glamourosa e reservada, mas, por dentro, tinha 
o corao de ouro. Era impressionante pensar que sequer hesitara em lhe oferecer dinheiro. Agora Nadia poderia liquidar todas as dvidas e recomear. S que, dessa 
vez, ela controlaria as contas. Cancelaria todos os cartes de crdito e s usaria dinheiro. Era a nica forma de os dois sarem daquele buraco. Agora, tudo o que 
tinha a fazer era contar a Toby.
      Ela dera uma olhada nos classificados do jornal,  tarde, e encontrara inmeros empregos aos quais podia se candidatar. O marido teria um ataque quando soubesse 
disso, mas no lhes restava escolha. Chantal, no entanto, no estava de todo equivocada: Nadia no poderia trabalhar naquele momento. No por causa de sua condio 
fsica, mas por seu estado emocional. Fazia trs anos que no trabalhava e sua auto-estima andava muito ruim. Se no lidasse com essa questo logo, ento, no teria 
coragem de voltar para o mercado. As nicas conversas entre adultos de que participara nos ltimos tempos haviam sido com as amigas e - em rarssimas ocasies - 
com Toby. Seu crculo social diminura consideravelmente desde que decidira ficar em casa para cuidar de Lewis.
      Nadia guardaria uma parte do dinheiro de Chantal para ajudar a pagar os primeiros meses de creche - e seria timo se Autumn pudesse mesmo ajud-la. Apesar 
de a amiga no estar muito animada ultimamente. Nadia esperava que no estivesse enfrentando algum problema sozinha, como ela prpria fizera. "Alegria compartilhada 
 dupla alegria; dor compartilhada  meia dor", j diz o provrbio. Assim que ajeitasse sua vida, reservaria um tempo para ajudar Autumn com seja l o que fosse 
que a estivesse incomodando.
      Toby chegaria do trabalho em breve, e Nadia j dera banho em Lewis, que estava de pijama, pronto para ser ninado pelo pai enquanto ela preparava o jantar. 
Talvez no fosse to boa me assim, j que tinha feito uma chantagem com o filho: usara biscoitos de chocolate para convenc-lo a ficar pronto mais cedo que de costume. 
Foi timo poder ir ao supermercado, ficar na fila do caixa e saber que haveria saldo no banco.
      Naquela noite, prepararia um dos pratos favoritos de Toby, uma comida indiana. Comprara frango, ervas frescas e temperos. Queria que ele ficasse de bom humor 
antes que ela lhe informasse que seus dias de apostador estavam contados.
      Quando o marido chegou, deu-lhe um beijo caloroso. s vezes, Nadia vislumbrava o Toby por quem se apaixonara. Ainda se encontrava ali, em algum lugar - s 
esperava poder ach-lo, antes que fosse tarde demais. Os dois se conheceram quando Toby fora fazer a instalao do novo banheiro da casa de uma amiga de Nadia - 
no fora um comeo romntico, o que no significava que se amavam menos por causa disso. Apesar de toda a oposio da famlia dela, no hesitara em ficar com ele. 
De forma alguma desistiria dele sem antes lutar. Esperava que ele se sentisse assim tambm, no que dizia respeito a ela.
      Toby pegou Lewis no colo.
      - Quem  o garoto do papai?
      - Eu! - respondeu Lewis, com orgulho. - Hoje eu desenhei um anjo com um corao azul.
      - Para mim?
      Toby colocou-o no cho, para que fosse buscar correndo o desenho, a fim de mostr-lo para ele. Nadia j o tinha visto, quando fora pegar o filho na creche. 
S que Lewis lhe dissera que era um cavalo. No parecia nem um nem outro. Ela esperava que ele desenvolvesse outros talentos, j que no tinha muito jeito para pintar 
seres celestiais e formas eqinas.
      - No quer ler uma histria para o Lewis e coloc-lo para dormir? - sugeriu Nadia.
      - Oba! - gritou o filho.
      - E eu l tenho escolha? - perguntou o pai, rindo. Era bom ver que ele estava de bom humor naquela noite. -Vou terminar o jantar. No demore muito.
      -Vamos ver quem entra no quarto primeiro, campeo! - desafiou Toby. - Quem chegar por ltimo  um bobo!
      Subiram correndo as escadas, enquanto Lewis gritava:
      - Bobo! Bobo! Bobo!
      Ela tinha que lembrar a Toby que aquele devia ser um momento sossegado, um ritual tranqilo, antes de dormir. Sorriu. O marido era um bom pai, sob vrios aspectos. 
Quem sabe, se os trs comeassem a sair mais juntos, no seria mais fcil para ele deixar de lado os cassinos da internet, que tanto o dominavam?
      Depois de comerem, Nadia tirou os pratos e se sentaram  mesa, tomando caf.
      - O Lewis adora quando voc chega a tempo de p-lo para dormir.
      - E um timo garoto - disse Toby. - Embora eu seja suspeito para dizer isso...
      - Mas ele  mesmo. E quero que a gente se esforce ao mximo para proporcionar um futuro seguro para o nosso filho.
      O semblante de Toby se fechou.
      - No vamos comear a falar de jogo...
      -Vamos sim, Toby. Eu desisti de muita coisa para ficar com voc. - O amor e a afeio de sua famlia encabeavam a lista. Depois, vinha o excelente emprego. 
s vezes, ela achava que tinha abdicado da sua sanidade tambm. - No posso cruzar os braos enquanto voc destri tudo o que temos. Tomei providncias para que 
possamos nos livrar das dvidas. Pedi um emprstimo. - O marido no precisava saber que fora de sua amiga, Chantal. - Podemos saldar tudo e recomear. -Toby fez 
meno de protestar, mas ela no deixou. - Estou saldando as dvidas. Consegui algum para ficar com o Lewis enquanto volto a trabalhar. Autumn vai ajudar a gente. 
- O marido permaneceu ali sentado, boquiaberto, com expresso de incredulidade no rosto. - Quero que me ajude, Toby. No vale a pena fazer isso se voc desperdiar 
o nosso dinheiro no vinte-e-um, na roleta ou sabe-se l em que outros jogos on-line. - Ele continuou calado. Ela respirou fundo. - A partir de hoje, a conexo de 
internet ser cortada, para que voc no possa jogar aqui em casa. -Toby pestanejou. - E vou cancelar nossos cartes de crdito, para no nos endividarmos mais. 
Se quiser que eu e Lewis fiquemos aqui, vai ter que concordar em procurar ajuda. Existem instituies que podem ajudar voc, e eu tambm quero ajud-lo.
      Quando terminou de falar tudo o que queria, levantou os olhos e viu que o marido chorava, em silncio. Contornou a mesa e abraou-o.
      - Sinto muito - lamentou Toby. - Sinto muito.
      - Ns vamos conseguir superar as dificuldades. E vamos super-las juntos.





   Captulo Vinte e Oito
      
      
      
      
      
 C
hantal estava na internet, em seu confortvel escritrio em casa. Ted ainda no voltara do trabalho, mas ela j terminara o servio fazia horas. Havia salmo para 
grelhar, brotos de aspargos e salada. Assim que o marido chegasse, ela prepararia o jantar num piscar de olhos. Uma garrafa de Sauvignon Blanc de boa qualidade gelava 
no refrigerador. Ela comprara uma torta de chocolate pequena e deliciosa no Paraso do Chocolate, onde parar por alguns instantes a caminho de casa; essa seria 
a sobremesa. Tirara os sapatos e estava tomando ch, enquanto consumia distraidamente um tablete de Munchies, chocolate com biscoito e caramelo, para enganar a fome 
at o jantar. A teoria era que, se comeasse a agir como uma esposa modelo, Ted no examinaria a conta bancria e no encontraria o rombo em suas finanas. Ela afastou 
o pensamento. No havia a menor possibilidade de ela gastar aquele dinheiro com jias - independente de quo importante elas fossem - quando Nadia parecia to desesperada. 
A amiga, sem dvida alguma, agonizava. Chantal esperava que aquela quantia a ajudasse a controlar a dependncia em jogo do marido e a pr a famlia no rumo certo. 
Tinha conscincia de que, se Nadia no conseguisse, nunca mais veria a cor daquele dinheiro. Mas, se isso tirasse a amiga do sufoco, valeria a pena correr o risco.
      Observando a tela diante de si, Chantal percebeu que o marido de Nadia no era o nico com um vcio grave. Fazia uma semana que ocorrera o fiasco com o sujeito 
no hotel. Seria de pensar que ela ainda estaria se lamentando, mas, muito pelo contrrio, l estava ela, navegando na internet em busca de torsos masculinos. No 
podia evitar, pensava em sexo cada minuto que passava acordada. E, quando dormia, sonhava. Na noite anterior, Daniel Craig, o James Bond mais recente, passava sorvete 
de chocolate derretido no seu corpo - e ela nem era f desse ator. Anteontem, fora a vez de Russell Crowe. Chantal sentia estar enlouquecendo, aos poucos. Sua necessidade 
de alvio fsico parecia aumentar em proporo direta  falta de sexo em sua vida. Como  que as freiras faziam? Como se viravam as pessoas que viviam sozinhas? 
Ser que a libido delas ia diminuindo, de modo que se contentavam com uma boa xcara de chocolate quente  noite? No era o que acontecia com ela. Quanto menos Ted 
a desejava, mais ela o queria. E, se ela no podia contar com ele, ento precisava obter sua quota de prazeres sexuais em algum lugar.
      As amigas, no entanto, tinham razo. Era perigoso pegar estranhos em bares. Loucura. Ela prometera a elas - e a si mesma - que no faria mais isso. E manteria 
a palavra. S que acabara tendo uma idia que, talvez, solucionasse seu problema.
      Digitou a palavra prostitutos no Google, mas tudo o que achou foram trabalhos acadmicos lidando com a histria da prostituio masculina e assuntos relacionados 
- no os sites excitantes que esperara encontrar. "Gigol" trouxera  tona milhes de referncias do abominvel filme Gigol Europeu por Acidente e diversos produtos, 
que vinham com pilha e embalagens de papel marrom. A profisso de gigol, ao que tudo indicava, estava em vias de extino.
      Depois de muita pesquisa, Chantal chegou  concluso de que "acompanhante masculino" era o termo correto para o garanho de aluguel. Ao digitar "acompanhantes 
masculinos hteros", conseguiu reduzir a quantidade de. ocorrncias, eliminando as pginas da web com sites de homossexuais, nas quais caras malhados e sarados ofereciam 
seus servios - se voc fosse homem, claro. Mas ela foi obrigada a admitir que alguns dos gatos expostos eram muito atraentes. Com persistncia, acabou achando um 
dos poucos sites que realmente parecia atender somente a mulheres. O nome era de matar - Maches - e a propaganda mostrava um sujeito pelado, com uma cobra enrolada 
nos ombros, segurando uma ma na frente das partes ntimas. Mas, afora a cafonice, parecia bastante profissional. Anunciava servios sofisticados para executivas; 
no entanto, Chantal duvidou disso. Pois o tipo de mulher que podia pagar cerca de duzentas libras por hora a um acompanhante, fora o custo do quarto do hotel, tinha 
de ter muita grana  disposio.
      Chantal dedilhou o teclado. Ser que deveria se registrar? Talvez fosse mais seguro contratar um sujeito por algumas horas, em uma agncia, do que pegar algum 
em um bar. Certamente isso a protegeria do tipo de situao em que acabara de se meter - ele no iria roub-la logo depois, iria? Perguntou-se quantas mulheres usavam 
aquele tipo de servio atualmente. Mulheres que seguem uma carreira e no tinham tempo de lidar com casa, filhos e companheiros necessitados? Fazia anos que os homens 
participavam daquele jogo - recebendo prazer das mulheres como um acordo de negcios. Seria assim to estranho que a profisso mais antiga estivesse agora  disposio 
das mulheres tambm?
      Pela lgica, era o mais sensato a fazer. No se tratava de um encontro casual, com todos os riscos envolvidos, mas de um acordo profissional. Ele no a rejeitaria, 
nem se mandaria com a sua bolsa, depois. Fora checado pela agncia. Chantal sups que o acompanhante seria asseado, bem-apessoado e, o que era mais importante, bom 
de cama. Fazia tempo que Chantal separara as emoes do prazer sexual - outra caracterstica considerada exclusivamente masculina. Mas pagar por sexo? Conseguiria 
mesmo fazer isso? Passou a unha bem cuidada pelos lbios, perdida em pensamentos. Quantas outras mulheres estariam em casa, fazendo a mesma coisa? Seu lado de negociante 
queria saber quantos acessos aquele tipo de site obtinha por ms. Era um negcio em expanso ou a maioria das mulheres se negaria a fazer isso? E ela? Como se sentia?
      Chantal tentou pensar com clareza, mas no conseguiu evitar a sensao de prazer que se espalhou por seu corpo diante daquela perspectiva. Tomou uma deciso. 
Tentaria uma vez e, se no desse certo, simplesmente daria o fora. Podia fazer isso. Era simples assim.
      Comeou a avaliar a lista de acompanhantes, nas fotos em cores, com poses provocativas, da seo romanticamente intitulada Avalie Antes de Comprar. Gemidos 
de desaprovao perpassaram pela mente de Chantal quando ela leu alguns dos nomes usados pelos acompanhantes: Garoto Caramelo, Cigano Caliente, Pepino Dourado, Menino 
de Ao. Foi passando as fotos, avaliando todos. Ento, um dos caras, autodenominado Jazz, chamou sua ateno. Com seus cabelos de tom louro-escuro e abdmen sarado, 
ele deixara de ser menor de idade havia muito tempo. Devia ter uns trinta e poucos anos, sendo bem mais maduro do que os demais acompanhantes - alguns dos quais 
pareciam estar mentindo a respeito da idade e de outros atributos. Passar algum tempo com Jazz seria divertido. Era excitante fazer aquilo, Chantal sentiu-se aventureira 
e ousada. Ser que era esse tipo de sensao que levava o marido de Nadia a jogar de forma compulsiva?
      Antes de parar para pensar, ela clicou no cone ao lado do nome de Jazz. Uma tela em branco de e-mail se abriu, com o contato do rapaz. O que ela deveria dizer? 
Ser que tinha que dar detalhes a respeito de si mesma? Chantal deu de ombros e digitou: Gostaria de me encontrar com voc assim que possvel. No precisava ser 
mais complicado que isso. Seria melhor dar seu nome verdadeiro? Claro que sim. O endereo de correio eletrnico j a denunciava. Ela assinou Chantal sob a frase 
e clicou em "Enviar". Agora, s teria de aguardar a resposta de Jazz. Sorriu para si mesma e desligou o computador. Esse seria seu segredo. No contaria s amigas 
de jeito nenhum - elas a matariam.
      
      
      
      
   Captulo Vinte e Nove



      
      
 T
inha sido um dia complicado para Autumn. Os adolescentes de olhos entorpecidos haviam sido mais hostis do que de costume durante a aula. Uma jovem tentara cortar 
a outra com um pedao de vidro colorido, por causa de uma suposta ofensa, e Autumn fora obrigada a apartar as duas, que acabaram se agarrando de modo ferrenho. Em 
virtude de seus esforos, ficou cheia de arranhes profundos nos braos. Alm disso, ainda teve de lidar com o costumeiro calhamao de papis que devia ser preenchido 
quando ocorriam incidentes dessa natureza. As vezes, perguntava-se por que trabalhava naquela rea. Os adolescentes gozavam de seu sotaque pedante, em algumas ocasies 
com bom humor, noutras com grosserias. Se no se importasse tanto, podia pedir demisso no dia seguinte e ir dar aulas para as mocinhas comportadas de algum colgio 
particular de classe alta. No entanto, por que faria isso? Pelo menos no centro de reabilitao ela sentia que, vez por outra, fazia diferena na vida desoladora 
de alguns de seus alunos - mesmo que s conseguisse oferecer a eles algumas horas de alento.
      Agora, tudo o que queria fazer era ir para casa, colocar os ps para cima, abrir a caixa de chocolates que comprara no Paraso do Chocolate especialmente para 
ocasies semelhantes e ouvir msica da Nova Era - sons reconfortantes que afugentavam as preocupaes do dia. Embora seu apartamento ficasse em um bairro elegante, 
a decorao no era muito chique. Ela preferia o estilo rstico e a maior parte dos mveis provinha de algumas das casas dos seus pais. No que fizesse muita diferena 
para ela. As peas eram antigas e lhe traziam lembranas da infncia. Talvez no combinassem muito com os objetos tnicos que ela trouxera de suas inmeras viagens 
pelo mundo, mas, do jeito que estavam, adequavam-se ao seu estilo.
      Ela estava prestes a deixar a sala de aula quando Addison Deacon entrou. Ele usava uma camiseta preta e trazia a jaqueta pendurada em um dos largos ombros. 
Sentou-se em um dos bancos diante dela.
      - Soube que teve um dia difcil - comentou ele.
      - No foi dos melhores.
      - No leve a srio - aconselhou. - Tem dias que o universo simplesmente conspira contra a gente...
      -  - concordou Autumn, com severidade -,  verdade. - Sentiu que estava prestes a chorar. Tinha um n na garganta e uma onda de cansao do mundo inundara 
seu otimismo de sempre.
      -Voc parece estar exausta.
      - Estou supercansada.
      -  Cansada demais para ir jantar? No precisa ser um lugar sofisticado. Podamos dar um pulo naquela cantina italiana que fica no fim da rua, para comer pizza 
e tomar uma taa de um Chianti passvel.
      Autumn sorriu.
      - E uma boa idia.
      - Combinado, ento. - Addison levantou-se. - Est pronta agora?
      -  Eu... Ahn... Tenho que ligar para o meu irmo primeiro. Richard est passando um tempo l em casa. Vai se preocupar se eu no chegar logo. - No conseguiu 
dizer para Addison que, a bem da verdade, era ela que estava preocupada em deixar o irmo sozinho em sua casa, por um tempo prolongado. Como se no bastasse o quanto 
se aborrecia s de pensar no que ele podia estar aprontando durante o dia e parte da noite. -Voc se importa?
      - Est tudo bem?
      Com os olhos praticamente marejados de lgrimas, ela preferiu no se abrir. Talvez quando j tivesse consumido alguns dos Chiantis, pudesse contar tudo a Addison. 
Ele transmitia um ar de segurana, fazendo-a intuir que era o tipo de homem em quem podia confiar. Ao contrrio de seu querido irmo.
      - Est - respondeu ela. -Vou dar uma ligadinha rpida para ele. - Richard no atendeu o celular. Estranho. Quase nada impedia o irmo de atender. Autumn ligou 
para o telefone do apartamento, mas ele tocou at cair na secretria eletrnica. - Richard, se estiver a, atenda, por favor. - Mas no foi o que ocorreu. Ela mordeu 
os lbios. - Acho melhor ir para casa - disse a Addison. - Sinto muito.
      -Tem certeza? - Ele tambm ficara preocupado. -Tem alguma coisa errada? No seria melhor eu ir com voc?
      A idia era tentadora, mas, quanto menos pessoas soubessem dos problemas de Richard, melhor. Ela meneou a cabea.
      - Podemos deixar para outro dia?
      - Tudo bem! - Addison espreguiou-se ao se levantar. - Se houvesse um problema, voc me contaria, no , Autumn?
      - Claro! - exclamou ela. - Claro que sim. - Porm, desviou o olhar. -Tenho que ir.
      - Eu tambm. - Acenou-lhe. - A gente se v.
      - Addison - chamou ela, quando ele j estava perto da porta. No deixe de me convidar para sair. Ele deu o costumeiro sorriso largo.
      - Est bom! Mas, ento, pare de se recusar a ir! Ela riu.
      - Pode deixar!
      
      
      A porta estava entreaberta quando Autumn chegou ao apartamento. Ela sentiu os pelinhos da nuca se arrepiarem de imediato e a irritao foi para o segundo plano. 
Desde que Richard chegara, era a mesma histria de sempre: sujeitos estranhos e esquisitos iam at a casa dela atrs dele. Procuravam o irmo at de madrugada. Embora 
ela, supostamente, estivesse dormindo, ouvia quando batiam com suavidade  porta durante a noite. Com o passar do tempo, comeou a se sentir cada vez mais cansada 
em virtude das noites maldormidas. Nem mesmo o aumento do consumo de chocolate a deixara com mais energia. Em algum momento, teria que se sentar com o irmo para 
levar uma conversa sria, caso ele quisesse continuar ali. J no agentava mais aquela situao. No confiava nele e, naquela noite, fora obrigada a recusar o convite 
de um jantar agradvel com um cara legal - o primeiro, em meses, a cham-la para sair -, a fim de voltar depressa para casa e cuidar do irmo. No dava para continuar 
assim. Autumn se perguntou o que, de fato, estava acontecendo na vida de Richard e se ele estava tomando providncias para mudar de atitude ou se havia simplesmente 
se acomodado. Quanto mais ela se preocupava com o irmo, menos ele se inquietava com os prprios problemas.
      Na sala, um abajur fora derrubado. Autumn o recolocou no lugar. Sentiu outro arrepio na espinha. Alguma coisa estava errada.
      Os chocolates sortidos sobre a mesinha de centro pareciam estar fazendo troa dela; a caixa marrom com o lao de seda da mesma cor, de alguma forma, aparentava 
estar fora de lugar. Aquele era seu santurio; no entanto, j no o sentia como seu lar. Com o irmo e o interminvel vaivm de estranhos, tinha a sensao de estar 
sendo violentada. Seria exagero? Ser que por ter passado tanto tempo sozinha j no conseguia conviver bem com outro ser humano? Mas ela no conseguia se imaginar 
com os ps para cima, relaxada, com o irmo  espreita. Outra pessoa no lugar dele talvez fosse menos complicada. Pensou de novo em Addison. Talvez devesse ter lhe 
contado alguns de seus problemas, no fim das contas.
      Quando foi para a cozinha, deparou-se com uma pilha de loua suja na pia. Devia haver uma dzia de canecas usadas na cuba. Quantos sujeitos tinham ido visitar 
Richard naquele dia? Era bvio que ele tinha esquentado uma sopa para o almoo, pois havia duas latas vazias ao lado do fogo, sobre o qual haviam sido deixadas 
duas panelas sujas. Dois pratos continuavam na mesa, junto com, para tristeza de Autumn, uma garrafa de vodca pela metade e dois copos. Mas onde ser que o irmo 
havia se metido?
      - Richard? - chamou ela. - Richard! - Nenhuma resposta.
      A porta do quarto dele estava fechada e ela pensou que talvez estivesse dormindo. Foi at l e escutou com ateno, mas no ouviu nenhum rudo. Com cuidado, 
abriu a porta. Como previra, l estava ele, deitado de lado, encurvado, com mechas de cabelo cadas em um lado do rosto, o brao inerte tombado na lateral da cama. 
Autumn deu um passo para trs. Havia uma jovem com ele. Era bastante mida, e usava uma camisola de algodo branca e uma diminuta calcinha cor-de-rosa. A moa dormia 
de costas, esticada, com os braos no alto da cabea. Autumn suspirou, aliviada. Ainda bem que, quando abrira a porta, no os pegara fazendo outra coisa! Ento, 
notou algo estranho na jovem. At mesmo na escurido do quarto, com as cortinas fechadas para evitar a luz do dia, a jovem parecia extraordinariamente plida. Contrariando 
todos os seus melhores instintos, Autumn entrou, na ponta dos ps, no quarto, para v-la de perto. Um rastro de vmito sara da boca da moa, sujando o edredon. 
Autumn podia escutar o prprio corao batendo acelerado no peito. Aquilo no era nada bom. Ela balanou, com suavidade, o brao da moa, mas no obteve resposta. 
Ento, sacudiu-o e, mesmo assim, nenhum movimento.
      - Richard! - gritou Autumn, em pnico. - Richard! Acorde! O irmo pigarreou na cama e tentou se sentar. Virou-se para a
      irm, com o olhar disperso. Parecia estar bbado; entretanto, Autumn sabia, por instinto, que ele no ficaria naquele estado s com bebidas.
      - O que diabos est fazendo aqui? - quis saber ele. Pronunciou as palavras de modo confuso. - Se manda!
      - Richard! - sussurrou a irm. - A sua amiga passou mal. Estou tentando acord-la, mas ela no responde.
      - Ela est bem - afirmou, sem interesse, deitando-se de novo.
      -  No est bem no, senhor! - repreendeu-o Autumn. - Richard, acorde! Preciso da sua ajuda!
      Com muito esforo, o irmo apoiou-se nos cotovelos.
      - Ela vai ficar bem! - repetiu. - Basta fazer um caf forte para ela.
      - Como se chama? - quis saber Autumn. Richard deu a impresso de ter se ofendido.
      - Que diferena isso faz?
      - Quero saber. - Ela friccionou a mo da jovem.
      - Ahn... - O irmo buscou, com dificuldade, em seus arquivos mentais. - Rosie - disse, sem muita segurana. -  Rosie, tenho certeza.
      Pelo visto, era uma velha conhecida. - Rosie - repetiu Autumn, segurando os ombros da jovem. -Vamos, querida. - Os olhos dela reviravam e o corpo parecia sem 
vida. - O que ela tomou?
      - Um pouco de birita, um pouco de cocana. - Richard aparentava estar irritado com as perguntas.
      - O aspecto dela no est nada bom.
      O irmo suspirou e virou-se. Olhou para a face de Rosie e, em seguida, sentou-se, teso.
      - Merda!
      Pela reao de Richard, Autumn sabia que as coisas no iam mesmo nada bem.
      - Para mim chega, vou chamar uma ambulncia.
      Ele agarrou o seu brao quando ela tentou sair do quarto, impedindo-a de prosseguir.
      - No faa isso. - implorou. - No pode cham-la! Se os mdicos virem Rosie assim, vo saber que fui eu que dei drogas para ela.
      - Ela precisa de ajuda neste instante! Ser que no entende?
      - Entendo, entendo. - O irmo pulou da cama. Estava apenas de short. Soltou a irm s por alguns instantes, o suficiente para vestir, depressa, a cala jeans. 
- Posso levar a Rosie de carro. A gente pode deix-la na emergncia.
      - Voc no est em condies de dirigir. E no podemos simplesmente larg-la em qualquer lugar.
      - Se a gente ficar com ela, vo fazer um monte de perguntas e tentar descobrir quem deu drogas para ela. Alm do mais, pode ser que chamem os tiras, Autumn. 
Tem coisa aqui neste ap que no quero que eles vejam.
      - Ela precisa ser atendida o mais rpido possvel Se no a levarmos agora para o hospital, ela pode morrer.
      - Que saco, Autumn! No jogue a culpa em mim!
      - Estou tentando ajudar, Richard! -Voc pode pegar o carro e lev-la.
      - Faz dez anos que no dirijo. Talvez at mais. No acho que seja o momento de recomear.
      - Merda! - praguejou o irmo. - De qualquer forma, se algum visse voc, conseguiria rastrear o carro.
      - O que exatamente andou aprontando, Richard?
      -Vamos colocar a Rosie num txi - sugeriu ele, evitando a pergunta. - A gente pode lev-la at a entrada do hospital. - O irmo transpirava abundantemente. 
Vestiu uma camiseta amassada. - Pode crer,  a melhor opo. Voc tem que me proteger.
      - Comece a vesti-la - ordenou Autumn, dirigindo-se ao banheiro. Molhou a toalha de rosto com gua gelada e levou-a para a jovem.
      Rosie estava, agora, sentada na extremidade da cama, apoiada nos travesseiros, e Richard, de alguma forma, conseguira pr a saia coque-te nela. Naquele momento, 
abotoava a blusa da moa. Autumn sentiu alvio ao notar que a face dela estava um pouco mais corada. Passou a toalha gelada em seu rosto e ela pestanejou.
      - Isso, Rosie - incentivou Autumn, segurando suas faces delicadas com ambas as mos. - Fique com a gente. Vamos levar voc para o hospital. - Rosie murmurou 
algo ininteligvel. Richard andava de um lado para outro. - Precisa me ajudar a lev-la l para baixo
      - instruiu.
      - Vou carreg-la - disse o irmo. De sbito, tornara-se bem mais coerente e sbrio. Pegou Rosie no colo e seguiu Autumn, cambaleante.
      - Espere aqui, enquanto chamo um txi - pediu Autumn. Ela achou que, se ficassem ali, com uma mulher que parecia doente e mal conseguia ficar de p, a maior 
parte dos taxistas passaria direto. Por incrvel que parea, um txi parou instantes depois e Autumn abriu a porta. - Vamos para o Hospital Chelsea & Westminster, 
por favor
      - pediu ao motorista. Em seguida, acenou para o irmo, que apareceu com Rosie no colo.
      - Ela no parece estar muito bem - observou o taxista.
      - No est - confirmou Autumn. - Bebeu demais. - Lanou um olhar acusador ao irmo. - Precisamos ir o mais rpido possvel.
      - Vocs, jovens, adoram encher a cara - observou o sujeito, meneando a cabea. No obstante, ps o p na tbua e, minutos depois, chegaram ao hospital.
      -V entrando com a Rosie, enquanto eu pago o txi - ordenou Autumn.
      Richard comeou a conduzir a jovem, apoiada em seu brao, at a entrada, onde pretendia deix-la. As pernas da moa curvavam-se, mas ela conseguiu manter-se 
em p.
      - Voc vai se sentir melhor agora - disse ele, segurando a mo dela e tentando fazer com que os olhos pestanejantes o fitassem. - Conte para eles o que tomou, 
mas no diga quem foi que te deu, se perguntarem. - Ajudou-a a ir at a porta. - Muito bem, Rosie.
      Ela pensou com clareza por alguns instantes e disse, rouca:
      - Meu nome  Daisy.
      Richard soltou-a e ela seguiu adiante, com passadas incertas, at o hospital.
      Autumn alcanou o irmo.
      - Voc deixou a coitada ir sozinha? - perguntou ela. - Precisamos ter certeza de que est bem.
      Ela tentou passar pelo irmo para ir at a recepo, mas ele a segurou pelo brao.
      - A moa est bem - disse. A voz deixou transparecer ansiedade. - Conseguiu andar e acabou de falar comigo. Na verdade, provavelmente nem precisava vir aqui. 
Ns a acordamos na hora certa.
      - Como sabe disso? - O irmo evitou seu olhar. - Meu Deus! Voc j passou por isso antes!
      - Ela me disse que estava acostumada - protestou ele. - Talvez no estivesse. Talvez tenha se excedido. Talvez a birita no tenha cado bem.
      -Talvez voc tenha tido uma baita sorte por ela no ter morrido na sua cama! - Richard abaixou a cabea. - Nunca mais me ponha nesta situao - disse ela, 
de modo enrgico. - No faz idia do quanto me sinto mal por fazer isto. Se algo acontecer com essa moa, jamais vou me perdoar. - Era aterrador pensar que, se no 
tivesse seguido seu instinto, recusando o convite de Addison, aquela moa poderia ter morrido. Caramba, ser que no podia deixar Richard sozinho nem por um minuto, 
que ele j aprontava alguma coisa?
      - Vou ligar para ela mais tarde - disse ele, de mau humor. - Para ver se melhorou.
      - Nossa, que amor voc ! - Aquela altura, ela no conseguia acreditar que os dois eram parentes; seus princpios no se pareciam em nada. E, na tentativa 
de proteger o irmo, ela se metera em situaes difceis.
      - A gente pode voltar para casa agora? - perguntou ele, triste. -Vou chamar um txi.
      Comeara a chover e a noite estava fria e nublada, condizente com o estado de nimo de Autumn.
      -Voc pode ir caminhando - disse ela. -Vai fazer bem.
      Tudo o que ela queria era chegar ao apartamento e comer toneladas de chocolate; j no dava a mnima para o que o irmo pensasse.





Captulo Trinta
      
      
      
 E
u estava saltitando na sala com Davina McCall. Os movimentos dela pareciam bem mais coordenados que os meus, mas, no fim das contas, ela devia estar ganhando zilhes 
de libras para fazer o prprio DVD de ginstica, ao passo que eu fazia aquilo  custa do maior sacrifcio. Comecei a sentir nos quadris o efeito da grande quantidade 
de chocolate que vinha comendo, e no era algo bonito de se ver. Naquela manh, o cs da minha saia quase me partira ao meio. Por que a gordura nunca se acomodava 
nos meus peitos, onde eu adoraria ganhar um reforo? Por que as calorias j vinham pr-programadas para ir direto para a parte inferior da cintura? Nem mesmo o vmito 
peridico no banheiro estava me ajudando a manter a forma Embora eu tenha notado que, depois de terminar com o Marcus, sentia cada vez menos nsia de regurgitar. 
O que era muito bom, certo?
      Eu podia muito bem fazer aquela aula de ginstica na academia, mas achava o lugar to desestimulante que no conseguia mais suport-lo. Todas as mulheres que 
iam at l conseguiam acompanhar os professores, menos eu. Ento, no sentia que tinha retorno algum ali. Eu raciocinava da seguinte maneira: se fizesse todos os 
DVDs de exerccios em casa, acabaria entrando em forma, e um dia poderia at correr o risco de fazer uma aula na academia. A meu ver, era um plano bastante sensato. 
Alm do que, eu tinha vrias opes em casa. Podia meter bronca com o Bombando, DVD com as mulheres irritantemente saradas do videoclipe de Eric Prydz - o qual, 
se querem saber, era o treinamento mais deprimente da face da Terra, ainda mais porn que a prtica de Pilates. Elas eram to geis e atlticas que, na verdade, 
exerciam efeito contrrio na minha mente. Por que perder tempo me exercitando, quando no tinha a menor possibilidade de ficar com um fsico daqueles? As pobres 
mortais como eu no conseguiam fazer nem metade daqueles movimentos plvicos. E eu ainda corria o srio risco de deslocar os quadris sempre que tentava. De qualquer 
forma, a tornozeleira delas era anos oitenta demais para a minha cabea! Ento, quando me cansava daquela mulherada - o que nunca demorava muito -, eu danava salsa 
com Angela Griffin, a do "Como Perdi Doze Quilos Danando, em Apenas Dois Meses!" Claro que sim, querida. Eu tambm podia acompanhar o festival de tortura de "Grandes 
Desafios, timos Resultados", da atriz Nell McAndrew. Ou fingir estar esmurrando Marcus enquanto fazia Tae-Bo com Billy Blanks: "Entre em Forma, Perca Peso, Divirta-se, 
Adquira Fora". Tenha o corpo de um lutador peso pesado.
      Est vendo, Davina? Quando me cansava de voc, podia seguir adiante. Bastava guardar seu DVD no armrio e pegar outro. No seria timo se a gente pudesse fazer 
isso com os namorados? Opa! Eu havia chegado  parte de queima de gorduras, e sempre ficava com a lngua de fora naquele ponto. Ainda bem que o salo de beleza do 
andar de baixo j tinha encerrado o expediente; caso contrrio, achariam que havia uma manada de elefantes danando no teto. De face rubra, ofegando e suando, eu 
estava a toda com os polichinelos, as elevaes de joelho e as passadas. Meu cabelo suado grudara na testa e, para ser franca, manchas de suor marcavam minha roupa 
em lugares nem um pouco apropriados. Era por isso que eu preferia ioga. Podia no ser um exerccio muito bom para a perda de calorias, mas, pelo menos, no sobrecarregava 
ningum. Dava certa serenidade. Naquele momento, eu j sabia que, no dia seguinte, no conseguiria me mover direito, j que minhas coxas ficariam doloridas. Parei 
um pouco para dar uma mordida rpida e revigorante em um chocolate com caramelo, Twix, e manter a energia em alta.
      - Vamos l! - estimulava Davina, na tela da TV - S mais oito! Oito... sete...
      Ela era mesmo uma babaca presunosa! Eu detestava aquela roupinha de ginstica preta e sofisticada que usava - ainda mais considerando que a minha consistia 
em uma cala de ginstica velha e esfarrapada e uma camiseta maltrapilha, com uma mancha de sorvete na frente, que formava um chamativo desenho. Continuei ofegante. 
Podia apostar que haviam gravado aquele DVD no decorrer de vrios dias, para que ela s tivesse que se exercitar cinco minutos de cada vez; no entanto, l estava 
ela, fingindo estar se esforando como as demais mortais. No se via um s fio de cabelo fora do lugar e aquele brilho de suor que se notava no alto da sobrancelha 
devia ter sido borrifado pela assistente dela. Ela no estava mais em forma que eu; era apenas uma boa editora, s isso. Podem dizer que era inveja minha, porque, 
a bem da verdade, eu adoraria estar no lugar dela: rica, bem-sucedida, razoavelmente bonita e capaz de fazer dezesseis abdominais sem ficar com a face roxa. Engoli 
o ltimo pedao de Twix. Pelo menos, a Davina tinha o corpo igual ao de uma mulher normal, como eu, no como aquelas cabeas ocas, cujo ndice de gordura corporal 
se assemelhava mais ao do nmero de sapato que usavam. Tenho verdadeira ojeriza a essas a!
      Em meio a toda aquela tortura, a campainha tocou.
      - D o fora! - disse eu, esbaforida, na direo da porta.
      Na certa, era algum vendendo vidro duplo, gs, luz eltrica ou cartes de fidelidade de restaurante, tudo por uma pechincha. Eu no precisava de nada daquilo. 
Por sinal, a nica coisa que eu precisava era de chocolate. A campainha tocou de novo. Ningum digno de nota ia me visitar, portanto, no havia motivo algum para 
eu ir abrir a porta.
      Ento, Davina resolveu aumentar a velocidade da seo de queima calrica, punindo-me ainda mais e fazendo-me chegar  concluso de que seria uma boa idia 
parar um pouco para recuperar o flego. Peguei minha garrafa de gua, tomei alguns goles e me dirigi  porta, com a v esperana de que teria condies de falar 
com o visitante. Quando a abri, Marcus estava l. Se eu j no estivesse emudecida por causa da ginstica, perderia a fala, de qualquer forma. Ele se apoiara no 
umbral, cheio de charme, com expresso de quem estava mais do que arrependido. Os olhos castanhos eram poos lmpidos de pesar.
      - Oi, Lucy - disse ele.
      - Oi. - No consegui dizer mais nada. Eu ainda arquejava.
      - Achei que a gente podia conversar. Como voc no retornou minhas ligaes, decidi dar um pulo aqui.
      -  Estou ocupada, Marcus. - Ambos estvamos cientes da minha aparncia, que no chegava aos ps da de minha rival, a mida e impecavelmente charmosa Joanne.
      - Parece estar dando um duro danado.
      - Estou tentando manter a forma.
      - Muito bem! - Marcus fez uma expresso de pena e perguntou: - Voc j jantou?
      Antes de pensar em uma mentira, meneei a cabea e respondi:
      - No. - Um reles Twix no conta como refeio.
      - No quer ir a um restaurante chins? Eu gostaria de pedir desculpas pelo meu comportamento terrvel.
      Queria. Mas isso no acabaria me levando de volta  mesma relao, da qual eu havia me esforado tanto para sair? Em vez de responder, suspirei.
      - Posso entrar e ficar esperando enquanto voc toma banho? Queria dizer que eu estava fedendo? Tentei sentir disfaradamente
      o odor debaixo dos braos, enquanto minhas inseguranas afloravam a todo vapor.
      Marcus deu um largo sorriso.
      - O que me diz?
      No tinha fora de vontade suficiente para lutar contra aquilo. Eu, uma reles barra de chocolate ao leite, Dairy Milk, ele, um maarico abrasador com seu charme. 
Mal passaram cinco minutos e eu j estava me derretendo toda. No pude suportar a idia de ele ficar esperando na sala enquanto eu tirava a roupa e tomava banho 
no banheiro ao lado. Ento, disse:
      - V at o Lotus Blossom. - Minha voz soou relutante. J tnhamos comido ali diversas vezes. Eu achava que aquele era o "nosso cantinho". -Vou me encontrar 
com voc daqui a pouco.
      Com relutncia, Marcus se afastou.
      - No demore, Lucy. Temos muito que conversar. Tnhamos mesmo? Quando ele saiu, foi a minha vez de me apoiar
      no umbral, por alguns instantes. Deveria ligar para minhas amigas choclatras, por precauo? Nenhuma delas vivia perto de Camden e, se o meu histrico continuasse 
igual, eu j estaria na cama transando com o Marcus antes mesmo que elas chegassem. No. Teria que encontrar foras para enfrentar aquela situao sozinha. No precisava 
dormir com o Marcus. No precisava permitir que me persuadisse a aceit-lo de volta. Se eu tivesse juzo, continuaria a saltitar feito uma doida com minha querida 
Davina McCall e deixaria Marcus esperando, sozinho, no restaurante. Se eu tivesse juzo, era o que faria.







   Captulo Trinta e Um
      
      
      
  Q
uando cheguei ao Lotus Blossom, vinte minutos depois, Marcus j estava sentado  mesa, tomando uma cerveja Tsingtao. Eu me sentei com ele e pedi uma para mim tambm. 
Por que no repor de uma s vez todas aquelas calorias que eu suara tanto para perder? O restaurante estava cheio e nossa mesa situava-se  janela, espremida entre 
um casal, que parecia estar brigando, e duas mulheres de meia-idade para l de vulgares, que gargalhavam ruidosamente. Nada que se comparasse ao meu encontro maravilhoso, 
sofisticado e maduro com Jacob Lawson no Hotel Savoy. Isso, de certa forma, serviu como consolo para mim.
      Eu tinha tomado uma ducha rpida depois que Marcus saiu, optando por no me preocupar muito com a aparncia. Esforcei-me para no me emperiquitar toda para 
meu ex-namorado. Ele no merecia, pensei. Meus cabelos continuavam midos, sem quaisquer produtos capilares para ajeit-los. Optei pelo visual natural, passando 
s um pouco de rimei. Estava de cala jeans surrada e jaqueta preta simples. Tomara que ele notasse que eu no tinha me esforado para ficar mais bonita por causa 
dele.
      - Est tima! - disse Marcus, com a voz rouca.
      Caramba! O engraado era que antes, sempre que saa com ele, nunca sentia estar bonita o bastante. Agora, j no me importava mais. Est bom, admito, ainda 
me importava, mas s um pouquinho.
      -Vamos pedir algo? - perguntou meu ex. - Quer o de sempre?
      Fiquei irritada por ele supor que sabia qual era "o de sempre" e que eu era previsvel.
      -Tudo bem - respondi, esperando para ver o que ele pediria.
      -Vou querer o satay, o espetinho de carne com molho de amendoim, e ela, o chow mein, o macarro frito com frango e legumes.
      Pronto. Talvez fosse justo dizer que essa poderia ter sido minha opo. Marcus sorriu para mim. Estava se comportando de forma exemplar naquela noite; eu s 
queria saber por que no agia assim o tempo todo. Um daqueles aquecedores  vela foi posto sem muito cuidado na nossa mesa.
      - Estive pensando em voc - disse Marcus.
      - Eu tambm estive pensando em voc - repeti. - Mas espero que no tenhamos pensado as mesmas coisas.
      Meu ex-namorado fez a gentileza de aparentar estar aflito.
      -Tem todo direito de ficar brava comigo. - Pode ter certeza, eu tinha mesmo. - S queria que soubesse que minha relao com Jo no foi nada srio.
      - Mas foi algo srio o bastante para voc descartar a nossa, no ?
      - Aquela foi a nica noite que passamos juntos. Aquela noite fatdica... -Tive a impresso de que ele quis dar uma risadinha amarga pelo que dissera, mas meu 
olhar ferino deve ter avisado que eu ainda no achava nem um pouco engraado. - A gente nunca mais se encontrou.
      - E por que, Marcus? Foi ela que deu o pontap ou voc? Pois, a meu ver, parecia que estava disposto a se livrar de mim num piscar de olhos.
      Ele pegou minha mo. Seus dedos pareciam os de um estranho. Eram as mesmas mos que h pouco mais de uma semana levavam meu corpo ao xtase? Naquele momento, 
eu no sabia ao certo se iria querer sentir seu toque de novo.
      - No posso nem acreditar que me comportei daquele jeito. Mas o mais terrvel e triste era que eu acreditava, at demais.
      - Ns terminamos de comum acordo - disse ele.
      - Como so civilizados! O garom trouxe nossa comida e nos dedicamos a sabore-la. Se
      eu quisesse, a minha relao com Marcus continuaria daquele jeito para sempre. Tudo iria bem at, do nada, uma mulher dar bola para ele, que, ento, deixaria 
de lado a namorada, o amor e o compromisso para ir atrs dela. Nesse nterim, eu ficaria pastando, lambendo as feridas e aguardando seu retorno. Marcus era um gato, 
e superdivertido quando queria, mas eu teria que carregar aquele fardo pelo resto da vida se permitisse. No consegui reunir foras para sondar como o flerte com 
Joanna comeara.
      - Eu s quero voc, Lucy - insistiu ele. - Sabe muito bem disso.
      - Quer saber de uma coisa? - disse eu, sem rodeios. - No sei no. Como saberia, se a forma como voc age me diz outra coisa?
      - Se voc quer comprometimento, posso me encarregar disso. Se eu queria um compromisso...? Por acaso houve alguma dvida a
      esse respeito?
      - E se eu envelhecer, ficar de cabelos brancos e no puder recolher sem dificuldade os fragmentos da minha vida estilhaada? E se voc no conseguir resistir 
s outras mulheres? E se achar uma mais excitante? O que ser de mim?
      - Isso no vai acontecer. - Sem dvida alguma, o brilho de seus olhos era sincero. - Jamais acontecer.
      Como eu adoraria acreditar nas suas doces palavras. A comida ali costumava ser boa; entretanto, meu chow mein estava inspido, cheio de glutamato monossdico. 
Fazia meu estmago embrulhar, tal como a ladainha de Marcus partia meu corao. Naquela semana, percebi que minha auto-estima, na verdade, melhorava bastante sem 
ele por perto.
      -Voc j se vingou. - Marcus sorriu, afavelmente.
      Eu queria mais  que ele tivesse ficado fulo de raiva, no que aceitasse o ocorrido estoicamente. Porm, perguntei-me mais uma vez se ele j havia descoberto 
a origem do mau cheiro que, quela altura, deveria impregnar seu apartamento. Como eu poderia fazer a pergunta de modo casual, no meio da conversa? "Andou sentindo 
cheiro de pitu estragado recentemente, Marcus?"
      - A gente pode ficar remoendo o passado - prosseguiu ele. - Mas eu preferiria enterr-lo e seguir adiante.
      - Foi exatamente o que eu fiz. - A expresso de surpresa de Marcus foi bvia. Empurrei meu prato no terminado para o lado. Fora um erro ir at ali, um equvoco 
ouvir o que ele tinha a dizer. Recostei-me na cadeira. - Estou saindo com outra pessoa agora. Um homem que me trata como uma princesa. - Pensei na noite com Jacob. 
Ele era um amor, educado, atraente, romntico. E queria se encontrar comigo de novo. Desde aquela noitada, ele me enviara vrias mensagens de texto, todos os dias. 
Nada piegas, somente mensagens divertidas, que me animavam. Tnhamos marcado outro encontro para segunda-feira  noite. Um recital de poesia numa livraria recm-inaugurada. 
Fitei Marcus. Era mesmo inesquecvel? Planejaria esses encontros incrveis comigo? Estaramos num restaurante chins de segunda categoria, em Camden, se ele realmente 
quisesse me reconquistar? No deveria ter se esforado mais? Bastavam um buqu de rosas e um pouco de chow mein de frango para ele achar que compensaria a traio? 
Eu no podia evitar o pensamento de que ele achava que eu era absolutamente cada por ele. -Voc tem razo - disse-lhe eu, levantando-me. - No vale a pena remoer 
o passado. Acho que estou me apaixonando e, por mais que tenha gostado da nossa relao, o melhor ser termin-la de uma vez por todas.
      Marcus ficou boquiaberto, mas no falou nada, o que era bastante inusitado. Por fim, conseguiu balbuciar:
      - Quem... quem  esse cara?
      - O nome dele  Jacob. Eu amei muito voc, Marcus. - Estiquei o brao e pus a mo em seu rosto, tocando-o pela ltima vez. - Muito mesmo. Mas agora prefiro 
investir na minha relao com o Jacob.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Trinta e Dois
      
      
      
      
      
 E
sperem s at eu contar para as amigas do Clube das Choclatras que consegui resistir ao Marcus sozinha! E, como se no bastasse, deixara o meu ex plantado no restaurante, 
com cara de tacho. Um ponto para a Poderosa Lucy, zero para o Desprezvel Marcus. Era a primeira vez que me recusava a aceit-lo de volta, e acho que ele no acreditou 
no
      que ouviu. H! Nem eu podia acreditar!
      Queria enviar mensagens de texto para as minhas amigas, mas eu me encontrava na empresa naquela manh e - surpresa! - tinha um monte de trabalho pela frente. 
Um funcionrio da gerncia me passara vrios relatrios de vendas e meus dedos j se moviam incansavelmente, digitando-os e acrescentando os novos valores ao computador. 
Trabalhei de modo ininterrupto, sem parar nem para tomar ch ou comer chocolate. Bom, para ser mais precisa, s uma hora. Por isso, j estava ficando tonta. No 
tinha visto Paquera naquela manh - ele no fora me perturbar nem uma vez sequer. S em um breve momento vislumbrei-o encurvado  mesa, com semblante estressado. 
No entanto, todo mundo vivia sob presso na Targa.
      Meu celular tocou e o atendi. Era um nmero que eu no conhecia.
      - Lucy? - indagou a voz do outro lado da linha.
      - Sim?
      - Aqui  Felicity, da Agncia Deusas do Escritrio. Tudo bom? -Tudo bem, obrigada. - Eu nunca recebia notcias da agncia.
      Embora muitas vezes eu ameaasse ligar para l a fim de mudar de emprego, sempre acabava desistindo. Aquela altura, eu fazia parte do quadro de funcionrios, 
desempenhando o papel, talvez, de uma cadeira til, ou de um daqueles lindos arquivos de ao inoxidvel.
      - Temos boas notcias - disse ela, animada. - Seu contrato com a Targa termina na sexta-feira e j temos um timo emprego em vista para voc.
      Minha mente estpida levou algum tempo para registrar o que ela dissera. Sexta-feira j era no dia seguinte! O que significava que eu s ficaria mais um dia 
ali! Soltei um suspiro.
      -Voc est bem? - quis saber Felicity.
      - Mas por qu? Ningum me disse nada.
      - No? - Foi a vez de Felicity ficar surpresa. - Gostaria de saber o que houve. - Eu tambm gostaria. - Bom, a moa que tirou licena j vai voltar, e o seu 
contrato  semanal.
      Tracy Seildequ estava voltando? Por que ningum tinha me contado? Fitei com raiva o escritrio de Paquera.
      Felicity continuou a falar do meu novo emprego, dizendo que seria legal, que eu adoraria o desafio, que todos os meus colegas seriam maravilhosos e blablabl. 
Eu no iria gostar, no. Adorava aquele. Consegui anotar o nome e o endereo da nova empresa e balbuciar algumas palavras, antes de desligar. Fiquei olhando pasma 
para o nada, em estado de choque. Estava indo embora. S me restava mais um dia!
      Precisava de chocolate. Mas, antes, tinha que falar com Paquera. Quando entrei na sala do meu chefe, ele ergueu o olhar e me fitou com expresso constrangida 
e bastante surpresa.
      -Voc j sabia disso - acusei.
      Ele ergueu as mos.
      - S fiquei sabendo ontem gata.
      - Pensei que Tracy Seildequ ainda estivesse de licena-maternidade.
      - Pelo visto, aquelas adorveis jovenzinhas do RH calcularam errado. - Ele arqueou as sobrancelhas. Talvez estivessem at se vingando de forma cruel de mim, 
j que Paquera gostava mais de mim do que de sua amiga Donna, do processamento de dados. - A Tracy j vai voltar na segunda.
      - Mas normalmente a Targa no d um jeito de despedir quem engravida?
      - Era o que costumava fazer - disse Paquera, dando de ombros. - Pelo visto, a empresa est ficando de corao mole.
      - No  melhor eu ficar mais uma semana? - arrisquei. - Para ajud-la a recomear sem problemas?
      - J tentei. Mas o oramento no permite. - Meus lbios ficaram trmulos. - E tambm pedi que procurassem alguma vaga em outro departamento e que a entrevistassem 
para outros cargos oferecidos pela empresa; no h nada disponvel.
      - Mas tem sempre algum doente aqui. Ou fingindo estar.
      - O Departamento de Recursos Humanos me assegurou que todos estavam muito saudveis, no momento. Ou fingindo estar.
      Ns nos entreolhamos sem expresso, por alguns instantes.
      - Ento,  isso?
      - Se houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer, gata, pode ter certeza que faria. - Paquera aparentava estar to triste quanto eu. - Vou sentir falta do seu 
rostinho animado por aqui.
      - Essa  a pior parte de trabalhar como temporria. - Suspirei.
      - Sou totalmente descartvel
      Paquera levantou-se e soltou, tambm, um longo suspiro. Aproximou-se e me abraou, apertando-me com delicadeza. Foi timo me apoiar em seu peito e sentir seu 
calor.
      -Voc  insubstituvel - afirmou.
      - Posso deixar meu nmero de telefone com voc - sugeri. - Se surgir algo, de repente voc poderia me ligar.
      - Posso deixar meu nmero de telefone com voc - repetiu ele.
      - De repente voc poderia me ligar e me levar para jantar uma noite dessas. - Senti o sangue subir ao rosto. Devo ter lhe lanado um olhar intenso, pois" ele 
tambm enrubesceu. - Da poderamos ver se surge alguma coisa. R-r-r.
      Ser que ele tinha mesmo acabado de me convidar para sair? Ou pedido que eu o levasse para jantar fora?
      - R-r-r - prosseguiu ele:
      Como no sabia o que dizer, uni-me a ele:
      - R-r-r.
      
      
      
      
      
   Captulo Trinta e Trs
   
   
      
 A
s participantes do Clube das Choclatras estavam desanimadas. - Acha que aquelas piranhas fizeram de propsito? - perguntou Chantal. - No sei se as humanides que 
trabalham no Recursos Humanos seriam to espertas assim - admiti, enquanto sorvia o ch. - No entanto, tenho certeza de que no hesitariam em tomar essa atitude 
se tivessem a oportunidade.
      Tnhamos marcado um encontro no sbado  tarde, um horrio de grande movimento no Paraso do Chocolate. Tanto Clive quanto Tristan trabalhavam sem parar para 
diminuir a fila de clientes. O prestigioso suplemento de um dos jornais locais inclura suas sobremesas de chocolate sempre fresquinhas na lista de "imperdveis" 
do bairro de Notting Hill. Ns havamos provado todas, claro. A torta-musse de chocolate e avel de Clive era a minha favorita. Quem a provava se tornava outra pessoa. 
Talvez um pedacinho dela me fizesse sentir melhor naquele dia. No, melhor um pedao, s para ter certeza.
      Estvamos todas instaladas nos sofs de aparncia propositalmente envelhecida, que ficavam na parte de trs da loja, e no tnhamos a menor inteno de sair 
para ceder o lugar a algum. Assunto era o que no faltava, portanto afastvamos os interessados em nossos lugares com olhares cortantes. No sbado, os clientes 
entravam e saam depressa, concentrados nas compras, parando apenas por alguns instantes para comer chocolate, repor as energias e aumentar a disposio consumista.
      - Mal posso acreditar que vou comear a trabalhar noutro lugar na segunda. - Ainda no havia conseguido registrar bem a minha sada precipitada da Targa. Tinha 
at dado um pulo na academia de manh, para fazer ioga e ver se controlava o estresse. Mas no houve om nem postura da cobra que aliviassem minha mente perturbada.
      - De repente vai ser bom enfrentar um novo desafio - disse Nadia.
      - Mas o que ser de mim sem ver Paquera todo dia? Ele  a nica coisa que faz minha vida de trabalho mundana valer a pena. Quem  que eu vou repreender por 
assaltar meu estoque de chocolate?
      Paquera e a equipe de vendas me haviam presenteado com uma caixa de chocolate Milk Tray, da Cadbury. No era l minha favorita, mas, de qualquer forma, valeu 
a inteno deles. Sem dvida alguma, ser consumida, com prazer. Paquera tambm fizera um breve discurso, agradecendo-me pela contribuio ao departamento. Ningum 
abafou o riso, o que encarei como sinal positivo. Alm disso, se no me enganei, detectei uma lgrima nos olhos do meu chefe. Vou sentir falta dele.
      - Um pouco mais de estabilidade tanto na sua vida pessoal como no seu trabalho faria bem, Lucy - salientou Autumn, a meu ver, sem necessidade. -Toda essa confuso 
no pode fazer bem para sua aura. Deixa voc vulnervel a ataques psquicos.
      Ah, timo! Mais uma coisa com que me preocupar. Ento, eu me deixei levar pelo consolo oferecido pelo tablete de chocolate branco com baunilha e azeite de 
oliva, saboreando cada esplndida poro. No era exatamente chocolate puro, pois tinha como ingrediente manteiga de cacau, e no massa de cacau (esses detalhes 
fazem diferena para os connaisseurs), mas seu sabor era to delicioso que Clive o incluiu no cardpio permanente. Parecia uma verso para adultos do Galak, mas 
eu jamais diria isso perto dele. Deixei sua textura aveludada derreter aos poucos na boca e, em seguida, soltei um longo suspiro. J estava me animando de novo.
      - Pelo menos pode contar com o prximo encontro com o Jacob
      - disse Nadia. - Deve ser um cara legal.
      - Parece bom demais para ser verdade - ressaltou Chantal, introduzindo uma pontada de ironia nos comentrios. - Sinto muito, Lucy, estou passada com os homens 
neste momento.
      - Jacob vai me levar para um recital de poesia - contei, sentindo certo orgulho. - Imaginem s! No sabia que os homens ainda faziam esse tipo de coisa. - 
No fundo, eu queria que ele tivesse marcado um encontro naquele fim de semana. Essa era a pior parte de ser solteira. Sbado e domingo pareciam durar uma eternidade, 
enquanto antes, quando eu tinha namorado, passavam num piscar de olhos. Joguei vrias indiretas para o Jacob, mas ele disse que estaria ocupado durante todo o fim 
de semana. Pelo visto, o trabalho requeria sua dedicao em horrios fora do comum.
      - Acho que ele deve ser um homem incrvel - disse Autumn, ao pegar o muffin de chocolate e a gelia de laranja.
      - Quer que eu investigue se ele tem um irmo para voc? Autumn meneou a cabea.
      - Irmos no so uma boa - comentou, de modo enigmtico.
      - Ainda est tendo problemas com o Richard? Ela ps o muffin no prato e se inclinou.
      - Eu no ia contar para ningum mas no sei mais o que fazer.
      -  Olhou ao redor, com ar conspiratrio. - Acho que ele est fazendo transaes. -Todas ns devemos t-la fitado com expresso intrigada, pois ela sussurrou: 
- Com cocana. - Fez uma pausa, para que absorvssemos o que acabara de revelar.
      Ah, meu Deus! O irmo classudo da Autumn era traficante de drogas! Eu mal podia acreditar! Quando ela disse "fazendo transaes", achei que se referia a aes, 
bnus e coisas desse tipo.
      - A gente passou pelo maior sufoco alguns dias atrs - prosseguiu ela. - Uma jovem quase morreu de overdose no meu apartamento. Foi Richard que levou a moa 
para l, e mal a conhecia. S que conseguimos lev-la para o hospital a tempo... - Sua voz sumiu aos poucos. Estava com os olhos marejados.
      - Mas foi por pouco, ento - ressaltei.
      - O pior  que eu ia sair para jantar com algum.
      - Jantar? - Quase pulei da cadeira. - Com quem?
      - Um cara l do meu trabalho - contou Autumn. - Muito gente fina. Mas, se eu tivesse ido, ento aquela moa teria morrido.
      Eu queria dizer a ela que tinha de cuidar da prpria vida e deixar o irmo se encarregar dos prprios erros, mas sabia que ela no era do tipo que faria isso. 
Talvez devesse lembrar-lhe que ela no saa com um homem desde que eu a conhecia e que no deveria deixar essas oportunidades passarem, independentemente de quem 
estivesse correndo perigo.
      - Nem consegui falar com o Richard direito, depois do que ele fez, j que est me arrastando para seu mundinho srdido - prosseguiu Autumn. - A moa se recuperou, 
ainda bem! Eu o obriguei a ligar para ela para ver como estava, o que ele no estava muito a fim de fazer. Mas o difcil de aceitar  que acabei colaborando com 
o meu irmo, na tentativa de proteg-lo. Como pude fazer isso?
      - Voc se viu numa situao complicada, Autumn - consolei-a. - O que mais poderia ter feito?
      - Eu deveria ter ido para a delegacia. Ele precisa parar, antes que a situao fuja de controle.
      A meu ver, Richard j havia passado dos limites e rumava ao fundo do poo a toda a velocidade.
      - Voc precisa levar uma conversa sria com ele - sugeri. - Com urgncia.
      - J tentei, mas ele nega tudo.
      - Voc tem que achar alguma prova - disse Chantal, sempre prtica - para ento confront-lo.
      - Detesto confrontos - admitiu Autumn, com tristeza. - Passo a vida tentando evit-los. E se eu encontrar alguma prova? Acham que devo chamar a polcia? Ele 
continua sendo meu irmo.
      - Talvez haja outros caminhos - disse eu. - No pode convenc-lo de que  melhor ir para uma clnica de reabilitao que para a cadeia?
      -  o que tento fazer. Mas, da, ele joga na minha cara que sou viciada em chocolate. - Ao colocar de novo o muffin no prato, Autumn o fitou com enfado.
      - Chocolate e cocana so totalmente diferentes - lembrei.
      - So mesmo? Richard no consegue abandonar o vcio, e eu tambm no.
      -  Comer chocolate no prejudica outras pessoas, nem destri vidas. Se  s isso que ele gosta de ressaltar, eu diria que o argumento  chulo. O chocolate 
 apenas uma fonte de consolo para a gente, neste mundo to complicado.
      - Acho to triste quando algum com a educao privilegiada de Richard chega a esse ponto - disse Autumn, meneando a cabea. - Como passo dia aps dia dedicando 
meu tempo aos adolescentes que tentam sair da misria,  difcil ficar parada e ver algum do meu prprio sangue fazer todo o possvel, pelo visto, para acabar l.
      Abracei-a.
      -  Conte com a gente. Seja o que for que decidir, ns vamos apoiar voc. - Bem que eu queria que me desse mais detalhes sobre o tal cara e o encontro que no 
chegou a ocorrer, mas, como eu parecia ser a nica curiosa, mantive o bico fechado.
      Autumn deu uma fungada, agradecida.
      Chantal suspirou.
      - Espero que tenha boas notcias, Nadia. Precisamos nos animar - pediu ela.
      - E tenho mesmo - informou a outra, com orgulho. - Quitei nossas dvidas na semana passada e o Toby conseguiu se manter afastado dos cassinos da internet at 
agora. Vamos para o Hyde Park este fim de semana, para jogar bola e disco, sabem, fazer coisas tpicas de famlias. No sei como posso agradecer, Chantal! - Nadia 
apertou a mo da amiga.
      -Voc teria feito o mesmo se eu estivesse nessa situao.
      - Bom, graas a voc, vamos comear do zero, e fao questo de aproveitar ao mximo esta oportunidade.
      - Fico feliz por ter ajudado.
      -Voc tem alguma novidade? - perguntei a Chantal. Ela negou.
      - Nenhuma. O sexo l em casa continua inexistente. Nada mudou.
      Gostaria de saber, no entanto, se eu fui a nica a notar o olhar bastante enigmtico de nossa amiga Chantal.
      
      
      
      
   
   
   
   Captulo Trinta e Quatro
      
      
      
      
      
 M
aravilha! Olhei para a fachada do Jesmond & Filhos e desejei nem ter sado da cama, de manh. Meu estado de nimo ficou to sombrio quanto o cu matinal. Quando 
se  jovem, fashion e superdinmica, o ltimo lugar em que se deseja trabalhar  num sebo. O Jesmond & Filhos no era nada parecido com aquelas livrarias modernas, 
de ruas movimentadas, com cafeteria e funcionrios com nomes como Philippa e Camilla - tal como o estabelecimento em que me encontraria com Jacob, naquela noite. 
Se fosse assim, tudo bem, eu poderia trabalhar num lugar desse tipo. Mas no. Aquele sebo ficava numa ruela afastada e decadente, que deveria ter um visitante a 
cada meio sculo. A placa indicava que era especializado em livros de segunda mo sobre histria militar e tambm - o famoso oximoro - sobre inteligncia militar. 
Ento, no havia sequer exemplares antigos de romances da Editora Mills & Boon para me distrair.
      Respirei fundo, desejando ter vestido meu sbrio terninho preto naquela manh, e no o rosa-shocking. Antes de jogar tudo para o alto e dar o fora dali, atravessei 
a rua em direo ao sebo. Uma campainha soou agradavelmente quando entrei, anunciando minha chegada. O odor de livros cheios de mofo inundou minhas narinas e, em 
meio  penumbra, s vi estantes e mais estantes de volumes empoeirados. Partculas de p moviam-se lentamente pelos raios de sol, nas reas em que o ar fora agitado 
com a abertura da porta - na certa, eu era a primeira pessoa a provocar esse efeito naquele ano. Um velhinho caminhou, arrastando os ps, na minha direo. Usava 
uma camisa marrom xadrez, gravata vermelha, casaco de l verde e cala azul.
      - Ol! - saudei com minha voz mais estridente. - Sou Lucy Lombard, enviada pela Agncia Deusas do Escritrio. - Estiquei a mo.
      - Ah - exclamou ele, examinando-me pelo alto dos culos. - Sim, sim, timo. - Apertou minha mo com delicadeza. Seus dedos eram macios como massa suave e, 
por coincidncia, ele exalava mesmo um cheiro meio bolorento. - Muito prazer em conhec-la, srta. Lombard.
      Pelo visto, no iriam me chamar de "gata" ali.
      -  o Sr. Jesmond, o dono?
      - No, no - negou com um sorriso tmido. - E o meu pai. - O sujeito devia ter no mnimo cento e cinco anos. - Sou o mais novo dos irmos Jesmond. - "E o ltimo 
sobrevivente?", foi o que me perguntei. Demos os trs passos necessrios para chegar a uma mesa perto da janela. - J trabalhou em um sebo antes?
      - No. Esta  a primeira vez.
      - No  nada complicado - assegurou-me o Sr. Jesmond. - Tenho certeza de que vai aprender tudo logo. No se preocupe. - Sorri, agradecida. Normalmente, como 
era temporria, costumavam me largar sozinha num canto, junto com uma pilha de trabalho, para que eu me virasse, embora no fizesse a menor idia do que tinha que 
fazer. - Pois bem, posso dar as orientaes agora?
      - Seria timo. -Tentei manter meu falso nimo.
      - Aqui est a mesa e, em cima dela, a caixa registradora. - Esta no passava de uma simples caixa de madeira. Ele fez um gesto amplo, mostrando as estantes. 
- E esses so todos os livros. - Por incrvel que parecesse, eu j notara isso. - Quando um cliente comprar uma obra, a senhorita coloca o dinheiro no caixa e, depois, 
d um recibo, mas s se ele pedir. - Pegou o bloco em questo e mostrou-o para mim. Em seguida, prosseguiu, como se esta fosse a parte difcil: - Ento, a senhorita 
anota no livro-caixa o ttulo e o valor. - E mostrou de novo o livro em questo.
      - Certo. - Ainda existiam negcios no-informatizados? No imaginava. Eu me arriscaria a dizer que o Jesmond & Filhos acabara de dispensar a caneta de pena 
e o baco. Aquele sebo podia servir de exemplo para museus que quisessem reconstituir livrarias de antigamente em exposies do tipo A Passagem do Tempo.
      - Acha que vai conseguir? - Pelo visto, o Sr. Jesmond pensava que a tarefa ia alm da minha capacidade. Talvez meu terninho rosa-shocking estivesse passando 
a mensagem errada.
      - Vou tentar. - S esperava que a tremenda agitao matinal no me pegasse totalmente de surpresa, antes que eu estivesse bem a par das minhas obrigaes!
      - Geralmente, consigo tomar conta de tudo sozinho - explicou o Sr. Jesmond, com orgulho -, mas vou precisar de algum durante algumas semanas. Se tudo der 
certo, pode ser que a contrate por mais tempo. Afinal, no sou mais to jovem. Terei de ir ao hospital. Exames. - Ele sussurrou as ltimas palavras e apontou para 
baixo. Meu olhar acompanhou seu dedo em direo  cala de polister azul. - Do trato urinrio.
      J era, de fato, informao demais.
      - Posso preparar ch? - perguntei, torcendo para que, seja l qual fosse seu estado de sade, pudesse tomar ch. Era sempre uma boa ttica ver qual era a atitude 
do chefe no que dizia respeito a pausas para o ch. - Depois, posso comear a me familiarizar com as obras.
      - Excelente idia - disse ele, alegre. - A cozinha fica l em cima.
      Ento, subi a escada escura e estreita at chegar  minscula cozinha, com azulejos de tom cinza rachados, um aquecedor de gua de segunda categoria e umas 
canecas cheias de crostas. Devia haver uma advertncia sanitria naquele lugar. Senti um leve odor de esgoto, que certamente poderia ser eliminado com saponceo 
de limo. Escolhi a caneca menos ordinria e lavei-a bem, com gua quente, antes de pr o ch que preparei. Desci com duas.
      - O depsito fica l atrs - disse o Sr. Jesmond. -Vou terminar alguns afazeres, enquanto a senhorita se acomoda.
      Quando ele se foi, olhei ao redor, sem saber bem o que fazer. Aquele sebo no funcionava de forma frentica, como a Targa. Pelo menos ali eu teria muito trabalho 
a fazer, se quisesse. Tambm poderia ficar parada, sem o menor problema. Coloquei meu ch na mesa e caminhei at as estantes, diante das quais havia uma grossa camada 
esbranquiada de poeira. Dei uma olhada nas obras: Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial e inmeros outros ttulos... Eu nem sabia que haviam ocorrido 
tantas batalhas, tampouco que tantos livros haviam sido escritos sobre o tema. Ali encontravam-se obras sobre espionagem, tticas, operaes militares e Foras Armadas; 
sees inteiras dedicavam-se  cincia e  vida militares, aos armamentos e s diversas formas de combate. Todos me pareceram bem montonos. No restavam dvidas 
de que deviam conter pouqussimo sexo gratuito. Neles, eu no encontraria heris ardentes com os quais sonhar. Porm, talvez, aquele tipo de livro atrasse clientes 
dures, do tipo militares. A idia me animou um pouco, mas, francamente, j me havia familiarizado o bastante com as obras. Fui at a mesa.
      Tirei do fundo da bolsa a caixa de Milk Tray que ganhara de Paquera e da equipe de vendas e fiquei segurando-a, para contemplar os chocolates. Fora muito amvel 
da parte dele compr-la; senti uma pontada de saudade do meu ex-chefe. O Sr. Jesmond podia ser muito bonzinho, porm no era exatamente meu sonho de consumo. No 
seria melhor eu ligar para Paquera, a fim de agradecer mais uma vez o presente? S que, talvez, ele adivinhasse que eu estava entediada e que no encontrara um trabalho 
legal, em que no tinha tempo nem de respirar, nem de sentir falta do pessoal da Targa - sobretudo dele.
      Nossa, seria mesmo imprescindvel comer chocolate para enfrentar aquele dia. Abri a caixa e desfrutei do aroma mais que familiar. Eu os consumiria aos poucos, 
ao longo daquele expediente. Eram 9h30; puxa, fazia s meia hora que eu chegara? O tempo no voava quando a gente estava se divertindo? No decorrer daquele dia, 
eu pensaria no encontro com Jacob  noite e comeria chocolates. Se pegasse um a cada meia hora, consumiria oito at a hora do almoo. Selecionei meus preferidos. 
O primeiro seria o Turkish Delight, com recheio de doce turco; em seguida, eu traaria os bombons de creme de caf... e de laranja... e a espiral de avel. Humm! 
Talvez fossem meus favoritos, no fim das contas.
      Sem mais disposio de escolher, simplesmente formei uma fileira aleatria de oito bombons no meio da mesa. Poderia ligar para Paquera e tent-lo, dizendo 
que estava com um Turkish Delight e que no teria que lhe dar nem um pedacinho. Toquei o telefone mais uma vez, saboreando o chocolate enquanto fitava o aparelho. 
Assim que o Sr. Jesmond voltasse ao sebo, eu ofereceria um para ele. Quando terminei de comer o bombom de creme de caf, s restaram seis, uma quantidade, a meu 
ver, mais do que insuficiente. Ento, aumentei a quota, chegando  concluso de que um a cada quinze minutos ajudaria a fazer a manh passar voando. Aps o almoo, 
faria o mesmo, para no sentir a tarde passar. Que tima idia! Examinei a caixa de novo; com o novo clculo, eu ficaria com uma quantidade perigosamente pequena 
de chocolate, que, na certa, no duraria at as 18h00. Se Paquera gostasse mesmo de mim, deveria ter me dado uma caixa maior.
      
      
      
      
      
   Captulo Trinta e Cinco
      
      
      
  
s 17h30 em ponto, subi para trocar de roupa no minsculo banheiro, que, por sinal, tambm precisava urgentemente de gua sanitria. Tirei a camisa branca, de trabalho, 
e pus uma blusa mais atraente, de chiffon florido, bastante apropriada para um recital de poesia. No tive tempo de dar um pulo em casa para tomar banho, ento passei 
perfume, enchendo-me da fragrncia sensual de Anna Sui. Esperava que Jacob no quisesse que nossa relao fosse muito ntima e pessoal naquela noite. Bom, no sei 
se torcia tanto assim para isso. Retoquei a maquiagem, chupei algumas daquelas pastilhas de menta para ficar com o hlito puro e passei mais batom.
      No dia seguinte, traria um monte de produtos de limpeza e faria uma boa faxina ali. O cronmetro de chocolate que eu usara para ajudar a passar o tempo funcionara 
direitinho, embora me tivesse feito pensar mais em Paquera do que o desejvel. Mas eu realmente no tive que mover uma palha sequer. Nenhum cliente dera as caras. 
Minha esperana de encontrar militares supersarados fora por gua abaixo. Mas, para no perd-la de todo, tive a boa vontade de supor que no haviam aparecido porque 
era segunda-feira e chovera quase a tarde inteira; ainda assim... Como  que a famlia Jesmond Jnior ganhava qualquer dinheiro que fosse com aquilo? Podia simplesmente 
fechar a loja e vender livros pela internet. Ser que o Sr. Jesmond j tinha ouvido falar nisso? O mnimo que eu podia fazer pelo velhinho simptico era deixar a 
livraria brilhando. Com todo aquele tempo  disposio, comecei a pensar na Targa com muito carinho, como quando nos lembramos dos namorados da adolescncia. Por 
algum motivo, acabamos nos esquecendo de tudo o que odivamos sobre eles, s recordando os pontos positivos. Era assim que me sentia a respeito do ltimo emprego.
      - Boa-noite, Sr. Jesmond - gritei, ao me retirar apressada. - At amanh.
      -Tenha uma boa noite, Srta. Lombard.
      Eu j lhe pedira, umas dez vezes, para me chamar de Lucy, mas ele no me dera ouvidos. Correndo at o ponto de nibus, no outro lado da rua, consegui subir 
no que j estava partindo, para ir encontrar Jacob.
      A livraria na qual aconteceria o recital era moderna, do tipo que oferecia tambm outros servios, como cafeteria, papis de presente e cartes. Do lado de 
fora, um quadro-negro fornecia, em giz cor-de-rosa, detalhes a respeito do evento daquela noite. Entrei e segui as indicaes at o terceiro andar. As cadeiras j 
haviam sido organizadas para a leitura e, ao redor da mesa de vinhos e aperitivos, um grupo se reunira. No meio do aglomerado, vi Jacob. De terno cinza-azulado, 
estava to charmoso quanto da ltima vez que o vira. Senti as batidas do corao acelerarem um pouco, o que no tinha nada a ver com a recente corrida para pegar 
o nibus.
      Ele sorriu ao me ver e caminhou na minha direo. Deu-me um beijo bastante tmido no rosto.
      - Oi - disse Jacob. - Que bom que conseguiu sair do trabalho a tempo! - No contei que eu esperara por aquele momento desde que chegara ao Jesmond & Filhos, 
de manh. - Quer tomar alguma coisa?
      - Um vinho tinto seria timo.
      O livro de poesias que estava sendo lanado era uma antologia e notei que havia vrios autores se misturando, ansiosos, com os convidados. Dava para notar 
que eram poetas, j que usavam, principalmente, roupas de veludo com vrios cachecis e, em alguns casos, chapus garbosos. Jacob me ofereceu uma taa de vinho e 
um pratinho com vrios canaps, que tive dificuldade de equilibrar.
      - Espero ter escolhido direito.
      - Esto com a cara tima. No precisava ter se incomodado.
      - Segundas intenes. Queria que voc compartilhasse o salmo defumado comigo.
      Ele manteve os olhos fixos nos meus, enquanto eu lhe dava um pedao do peixe, e ainda cobriu meus dedos com a mo enquanto eu saboreava a outra parte. O cho 
pareceu desaparecer sob os meus ps e minha respirao ficou entrecortada de imediato. Um sorriso divertido brincava nos lbios de Jacob. Aquele cara sabia exatamente 
o efeito que causava em mim e sabe do que mais? Eu no me importava nem um pouco. Quando terminamos os canaps, ele pegou um exemplar do livro para folhe-lo.
      - Voc l muita poesia? - perguntei.
      - Leio - respondeu, assentindo com entusiasmo. - Quanto mais romntica, melhor. Adoro todo texto comovente. E voc?
      Dei de ombros.
      - Eu quase nunca tenho tempo. Esta  uma exceo.
      - Ainda bem que voc pde vir.
      Os olhos dele eram incrveis e brilhavam sob a iluminao da livraria. Seria o incio de uma nova relao? Foi o que me perguntei.
      Sempre quis ter um namorado sensvel e culto, mas, at aquele momento, no conseguira nenhum. A idia que a maioria dos homens tinha de sensibilidade costumava 
se limitar ao uso de preservativos texturizados. Talvez eu no devesse estar to ansiosa para iniciar outra relao logo depois do Marcus, s que achava que aquele 
cara era especial, e homens assim no surgem na nossa vida o tempo todo.
      - J vai comear - avisou Jacob. Foi bom, porque creio que eu estava prestes a desmaiar de alegria.
      O recital no demorou muito. Meia dzia de poetas com trajes aveludados ps-se de p, diante da platia, e leu alguns versos. A maior parte deles era divertida 
ou romntica, no havia nada muito pesado. Jacob segurou a minha mo durante toda a apresentao, o que me deixou animada. Foi meio estranho sentir minha pele roar 
com outra pouco familiar, depois de ter ficado tanto tempo com o Marcus; entretanto, sou obrigada a admitir que gostei. Acabei no prestando muita ateno na leitura, 
perguntando-me como seria sentir Jacob bem mais prximo.
      Todos aplaudiram educadamente quando o recital terminou. Jacob perguntou:
      - Posso dar este livro de presente para voc?
      - Obrigada. Acho que seria muito legal. - Em seguida, entramos na fila para comprar o livro, que foi autografado por alguns dos poetas. Depois, meu acompanhante 
me entregou uma sacolinha marrom com a antologia autografada.
      - Queria levar voc para jantar - comentou ele, enchendo meu corao de alegria -, mas vou ter que trabalhar agora. - Ento, o pobre coitado do meu corao 
murchou de novo, como um dos meus piores sufls.
      Com discrio, chequei a hora no relgio: eram 20h00. Cedo demais para voltar para casa.
      - Foi uma reunio irrecusvel - explicou, desculpando-se. Eu sabia que ele tinha horrios pouco comuns de trabalho, mas quem  que marcava encontros de negcios 
quela hora da noite? Talvez Jacob tivesse lido minha mente, pois perguntou: -Tem algum problema?
      - No, no. Tudo bem. Todo mundo tem que trabalhar.
      - Vou ligar para voc assim que puder - disse-me ele, dando-me um selinho, que enfraqueceu meus joelhos. - Juro.
      Ento, fui obrigada a me conformar com uma noite curta e chocolate quente, quando, na verdade, pensava em sexo fogoso e noitada excitante. Fazer o qu?
      
      
      
      
   
   
   Captulo Trinta e Seis
      
      
      
      
      
 C
hantal disse a Ted que iria passar a noite fora, a trabalho. De qualquer maneira, seu marido jamais perceberia nada. Ela quase nunca ligava para casa quando viajava, 
e ele no perguntava aonde estava indo. Se Ted precisasse
      se comunicar com a esposa, ligava para seu celular. O hotel que Chantal escolhera era um dos melhores de Londres - seu favorito para drinques ocasionais. No 
entanto, ela nunca se hospedara l antes. Quando tinha reunies em Londres, era fcil voltar para casa, independente do horrio. O hotel era moderno, minimalista, 
limpo e prtico - perfeitamente adequado aos propsitos de Chantal. Ela chamara um txi, que fora peg-la um pouco antes da chegada de Ted. Naquele momento, deixava-a 
no Hotel St. Crispen, que ficava prximo  rea movimentada de Covent Garden. Decidira chegar cedo para ter tempo de se preparar para o encontro. Tomaria um banho 
quente prolongado, com champanhe, e comeria os chocolates que levara para acalmar os nervos. Embora estivesse pagando por hora por aquele servio, achou melhor aproveitar, 
j que tambm arcaria com o exorbitante custo do quarto. Havia certo alvoroo, com as pessoas preparando-se para alguns dos diversos teatros e restaurantes - casais 
felizes, de braos dados -, e ela sentiu uma pontada de solido, que revolveu suas entranhas, quando pensou que sua vida chegara quele ponto.
      Tirou a maleta do txi, pagou a corrida e entrou no hotel. Ao se registrar na recepo, sentiu as palmas das mos midas de suor quando informou:
      - Estou esperando um convidado, que deve chegar mais tarde. Perguntou-se o que a recepcionista pensaria se soubesse que ela estava, na verdade, pagando o convidado 
por hora.
      - E o nome dele ?
      Por alguns instantes, Chantal entrou em pnico. No sabia qual era, de fato, o nome do homem, exceto o que a agncia lhe dera, que parecia ridculo.
      - Sr. Jazz - respondeu, por fim, depois de hesitar um pouco. - Sr. Jazz.
      - Vamos avis-la assim que ele chegar, Sra. Hamilton. Posso ajud-la em algo mais?
      - No. Est tudo certo, obrigada.
      Quando se virou para ir ao elevador, ouviu uma voz cham-la.
      - Chantal - gritou uma mulher -, tudo bem com voc?
      Ela deu meia-volta. Ficou com a boca seca. Amy Barrington era a ltima pessoa que queria ver.
      - Amy - disse, com vivacidade. Tratava-se de uma conhecida com a qual ela e Ted se haviam encontrado em vrios jantares nos ltimos anos. O marido dela, Lucian, 
trabalhava na mesma rea do seu e, de vez em quando, os dois jogavam golfe juntos. Amy era famosa por ser linguaruda. - Que bom v-la! - mentiu.
      - Imagine encontr-la aqui! - Ela lhe deu dois beijinhos. - Est hospedada neste hotel? - Seus olhos observaram a malinha de Chantal.
      - S esta noite.
      - Sem o Ted? - Amy olhou ao redor.
      - Estou aqui a trabalho - explicou Chantal. -Vou me encontrar com uma pessoa, sobre quem farei uma matria.
      - E tem que passar a noite?
      - s vezes, fica mais fcil - Sabia que a outra no se convencera.
      - Vamos at o bar - sugeriu Amy. - Fique com a gente enquanto espera por ela. Lucian est pedindo uns drinques agora.
      - No posso - disse ela, recusando a oferta. -Tenho que ir at o quarto para ir adiantando o artigo.
      - Ah! - Pareceu mesmo ter ficado desapontada. - S um drinque, vai!
      - Sinto muito, Amy. Fica para a prxima. Voc e Lucian tm que ir l em casa, uma noite dessas.
      - Eu estou com o celular bem aqui - insistiu ela.
      - Vou pedir para o Ted combinar com o Lucian. - Chantal acenou-lhe, despedindo-se. - Para mim, seria timo.
      - Ento, aproveite a noite! - disse Amy. Em seguida, seus olhos estreitaram-se. - Bom, mas a sua no vai ser divertida. Voc veio a trabalho, no  mesmo?
      Chantal ficou com os nervos  flor da pele aps o encontro com Amy Barrington. Fora um erro dispens-la daquele jeito. Deveria ter ido tomar um drinque com 
ela e o marido no bar. Depois de trocar algumas palavras, iria embora e fim de papo. Agora, ela se sentia culpada, como se a tivessem pegado no ato, o que no podia 
estar mais longe da verdade. Aquele era um encontro de negcios. No havia ligao emocional. Alm do mais, o que faria com Jazz nunca acontecia em sua relao com 
Ted. Era verdade que o marido talvez no pensasse assim, mas, na opinio de Chantal, a situao era essa.
      O quarto era imenso, muito bem decorado, com mveis de madeira escura e vrios tons de marfim. Ela passeou por ele, admirando os quadros e os enfeites, tentando 
evitar a sensao de solido, ao vagar naquele ambiente to grande. Havia uma garrafa de Krug em um balde de gelo na mesa de centro, pronta para mais tarde. Chantal 
espalhou a maquiagem na pia do banheiro e examinou-se no espelho. Viu uma face fria, calma e controlada; no entanto, no era assim que se sentia por dentro. Deitou-se 
na banheira daquele aposento enorme, inalando a imerso de baunilha e saboreando os chocolates que enfileirara na borda. Tentava recompor-se, sem sucesso. A gua 
comeou a gelar e ela saiu e se enxugou, aps comer o ltimo chocolate.
      O que faria agora? O rapaz chegaria em quinze minutos. Deveria pr a roupa ou o quimono de seda curto, preto e rosa, que levara? Valeria a pena entrar numa 
de fingir, quando ambos sabiam exatamente por que ele estava ali? Decidiu vestir a roupa ntima de renda preta e o quimono. No precisaria usar dinheiro. Tudo o 
que teve de fazer foi marcar o encontro, e a agncia de acompanhantes cobraria o valor de seu carto de crdito. Se era um acordo to simples e eficaz, Chantal se 
perguntava por que estava to nervosa.
      Momentos depois, bateram com fora  porta do quarto. At poderia ser o servio de quarto, mas ela sabia que no era o caso, que no se tratava do servio 
de praxe.
      O homem escolhido no site estava diante dela. Foi bom ver que ele no havia exagerado no que dizia respeito  sua beleza. Era um tremendo gato. A bem da verdade, 
mais bonito em carne e osso do que na foto do site Maches. Era alto, bronzeado e musculoso. Perfeito para ela.
      - Oi - cumprimentou-a, com um sorriso caloroso. - Sou o Jazz.
      - Entre - convidou Chantal. - Estava esperando por voc. Ele vestia terno e gravata, muito elegante, e sapatos lustrosos. Caa
      muito bem nele. Ao cruzar por ele na rua, as pessoas achariam que era um empresrio de sucesso, talvez at um investidor esperto do centro financeiro, como 
o marido de Chantal. Seu semblante transmitia uma doura que ela no imaginara e as linhas ao redor dos olhos indicavam que sorria muito. No dava nenhum indcio 
de ser garoto de programa. Jazz colocou a pequena pasta que levava sobre a mesa de centro. Ela se perguntou qual seria seu contedo.
      - Champanhe?
      - Seria timo - respondeu ele. Era muito seguro de si e tranqilo. - Deixe que eu abro.
      Jazz retirou o arame e, em seguida, com agilidade, tirou a rolha.
      - Eu sirvo - disse Chantal e suas mos tremeram quando ela o colocou nas taas. Puxa, deveria ter tomado um calmante ou coisa parecida para no ficar to nervosa! 
Deveria ter tomado metade daquela garrafa antes dele chegar. - Esta  a primeira vez que estou fazendo isso - admitiu. No valia a pena fingir que conhecia as regras 
de conduta daquele tipo de encontro, quando, na verdade, ela no fazia a menor idia de como agir. - Espero que voc tome a iniciativa.
      Quando Chantal se virou, Jazz j havia tirado o palet e estava afrouxando a gravata. Ele pegou a taa de champanhe dela e tocou-a na dele. Os olhos do rapaz 
brilharam, maliciosos, promissores e at desejosos. Chantal respirou fundo. No esperara ver aquilo. Sorriu por dentro. Poderia acabar sendo muito agradvel.
      - Quero que se divirta - disse Jazz. - Deixe tudo por minha conta.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Trinta e Sete 
      
      
      
      
      
 C
hantal s voltou para casa s 19h00 do dia seguinte. Depois do encontro com Jazz, ela fora ao escritrio da Style USA em Londres e trocara idias com o editor sobre 
outros artigos. Participara de um almoo prolongado, no Oscars, com outro jornalista da revista, que a colocara a par das fofocas - quem estava dormindo com quem, 
quem desejava estar dormindo com quem, quem seria despedido e quem no tinha a menor noo de que seria despedido. Chantal no pde evitar rir por dentro. Se os 
colegas soubessem de seu segredo lgubre!
      Depois do almoo, ela fora ao Paraso do Chocolate para tomar ch verde e saborear um tablete do imperdvel Pennsula de Saman, um chocolate que Clive preparava 
com sementes de cacau da Repblica Dominicana. Era um dos favoritos de Lucy; no obstante, a amiga tinha um monte de preferidos, no que dizia respeito a chocolates. 
Era uma pena que nenhuma das amigas estivesse ali, naquele dia, mas Chantal no teve tempo de convid-las para um encontro. Alm disso, se as visse naquele momento, 
sabia que acabaria lhes contando a noite ardente passada com Jazz. Seu rosto radiante era um indcio bvio de que algo - ou algum - cara como uma luva para ela. 
s vezes, esses ditadinhos locais se encaixavam com perfeio no que ocorria. Sentindo-se estranhamente feliz, ela se apropriara de um dos sofs da chocolataria 
e passara algum tempo conversando pelo celular com alguns proprietrios de casas, tratando da possibilidade de artigos futuros, enquanto desfrutava do sabor condimentado 
do chocolate e do corpo ligeiramente dolorido.
      Fazia anos que no se sentia to animada. Nas pontas dos dedos e nos cabelos circulava uma energia que ela no sentia havia anos! Estava mais do que satisfeita 
sexualmente. Jazz passara trs horas com ela. Trs horas longas e sensuais, em que ele lhe dera - para usar uma palavra arcaica - prazer, repetidas vezes. E ela 
acabara pagando por um bom romance  moda antiga, o que a surpreendera. Toda a ateno do rapaz se concentrara em seu corpo e em seus desejos. Ele conseguira despertar 
sensaes que ela nem imaginara possveis. Quantas mulheres podiam afirmar que tinham o mesmo servio dos maridos? Jazz no s fora um grande profissional, como 
um perfeito cavalheiro. J no via aquele acordo como um contrato de prestao de servio totalmente imoral. Ao que tudo indicava, ele se divertiu tambm ou, ento, 
era um excelente ator. Chantal cerrou os olhos e uma torrente de imagens libidinosas invadiu sua mente. Na pasta dele, havia um monte de loes, cremes e brinquedos, 
que preparariam o terreno para uma noite muito voluptuosa. Ele jogou champanhe gelado em vrias partes do corpo dela, lambendo-a de modo sensual. S de pensar, Chantal 
tiritou de prazer.
      Ela suspirou, satisfeita, ao entrar em casa, deixando a maleta no corredor. Esperava que Ted voltasse do escritrio logo. Naquela noite, prepararia um prato 
rpido de massa, para que no comessem muito tarde. Ela trouxera uma caixinha deliciosa de brownies de chocolate branco e ao leite para o marido. O presente atuaria 
como uma oferenda de paz, sups Chantal, sentindo uma pontada de culpa.
      - Oi. - Ela deu um pulo de susto ao ver a cabea do marido surgir da porta da cozinha.
      -Voc chegou cedo - disse ela.
      - No agentei mais ficar no escritrio. Conseguiram o que queriam.
      Ela desabotoou a jaqueta.
      - Eu podia ter vindo mais cedo tambm, se soubesse. Voc deveria ter me ligado. Fiquei l no Paraso do Chocolate, organizando algumas matrias. - Ergueu a 
caixa de brownies.
      Ted soltou um suspiro de satisfao.
      - Como foi o trabalho?
      - timo - disse ela, assentindo de modo vigoroso. De sbito, todo o encantamento de seu encontro amoroso comeou a desvanecer. Ela sentiu pesar ao se lembrar 
de onde estivera na noite anterior e do que fizera. Como pde pagar a algum para transar com ela? Como pde fazer isso com aquele homem  sua frente? Tinha a opo 
de tratar do assunto com ele e descobrir qual era a raiz dos problemas dos dois. Homens normais e vigorosos no paravam de fazer amor com as esposas sem mais nem 
menos. Marcar encontros com acompanhantes no solucionaria a questo.
      Durante anos, Chantal se perguntou, tambm, se Ted no estaria tendo casos; entretanto, ela tinha certeza de que ele no teria tempo, mesmo que quisesse. Ou 
estava no escritrio ou em algum lugar jantando ou dormindo. O rduo trabalho corporativo requerido pela Grenfell Martin simplesmente no lhe dava a oportunidade 
de buscar os prazeres de uma amante. Ela tinha certeza disso.
      Chantal foi dar um beijo no rosto do marido, esperando que, pelo menos uma vez, ele no a evitasse. No chegou a fazer isso, mas, por outro lado, tampouco 
se mostrou receptivo. No lhe retribuiu com um beijo, um abrao ou uma carcia. Em vez disso, voltou para a cozinha.
      - Comecei a preparar uma salada para o jantar. Espero que no se importe.
      - De jeito nenhum - disse ela, detectando certa relutncia na voz. - S vou misturar a massa com o molho. Mas preciso de cinco minutinhos para me refrescar.
      - Tem uma mensagem no nosso escritrio para voc - avisou ele, por sobre o ombro, enquanto cortava um pimento vermelho. - Um cara ligou ontem, durante a sua 
estada em Londres. Disse que tinha informaes que voc poderia considerar teis.
      Chantal pegou uma fatia do pimento da tbua e mordiscou-a, enquanto se dirigia  escada.
      - Ah, ?
      - Parece que voc o conheceu naquele hotel de Lake District. Ela gelou. S podia ser uma pessoa. E ele ligara para ela ali, em sua
      casa. O corao de Chantal disparou. O sujeito deve ter conseguido o nmero por meio de seu celular, que estava dentro da bolsa roubada. Ela se perguntou se 
conseguiria falar e se sua voz soaria normal.
      - Ele deixou o nome? - Achou a prpria entonao tensa. Ted parou para pensar um pouco.
      - No. Apenas o nmero do telefone.
      - O cara disse mais alguma coisa?
      - No muita. - O semblante de Ted no deixou transparecer nada. - S que seria do seu interesse ligar para ele o mais rpido possvel. Quer tentar agora, enquanto 
preparo o jantar?
      - Vou ligar para ele amanh - respondeu, tentando parecer casual. - No pode ser to urgente assim. - Porm, algo lhe dizia que era.
      
      
      
      
   Captulo Trinta e Oito
      
      
      
      
      
 J
acob me enviou uma mensagem de texto dizendo que se divertira muito e que gostaria de se encontrar comigo na sexta. Daquela vez, tinha ingressos para um evento beneficente 
em pro das pacientes com cncer de mama. Mandei-lhe uma mensagem, aceitando o convite. Eu teria que esperar quatro dias inteiros antes de v-lo de novo. No obstante, 
com o dinmico trabalho no sebo Jesmond & Filhos, voltado para apreciadores das Foras Armadas, eu me manteria ocupadssima at l.
      Naquele dia, eu levara uma sacola cheia de produtos de limpeza. Sapleo, limpa-forno, lustra-mveis, limpa-vidro, alvejante e um pacote novo de paninhos. Se 
no tinha mais nada para fazer, podia ao menos fazer uma faxina. Enquanto tomava o primeiro ch do dia, saboreando um chocolate de menta Aero, fiquei imaginando 
por onde devia comear. Tambm pensei em Jacob e em como desfrutava de sua companhia; no entanto, como eu estava trabalhando, refleti menos a respeito dele do que 
do meu servio.
      -Temos uma faxineira! - disse o Sr. Jesmond Jnior, ao observar de modo suspeitoso minha sacola com produtos de limpeza. - A Sra. Franklin vem a cada quinze 
dias e nunca falta. A senhorita no precisa se preocupar com isso.
      Dois dias por ms no bastavam e, pelo estado do lugar, eu diria que a arrumadeira se acomodava num canto e dormia enquanto estava ali.
      - Eu gostaria de fazer uma limpeza - disse eu, animada. -Vai me ajudar a saber onde cada livro est.
      - Vou ter que sair hoje - informou-me, franzindo o cenho. - Acha que consegue se virar sozinha?
      - Claro que sim.        
      - E se tivermos um movimento sbito?
      Se um grupo aparecesse querendo pilhas de obras sobre a histria militar, ento eu entraria em pnico. Mas, na minha opinio, no havia o menor perigo de isso 
acontecer.
      -Tudo estar em perfeitas condies quando o senhor voltar.
      Ele voltou a sussurrar: - Hospital - E, mais uma vez, apontou para uma parte da cala de polister azul que eu preferia no ver.
      Uma hora depois, j tnhamos tomado mais ch e eu compartilhara meu Twix com o Sr. Jesmond; no entanto, ainda no comeara a faxina. S estava preparando terreno 
para faz-la. O Sr. Jesmond pegou o chapu e o sobretudo do suporte, demonstrando ansiedade ao se preparar para sair.
      - Vai conseguir cuidar de tudo? - quis saber, pela milionsima vez.
      - Pode deixar - respondi, pela milionsima vez. - Mal vai reconhecer este lugar quando voltar.
      Ignorei a expresso apavorada de seu rosto e suspirei aliviada quando ele foi, por fim, embora. Recostando na cadeira, fiquei na dvida se deveria ou no ligar 
para Paquera - um telefonema rpido, simptico, s para saber como estava se saindo sem mim. Mas, da, pensei que ele na certa estava se virando muito bem sem a 
minha presena. Tracy Seildequ devia ser uma assistente pessoal supereficiente, que sabia com perfeio digitar, arquivar documentos, pegar caf e outros. Mas, 
com certeza, no tinha um estoque de chocolate igual ao meu! Desviei o olhar do telefone, chegando  concluso de que, se o Paquera estivesse com saudades, teria 
ligado. Apesar de eu ter dado o nmero do meu celular, que notcia tive dele! Nenhuma, nem sequer um sinal de vida!
      Em meio ao silncio, o tique-taque do relgio soava alto. Com um suspiro pouco entusistico, peguei a sacola com os removedores de sujeira. Minha transformao 
nas rainhas da limpeza do Reino Unido, Kim Woodburn e Aggie MacKenzie, do programa "A sua Casa Est Mesmo Limpa?", pareceu uma boa idia enquanto no havia colocado 
a mo na massa. Naquele momento, chegara a hora H e meu entusiasmo inicial, pelo visto, sumira. Ainda assim, era melhor limpar que ficar sentada  mesa, sem ter 
o que fazer.
      Eu levara luvas de borracha e um avental velho com esse objetivo, e o meu primeiro passo foi coloc-los. Como havia fileiras de estantes no meio da livraria, 
dispostas no sentido da largura, uma aps a outra, resolvi comear pela primeira. Tentaria tirar o p e lustrar todas at o final do expediente, para impressionar 
o Sr. Jesmond, e deixaria a cozinha e o banheiro para o dia seguinte. Talvez arriscasse at a entrar no depsito - embora rudos intermitentes parecessem vir de 
suas profundezas.
      Peguei uma tigela de gua quente na cozinha e umedeci o paninho. Havia uma escada com rodinhas, usada pelo Sr. Jesmond para alcanar as prateleiras no alto; 
ento, puxei-a at a estante que ficava no incio, preparando-me para limpar a primeira seo: Armas e Batalhas. Subindo na escada, peguei um monte de livros para 
coloc-los na mesa, tentando deix-los na mesma ordem, de modo que no tivesse que perder muito tempo classificando os ttulos quando os recolocasse no lugar. Ao 
que tudo indicava, o Sr. Jesmond tinha um mtodo diferente do meu. Nas obras havia uma camada grossa e intacta de poeira e, fosse l o que a Sra. Franklin fizesse, 
no inclua agitar furiosamente um espanador. Antes mesmo de eu ter retirado os livros de metade das prateleiras, o ar ficara cheio de partculas escuras, meus olhos 
comearam a cocar e meu nariz, a escorrer. Ao limpar a estante com o pano mido, eu esperava diminuir a nuvem txica de caros. Ento, sequei a madeira e passei 
lustra-mveis. Ficou muito melhor. Toda aquela sujeira ocultava belas prateleiras de mogno. Afastando-me, admirei meu trabalho. Era bom ficar enfurnada e fazer um 
pouco de exerccio fsico - de vez em quando.
      Resolvi tirar todos os livros da primeira estante de uma vez s, em vez de ir tirando-os aos poucos, como planejara de incio. Eu acabaria jogando poeira de 
novo na parte que acabara de limpar se no fizesse isso e, ento, teria que refazer tudo - viraria um trabalho de Ssifo. Acho que  esse o nome do cara que foi 
obrigado por outro sujeito (que, na certa, trabalha agora na gerncia da Targa) a empurrar uma pedra enorme at o cume da montanha, por toda a eternidade; mas meu 
conhecimento de mitologia grega  bastante limitado.
      Passei a meia hora seguinte tirando mais livros e empilhando-os na mesa, a qual se encontrava praticamente oculta. Esperava, de fato, que o grupo interessado 
em obras militares no desse as caras naquele momento - r-r-r! Aquelas subidas na escada seriam timas para as coxas, e o carregamento de livros, excelente para 
os bceps. Dali a pouco, eu precisaria de mais chocolate, para recuperar as foras.
      Mais meia hora e a estante estava vazia. Os livros haviam sido empilhados no s na mesa, como tambm no cho, diante dela. Eu sentia muita empatia pelo tal 
Ssifo. O nico lugar que faltava limpar bem era o topo da estante. Levantei o avental, peguei o pano mido e subi a escada de novo. Tive que me esticar um pouco 
para alcanar o alto, mas me apoiei na escada enquanto me inclinava. Ento, meu celular comeou a tocar. Como estava escondido em meio s montanhas de exemplares 
na mesa, senti-me tentada a no atender. Entretanto, pensei que poderia ser Jacob, ou Paquera, e tentei pegar o aparelho depressa, antes que a ligao casse na 
caixa postal. Descendo a escada o mais rpido que minhas pernas curtas me permitiram, corri at ele, desviando-me dos livros empilhados. Consegui peg-lo assim que 
parou de tocar.
      Na pressa, eu tropeara em uma das pilhas, que foi derrubando as seguintes, at a ltima, que caiu na escada, fazendo-a oscilar perigosamente. Jogando o celular, 
eu dei um pulo at ela, para impedir que tombasse. No consegui, e s me restou ficar olhando, enquanto ela caa e atingia a primeira estante, que tambm comeou 
a oscilar. L fui eu depressa segur-la, na tentativa de mant-la no lugar, mas ela bamboleou e escapuliu da minha mo. As laterais estavam to bonitas e lustrosas 
em virtude do meu polimento que eu simplesmente no consegui agarr-la. A estante pesada acabou chegando ao seu grau mximo de oscilao e rangeu ao se inclinar 
e despencar sobre a seguinte, espalhando livros e poeira por todo o sebo. A mesma coisa ocorreu com a outra estante e eu soltei um gemido ao me lanar para tentar 
mant-la no lugar, sem sucesso de novo; ela caiu na que estava atrs. O efeito domin continuou at que todas as seis enormes estantes tombaram, caindo chumbadas 
no piso como beberres de sbado  noite. Os livros estavam arreganhados, de pginas abertas, como fazem os cachorros quando querem mostrar suas partes ntimas. 
Uma camada de poeira grossa como fumaa dominou o sebo. O tique-taque do relgio ficou ainda mais alto no silncio que se seguiu.
      Voltei para a mesa, pisando nos fragmentos de obras danificadas. Peguei o telefone de novo, aborrecida comigo mesma ao ler na tela Chamada perdida. Apertando 
as teclas, vi que algum deixara uma mensagem. Era Marcus. No podia nem pensar em escut-la naquele momento. Entretanto, meus dedos permaneceram sobre o teclado. 
Talvez fosse melhor. Lucy, disse ele, estou morrendo de saudades de voc. Como eu desejei ouvir essas palavras. Sei que voc disse que estava saindo com algum, 
mas, por favor, ligue para mim! Por favor! E, ento, que atitude eu deveria tomar?
      Ouviu-se outro rangido no fundo da livraria, e outra coisa que no devia cair se espatifou no cho. Era tudo culpa do Marcus.
      Enquanto eu ainda me encontrava em estado catatnico, o telefone vibrou. Acabara de chegar uma mensagem de texto, daquela vez de Chantal. EMERGNCIA CHOCOLATE 
GRAVE! ENCONTRO AO MEIO-DIA. Fitando o estrago ao meu redor, pensei que tinha de lidar com minha prpria emergncia chocolate grave.
      
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   
   
   Captulo Trinta e Nove  
      
      
      
      
 O
 cara do hotel ligou - explicou Chantal. - L para casa. Ted atendeu. Todas ns ficamos pasmas. O sujeito que a roubara estava ligando para ela! Ah, meu Deus! Nossa 
amiga estava plida, seu estresse era visvel e o tom de voz, hesitante.
      - Acho que ele conseguiu o nmero no celular roubado.
      - Caramba, Chantal! - Foi minha grande contribuio.
      Ela mexeu o caf e tentou levar a xcara aos lbios. A mo tremia tanto que ela desistiu da idia. O Paraso do Chocolate ficava sempre cheio na hora do almoo, 
mas conseguimos pegar sofs exclusivamente para ns. Acho que Clive devia colocar uma placa de Reservado naquele cantinho, s para a gente, mas ainda teramos que 
convenc-lo. Todas havamos conseguido chegar  chocolataria meia hora depois de termos recebido a mensagem desesperada de Chantal, e formamos uma rodinha aconchegante 
e conspiratria, com diversos muffins de chocolate diante de ns. O nico porm era que o assunto no era nada acolhedor.
      - Ele disse a Ted quem era?
      - No. - Chantal meneou a cabea. - Limitou-se a deixar um nmero e a comentar que tnhamos nos encontrado no hotel no Lake District.
      - Ainda bem!        
      - Mas a ameaa velada foi clara, Lucy. Acho que ele quis me avisar que poderia facilmente contar para Ted o que aconteceu. Tive sorte.
      - No seria melhor se abrir com o Ted? A honestidade costuma ser o melhor caminho - sugeriu Autumn.
      - No neste caso - disse Chantal, de forma categrica. - Como poderia confessar tudo para Ted? Ele se separaria de mim.
      Trocamos olhares consternados.
      - J ligou para o cara? - quis saber Nadia, enxugando o bigode deixado pelo chocolate quente.
      -Telefonei esta manh - informou Chantal. - Foi terrvel. Ele pareceu to esquisito, no sei como pude deix-lo chegar perto de mim, sem nem... - No terminou 
a frase, mas sabamos exatamente o que queria dizer.
      Autumn agitou os cabelos ondulados.
      - Prometa para mim que no vai fazer isso de novo - disse ela. -Transar com estranhos  superperigoso.
      Chantal ao menos teve a delicadeza de parecer constrangida. Enrubesceu.
      - Ele me disse que eu poderia recuperar todas as jias...
      - Boa notcia, no ? - interrompeu Autumn. Chantal fitou-a, cansada.
      - Se eu der trinta mil libras para ele. Deve ter mandado avali-las.
      - Esse tipo de gente conta com outras pilhas - disse eu, comprovando que desperdiara a adolescncia assistindo a filmes de gngsteres. Elas me olharam sem 
entender. - No estou falando de bateria, mas dos receptores de objetos roubados. Malandros de lojinhas de penhora suspeitas que passam adiante esse tipo de mercadoria 
em troca de uma participao nos lucros. As jias de Chantal provavelmente sero fundidas ou iro parar nas mos de algum receptor desonesto num recndito da Europa, 
se ela no obedecer.
      - Isso no est me fazendo sentir melhor, Lucy - comentou Chantal.
      - Sinto muito.
      - Trinta mil libras  muita grana! - Autumn disse o que j sabamos.
      - Esse valor tambm vai comprar o silncio dele - acrescentou Chantal.
      - Putz Grila! - Eu estava cheia de conselhos brilhantes naquele dia. Talvez a viso de todos aqueles livros e estantes destrudos estivesse bloqueando minha 
mente. No havia como lhes contar a desgraa que acontecera pela manh. Havia assuntos mais prementes que a destruio da livraria e a provvel perda de emprego. 
Alm disso, eu poderia cair no choro e, naquele momento, tinha que ser forte para apoiar Chantal. Ela precisava de todas ns.
      Nadia sentia-se constrangida:
      - Mas eu saquei todo o seu dinheiro, Chantal - disse ela. - Como vai fazer?
      O semblante da nossa amiga mostrava sua amarga determinao. -Vou ter que conseguir mais.
      - Precisa aceit-lo de volta. Posso tentar conseguir um emprstimo... ou coisa parecida. - Nem mesmo ela parecia estar convencida disso.
      Chantal ps a mo em seu brao.
      - No se fala mais nisso. Voc precisa mais dele. Ningum mandou eu me meter nesta confuso dos diabos. Vou ter que dar um jeito de escapar dela. O dinheiro, 
eu consigo, de alguma forma.
      - Mas no pode pagar por suas jias! - Autumn estava horrorizada. - So suas! Acho que devia ir  polcia.
      - No! - exclamou ela, com firmeza. - No posso fazer isso. Eu tinha que concordar com ela. Bastava ver qualquer filme sobre
      extorso para constatar que, toda vez que a polcia se metia, tudo ia por gua abaixo. Os bandidos sempre levavam a melhor. Haveria sangue respingado nas paredes 
e cadveres por toda parte. Metafrica, se no literalmente. Pelo visto, Chantal tinha a oportunidade de recuperar as jias, e no devia deix-la passar.
      - Acha mesmo que pode conseguir o dinheiro? - perguntei.
      -Vai ser difcil - admitiu ela, torcendo as mos. -Tirar trinta mil da conta sem Ted notar requereu habilidade e destreza. Mas outros trinta? - Deu de ombros. 
- No sei. Faria bastante diferena. Temos quadros que podem sumir de vista. Talvez eu possa dizer a ele que decidi mandar restaur-los, lev-los para o sto, com-los... 
Sou uma mulher descolada. Vou bolar alguma coisa, rapidinho. Tenho que ligar para o canalha ainda hoje, para informar o que vou fazer. Quer que eu me encontre com 
ele num hotel para trocar o dinheiro pelas jias. - Chantal deixou escapar um longo suspiro. - At parece.
      De sbito, tive uma idia e cheguei at a me levantar.
      - No, no. Faa isso, sim - aconselhei. - Marque um encontro com ele, mas no em Londres. Num lugar afastado, talvez no interior. - Elas me olharam com ansiedade. 
- Tive uma tima idia. - disse, animada. - Chantal, vamos recuperar suas jias.
      Todas me fitaram, ansiosas, e at mesmo eu me perguntei por que me comportava como um membro de Onze Homens e Um Segredo.
      
      
      
      
   
   Captulo Quarenta
      
      
      
      
      
 O
Sr. Jesmond teve que ser levado de volta para o hospital, em estado de choque, quando viu as condies em que o sebo fora deixado. Ele voltara esperando que tudo 
estivesse "em ordem", mas, em vez disso, o local fora totalmente destrudo. A agncia me informou que ele j estava melhor, que nenhum dano permanente ocorrera e 
que havia enviado frutas e flores, as quais seriam pagas por mim, o que me pareceu justo. Tambm tinha mandado duas moas para o sebo, sem cobrar nada, para organizar 
a baguna. Uma delas era bibliotecria, ento achei que tudo ia dar certo. Exceto que, agora, eu estava desempregada e sem agncia. Como era de esperar, as Deusas 
do Escritrio chegaram  concluso de que eu era a Capeta do Escritrio e me convidaram para sair, sem me dar a chance de explicar o que acontecera e como tudo comeara 
com a melhor das intenes.
      Naquela manh, eu me registrei em outra agncia, torcendo para que no checassem minhas referncias com as Deusas do Escritrio; do contrrio, eu estaria em 
maus lenis. Passei a manh com uma enorme folha de papel sobre o tapete da sala, esquematizando um engenhoso plano de ataque para as participantes do Clube das 
Choclatras - Operao Resgatar Jias de Chantal Mordi a ponta da caneta, andei de um lado para outro, cocei a cabea como os grandes viles de Hollywood. Cheguei 
a aventar a possibilidade de comprar um gatinho branco e peludo. Como nunca tinha planejado meu prprio assalto antes, foi um pouco complicado, mas acho que consegui 
organizar tudo. Queria me encontrar com as amigas na hora do almoo para repassar minha idia, mas todas estavam ocupadas naquele dia. A prpria prejudicada, Chantal, 
fazia uma matria, pelo visto, bastante confidencial, j que ela evitou revelar onde se encontrava. Nadia tinha uma entrevista de emprego e Autumn tentava melhorar 
a vida agonizante dos drogados deste mundo - incluindo a do irmo. A hora do almoo estava chegando e eu no tinha nada preparado, nenhuma comida em casa, a menos 
que contasse com um monte de chocolate, e, como mal havia comido outra coisa nos ltimos dias, achei que era hora de saborear algo nutritivo e saudvel. Frutas, 
verduras, lentilhas - comidas que davam gases. Fiquei ali parada, pensando no que iria fazer.
      Poderia ir malhar na academia - mas desisti da idia de imediato. No fazia sentido algum me punir naquele dia, a perda do emprego j era ruim o bastante. 
Precisava de algo ou algum que me desse um pouco de carinho e consolo. Em algumas ocasies - por sinal, rarssimas -, o chocolate no era um bom substituto para 
a empatia de um ser humano. Eu poderia ligar para o Paquera, mas, ento, teria de contar sobre o incidente no sebo do Sr. Jesmond e sobre minha demisso. Da, ele 
daria uma gargalhada e toda a Targa ficaria sabendo antes mesmo do ch da tarde. Talvez telefonasse para ele quando j tivesse um trabalho, provavelmente em algum 
momento do milnio seguinte.
      Quem sabe no seria uma boa ligar para Jacob para ver se ele estava livre, j que tinha um horrio to maluco? Talvez pudesse me ver.
      Mas os homens se assustam com esse tipo de coisa, no? Quando o casal s sai algumas vezes e a mulher comea a ligar do nada, ele acha que ela est se tornando 
uma psicopata obsessiva ou chega  concluso de que quer se casar com ele ou, no mnimo, conhecer sua me.
      E que tal telefonar para Marcus, em nome dos velhos tempos? Embora, tecnicamente, eu tivesse perdido o emprego por sua culpa. Meus dedos pairaram de modo perigoso 
sobre o teclado do celular. Seria uma pena se, depois de uma relao de cinco anos, no continussemos nossa amizade, no  mesmo? Seria um desperdcio de todo o 
tempo que passamos juntos. Se no perdoamos algum por causa de seus defeitos, nossa alma no fica marcada? Eu queria evitar isso e, se uma ligaozinha insignificante 
para Marcus o fizesse, ento valeria a pena correr o risco. Disquei o nmero e respirei fundo enquanto ele tocava. Tomara que meu ex no achasse que minha chamada 
tinha segundas intenes. No deveria pensar assim. Alm do mais, fora ele quem me ligara.
      Marcus estava muito atraente e meu corao apertou quando nos encontramos, embora eu tivesse instrudo o rgo especificamente a no sentir nada. Ele trajava 
um terno cinza-escuro, com camisa branca e gravata rosa-escuro. Eu gostava de homens confiantes o bastante para usar essa cor. Depois de aguardar diante do escritrio 
do meu ex, ganhei um aperto de mos e um beijo no rosto assim que ele passou pela porta giratria.
      - Que bom ver voc - disse Marcus, enquanto eu me perguntava por que optara por ligar para ele num momento de crise, ainda por cima causada por ele. Acho que 
a intimidade, s vezes, no leva ao desprezo, mas ao bem-estar.
      Ainda de mos dadas, rumamos para a um restaurante com mesinhas na calada, prximo  Catedral de So Paulo. Os desgastados pombos davam bicadas perto de nossos 
ps, empertigando-se enquanto pedamos panini de mozarela, legumes grelhados e vinho.
      - Eu pensei que tinha posto tudo a perder - admitiu Marcus. - Obrigado por me dar mais uma chance.
      - Esta no  outra chance - disse, com firmeza. - Liguei para voc porque tive uma semana horrvel e queria estar com algum com quem me sentisse...  vontade. 
S isso.
      Marcus deu um de seus sorrisos largos e devastadores.
      - A vontade? - Riu de novo. - Bom, j  um comeo. Eu me dou por satisfeito com isso. - A garonete trouxe nosso pedido. Marcus tomou um gole do vinho tinto 
e mordeu com vontade o sanduche. Quando me olhou, ficou srio, de sbito. - No sei o que acontece comigo, Lucy. No mesmo. Quando estamos juntos, assim, penso 
que nada se compara  nossa relao. Eu amo voc, tem que acreditar nisso. Mas, ento, quando nos acomodamos e ficamos muito  vontade, comeo a pensar em casamento, 
filhos, vida domstica acolhedora pelo resto da vida e, da, entro em pnico. Por isso ajo da forma como ajo. E como se algum tipo de vlvula de segurana explodisse. 
E sempre que tomo essa atitude, sei que cometo um grande erro...
      - O que no o impede de comet-lo. - Ele meneou a cabea. - Acontece, Marcus, que, se eu continuar a aceit-lo toda vez que voc cometer tom dos seus "grandes" 
erros, vou acabar me tornando uma daquelas mulheres amarguradas que escreve para colunas de conselhos sentimentais. "Querida Cathy, meu marido no consegue ser fiel. 
O que devo fazer?" Ou, ento, vou sair no programa Trisha, com um leno na mo, chorando, e uma legenda em caixa-alta explicando: "LUCY  TRADA PELO MARIDO.'"
      - Ah, ento quer dizer que voc se v casada comigo? Foi a minha vez de sorrir.
      - Eu costumava ter essa viso, Marcus. No posso negar que seria muito legal casar e ter filhos. Estou feliz solteira, mas no quero ficar sozinha pelo resto 
da vida. Com voc, tenho o pior dos dois mundos. Vivo uma situao incerta, sem saber se estou solteira de novo ou num relacionamento.
      - Tambm quero casar e ter filhos. Um dia. Acontece que meu setor tem um pssimo histrico. Todo sujeito do meu escritrio que se casou acabou se separando, 
sem exceo. Alguns esto na terceira ou na quarta esposa, no terceiro ou no quarto grupo de filhos. Passam o fim de semana na estrada, vendo uma e outra famlia, 
durante as duas horas de visita permitidas, e ficam a tarde toda em lanchonetes. No quero entrar nessa.  to errado assim querer ter certeza absoluta antes de 
me meter nesse compromisso? - Com o cenrio exposto daquela forma, ficava difcil contestar. - Ainda somos jovens, Lucy. Precisamos nos precipitar?
      - A gente j est junto h cinco anos. - Pelo menos, a maior parte desse tempo. - Se no tem certeza agora, provavelmente nunca ter. - Suspirando, tomei o 
ltimo gole de vinho. - Acho que j estou ficando velha demais para enfrentar esse redemoinho emocional.
      Ele aparentou estar angustiado.
      - O que tenho que fazer para provar que  com voc que quero ficar?
      Parar de dormir com outras mulheres seria um bom comeo, pensei, mas fiquei quieta. Soltei um suspiro e disse:
      - No sei. - Estava exausta demais para enfrentar uma discusso sobre a relao naquele dia. No era o que eu tinha planejado. De qualquer forma, o que estava 
fazendo ali? - Acho que  tarde demais para termos essa conversa.
      - No fale assim! Fiz meno de levantar.
      - Melhor eu ir.
      - No! Por favor, fique. No v! - implorou ele. Voltei a me sentar, com alguma relutncia.
      Ento, ele se animou mais.
      - J sei. - Marcus levou as mos  cabea, como se houvesse tido um estalo. - Venha morar comigo. V l para casa, em carter permanente. - Meu semblante transmitiu 
o choque que senti. Tudo o que eu queria dele era uma taa de vinho e algumas piadas. Talvez um flertezinho e possivelmente alguma splica. Aquilo estava fora do 
previsto. - Estou falando srio - ressaltou ele, com a voz animada. - A gente pode fazer isso, Lucy. Temos que tentar. Agora. Vou matar o trabalho esta tarde. - 
No pude sequer me mover. Estava mesmo escutando aquilo de Marcus, o viciado em trabalho? Matar o trabalho? Deve ter feito um transplante de personalidade. - Podemos 
ir pegar suas coisas agora mesmo. Por que esperar?
      Senti meus olhos pestanejarem e a boca abrir, pasma, como se quisesse dizer algo, mas se recusasse. Marcus queria que eu fosse morar com ele! Ser que poderamos 
fazer isso? Deveria dar outra chance para meu namorado galinha? Nunca tinha me convidado para morar com ele antes. Sem dvida alguma, era um grande passo. Eu nunca 
fora uma amante que morou junto e a idia era tentadora. Na certa, significava que ele comeara a aceitar o conceito de "para sempre". No se convida algum para 
ir morar junto quando se planeja levar para o apartamento um monte de gostosonas diferentes todas as noites, certo? Comigo por perto o tempo todo, quando ele teria 
a oportunidade de ser infiel? Talvez elevar nossa relao a esse nvel fosse exatamente o que necessitvamos. De repente, senti certa exaltao e uma onda de expectativa 
percorreu meu corpo. Ser que poderamos mesmo fazer isso?
      Foi s a resposta comear a adquirir contornos em minha mente estupefata para Marcus levar a mo  testa.
      - No d - disse, deixando escapar um suspiro triste. - No podemos.
      - Por qu? Por qu? - Eu j estava me acostumando com a idia. - Por que no? 
      -Todo o piso do apartamento est sendo retirado agora.
      - O piso?
      - Tem algum problema na tubulao ou algo assim. Est tudo fedendo. J chamei uma empresa de encanamento, mas no conseguiram encontrar a fonte do mau cheiro. 
Tive que chamar uma equipe de construtores. Eles quebraram o piso em todos os ambientes, s que no acharam nada.
      As mas do meu rosto ficaram da cor lvida da gravata de Marcus.
      - E mesmo?
      - Cheira a peixe podre. Voc no ia agentar ficar l. Ainda no. Estou at pensando em ir para um hotel, at que descubram o que h de errado. Mas assim que 
terminarem...
      Comprimi os lbios e ponderei o que iria dizer. Num piscar de olhos, eu me deixei levar pelo entusiasmo de Marcus. Num piscar de olhos, eu j estava pensando 
no que empacotaria. Num piscar de olhos, eu me esqueci de Jacob e do quanto gostava dele. Num piscar de olhos, Paquera se tornara apenas meu chefe. Num piscar de 
olhos, sobrelevei como Marcus foi terrvel comigo.
      - So pitus - informei. Marcus me fitou, obviamente, com expresso intrigada. - O odor. Vem de pitus. Esto no seu sof e debaixo do seu colcho.
      Ele ficou horrorizado. -Voc os colocou ali?
      - Coloquei.
      Marcus me fitou por alguns momentos, sem dizer nada. Seu maxilar se contraiu, o que costumava acontecer quando estava ansioso.
      - Fez isso no mesmo dia em que encheu meus sapatos e ternos de pur de batata?
      - Ah.
      Ele esfregou a testa com uma das mos.
      - Acho que eu deveria rir disso.
      - Seria uma forma de lidar com a questo - disse eu, com o rosto rubro.
      - Mas no consigo. Isso me custou milhares de libras at agora. O sof vai ser substitudo na semana que vem porque as manchas de batom no saram. Lembra? 
Voc escreveu Marcus Canning, voc no passa de um babaca traidor em letras vermelhas enormes no couro branco. - Eu lembrava muito bem. Ele estava visivelmente abalado. 
- Eu merecia mesmo isso, Lucy?
      - Na poca, achei que merecia.
      - E agora?
      - Agora, lamento. Ele se levantou.
      -Tenho que voltar para o trabalho.
      - Marcus, sinto muito mesmo. Queria que mantivssemos a amizade.
      Ele ficou quieto; em seguida, comeou a se afastar. A garonete veio tirar nossos pratos.
      - Quer mais alguma coisa?
      - Pode trazer o cardpio de sobremesa, por favor?
      Quando ela o trouxe, no pedi um, mas dois pedaos imensos de bolo de chocolate.
      
      
      
      
   Captulo Quarenta e Um
   
      
      
      
  Q
uando me encontrei com as participantes do Clube das Choclatras no dia seguinte, j havia finalizado os detalhes do meu plano mestre. Todas ns conseguimos ir at 
l aps o trabalho e, se estivssemos num pub, com certeza estaramos no que se conhece como uma "reunio a portas fechadas". Uma placa de Fechado fora colocada 
na porta e somente ns desfrutvamos das delcias do Paraso do Chocolate. A chuva batia com fora nas janelas e Clive acendera algumas velas nas mesas de centro 
para atenuar a iluminao cada vez mais sombria. Vou dizer uma coisa: se eu fosse bilionria, pagaria Clive e Tristan para manterem aquela chocolataria s para mim.
      -Vamos recuperar suas jias - disse eu a Chantal, num tom de voz bastante resoluto e determinado. Elas riram.
      - E como a gente vai fazer isso, querida? - quis saber Chantal, ao partir um pedao de um biscoito com chocolate.
      - Assim. - Entreguei uma folha de instrues a cada uma delas.
      Hoje, mais cedo, trabalhara como temporria num prdio de escritrios desconhecido e obscuro, onde ningum falou comigo. Um lugar to horrendo que, para fazer 
dele um ambiente mais suportvel, eu passara o dia aperfeioando os detalhes da Operao Resgatar Jias de Chantal e imprimindo cpias para todas ns.
      Elas folhearam as pginas. Ento, riram com vontade.
      -Voc est falando srio? - sussurrou Autumn.
      - Muito.
      - Acha mesmo que podemos fazer isso?
      - Creio que temos que tentar - disse eu, com firmeza. Estava me consolando com um tablete de Madagascar, com especificao de origem, s que aquele no era 
amargo, mas ao leite, cremoso, doce e manteigoso como os que eu comia na infncia. Minha me tambm era choclatra; foi ela que me colocou nesse caminho. Mas, um 
dia, chegou  concluso de que queria usar tamanho trinta e oito para se realizar e passou a s comer alface. Vive superinfeliz, mas tem o corpo de criana malnutrida 
que tanto queria. Eu, na idade dela, optaria por gordura e felicidade.
      Meu delicioso Madagascar costumava curar tudo; no entanto, naquele momento, no ajudou a acalmar meus nervos. Eu estava cometendo o sacrilgio de engoli-lo 
com ch. Este tampouco me ajudou.
      - No vamos deixar, de jeito nenhum que esse cara se d bem com extorso - disse eu, mal-humorada.
      -Vai ser difcil conseguir a grana que ele pediu, no prazo requerido - admitiu Chantal. -Talvez Lucy tenha razo. Quem sabe no devssemos tentar fazer isso?
      - Ele entrou em contato com voc de novo?
      - Esta manh. Consegui ganhar tempo, mas sei que no me resta muito.
      Estvamos comeando a falar como especialistas em roubo. Uma de ns diria, em breve: "Vamos pendurar o sujeito num gancho de carne!", como o ex-jogador de 
futebol e ator Vinny Jones. Todas nos entreolhamos com apreenso.
      -  O que vamos fazer  legalmente permitido? - indagou Autumn, sussurrando.
      - S estamos recuperando o que pertence a Chantal - respondi, com uma convico que no necessariamente sentia, pois nosso mtodo exigia cautela. - No temos 
escolha.
      - Contem comigo - disse Nadia. - Quando vamos colocar o plano em prtica?
      - O mais breve possvel. - Olhei para Chantal para confirmar. Ela assentiu.
      - Quero que me avisem logo, para ter certeza de que o Toby vai poder ficar com o Lewis. Espero no ter que contratar uma bab - disse Nadia.
      George Clooney nunca teve esse problema. Ser que alguma vez teve que adiar o assalto porque um dos Onze Homens no conseguiu contratar uma bab? Duvido muito.
      - Acha que pode levar sua parte adiante? - perguntei a Autumn. Seus olhos estavam arregalados de medo.
      - Posso. Vou fazer isso por Chantal.
      - Por que temos que ir para o interior para pr o plano em prtica? - quis saber Nadia.
      - Achei que seria melhor fora do nosso territrio. - Jogos, Trapaas e Dois Canos Fumegantes, em que Vinny tambm atuou. - Em solo neutro. - Embora, pensando 
bem, no tivesse tanta certeza assim do motivo pelo qual ir to longe assim. Ser que poderamos lev-lo a cabo mais perto de casa? Provavelmente. Mas no diria 
nada naquele momento, j que acabariam duvidando da solidez das demais partes do meu plano engenhoso.
      - Este hotel  timo - disse Nadia, ao ler o nome do local do encontro. - Eu e Toby recebemos um panfleto alguns anos atrs.
      Pensamos em passar alguns dias l no nosso aniversrio de casamento, mas  caro demais. Sempre quis ir at l. -Todas a "fitamos". - Sinto muito. Sei que no 
 nenhum piquenique. Tenho conscincia disso.
      - Vamos precisar de comprimidos para dormir - comentei, pensando alto.
      -  Posso lev-los - disse Nadia. E voltamos a olh-la, perguntando-nos o que nossa amiga fazia com sonferos. Pensei que Autumn teria acesso a eles. - De quantos 
precisam?
      - Quantos so necessrios para drogar um vigarista? - Percebi que poderia ser uma cincia inexata.
      - No queremos mat-lo - acrescentou Autumn, ansiosa.
      - Eu quero - disse Chantal, sem rodeios.
      - Por que no me diz como se chama o remdio? - indagou Autumn. - Vou perguntar para o Richard, para ver o que acha. Ele sabe de tudo sobre drogas legais e 
ilegais.
      Eu sabia que os contatos dela seriam imprescindveis.
      - Acham que os rapazes topariam participar? - Olhei disfaradamente para Clive e Tristan.
      - No custa nada perguntar - sugeriu Chantal. - Rapazes! Querem participar de um assalto?
      Rindo, os dois foram se sentar conosco, levando uma garrafa de vodca com chocolate e meia dzia de copinhos, que entregaram a cada uma de ns. Os sorrisos 
sumiram de seus rostos quando se deram conta de que estvamos, de fato, planejando realizar "um servio" e de que precisariam participar dele. Depois de seis doses 
de vodca, eles concordaram, surpreendentemente, em participar.
      -Telefone para ele - instru Chantal, tambm incentivada pela vodca. - Ligue para o canalha e marque o encontro. Diga para ele reservar um quarto, j que voc 
no quer fazer a troca num local pblico.
      -Tem certeza? - perguntou ela.
      -  a nossa nica chance.
      Chantal respirou fundo e digitou o nmero no celular. Ns nos inclinamos em sua direo, esforando-nos para ouvir a conversa.
      -  a Chantal. Vamos nos encontrar no Hotel Trington Manor - disse ela ao vigarista, sem prembulos. - Conhece? timo. - A voz da nossa amiga tambm soou ligeiramente 
enrolada. - Sexta-feira, s nove. Reserve um quarto. Quero ter certeza de que a troca ser feita em segredo. - Ao desligar, ela comentou: - Est marcado. - Ento, 
tomou outra dose de vodca.
      - Sexta-feira, s nove - repeti e todos assentimos, concordando. -Vamos nos encontrar aqui, depois do trabalho. Levaremos algumas horas para chegar l. - Chantal 
dirigiria, j que tinha o automvel mais possante. Autumn e eu nem tnhamos carro. Assaltar algum de bicicleta no era uma boa. Ento, tudo estava pronto.
      Clive serviu outra dose para todas. Brindamos. E, apesar de ter me dado conta de que no soara exatamente como em Onze Homens e Um Segredo, vociferei:
      - s participantes do Clube das Choclatras.
      
      
      
      
      
   
   
   Captulo Quarenta e Dois
      
      
      
      
 M
inha nova agncia - Anjos do Escritrio - conseguira outro emprego para mim. Esse era timo. Estava trabalhando com uma estilista badalada, que tinha o prprio ateli, 
em Covent Garden. No era legal? Tinha muito mais a ver comigo que sebos fedorentos e empresas de informtica estreis. J fazia dois dias que eu estava ali e no 
quebrara nada. Srio. Todas as manequins da sala de exposio continuavam com seus vestidos de dez mil pratas. Nenhum deles rasgara, nenhuma delas perdera braos 
ou outras partes do corpo, de forma inapropriada. Embora o piso fosse de carvalho, muito polido, eu no escorregara feito uma palhaa. Pelo visto, aquele era um 
momento decisivo para mim.
      A estilista chamava-se Floella. Era uma jamaicana geniosa, com um fraco por sapatos Jimmy Choo. Acabara de comear a ganhar destaque no mundo da moda e passara 
a vestir algumas das celebridades de primeira categoria. Eu j havia organizado sua agenda e reservado vrios horrios para as clientes que queriam mandar fazer 
vestidos de alta-costura. Sabia como ela gostava de tomar seu caf descafeinado: trs gotas de leite de soja e um torro de acar de manh; puro, de tarde. Ao tentar 
me tornar absolutamente indispensvel, esperava que ela me mantivesse por mais tempo ou me inclusse no quadro de funcionrias permanentes.
      Naquele dia, entretanto, minha mente estava longe dali. Naquela noite ocorreria a Operaro Liberar Jias de Chantal e meus nervos estavam  flor da pele. Tinha 
tomado umas dez xcaras de caf descafeinado e comido o mesmo nmero de barras de chocolate do meu estoque cada vez mais reduzido - sempre tomando o maior cuidado, 
claro, para no deixar impresses digitais de chocolate nem manchas nos vestidos de noite e nos rolos de tecido da sala de modelagem.
      - Lucy - chamou Floella, enquanto eu sonhava acordada. - Voc precisa pegar a van e levar estes vestidos para o Hotel Landmark, para o desfile do final do 
dia.
      Pegar a van? Eu? Essa era uma das minhas funes?
      -Vou ajudar voc a colocar tudo l.
      Van? Eu passara no teste de direo havia muito tempo. E fora num carro. Ser que ela no sabia que fazia cincos anos que eu no dirigia qualquer automvel 
e que nunca, jamais, assumira o comando de um veculo to gigantesco quanto uma van?  evidente que no. A vida londrina significava que eu - como todo o mundo - 
ia a toda parte de nibus ou metr. O que iria fazer? Eu no podia admitir, quela altura do campeonato, que no tinha a menor familiaridade com essa histria de 
dirigir. Floella, na certa, me mandaria de volta para a Agncia Anjos do Escritrio sem titubear. No restava outra escolha. Teria de realizar a tarefa.
      Com uma sensao de desastre iminente, fui at a parte de trs do ateli - uma rea que eu ainda no conhecia -, onde estava estacionada a enorme, melhor dizendo, 
a gigantesca van branca. Ah, que timo! Eu me tornaria a motorista enlouquecida de uma van branca. Mas, se eu quisesse ser mesmo indispensvel, no podia abrir o 
bico; ento, com a ajuda de Floella, coloquei os vestidos l dentro. Protegidos por tecido e plstico, foram pendurados nas araras especialmente projetadas para 
a van, para a van descomunal
      - V com calma - aconselhou Floella, talvez captando meu nervosismo. - Minha assistente, a Cassie, j est no hotel. Vou ligar para ela, avisando que voc 
j est a caminho.
      - Est bom.
      Ento, ela entrou e me deixou  merc da van. Subi. Minha Nossa! Da cabine, aquilo mais parecia um caminho de mudana. Fiquei ali sentada, tentando decifrar 
como tudo funcionava, at no poder adiar mais a partida. A van dava a impresso de ser mais complicada que o Corsa Vauxhall que eu dirigira na ltima vez. Minhas 
mos tremiam quando engrenei a marcha e, com muita hesitao, fui dirigindo, devagar quase parando, rumo  ruela atrs do ateli, tentando evitar arranh-lo nas 
paredes de tijolos que circundavam a sada em ambos os lados. Eu j sentia a face vermelha e as axilas molhadas de suor.
      Dirigi com hesitao pelo trfego londrino, rumo ao Hotel Landmark, deixando os outros carros me ultrapassarem enquanto tentava manter um curso estvel. No 
falei palavres - bom, exceto para mim mesma,  meia-voz -, apenas agarrei com fora o volante e fui, devagar, para meu destino. Quando cheguei  Street, New Oxford, 
j estava comeando a relaxar. As costas no estavam mais to rgidas e o sangue voltara a circular pelas juntas. Quando fiz a curva na Tottenham Court Street, desviei 
os olhos da rua e, num piscar de olhos, um transeunte da calada chamou minha ateno. Era o Jacob. Dava passadas largas com a pasta, desviando da multido. Ento, 
lembrei que combinara de ir a um evento beneficente com ele naquela noite; talvez fosse at para esse desfile que estivesse levando os vestidos. Eu tinha me esquecido 
por completo! Na pressa de planejar a recuperao das jias, meu gato promissor nem me passou pela cabea! Como pude deix-lo de lado? Estava ficando maluca?
      Parei na faixa de pedestres e observei Jacob se aproximar. Seria a oportunidade ideal para cancelar o encontro e explicar a dificuldade da situao, embora 
eu soubesse que no poderia revelar que cuidaria de um assalto, em vez de ir a um evento de caridade com ele. O que pensaria de mim? Tentei abrir a janela, mas no 
consegui descobrir como abaixar a do carona. A que estava ao meu lado abriu contra a minha vontade, enquanto eu apertava todos os botes. Ainda assim, gritei:
      - Jacob! Jacob!
      No me ouviu. Poderia ter ligado para ele, mas no queria levar uma multa por falar ao celular enquanto dirigia. O sinal abriu e os carros atrs de mim comearam 
a demonstrar sua impacincia, buzinando sem parar. Comecei a acelerar, mas, ento, cheguei  concluso de que precisava falar com Jacob naquele momento. E se eu 
no conseguisse entrar em contato com ele mais tarde? Pensaria horrores de mim! Com isso, meti o p no freio e enfiei o carro no acostamento. No entanto, ouviu-se 
uma batida forte e minha van foi jogada para frente, empurrada por trs.
      - Ah, que droga!
      As buzinas recomearam a soar. Desci e fui correndo at a parte de trs. Outra van branca havia batido na traseira da minha. S que, enquanto ela no apresentava 
nem um arranho, a minha fora bastante danificada. As portas traseiras haviam quebrado e encontravam-se abertas, amassadas. Os dois sujeitos da van saram; um deles 
vociferou, furioso:
      - Por que no olha para onde vai, hein? - perguntou. - Idiota! Jacob passava por ns. Nem olhou para nossa pequena batida.
      - Espere um segundo! - disse eu para o cara. - Espere um segundo que eu j volto. - Deixei-o boquiaberto, enquanto saa correndo atrs de Jacob, gritando com 
toda fora: - Jacob! - Eu podia resolver os detalhes do seguro quando voltasse; aquilo era muito mais importante. O sujeito se metera na traseira da van, sendo, 
sem dvida alguma, o culpado. - Jacob! - Ser que o cara era surdo? Estaria com um iPod? Fosse qual fosse o motivo, no se virou na minha direo.
      Em vez disso, entrou na recepo de um grande hotel. Continuei a persegui-lo, embora tivesse que aguardar um grupo de executivos passar pela porta giratria. 
Dentro do hotel, nenhum sinal de Jacob. Esquadrinhei os homens de negcios sentados  recepo, mas ele no estava entre eles. Ento eu o vi, dirigindo-se aos elevadores, 
e gritei de novo:
      - Jacob!
      Ele me olhou e pareceu surpreso ao me ver, como era de esperar. Havia outro jovem bonito ao seu lado. Era alto, moreno e usava um terno bem cortado, listrado.
      - Sinto muito atrapalhar! - disse eu, sem flego. - Acabei de sofrer um acidente. Quando vi voc passando, sa da minha van.
      - Acidente? Van? Voc est bem? - perguntou ele.
      - Estou. A van ficou meio amassada. - Muito amassada. - No importa - disse-lhe eu; Meu olhar pousou no outro rapaz. Que gato! - Lamento. Voc est indo para 
uma reunio? No quero atras-lo!
      - No se preocupe - disse ele, mas notei o olhar ansioso que lanou para o outro rapaz.
      - Posso falar um minutinho com voc?
      Ele sondou o outro, de novo, em busca de aprovao. O sujeito assentiu, secamente, checando a hora no relgio. Jacob se afastou dele e, segurando-me pelo brao, 
levou-me at um lugar em que no pudssemos ser ouvidos.
      - No vou poder ir hoje - disse eu. - Lamento muito. Tenho um compromisso.
      - Ah. - Jacob pareceu ter ficado desapontado.
      - Estou morrendo de pena - prossegui. - Se eu pudesse cancelar o outro compromisso, no pensaria duas vezes. Mas deixaria minhas amigas na mo.
      - Eu entendo.
      - E no fim de semana? Talvez a gente possa se encontrar no sbado, ou no domingo? No tenho planos.
      - Vou estar ocupado - disse ele, com um sorriso amargo. No deu para notar se era conversa fiada ou no. Ser que achou que eu o estava colocando em segundo 
plano? No era o caso.
      - Podemos combinar algo durante a semana. - Sem querer, comecei a dar uma de desesperada.
      -Tenho reunies quase toda noite. - Quase toda noite, mas no toda noite. Eu no sabia mais o que sugerir. - Na tera - disse ele, ajudando-me. - Posso tirar 
algumas horas l pelas seis da tarde. Quer se encontrar comigo depois do trabalho no Paraso do Chocolate?
      - Est bem - respondi, sem querer deixar a oportunidade escapar. L se ia minha aula de ioga de novo. - Na tera seria timo.
      O amigo de Jacob se remexia com impacincia prximo ao elevador. -Tenho que ir. Os clientes esto esperando.
      - At tera, ento. - Ergui a mo e acenei, embora ele j estivesse de costas.
      O outro rapaz virou-se e sorriu de modo enigmtico para mim ao entrar no elevador com Jacob. Porm, no tive tempo de parar para pensar no que queria dizer, 
se  que queria dizer algo, pois tinha que voltar para a van.
      Sa depressa do hotel e corri at a rua. Quando cheguei ao final, s vi uma van. Droga! Os idiotas haviam se mandado! Tomara que tivessem deixado os detalhes 
do seguro debaixo do limpador de pra-brisa ou coisa parecida. Porra! Nunca imaginei que fariam isso! No se pode confiar em mais ningum nos dias de hoje! O que 
eu iria dizer para Floella? Como explicaria a batida na traseira da van? Reagiria melhor que o Sr. Jesmond, quando ele se deparou com a dramtica reorganizao do 
sebo? No. Na certa, teria um troo, e um dos seus sapatos Jimmy Choo voaria pelos ares.
      Como as portas da parte de trs da van haviam ficado abertas, eu provavelmente teria que encontrar algo para amarr-las, pois no podia dirigir com as duas 
escancaradas. Soltei um suspiro. Aquele dia no estava indo nada bem. Tomara que os demais eventos transcorressem melhor. Mas, como dizem que, quando algum entra 
numa mar de azar trs coisas ruins ocorrem, ainda teria uma calamidade pela frente.
      Quando olhei para a traseira da van, percebi qual era ela. Todos os vestidos de noite de Floella haviam sido levados. No ficara um sequer. A mala da van virar 
um buraco negro. Os caras que estavam na outra van resolveram ficar com os vestidos. L estava eu, concentrada no meu prprio assalto, e, nesse nterim, acabei me 
tornando vtima de um. Fitei o espao vazio, perguntando-me o que iria fazer. Floella no ia gostar, no ia gostar nem um pouquinho disso.
      Estupefata, fui at a frente da van. Ento, vi um pedao de papel debaixo do limpador de pra-brisa. Animei-me um pouco. No fim das contas, os caras deviam 
ter deixado um endereo de contato. Talvez houvesse um motivo perfeitamente plausvel para os vestidos no estarem ali. Talvez tivessem levado tudo para algum lugar, 
a fim de guard-los em segurana. Com as mos trmulas, peguei o papel. Era uma multa. A porra, a infeliz de uma multa! Com ela, ocorreram quatro episdios de azar 
comigo em um s dia. Com certeza, minha quota j estava preenchida. Ento, eu me dei conta de que acabara de perder outro emprego - daquela vez, um excelente - e 
a soma dos fatores deu cinco.
   Captulo Quarenta e Trs
      
      
      
      
 E
nto, este  seu pequeno imprio? - perguntou Richard. No parecia estar muito impressionado. - . - De alguma forma, Autumn persuadira o irmo a ir at o centro 
de reabilitao de dependentes para se familiarizar um pouco com o programa MANDA VER!, em que ela estava envolvida. Ela queria que ele participasse de sua aula 
e conhecesse alguns de seus alunos. Era politicamente incorreto cham-los de garotos, mas no passavam disso. Meninos e meninas prejudicados e confusos. Autumn achou 
que, ao levar Richard at l e permitir que travasse contato com alguns daqueles adolescentes, cujas vidas haviam sido destrudas pelo vcio, talvez o irmo casse 
na real com o choque. Teria a chance de ver o resultado da dura realidade das drogas, em vez das imagens glamorosas da cocana, divulgadas na mdia, nas quais ele 
acreditava piamente. - Que lugar mais deprimente! - disse meu irmo, fazendo um gesto de repulsa ao ver as lascas de tinta nas paredes. - Eu ia querer me drogar 
ainda mais se fosse obrigado a ficar nesta espelunca.
      Era verdade que as acomodaes no centro eram mais funcionais que atraentes. O objetivo do Instituto Stolford nunca fora ganhar prmios de design. Estabelecera-se 
numa antiga escola de tijolos vermelhos, construda na dcada de 1930, que decaa cada vez mais. Boa parte da verba era usada simplesmente para impedir que o lugar 
despencasse. Mas as salas eram grandes e bem iluminadas, embora o aquecedor central fosse barulhento e o piso de madeira original estivesse sujo e arranhado por 
causa do uso.
      - E, voc tem mesmo muita sorte de ter um pai que pode arcar com os custos de uma clnica de reabilitao que, a bem da verdade, mais parece um hotel cinco 
estrelas. No  o que acontece com a maioria dos viciados.
      - Ah, vai, Autumn, nem comea! - queixou-se ele, caminhando atrs da irm. - Eu j disse que no sou viciado. S cheiro socialmente, assim mesmo quando estou 
a fim.
      - Sei. - O irmo se amedrontara por alguns dias, depois da saia-justa com Daisy, mas agora voltara a ser desagradvel, como sempre. - No  assim que todo 
mundo que se mete com drogas comea? Controlando o hbito?
      - E cocana, nada mais. Hoje em dia, a gente fica alto pelo preo de uma xcara de cappuccino. At o governo est rebaixando a classificao das drogas. No 
so as desgraas que costumavam ser, apenas realam o estilo de vida. A gente usa como se fosse menta depois do jantar, querida. Basta cheirar umas fileiras junto 
com caf para ficar ligado. No faz mal nenhum.
      - Detesto ter que discordar de voc, Richard, mas lembre-se de que j perdeu o emprego e a casa. Sabe, acabou se metendo numa situao muito complicada.
      - Olhe, isso tudo aqui  muito legal, mana. - Ele fez um gesto amplo com os braos, mostrando o corredor. - Eu admiro essa sua vontade de fazer o bem neste 
mundo. Tenho certeza que todos os adolescentes cheios de espinhas curtem  beca. Devem ver voc como uma tbua de salvao, mas no sou como eles. Estou a lguas 
de distncia de mendigar na esquina, numa caixa de papelo. - Deu uma risada zombeteira, que fez os plos da nuca de Autumn se arrepiarem. S ele reagiria com tanto 
desdm a respeito de sua atual situao.
      - Isso porque voc tem uma irm com um apartamento legal na Sloane Square - lembrou ela. - Do contrrio, onde estaria?
      Entraram na sala de artes, o setor dela. Nenhum dos jovens havia chegado ainda, mas seus esforos criativos tinham ajudado a decorar as paredes. Alguns fizeram 
vitrais com vrias criaturas - gatos, filhotes, drages - enroladas, satisfeitas, num dos cantos do vidro. Fios tortos de arame traam as mos instveis e inexperientes 
dos artistas. Outros jovens haviam sido mais ousados, fazendo painis coloridos para portas que, provavelmente, nunca usariam. Penduricalhos de vitral giravam nas 
janelas, refletindo os parcos raios de sol que chegavam at ali, na parte norte do edifcio, lanando arco-ris em tons de vermelho, amarelo e verde sobre as bancadas 
organizadas. Era ali que Autumn adorava ficar, onde se sentia mais feliz. E se ela fizesse alguma diferena, por menor que fosse, levando um pouco de nimo e alegria 
 vida dos adolescentes, ento tudo valia a pena.
      Richard passou o brao pelo ombro da irm e deu-lhe um aperto conciliatrio.
      - Isto daqui est muito legal, mana. Voc realmente faz um bom trabalho.
      -Tento fazer - admitiu ela, com sinceridade. Embora algumas vezes se perguntasse se era suficiente. - Meus alunos vo chegar daqui a pouco.
      No horrio previsto, uma jovem por demais esqueltica, com roupas gticas e cabelos arrepiados, tingidos de preto, com mechas cor-de-rosa, entrou. Era Tasmin, 
uma dependente de crack de dezesseis anos. Participava da aula de Autumn havia um ano e seu talento para trabalhar com vitral era bvio. J passara do simples trabalho 
com o vidro s fornadas, em que buscava as cores mais vibrantes, misturando-as para formar peas delicadas. Enquanto as outras alunas ficavam loucas para sair dali, 
j que suavam para fazer uma cermica de mosaico decente, Tasmin passava horas absorta, retorcendo os delicados arames prateados ao redor das peas de vidro que 
criara e queimara para fazer pingentes e brincos - lindas bijuterias que ela s vezes vendia s amigas em troca de algumas libras. Aquilo aumentou a auto-estima 
da jovem e encheu de orgulho a professora. Autumn admirava muito a habilidade e a determinao de Tasmin. Ela se alegrava ao ver uma de suas estudantes se sair to 
bem. No entanto, embora a moa tivesse talento, cada dia era uma batalha para ela. Se tivesse tido a oportunidade de ir  escola, Autumn tinha certeza de que Tasmin 
seria uma aluna dedicada; tratava-se de uma jovem muito esperta, apesar de se deixar levar, em algumas ocasies, pela sagacidade e boca suja. A professora esperava 
que aquela aluna conseguisse se libertar de seu atual crculo social, dos amigos que pareciam fazer o possvel para impedir seu progresso. Tasmin apareceu diversas 
vezes com hematomas. Nenhuma das moas daquela aula gostava dela. Por trs de toda a maquiagem gtica, havia uma jovem muito bonita: as outras invejavam no s sua 
beleza, mas o fato de ela ter descoberto ali seu talento para criar bijuterias.
      Era mesmo uma pena que Tasmin no conseguisse fazer um anel de brilhantes e algumas pulseiras, para que elas no tivessem que levar adiante o plano de Lucy, 
naquela noite. Autumn sentiu o estmago embrulhar ao pensar no que aconteceria mais tarde. Ela no contaria nada a Richard; quanto menos ele soubesse a respeito 
de seu envolvimento naquele plano absurdo, melhor. Deveria ter pedido seu conselho sobre a quantidade necessria de sonferos para que a vtima casse num sono profundo, 
mas no lhes restaria outra escolha, a no ser adivinhar e esperar pelo melhor. Autumn sentiu o estmago embrulhar de novo. Lucy estava convencida de que elas conseguiriam 
levar o plano adiante. J ela no tinha tanta certeza assim; s torcia para que no fossem pegas.
      - Oi, Tasmin.
      - Oi, fessora. - cumprimentou a jovem. Autumn tentara fazer com que os alunos a chamassem pelo primeiro nome, mas a maioria deles insistia em trat-la de "fessora".
      - Este  o meu irmo, Richard.
      Tasmin o olhou com desconfiana, observando o suter preto de caxemira e a cala jeans de marca, da mesma forma que ele fitava sua meia-cala de rede rasgada 
e as botas da marca Doctor Marten.
      -  melhor eu ir - disse ele, pouco  vontade. -Tenho umas coisas para fazer.
      Autumn se perguntou o que seria. Ao menos ele concordara em ir at l, mas, pelo visto, conversar um pouco com os jovens seria um passo complicado demais. 
No era muito fcil aproximar-se deles - s Deus sabe quanto tempo ela levara. De vez em quando, Tasmin levava um tablete de chocolate de presente para Autumn, pois 
descobrira que era o ponto fraco dela. Foi o mais perto que a professora chegara da franca admirao e do agradecimento.
      Richard lhe deu dois beijinhos.
      - At mais!
      Autumn assentiu. Queria lhe dizer para tomar cuidado, mas sabia que ele se irritaria com isso. Toda vez que precisava conversar com o irmo, sentia estar pisando 
em ovos. Gostaria que Addison estivesse l para motiv-lo por ela. Talvez ele tivesse convencido Richard a se envolver de alguma forma com o programa, o que ela 
no conseguiu fazer.
      Quando o irmo alcanou a porta, um jovem alto passou por ele, olhando-o rapidamente de cima a baixo. Era Fraser, dependente de herona e traficante de pouca 
monta desde os quinze. Liderava um grupo de batedores de carteira, que, para alimentar o hbito do chefe, roubava o dinheiro suado dos compradores da Oxford Street. 
Autumn o via como Fagin, personagem de Charles Dickens. Apesar de seus diversos problemas e defeitos, era um rapaz simptico e engraado, com um forte sotaque de 
Glasgow, o que muitas vezes a impedia de entend-lo. Autumn no sabia ao certo que proveito ele tirava de sua aula de trabalhos criativos em vidro, mas era um dos 
alunos mais regulares. Talvez por causa da queda que ele tinha por Tasmin. Naquele momento, Fraser estava fazendo, com dificuldade, um penduricalho de vitral destinado 
 janela da cozinha de sua me, que morava na Esccia, onde ele nascera. Quem sabe no tivesse sido melhor Richard no ter ficado mais tempo mesmo. Ela precisava 
discutir alguns assuntos com Fraser, bem longe dos ouvidos do irmo.
      - E a, fessora?
      - Oi, Fraser. - Autumn percebeu que Tasmin estava ocupada, tirando seu mais recente projeto do forno. Puxou o rapaz para um canto. - Eu preciso de um favor 
seu.
      O rapaz se inclinou na bancada prximo a ela.
      - Desembucha. Autumn sussurrou:
      -Voc pode me ensinar a bater carteira?
      Se ele ficou espantado com o pedido inslito dela, no demonstrou. Em vez disso, assentiu, com confiana.
      - Claro!
      - timo! - disse ela. -Tenho que aprender at esta noite.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Quarenta e Quatro
      
      
      
      
 E
stava usando meu estonteante vestidinho preto de alcinha e minhas sandlias de salto alto, como toda boa femme fatale. Tremia dos ps  cabea, apesar de ter a sensao 
de que havia uma fornalha dentro de mim. As mas do rosto ardiam enquanto eu tentava, desesperadamente, dar a impresso de estar tima, calma e controlada. Mas 
tivera um dia difcil e minha pobre presena de esprito j vira dias melhores.
      Desnecessrio dizer, fui demitida do meu emprego superlegal assim que voltei para o ateli e relatei minha histria pattica para Floella. Fiquei com o rosto 
vermelho de vergonha e os ouvidos doendo com as repetidas ameaas da dona de "processar minha bunda branquela e esqueltica". Por alguns instantes, eu me senti at 
contente, pois ningum, nem mesmo nas minhas melhores fantasias, tinha dito que meu bumbum era "esqueltico". Ento, ela chamou a polcia, o que tirou de imediato 
o sorriso do meu rosto. Eu estava fazendo o possvel para ficar fora do alcance das longas garras da lei, e no para me jogar nelas. Como se j no tivesse preocupaes 
suficientes! Fiquei na minha at a polcia chegar; ento, contei o que ocorrera para os tiras - que no estavam muito interessados nem na situao de Floella nem 
na minha -, tentando no deixar transparecer alguma predisposio para o crime. Quando sa, de modo furtivo, do ateli, totalmente humilhada, a dona gritava ao telefone 
com algum da companhia de seguros. Desse modo, minha brevssima experincia como assistente pessoal de uma futura estilista famosa chegou ao fim abruptamente e, 
alm de estar uma pilha de nervos, sentia-me pssima tambm.
      Na noite da Operao Resgatar Jias de Chantal, todas as participantes do Clube das Choclatras reuniram-se, apreensivas, no Paraso do Chocolate. A chocolataria 
j fechara e ramos as nicas ali. Chantal andava de um lado para outro, Autumn entoava algum mantra hipongo e Nadia ora comia as unhas, ora mordiscava um biscoito 
com pedacinhos de chocolate.
      Chantal estava toda de preto e - afora o fato de que no usava a balaclava com abertura para os olhos - parecia estar prestes a assaltar um banco. Nadia vestia 
cala de brim e jaqueta estilo gngster; j Autumn deixara os cabelos ruivos soltos e optara por uma roupa leve, de algodo. Acho que deveria ter lembrado a ela 
que, se tivesse qualquer pea com um ar mais sbrio, teria sido melhor coloc-la. Eu tinha a leve impresso de que no havia muitos ladres por a que se vestiam 
como cantores de msica folclrica. De qualquer modo, no havia como mudar sua roupa. O tempo estava passando e tnhamos que seguir em frente.
      Nossos cmplices, Clive e Tristan, espreitavam por trs do balco, de forma dissimulada. Quando nos aproximamos, puseram uma pequena caixa de chocolate na 
bancada.
      -Tem doze chocolates aqui, Lucy - explicou-me Clive, com o semblante srio. - Metade contm os comprimidos para dormir de Nadia. Usamos a massa aqui da chocolataria, 
com sementes de cacau raras, brasileiras, e inclumos os comprimidos triturados no recheio cremoso. Os bombons foram aromatizados com sementes de carda-momo preto 
e verde, que do um sabor leve e condimentado, com um toque defumado. Ento, eles no vo ser detectados. Humm. Os chocolates deviam estar deliciosos.
      - Mas como vou saber qual  qual?
      - Os puros esto com duas riscas no alto; os adulterados, com trs.
      - Puros, duas; adulterados, trs.
      - E isso a.
      - Posso pegar um para provar? - Eles deram um tapinha na minha mo.
      - No - disse Clive, com severidade. -Vai ter que se conter. E lembre-se disto: no v trocar as bolas. No  voc que queremos ver estatelada no cho.
      - Espero que a quantidade esteja correta - disse Autumn, apreensiva. - No quis perguntar para o Richard, pois achei que ele suspeitaria de algo.
      - A gente usou o bom senso - explicou Clive.
      - Com base em qu?
      - Na total ignorncia. Esperamos ter colocado uma quantidade suficiente de comprimidos nos chocolates para nocautear qualquer pessoa por algum tempo.
      - E se vocs tiverem posto demais? Todos nos entreolhamos com ansiedade. -Tenho certeza de que dar tudo certo - disse eu, embora no
      tivesse tanta certeza assim. - Obrigada por preparar estes!
      - Tomara que no precisemos compartilhar p-efes na cadeia com vocs, no futuro. - Clive levou a mo ao peito, de forma dramtica.
      -  melhor seguirmos adiante - disse Chantal, com o rosto plido e cansado. -Vamos colocar estas jias em voc.
      Fiquei de p, imvel, enquanto ela punha em mim todas as bijuterias que comprara. Um colar de zircnio, duas pulseiras e brincos, que dariam a impresso de 
ser diamantes de dois quilates, pendurados nas minhas orelhas.
      - Parecem de verdade? No tenho espelho para me ver.
      - Espero que sim.
      - Faa aquele vigarista encher bastante a cara - aconselhou Nadia. - Ento, ele nem vai notar.
      Espervamos que nosso alvo no notasse muita coisa. -Voc est a maior gata, Lucy- elogiou Autumn.
      - Obrigada. - Enxuguei as palmas das mos midas no vestido. -Tomara que ele tambm pense assim.
      - Desejem sorte para a gente, rapazes! - pediu Chantal.
      Clive e Tristan contornaram o balco e nos deram abraos apertados, como se estivssemos partindo para uma jornada perigosa, o que, a bem da verdade, era mesmo 
o que faramos.
      - Voltem em segurana - disse Tristan. Acho que seus olhos ficaram marejados.
      - Vamos voltar direitinho - disse eu, de modo decisivo. -Vai ser moleza.
      - Mas, antes de mais nada, temos uma longa viagem de carro pela frente - lembrou Chantal, olhando enfaticamente para o relgio.
      Como lder da gangue, eu tinha de inculcar confiana nas minhas comparsas. Assim sendo, joguei a cabea para trs e endireitei os ombros.
      - Mos  obra ento! - disse-lhes eu.
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Quarenta e Cinco
      
      
      
      
 N
o sabia qual era o carro que Chantal dirigia, mas era caro e tinha cheiro de a bolsa nova. Estvamos sentadas, em um silncio tenso, cada uma mergulhada nos prprios 
pensamentos. Com a caixa de chocolates adulterados no colo, fui repassando diversas vezes o papel que desempenharia quando chegasse ao hotel. A certa altura, se 
pensasse de novo nisso, minha cabea explodiria. Entretanto, eu tinha certeza de que as outras faziam a mesma coisa.
      - Ponha uma msica animada no CD player, Chantal - sugeri. - O que a gente vai fazer  srio, mas no precisamos ficar para baixo. Chantal colocou um, e "Walking 
on Sunshine" comeou a tocar. Num piscar de olhos, todas cantvamos junto com a banda de rock Katrina and the Waves, enquanto o que restava do sol se punha no horizonte. 
Como podamos ficar para baixo com uma msica to legal tocando? Tirei um pacote tamanho famlia de Maltesers, bolinhas de malte com chocolate - que vinha sendo 
mantido em tima temperatura no ar-condicionado de Chantal - e passei-o para as outras. O estado de nimo dentro do carro se elevou de imediato. Clive ficaria angustiado 
se soubesse que consumamos chocolate industrializado para nos sentirmos melhor, mas, as vezes, nada se comparava mesmo aos nossos favoritos, que caam como uma 
luva. Um pacote de pastilhas confeitadas, Smarties, tinha o poder de me levar direto  escola primria num piscar de olhos.
      Uma hora depois, chegamos ao Hotel Trington Manor, ouvindo "Mr Blue Sky", de outra banda de rock, a Electric Light Orchestra. Todas respiramos fundo quando 
Chantal passou pelos imponentes portes de ferro batido, com os pneus ressoando de modo acentuado no cascalho. A hora H estava prestes a chegar e nossa amiga desligou 
o CD player no meio da msica daquela banda.
      O Hotel Trington Manor era um daqueles estabelecimentos cinco estrelas que ofereciam o prprio spa. Contemplei, admirada, o grande esplendor do lugar. Ficava 
a tantas lguas do meu poder aquisitivo que no dava nem para imaginar. Eu tinha fantasias sobre idas a lugares daquela estirpe, mas no naquelas condies, claro. 
Esperava que um dia Marcus me levasse a um lugar assim e me pedisse em casamento. Fazer o que, no ? Outro sonho despedaado. Quando Chantal conduziu o carro rumo 
 entrada pomposa, j comeara a anoitecer.
      - Minhas pernas esto tremendo - admitiu ela. - Sinto que ele no s me roubou, como tambm me violou, embora tenha sido por culpa minha.
      Dei-lhe um tapinha suave no joelho.
      - Ns vamos recuperar as suas jias - disse eu. - Dessa forma, voc ter, pelo menos, algum tipo de compensao.
      -Tomara que consigamos levar isso adiante - disse ela, com o tom de voz tenso. Era a primeira vez que eu via a sua autoconfiana abalada,
      Virando-me no assento, perguntei s minhas amigas:
      -Todas sabem o que tm que fazer?
      Nadia e Autumn, no banco traseiro, assentiram de modo enrgico. Havia um imenso lago artificial do lado de fora do hotel e um bando de golfinhos bem esculpidos 
saltava da parte central de uma fonte. Chantal prosseguiu devagar, buscando uma vaga para estacionar. Ento, soltou uma exclamao de pavor.
      -  ele - afirmou nossa amiga, apontando para adiante. -  ele, aquele que est saindo do Mercedes branco.
      Ficamos pasmas. Minha Nossa, o cara era bonito pra caramba! Alto, moreno, sarado. Beleza clssica. No era de estranhar que Chantal tivesse ansiado levar o 
sujeito para a cama. Talvez ela no devesse lamentar tanto essa parte do encontro. De longe, ele no lembrava o vilo tpico, parecia um gato! Caminhava apressado 
at a entrada do hotel, com uma pasta de couro.
      - Aposto cem paus como as minhas jias esto naquela maldita pasta - disse Chantal, amargamente.
      - Melhor ficar com sua grana - aconselhei. Se o plano desse errado, ela precisaria de cada centavo que aparecesse.
      - A gente podia atropelar o cara agora e peg-la - sugeriu Nadia.
      - Da iramos mesmo parar na cadeia - ressaltei. - Alm disso, no tnhamos certeza de que as jias da Chantal estariam l.
      Nosso alvo estacionara de frente para o lago, e ns permanecemos no carro at ele subir os degraus da ampla escada que dava acesso  recepo do hotel. Ento, 
Chantal estacionou seu carro no lado oposto.
      Meu papel naquele assalto era ficar batendo papo com ele no bar, para que as outras tivessem tempo de ir ao quarto dele e recuperar as jias. Naquele momento, 
no achei que fosse m idia. Os chocolates adulterados s seriam usados em caso de emergncia. A idia era que Chantal se atrasaria para o encontro com ele, e eu 
o seduziria no bar e usaria meu charme para atra-lo, estimulando-o a ficar comigo e no com ela. Eu podia fazer isso. Seria moleza. Quantos homens no passado no 
haviam sucumbido ao meu charme feminino? A bem da verdade, melhor no pensar muito nisso; caso contrrio, o tremor nos meus joelhos aumentaria ainda mais. As dez 
toneladas de jias falsas que eu estava usando deveriam atuar como uma isca adicional.
      - Qual  o nome dele?
      -  O cara se autodenomina John Smith. - Chantal ergueu as sobrancelhas para mim.
      - Bem que podia ter escolhido um pseudnimo mais sexy.
      - E verdade. Consultando minha lista, disse:
      - Ligue e avise que vai se atrasar e que quer se encontrar com ele no bar.
      Concentrada, ela discou o nmero e disse, de forma enrgica:
      - Estou atrasada. Chegarei o mais breve possvel. - Chantal falou com muita determinao. Se eu no fosse sua amiga, sentiria medo dela. - Encontro com voc 
no bar. Ento, vamos para o seu quarto, fazer a troca. - Desligou. -Tomara que aquele canalha no pense que poder contar com outras coisas.
      Virando-me mais uma vez, ainda no carro, fitei Nadia e Autumn. -Vocs duas esto prontas?
      - Mais do que nunca - disse Nadia, solenemente.
      - Autumn, ns vamos entrar primeiro - lembrei, embora soubesse que ela talvez no precisasse da minha ajuda nesse sentido. Nossa amiga hippie estava com uma 
expresso decidida no rosto. Teria a desagradvel tarefa de roubar a chave do quarto de John Smith do bolso dele, habilidade que ela s adquirira naquela tarde. 
Espero que tenha sido uma boa aluna e que seu estudante delinqente lhe tenha ensinado tudo direitinho, pois havia muito em jogo. Enquanto eu estivesse no bar com 
ele, as outras revirariam o quarto e, se tudo desse certo, dariam o fora dali com as jias. Simples assim.
      - Bem que eu gostaria de estar meio alta para ter mais coragem - disse Autumn, com a voz hesitante. Dei-lhe outro Malteser.
      - Obrigada! - Ela o saboreou, agradecida.
      Ento, achando que precisava de algum estmulo tambm, devorei o que restava dos Maltesers, super-rpido.
      - Boa sorte, gente! - desejei e, antes que ficasse nervosa demais, sa do carro.
      
      
      
      
      
   Captulo Quarenta e Seis
      
      
      
      
      
 A
utumn e eu entramos no Hotel Trington Manor a tempo de ver a atendente da recepo entregar o carto magntico a John Smith. - Quarto 270 - informou-lhe ela, em 
tom claro e montono. - Fica no segundo andar. Espero que aproveite a estada, Sr. Smith.
      Fomos mais devagar para que ele no nos visse. Aquele lugar era um luxo s. O tapete devia ter uns dez centmetros de espessura e, quando entramos, com ar 
de quem no quer nada, nossos ps afundaram nele. Meus saltos altos me levaram a cambalear perigosamente. J a alpargata de amarrar de Autumn era bem mais apropriada. 
Havia alguns sofs com estampas combinando, em tons de vinho e azul-escuro, em meio a loureiros em vasos de cermica. Observamos nosso alvo de perto enquanto ele 
pegava o carto magntico e se dirigia ao elevador. O sujeito fazia mesmo as vezes de um executivo sofisticado, seguro e equilibrado. Quem diria que no passava 
de um ladro vigarista! Mas, como diz o ditado, as aparncias - sobretudo as boas - enganam.
      Quando ele entrou no quarto, por fim, telefonei para informar o que ocorria a Chantal e Nadia, com uma onda de adrenalina invadindo meu corpo. Aquilo era muito 
estimulante, no mau sentido; fez com que eu percebesse que minha vida, at pouco tempo, era bastante tediosa.
      - Ele j entrou - avisei, cochichando com um pouco mais de fora -, carregando a pasta. - Desliguei. Virei-me para Autumn e disse: -Vou para o bar agora, para 
me instalar. Voc perambula por aqui, at ele descer. Se for at aquela prateleira com informaes tursticas e fingir estar interessada, vai poder ficar de olho 
nos elevadores. - Autumn concordou com a sugesto. Parecia preocupadssima. - Vai se sair bem - assegurei-lhe.
      Apertando sua mo de leve para incentiv-la, deixei-a na recepo e caminhei at o bar.
      Estava bastante tranqilo. Do outro lado do bar, o barman solitrio polia os copos, desinteressadamente, detrs do balco curvo de mogno. Um pianista, com 
mais talento que entusiasmo, dedilhava algumas melodias tradicionais suaves, em um piano de meia cauda, no canto. "My Way", bastante popularizada por Frank Sinatra, 
era o que ele tocava naquele momento. Fez-me lembrar do encontro no Savoy com Jacob. E pensar que eu poderia estar junto dele agora, em vez de participar daquela 
tramia. Suspirei e continuei a perscrutar o bar. Um grupinho de executivos reunido em dois sofs, posicionados de frente, dava sonoras gargalhadas. Havia alguns 
casais sentados s mesas aqui e ali. Fui at o bar, embora minhas pernas relutassem em se mover, com a sensao de que era observada por todos. Tentando parecer 
to serena quanto possvel, em face das circunstncias, sentei-me no banco, escolhendo um que me permitisse ver bem a rea da recepo e Autumn, que observava o 
que acontecia, prxima  planta e ao balco de informaes tursticas. Apesar de ela fingir prestar ateno em algum panfleto, enviou-me, discretamente, um sinal 
de que tudo corria conforme o previsto.
      - O que deseja, senhorita? - perguntou o barman. Dirigi a ateno a ele.
      - Gostaria de tomar champanhe, por favor. -Temos o excelente Duvall-Leroy.
      - timo! - Eu no fazia a menor idia se era bom ou no.
      - S uma taa?
      - Duas. Estou esperando algum.
      Ele colocou as taas na minha frente e, ento, sumiu do meu campo de viso, retornando instantes depois com a garrafa. Tirando a rolha com destreza, serviu 
a bebida em uma das taas. Ergueu a sobrancelha para mim, segurando a garrafa sobre a outra.
      Meneei a cabea.
      - Meu amigo ainda no chegou.
      Quando ele se afastou de mim, tomei um gole de champanhe, constrangida. Coloquei os chocolates adulterados no balco e acariciei a caixa, com delicadeza. Relembrei: 
duas riscas, puros, trs riscas, adulterados. Um daqueles chocolates deliciosos cairia muito bem naquele momento. Certamente, s uma olhadela no faria mal algum.
      Senti de imediato a fragrncia maravilhosa de baunilha e aromatizantes se espalhar quando abri a caixa. Humm! Esses bombons combinavam perfeitamente com champanhe. 
Minha mo pairou sobre eles, mas, em seguida, tirei-a, relutante. Como dissera Clive, eu precisava me controlar. Em vez disso, tomei de uma s vez o champanhe da 
taa, desfrutando do nimo imediato que ele me deu. Pareceu-me meio estpido naquele momento, mas eu no havia comido nada o dia todo - s um pouco de chocolate 
-, pois a apreenso me tirara o apetite. Conseqentemente, a bebida subiu logo  minha cabea. Senti as mas do rosto enrubescerem num instante; alm disso, tinha 
certeza de que as pupilas haviam dilatado a propores alarmantes. O barman serviu outra taa, antes que eu tivesse tempo de recusar. Tomei tudo e ele voltou a ench-la.
      Sentar num bar sozinha  uma experincia impactante e eu estava feliz por no estar, na verdade, esperando um amigo, que no daria as caras; de outro modo, 
ficaria deprimida. Alguns dos executivos me lanaram olhares prolongados e tentei no lhes dar ateno, pois no queria levar uma cantada de outro homem quando nosso 
alvo chegasse.
      Depois do que pareceu uma eternidade, a porta do elevador se abriu e John Smith - o do pseudnimo horroroso e terrveis hbitos ps-coito - saiu, com passadas 
largas. Ergui o pescoo para ter certeza de que Autumn ficaria no meu campo de viso. Ela pegou um monte de panfletos tursticos da prateleira e tambm avanou, 
indo na direo do sujeito. Na parte central da recepo, esbarrou nele, derrubando os panfletos no cho. John Smith, ento, curvou-se para ajud-la, em meio  torrente 
de pedidos de desculpas por parte de Autumn. De onde eu estava, no deu para ouvi-los, mas, pelo visto, Autumn orquestrara tudo muito bem. Ela continuou a mexer 
com os panfletos, pegando-os e deixando-os cair de novo.
      Por fim, ele se levantou e entregou a ela todos os que recolhera. Sorriu com um charme devastador. Autumn se derreteu toda. S me restava permanecer ali sentada, 
torcendo para que ela tivesse cumprido sua misso. Os dois se separaram, e John Smith veio para o bar; j Autumn rumou para a entrada do hotel. De l, ergueu o carto 
magntico e acenou, alegre, para mim. Tentei disfarar meu bvio sorriso de felicidade. Ela conseguiu! Tirou o carto do bolso dele! Senti uma onda de alvio e, 
para comemorar, tomei mais champanhe. Tudo estava indo bem.
      - O que uma linda mulher como voc faz aqui sozinha? - Algum perto de mim indagou e, ao virar o rosto, deparei-me com o olhar malicioso de um dos executivos.
      Que desastre! Notei que John Smith sentou-se no final do balco. Era com ele que eu precisava conversar, no com aquele palhao!
      - Estou esperando um amigo - respondi, com a boca semicerrada.
      - Posso aguardar com voc? - quis saber ele, cambaleando em minha direo.
      - No.
      - Ah, vamos! - disse, pronunciando as palavras de modo inarticulado. - Queria oferecer um drinque para voc.
      - J estou com um. Obrigada. - D o fora, seu babaca! Percebi que nosso alvo me olhava, de cenho franzido.
      - Um drinquezinho no vai fazer mal. - Era bvio que o orgulho do executivo estava em jogo, j que ele sabia que os colegas o observavam, dando risadas dissimuladas.
      - Obrigada, mas no quero - reiterei, com firmeza. Ele enrubesceu e seu semblante se fechou.
      -Voc ouviu a senhorita. - A voz veio do final do bar. Tratava-se de uma frase estilo Clint Eastwood e fiquei surpresa ao perceber que fora dita por John Smith. 
Ora, ora, um vigarista cavalheiro! Quem diria!
      - Qual  o seu problema, cara?
      - A senhorita j disse que no quer - disse o outro, com calma. - Deixe a moa em paz.
      O sujeito pareceu estar a fim de discutir, mas, ento, um de seus colegas, talvez sentindo que a situao deixara de ser divertida e poderia acabar em briga, 
veio e puxou o amigo dali. Esse outro executivo demonstrou certo constrangimento.
      - Sinto muito - disse ele. - Nosso amigo passou um pouco do limite; bebeu demais. -Talvez fosse algo que sempre acontecesse.
      Tentei deixar claro que j esquecera o que havia ocorrido, embora minhas mos estivessem trmulas.
      -Tudo bem.
      O rapaz o levou de volta para o grupo e todos deram risadinhas sem graa.
      Achei que o momento havia chegado. Se no agisse rpido, perderia a oportunidade. Ergui a taa para fazer um brinde no ar, inclinando-a de leve na direo 
de John Smith.
      - Obrigada! - Ele era mesmo um gato. Se eu no estivesse ali por causa da Operao Resgatar Jias de Chantal e no soubesse de seu lado obscuro, com certeza 
me sentiria tentada a bater papo com aquele sujeito se o visse em um bar. - Posso convidar voc para tomar uma taa de champanhe comigo? Ento pode me proteger, 
enquanto aguardo o meu amigo.
      John Smith sorriu para mim, mas hesitou. Entrei em pnico; e se ele no mordesse a isca, o que eu faria? Movimentei a mo de modo a destacar o brilho do meu 
deslumbrante anel de brilhantes falso. No sei se foi isso que o convenceu, mas, aps alguns instantes, ele saiu do seu banco e veio se sentar ao meu lado.
      -  Tambm estou esperando algum - informou ele. - Negcios.
      Como se eu no soubesse, meu filho! Sem perder tempo, servi o champanhe e passei-lhe a taa, para que ele se sentisse obrigado a ficar comigo pelo menos enquanto 
o tomasse. Ser que minhas amigas tero tempo suficiente para ir at o quarto dele? Tinha que mant-lo ali pelo maior tempo possvel.
      - Lucy Brown - disse eu. Se ele podia ter um pseudnimo sem imaginao, eu tambm podia.
      - John Smith.
      Quando brindamos, vi trs cabeas aparecerem na janela. Atravs dela, tentavam conferir se a parte seguinte do plano dera certo. Ento, s me restava ser espirituosa, 
charmosa e sensual pelo maior tempo possvel, para que elas vasculhassem as coisas dele. Melhor tomar mais champanhe. Elas haviam sumido de vista.
      - Ao meu protetor - brindei.
      Ns dois rimos, enquanto, no fundo, eu pensava: Seu canalha!
      
      
      
      
      
   Captulo Quarenta e Sete 
      
      
      
      
      
 C
hantal, Nadia e Autumn esperaram a recepcionista ficar de costas e, ento, cruzaram depressa o saguo e se meteram no elevador, assim que as portas se abriram. Autumn 
levava o carto magntico. 
      -  o quarto 270 - informou ela s outras.
      Todas mordiam os lbios, nervosas, e, mesmo ao som de uma linda cano de Norah Jones, no conseguiram relaxar.
      - Espero que no demore muito - disse Chantal, respirando acelerado.
      No segundo andar, as portas do elevador se abriram e elas examinaram o corredor, com cuidado. No havia ningum ali. Mantiveram-se juntas ao caminhar ao longo 
do corredor deserto, em busca do nmero 270. Assim que o encontraram, passaram o carto e entraram. O quarto era tal qual o de qualquer hotel, em qualquer parte 
do mundo: asseado, cheio de mveis e sem graa. John Smith, pelo visto, desfrutara pouqussimo dos benefcios do quarto. A bandeja com todos os ingredientes e acessrios 
para o preparo de ch permanecia intacta e a tela da televiso ainda mostrava Bem-vindo ao Trington Manor, Sr. Smith.
      Chantal recordou-se do que ocorrera em um quarto de hotel por causa daquele sujeito. Sentiu o estmago revirar.Tudo o que queria era recuperar as jias e dar 
o fora dali. A pasta de John Smith fora deixada na penteadeira, ao lado da televiso. Ela atravessou o quarto, pegou-a e jogou-a na cama. Todas se reuniram ao redor, 
ansiosas. Mas, quando Chantal tentou abrir o fecho, estava fechado.
      - Droga! - Ela bateu na pasta com o punho.
      - Espere. Deixe-me ver se consigo abri-la - disse Autumn. - Meu aluno me ensinou umas coisas muito teis hoje  tarde.
      Ela tirou uma lixa de unha de metal da bolsa e inseriu-a no fecho. Instantes depois, ele abriu. At Autumn ficou surpresa.
      - timo! - gritou Chantal, revirando a pasta. No havia nada ali. Nenhum sinal de seu colar, de suas alianas e de suas pulseiras. S um exemplar daquele dia 
do jornal Financial Times, intocado, com seu tom salmo ainda em perfeito estado no fundo. Ela sentiu estar prestes a cair no choro. Aquela fora uma idia idiota, 
mal planejada, e ela deveria ter percebido que no daria certo.
      - Vamos vasculhar todo o quarto - disse Nadia. - Rpido. Sabe-se l por quanto tempo Lucy vai conseguir reter o cara sem que ele suspeite.
      - E melhor comearmos logo - concordou Autumn.
      - E o cofre do quarto? - sugeriu Chantal. - Vou dar uma olhada nele. - Foi abrindo as portas do armrio, at ach-lo atrs de uma das estantes. O minicofre 
estava, como era de esperar, fechado. -Virou-se para Autumn. - Arrombar cofres fez parte do seu repertrio tambm?
      - Fez, mas ele s conseguiu me dar umas noes bsicas - admitiu ela, sria.
      Nadia e Chantal riram. Autumn deu um largo sorriso, orgulhosa.
      -Voc  uma caixinha de surpresas, Autumn - disse Nadia. - Tomara que no fiquem sabendo de suas habilidades l no Partido Verde. Entraria na lista negra.
      - Enquanto vejo o que posso fazer aqui, vocs duas vasculham o resto.
      Ento, ela ficou tentando abrir o cofre, enquanto Nadia e Chantal procuravam debaixo da cama, do colcho e dos travesseiros, em todos os armrios e gavetas, 
atrs e no alto das cortinas, e nas latas de lixo. Chegaram at a verificar se as jias de Chantal haviam sido guardadas no fundo das cadeiras com fita adesiva. 
Porm, no encontraram nada.
      - Tm que estar no cofre - disse Chantal. - No podem estar em outro lugar.
      -Vamos, Autumn - incitou Nadia. - D um jeito. - As duas se deixaram afundar na cama e suspiraram profundamente enquanto esperavam.
      Instantes depois, Autumn disse, com suavidade:
      - Heureca!
      - Muito bem! - elogiou Chantal e, junto com Nadia, aproximou-se rapidamente do cofre, diante do qual a amiga ainda estava agachada.
      - Nada - disse Autumn, meneando a cabea sem acreditar. - Absolutamente nada.
      - Onde  que elas podem estar?
      - Estariam nos bolsos dele? - perguntou Nadia.
      - No as senti quando procurei pelo carto magntico do quarto - disse Autumn. - Mas me deparei com o carto de primeira; no deu tempo de revist-lo direito. 
Ele poderia muito bem estar com elas em alguma parte da roupa.
      - Putz! - Chantal respirou fundo. - O que vamos fazer agora?
      
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   
   Captulo Quarenta e Oito
   
   
   

E
u estava rindo feito uma louca. Subira a bainha do vestido para expor uma parte generosa da coxa e deixara a ala do ombro cair, de modo sensual, no ombro. Nos ltimos 
vinte minutos, ou mais, tentei manter a taa de champanhe de John Smith cheia o tempo todo. J era nossa segunda garrafa - fora ele que insistira e me convidara. 
O sujeito parecia estar bastante controlado, ao passo que eu j estava pra l de Bagd.
      Os executivos tinham acabado de ir embora e alguns casais comeavam a se retirar tambm, indo para seus quartos. S restavam uns gatos-pingados no bar. Estvamos 
prestes a esgotar o bate-papo bsico, ainda mais considerando que eu vinha contando uma lorota atrs da outra para meu acompanhante. Ele julgava estar conversando 
com uma diretora de marketing de empresa de informtica, ao passo que eu sabia estar trocando idias com um canalha desprezvel. Quando olhou disfaradamente para 
o relgio, tive a sensao de que minha companhia adorvel comeava a aborrec-lo. No entanto, notei que observou meus diamantes falsos algumas vezes. Ergui a mo, 
de modo a mostrar-lhe a pulseira com vinte e um brilhantes, que valia exorbitantes vinte e uma libras. Meu celular tocou e busquei-o na bolsa. Esperava, definitivamente, 
que no fosse minha me, telefonando para contar que discutira com um dos vizinhos, que mudara a cor dos cabelos, que a Espanha, comparada  Gr-Bretanha, era um 
forno ou que havia comido pouco naquele dia. Todos temas tpicos de suas conversas. Sua capacidade de ligar na hora errada era impressionante. Por que sempre conseguia 
telefonar no meio de uma crise? Atendi de forma brusca:
      - Al!
      - E a Chantal - disse ela, sussurrando. Dei as costas para John Smith, para que no escutasse nem um trecho sequer da nossa conversa. Esperava que ela me desse 
boas notcias. - Precisamos de mais tempo. Reviramos este quarto de cabo a rabo e as malditas jias no esto aqui. Nem na pasta nem no cofre. D para voc checar 
os bolsos dele?
      Pelo visto, teria que usar os chocolates adulterados.
      - Est bom - respondi. - A gente se fala depois. - Desliguei, encolhendo os ombros despreocupadamente para ele. - Meu amigo j no vem mais. - Este "mais" 
soou como "maix". Tentei parecer sedutora. -Vou ter que ficar aqui sozinha.
      - Ah - disse ele.
      Fitei a caixa de chocolates no balco e puxei-a para perto, de modo sensual.
      - Acho melhor comermos o presente de aniversrio dele.
      - No gosto muito de chocolate - informou-me John Smith. Era um imbecil completo? Como assim, no gostava de chocolate?
      Minha mente no conseguiu captar direito aquela mensagem. A bem da verdade, estava tendo dificuldades para captar o que quer que fosse. Minha Nossa, pensei, 
no devia ter enchido a cara de champanhe! J me sentia tonta.
      - Mas estes no so chocolates comuns - disse eu, arrastando as palavras. Se ele soubesse! Abri a caixa e tirei um, segurando-o de forma tentadora diante dele. 
Em seguida, inclinei-me para frente, para posicion-lo convidativamente diante do meu decote e do pendente de brilhante falso. Comecei a falar como na propaganda 
da varejista Marks & Spencer. - De jeito nenhum! Estes chocolates so tudo de bom! Fabricados artesanalmente, com sementes de cacau selecionadas, procedentes de 
uma nica plantao, do interior inacessvel do Brasil. Dentro h um recheio divino, de creme de chocolate com nata, aromatizado com sementes especiais de cardamomo 
verde e preto, que do um sabor leve e condimentado, com um incrvel toque defumado. - Tentei fazer com que minha voz tambm soasse incrvel. Clive se orgulharia 
de mim. - Cada mordida provoca uma exploso de sensaes na sua boca.
      - Pode prov-lo - incentivou ele, impassvel.
      -Vai cair superbem com este champanhe. - Para provar, tomei mais.
      - No se acanhe por mim.
      - No  legal comer sozinha. - Fiz uma expresso amuada. Meu Deus, eu sempre fora um zero  esquerda nesse lance de mulher fatal. Na certa, era por isso que 
tinha ficado com Marcus tanto tempo. Por que eu no indicara Nadia para desempenhar o papel? Era muito mais sensual que eu. Todas pareciam mais sexys naquele momento. 
Ofereci um dos chocolates adulterados, com as trs riscas, para ele. - S uma mordidinha, vai!
      Os dedos dele contornaram de leve meu pulso, guiando o bom-bom na direo dos seus lbios entreabertos. Engoli em seco. Ele cara na armadilha do chocolate 
e do plano.
      - Humm - disse ele. - Delicioso!
      Comi um dos que s tinham duas riscas. Estava mesmo muito bom. Eu no fazia a menor idia de quanto tempo os sonferos colocados ali levariam para surtir efeito 
e queria tir-lo logo do bar, para que o sujeito no desmaiasse ali.
      - Por que no vamos at o sof? - sugeri. - Para ficarmos mais  vontade? - John Smith hesitou de novo. Talvez estivesse pensando em se precaver caso Chantal 
no aparecesse com o dinheiro que supostamente deveria entregar a ele. Acariciei meu diamante falso de 14,99 libras e expus de novo minha reluzente pulseira. Os 
olhos dele faiscaram. - Sua colega de negcios nos ver com facilidade ali.
      - Melhor cham-la - disse ele, franzindo o cenho. - Est muito atrasada.
      Cruzamos o bar, levando o champanhe no balde de gelo. Escolhi um sof no canto do ambiente, que dava para a entrada. Sentando-me ao lado dele, posicionei as 
pernas em sua direo, usando o corpo para lhe transmitir a mensagem de que estava disponvel. Coloquei mais champanhe na taa dele e ofereci mais chocolate. Para 
meu alvio, John Smith pegou um, de trs riscas, sem que eu precisasse insistir. Em seguida, aproximando-se de mim, virou a mo e ofereceu o bombom para mim. E agora? 
No poderia recusar, poderia? Inclinando-me para frente, mordi metade do chocolate e disse: - Humm!
      Tomara que no fosse suficiente para me fazer dormir. Ele comeu a outra metade. Por mim, eu teria comido outro de uma vez, mas me controlei, fazendo uma pausa 
antes de pegar mais um. J estava me sentindo sonolenta. Por que aquela metade de chocolate parecia estar surtindo efeito mais rpido em mim do que no nosso alvo? 
Fiz meno de pegar uma das criaes intoxicantes de Clive. As riscas comearam a se misturar. Aquele era o imprprio de trs ou o permitido de duas? Estava ficando 
cada vez mais difcil, mas, por alguns instantes, meus olhos conseguiram focaliz-lo bem. Era um de trs, eu tinha certeza disso.
      Ele ergueu a mo.
      - Eu no quero mais.
      -  a saideira - disse-lhe e, antes que pudesse protestar, meti-o em sua boca.
      Um calor agradvel percorreu meu corpo e me ouvi perguntar:
      - Est quente aqui?
      John Smidi afrouxou a gravata.
      - Est, acho que est sim.
      E, dali a pouco, ele caiu nas almofadas. Esperei alguns instantes, mas nosso alvo no se moveu. Sua boca se entreabriu, relaxada. Quem passasse por ali acharia 
que ele estava tirando uma soneca, aps um almoo dominical particularmente pesado. Examinando em volta depressa, averiguei se algum no bar o vira cair no sono. 
No. O barman estava ocupado, servindo algum no outro lado. S restavam alguns casais ali. Tudo ia bem.
      Agitando a cabea como um cachorro que tira gua do plo, tentei me concentrar mais. Bebidas e remdios so uma pssima combinao. Ainda mais quando se est 
levando a cabo um roubo importante. Nosso alvo roncava baixinho. Aproximei-me mais dele, fingindo querer me aconchegar mais. Em seguida, quando no havia ningum 
olhando, vasculhei os bolsos dele. Chequei todos, inclusive, com uma careta, os que estavam prximo s suas partes ntimas, mas no encontrei as jias de Chantal. 
Onde poderia t-las deixado? Talvez, enquanto estivesse drogado, pudssemos lev-lo para algum lugar e tortur-lo at que revelasse onde estavam. Ento, apesar de 
estar trbada e possivelmente drogada, eu me dei conta de que tinha visto filmes de Hollywood demais.




      
      
   Captulo Quarenta e Nove 
      
      
      
      
      
 A
 pesar de no ter achado as jias, encontrei as chaves do carro de John Smith no bolso dele e levei-as, para que pudssemos vasculhar o Mercedes. Por via das dvidas, 
peguei tambm o celular e a carteira do nosso alvo. Em seguida, certificando-me de que ningum estava me vendo, acomodei o sujeito de modo que ningum descobrisse 
que fora drogado, roubado e enganado e supusesse que ele s estava descansando ali.
      Tentando no cambalear muito, sa do bar e do hotel. O ar frio golpeou o meu rosto como se fosse gelo. Vi os faris do carro de Chantal piscarem e fui at 
l, serpenteando.
      Chantal, Nadia e Autumn estavam reunidas l dentro.
      - Conseguiu algo? - indagou Chantal, quando me sentei ao seu lado.
      - Est dormindo feito um beb - contei-lhes. - Os chocolates de Clive funcionaram direitinho.
      -Voc parece estar meio alta - observou Autumn. Meus olhos estavam, de fato, rolando.
      - Tive que comer alguns bombons drogados. Para legitimar o consumo.
      Chantal mordiscou uma das unhas.
      - E as jias?
      - No achei nada - admiti, franzindo os lbios, frustrada. - Vasculhei todos os bolsos dele e nada. Nenhum sinal. - Ergui as chaves do carro dele. - Mas consegui 
isso. - Minhas parceiras do Clube das Choclatras aplaudiram. - No sei por quanto tempo ele vai ficar fora do ar. Ento, vamos l checar o carro.
      Samos e fomos at o Mercedes. Dei as chaves para Nadia, que estava em melhor estado que eu. Ela abriu o carro e sentou-se no banco do motorista.
      - Abra o porta-malas - instruiu Chantal.
      Nadia apertou alguns botes e o bagageiro abriu. Dentro, havia uma elegante maleta de couro e algumas bolsas femininas, a maior parte de marca: Prada, Chanel, 
Dolce & Gabbana. Pelo visto, o cara roubava mesmo mulheres refinadas. Ainda bem que eu nem tinha levado minha bolsa de plstico da Next, de vinte pilas.
      - Uau! - exclamou Chantal. -Vejam s isso!
      -  Parece que voc no foi a nica que ele roubou - disse Autumn.
      Nossa amiga examinou a pilha de bolsas e, em seguida, puxou uma.
      - E a minha! - disse ela. - Esta  minha! - Abriu-a e vasculhou o contedo. - Nenhuma jia- disse, irritada, com um tom de voz desapontado. - Mas o celular 
est aqui, junto com a carteira. - Dentro dela, por incrvel que parecesse, todos os cartes de crdito continuavam intactos.
      - No d pra acreditar que ele no saiu gastando tudo! - disse Nadia.
      - Eu cancelei os cartes de imediato - informou Chantal. - Ele no teria ido muito longe, mesmo que tivesse tentado. Foi a nica coisa sensata que fiz. - Todas 
nos juntamos quando, a seguir, ela tirou a maleta do porta-malas. Nossa amiga nos olhou, antes de abri-la. Em seguida, ouvimos passos no cascalho e congelamos. - 
Merda. - sussurrou.
      A luz de uma lanterna foi colocada em nossa direo. Pude ouvir as batidas fortes do meu corao. E se a constituio de John Smith lhe permitisse resistir 
aos efeitos dos sonferos? Eu no havia levado isso em considerao ao elaborar meu plano.
      - Est tudo bem, senhoras? - perguntou algum. Ento, o segurana inclinou a cabea para ver por trs da porta aberta do bagageiro.
      - Sim - disse Nadia. - Estamos bem. -Vo ficar no hotel?
      -Vamos - respondeu ela, de novo. Parecia ser a nica capaz de falar.
      - E melhor vocs levarem todos os seus pertences para dentro - avisou o segurana. - Fao rondas aqui com freqncia, mas tivemos uma srie de furtos. Todo 
cuidado  pouco. Precisam de ajuda para levar a bagagem?
      - No. - Nadia meneou a cabea. - Podemos lev-la sozinha. No trouxemos muita coisa.
      No tnhamos levado muita coisa? Mulheres? Agora com certeza o cara saberia que estvamos mentindo.
      - Aproveitem a estada, senhoras. - Era bvio que ele no sabia bulhufas sobre o sexo frgil. Assentiu com a cabea para todas ns e foi embora.
      Quando se afastou o bastante, todas ns soltamos um suspiro alto, de alvio.
      - Essa foi por pouco - disse eu, dando uma de George Clooney de novo.
      -Vamos logo com isso, para darmos o fora daqui o mais rpido possvel - aconselhou Nadia. Parecia que a atitude era contagiosa.
      Ela ficou de olho no segurana, enquanto Chantal abria a maleta. L, encontramos vrias camisas engomadas, cuecas limpas e meias.
      - Este  o meu laptop tambm - disse ela, feliz. -Tenho certeza. Arranhei essa parte no ano passado. - Acariciou o arranho que estava na tampa. - Eu o reconheceria 
em qualquer parte. - Entregou-o a Autumn. Tambm havia uma bolsinha de couro dentro da maleta. Chantal a agarrou e, aps hesitar durante alguns instantes, abriu 
o zper, virando o contedo na mo. Acostumada a conter as emoes, ela desatou a chorar de imediato quando viu suas adoradas jias brilhando em sua mo. - Conseguimos! 
- exclamou ela, com um suspiro trmulo. - Caramba, conseguimos!
      A sombra do imponente Mercedes, ns nos abraamos e danamos em silncio, felizes da vida.
      - No posso acreditar! - exclamou ela. - Conseguimos recuperar as minhas coisas! Est tudo aqui! - Chantal ergueu seu imenso anel de noivado e beijou-o. - 
Obrigada, amigas! - Enxugou uma lgrima. - Obrigada do fundo do corao!
      - Vamos levar essas bolsas para tentar devolv-las s suas donas - decidiu Autumn.
      - Boa idia - concordou Chantal.
      - Acho que ainda no terminamos - disse Nadia. - Ns a olhamos, intrigadas. - Esse carro no ficaria timo no meio do lago?
      - Ficaria - concordou Autumn, sem pensar duas vezes. - Ficaria timo, sim. - Era evidente que a noite que passara no mundo da criminalidade obscurecera e corrompera 
sua viso politicamente correta.
      - E o nosso amigo segurana? - perguntei.
      - E melhor fazermos isso logo, antes que ele volte - disse Chantal.
      - Ento, mos  obra! - Olhando ao redor para se certificar de que ningum a observava, Nadia sentou-se no banco do motorista. Chantal guardou as jias na 
bolsinha e a ps no bolso. Ns ficamos atrs do carro e nos inclinamos no porta-malas, jogando o nosso peso sobre ele. Com um grunhido suave e sincronizado das mulheres 
do Clube das Choclatras, as rodas comearam a girar e o carro se moveu rumo ao lago.
      Ficamos paradas, observando, quando ele pegou impulso e desceu com suavidade a colina, em direo  gua. Foi adquirindo velocidade  medida que se aproximava 
da margem e, em seguida, caiu na negritude que o aguardava. A gua salpicou quando o carro de duas toneladas entrou e, depois, borbulhou de modo estrondoso, ao afundar 
aos poucos no lago. Quando parou, ficou inclinado, com o porta-malas do lado de fora da gua.
      - Eu realmente queria comemorar - disse Chantal.
      Mais borbulhas surgiram do fundo da cova molhada do carro.
      -  melhor a gente dar o fora daqui rpido - sugeriu Nadia. - Antes que algum perceba.
      - Ou antes que nosso amigo vigarista acorde - disse Autumn. Eu duvidava que John Smith ficasse radiante quando despertasse e
      no tinha a menor vontade de ficar ali para ver.
      -Tambm peguei o celular e a carteira dele - contei, com certo orgulho. - Espero que assim ele no possa entrar em contato com voc de novo, Chantal.
      - A carteira de motorista dele est na carteira? Vasculhei-a, at encontr-la.
      - Est. Seu nome verdadeiro  Felix Levare.
      - Pode ser um nome falso. - Chantal pegou-a. - Mas vou ficar com ela, por precauo.
      Havia um mao de notas na carteira, que eu tambm tirei.
      - Isso pode ir para uma boa instituio de caridade - disse eu, jogando, em seguida, a carteira e o celular no lago, prximo ao Mercedes. Eles tambm borbulharam 
bastante antes de afundar por completo. Coloquei o dinheiro nas mos de Autumn. - Leve isto e compre chocolates para os adolescentes viciados. Ela pegou o dinheiro 
e guardou-o no bolso.
      - Obrigada.
      Chantal me deu um forte abrao.
      - Este foi um timo plano, Lucy. Bom trabalho. No sabe o quanto isso significa para mim.
      Mas, antes que eu pudesse dizer algo significativo para comemorar a ocasio, os sonferos de Nadia, colocados no chocolate adulterado, comearam finalmente 
a surtir efeito, meus joelhos se curvaram e eu mergulhei num sono profundo, sem sonhos.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Cinqenta 
      
      
      
      
      
 C
hantal deixou Lucy no apartamento dela. Sua amiga dormira durante todo o trajeto desde o Trington Manor, roncando alto na parte de trs do carro. O gnio do crime 
despertara brevemente ao chegar a casa, mas Autumn insistiu em lev-la at o apartamento e coloc-la na cama em segurana, ainda trajando o vestido de alcinhas.
      Chantal sorriu para si mesma ao conduzir o carro por Londres. Levaria Autumn primeiro e, depois, deixaria Nadia no local em que ela estacionara seu veculo, 
prximo ao Paraso do Chocolate. Aquela noite fora to bem-sucedida que ela mal podia acreditar. Dentro de sua bolsa encontravam-se suas adoradas jias, ss e salvas. 
O que poderia ter se transformado numa terrvel catstrofe acabou tendo um final feliz. Ela sentia tanto alvio que mal podia conter a emoo; devia tudo  habilidade 
de suas companheiras do Clube das Choclatras. Quem teria imaginado que seria abenoada com aquelas amigas do peito? Ela se sentia muito grata a elas. Dali para 
a frente, cuidaria de suas coisas - e de si - com muito mais zelo.
      J era bastante tarde quando ela, por fim, chegou em casa. Como as luzes do trreo encontravam-se acesas, Ted provavelmente assistia  televiso ou ouvia msica. 
Depois de estacionar o carro, permaneceu sentada, com a bolsa de couro, em que estavam as jias, no colo. Aquela fora uma grande lio para Chantal, que ps as alianas 
de casamento e de noivado com um suspiro de satisfao. Ela ficou contente ao ver que o marido ainda no tinha ido se deitar, pois estava animada demais para dormir. 
Perguntou-se como os atores, aps um desempenho especialmente emocionante, conseguiam relaxar. Ao sair do carro, mal sentia as pernas.
      - Oi, querida - chamou Ted, do sof, quando ela abriu a porta da frente. - Chegou tarde.
      - Nossa! Foi uma viagem longa do local da reportagem at aqui - disse ela, o que no era uma mentira. Ted s no sabia que tipo de trabalho havia feito.
      -Voc quer tomar algo? Parece cansada.
      - No, no estou cansada - ela lhe disse, esfregando o pescoo dolorido. - Estou acesa.
      - Que tal se eu fizer um ch de ervas?
      - Uma boa taa de vinho cairia bem.
      - Boa idia. Vou tomar uma com voc.
      Chantal jogou a bolsa no sof, sentindo prazer ao fazer isso, e, em seguida, deixou-se cair ao lado dela, espreguiando-se ao se acomodar nas almofadas macias. 
O marido ouvia Andra Bocelli e o som suave da voz opulenta do tenor relaxou-a.
      Dali a pouco, Ted voltou carregando uma bandeja com um Cabernet Sauvignon de boa qualidade, duas taas de vinho e uma travessa com queijos, bolachas, azeitonas 
e um cacho de uvas.
      - Humm, parece delicioso! - exclamou ela, com gratido. Ted acomodou-se ao seu lado.
      - Senti saudades de voc esta noite, querida. Chantal sorriu para ele.
      - Eu tambm.
      -Tome um gole do vinho, que vou massagear seu pescoo.
      Chantal perguntou-se por que ele estava sendo to gentil com ela, mas no quis questionar nada e estragar o clima. Ted agia como se ele estivesse com a conscincia 
pesada, no ela, pensou a esposa. Sorveu o vinho, passou um delicioso queijo Camembert em uma bolacha integral e mordeu-a com prazer. Precisava de chocolate tambm 
- cremoso e reconfortante. Depois de comer o queijo, veria o que havia na cozinha. Durante o dia, estivera ansiosa demais para comer, tal como Lucy. No entanto, 
agora, estava esfomeada.
      Ted tirou os sapatos da esposa e apoiou as pernas dela em seu colo, acariciando seus ps.
      - Humm - disse ela, satisfeita. - Que delcia! - Chantal no se dera conta de como seu corpo estava tenso, at ele comear a massage-la. Colocou o prato no 
cho e apoiou a cabea nas almofadas. As mos quentes do marido meteram-se sob a cala, massageando suas panturrilhas tensas. Ele sempre fora bom naquilo, mas fazia 
muito tempo que no tinha vontade de massage-la. Havia meses ele evitava qualquer tipo de contato ntimo, incluindo carcias nos ps, nas pernas ou no pescoo.
      - Tire a cala - pediu ele. Chantal captou a rouquido em sua voz com surpresa. Seus olhos estavam vidrados de desejo por ela.
      Ted ajudou-a quando ela ergueu os quadris para tirar a cala, as mos subindo para acariciar as coxas. Seus polegares tocaram a renda na extremidade da calcinha; 
em seguida, agarrou as laterais e puxou-a. Ele abaixou a cabea e encheu de beijos ardentes sua barriga, seus quadris, suas coxas. Os olhos da esposa ficaram marejados. 
Fazia tanto tempo que Ted no queria fazer amor com Chantal, que ela se deu conta do quo abalada e desprezada vinha se sentindo por causa disso.
      Ele desabotoou a camisa dela, beijando sua pele  medida que a expunha lentamente. Ento, tirou o suti, at despi-la por completo.
      Tirou a prpria roupa e deitou-se ao seu lado, entrelaando-se com Chantal. Quando a penetrou aos poucos, ela estava mais do que pronta para receb-lo e gemeu 
de prazer ao pux-lo para si. Fizeram amor com suavidade e doura, como nunca antes.
      Mais tarde, ela usou a manta de chenile do sof como coberta e ficaram ali deitados, abraados, sorvendo o vinho ao som da voz emocionante de James Blunt. 
Chantal no fazia idia do motivo da mudana de atitude de Ted, mas, fosse qual fosse, ela a apreciara muito. Por que ele no agia assim o tempo todo? Era tudo o 
que queria, pensou, deitar nos braos do marido, e no num quarto de hotel, com um cara que acabara de conhecer, para trepar loucamente, sem nenhuma ligao emocional, 
sem amor, sem carinho. Ela se apoiou em Ted.
      - Eu o amo muito.
      - Eu tambm a amo, querida. - Acariciou os cabelos dela, distrado. Ento, pigarreou e perguntou: -Voc no est brava por no termos usado preservativo?
      Ela acariciou o pescoo dele.
      - Vou at a farmcia amanh, comprar a plula do dia seguinte.
      - Sentiu o corpo dele se retesar. Fitou-o. - O que foi? -Tudo sempre tem a ver com o que voc quer, no ? Chantal ficou pasma.
      - O que est querendo dizer? - perguntou ela. - Eu deveria estar tomando plula? Ns no queremos que eu engravide, no queremos formar uma famlia.
      Ted sentou-se.
      - Ns no queremos? - indagou ele, com sarcasmo. - Ou  voc que se sente assim?
      - Nunca quisemos ter filhos. J conversamos muito sobre isso.
      - Mas no recentemente, reconheceu ela. - A gente odeia criana. Detesta os filhos dos nossos amigos. Voc sempre fica estressado quando Kyle e Lara trazem 
os meninos aqui e eles deixam marcas de chocolate por toda a parte, alm de quase estourarem os seus tmpanos com aquela gritaria incessante. Voc toma um monte 
de analgsico assim que eles vo embora.
      - As coisas mudam. E ns no conversamos mais sobre nada. Esta relao se baseia nas suas condies, Chantal. Seu lema  "faa do meu jeito ou tchau e bno". 
Talvez eu esteja farto disso.
      - Mas isso  porque voc me evita - disse ela, puxando a manta at o pescoo, repentinamente constrangida com a sua nudez. - J no quer saber de conversa, 
no me quer na cama.
      - Para qu? Para que ter vida sexual, se no h motivo para ela ocorrer?
      - Quer dizer que no devemos transar, a menos que queiramos ter filhos? - Ficou abismada com aquele ponto de vista sem sentido. Chantal tocou o brao dele, 
mas ele afastou-a. -  por isso que no quer mais dormir comigo?
      Ted levantou-se e vestiu a cueca e a cala jeans. Ela ficou triste ao pensar no que sentira momentos atrs - xtase nos braos dele - e na rapidez com que 
chegaram quela situao.
      - Acho seu apetite voraz um corta-teso - admitiu ele, com franqueza, evitando seu olhar. - Fico doente s de pensar que no h propsito algum naquilo.
      - Quando comeou a se sentir assim? Por que no me contou?
      - Eu tentei. - Soltou um suspiro ruidoso e ela captou a frustrao contida em sua voz. - Mas voc simplesmente no ouve o que no quer ouvir. No temos mais 
um casamento. Somos duas pessoas que compartilham uma casa, por convenincia. Quero mais do que isso. Quero uma esposa que goste de mim o bastante para considerar 
minha vontade. Quero uma famlia, Chantal. Meus prprios filhos. E voc no quer.
      -Vamos conversar sobre isso. Eu o amo.
      - s vezes, isso no basta.
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   Captulo Cinqenta e Um
      
      
      
      
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nto, no conseguiu ficar longe, gata? - perguntou Paquera. Os ps estavam apoiados na mesa e as mos, atrs da cabea. Um largo sorriso iluminava seu rosto, o qual, 
estranhamente, parecia ter se tornado mais lindo desde que eu fora embora.
      Eu estava na frente da mesa dele, sentindo-me como uma colegial diante do diretor - um idiota presunoso.
      - Vocs so os nicos dispostos a me empregar - admiti. Essa frase continha uma verdade difcil de admitir. Targa, a mquina de estresse politicamente incorreta, 
era meu lar espiritual.
      O nico lado bom de estar de volta ali era que eu conseguira convencer Derek Sujo, da sala de correspondncia, a devolver todas as outras bolsas resgatadas 
na nossa aventura a suas donas, cortesia debitada na conta do correio da Targa.
      Minha primeira providncia naquela manh fora colocar todas as bolsas num saco de lixo preto - lanando olhares nostlgicos a uma especialmente bonita, da 
Prada, que, na certa, valia uma pequena fortuna. Depois, peguei um txi para lev-las. Todas tinham algum tipo de identificao dentro, ento acabei ficando a par 
de detalhes a respeito de outras mulheres que haviam transado com o ladro cavalheiro de Chantal e haviam sido igualmente roubadas pelo sujeito. Havia uma grande 
quantidade de mulheres ingnuas por a e eu esperava que, como nossa amiga, tivessem aprendido a lio tambm. Derek continuava empacotando as bolsas, at aquele 
momento. Eu teria que levar chocolate para ele, para agradecer a ajuda.
      Cheguei at a considerar a possibilidade, depois da operao muito bem-sucedida para recuperar as jias de Chantal na sexta  noite, de me tornar chefe de 
quadrilha em tempo integral. Antes, eu no fazia a menor idia desse meu talento, que, modstia  parte, superou as expectativas. No era verdade que a criminalidade 
aumentava cada vez mais? Devia haver misses incrveis  minha espera nos recnditos sombrios do submundo. Podia at ver a placa com o meu nome na porta do escritrio 
- Lucy Lomhari, Gnio do Crime. Eu teria que adquirir alguns acessrios tpicos de bandidos, como um doberman babo, um defeito qualquer no rosto e algum tipo de 
obsesso relacionada a um grave distrbio mental. Precisaria de diversos apetrechos de alta tecnologia, sobretudo de uma mquina para fazer mocinhos virarem alimento 
de tubares esfomeados - sempre teis - e de uma equipe de assistentes musculosos, de cabea raspada. Como era bom sonhar! Esse tipo de trabalho parecia cada vez 
mais atraente. No entanto, decidi dar mais uma chance para a vida honesta.
      Voltei a ateno para Paquera. Era humilhante voltar ali to rpido, sobretudo quando o Sr. Aiden Holby, o presunoso, parecia estar se divertindo com o meu 
constrangimento. Ele tinha uma grande variedade de geringonas tpicas de executivos na mesa, entre elas um pndulo de Newton; fiquei morrendo de vontade de golpear 
aquelas bolas.
      - Os outros no sabem o que esto perdendo - disse-me ele, esforando-se para parecer sincero.
      No lhe contei que "os outros" j no tinham estantes muito bem organizadas de obras raras sobre guerra e araras com vestidos de gala carsimos. No lhe contei 
que fora includa na lista negra de todas as principais agncias da cidade e que tive de fazer uma ligao chorosa e suplicante para o Departamento de Recursos Humanos 
assim que acordara naquela manh, para conseguir aquele emprego de volta. Tambm tinha prometido dar s velhas rabugentas uma enorme caixa de bombons do Paraso 
do Chocolate: todas as semanas, at o final do ms seguinte.
      - Eu sabia que Tracy no iria agentar muito - disse Paquera. - Maternidade e trabalho fora no do certo. Assim que as mulheres tm filhos, a mente encolhe. 
Ela era at pior que voc.
      Achei que estava sendo irnico, mas no tive muita certeza.
      - Que bom saber que espera to pouco de mim! Tomara que consiga corresponder s suas expectativas.
      Paquera riu.
      -Voc trouxe chocolate?
      - Russell Crowe  um australiano lindo de morrer?
      - timo. Meu nvel de acar no sangue baixou perigosamente desde que voc foi embora. - Ele segurou meu queixo, fazendo-me fitar seus grandes olhos castanhos. 
- O escritrio ficou sem graa sem a sua presena, gata.
      - Podia ter telefonado para mim - disse eu e, em seguida, quis morder a lngua. No queria que Aiden Holby achasse que eu chegara a pensar nele quando estava 
fora.
      - E liguei - revelou ele. - Dezessete vezes, para ser preciso. A dona do nmero do celular que voc me deu comeou a ficar puta da vida.
      -Voc ligou para mim?
      - No, liguei para uma mulher chamada Mareia. Que tinha a voz bonita, mas me disse que, infelizmente, era casada e que eu devia estar com o nmero errado.
      Fiquei boquiaberta.
      - Eu dei o nmero errado?
      Paquera mexeu no bolso, tirou um pedao de papel amassado e, lenta e metodicamente, esticou-o sobre a mesa, antes de entreg-lo a mim.
      Li o nmero. Um deles estava errado. Olhei cada um deles estupefada. No podia acreditar que no era sequer capaz de escrever meu prprio nmero corretamente. 
Que chances eu teria de manter uma relao profunda e significativa se no conseguia nem decorar meu nmero de telefone? Fitando Paquera, disse:
      - No acredito.
      - Entendi a indireta, gata.
      - No foi uma indireta. Foi um erro mesmo. Um dos nmeros est errado.
      - Ah, a velha histria, o truque do "um dos nmeros est errado".
      - Por que ligou para mim?
      - Queria lev-la para jantar.
      - Ah.
      -Voc teria ido?
      - Eu... ahn... eu... ahn...
      - Ou ainda est saindo com algum?
      - Jacob - disse eu. De fato, ele ligara duas vezes no fim de semana. Uma para dizer que o evento beneficente na sexta  noite fora um grande sucesso, embora, 
por azar, os vestidos de uma das estilistas tivessem sido roubados de uma van,  tarde, e algum tenha sido obrigado a substitu-los s pressas. Tentei no ficar 
ansiosa demais enquanto ele relatava a histria. Jacob tambm quis confirmar se eu ainda poderia ir ao nosso "encontro" na tera  noite, no Paraso do Chocolate, 
e se eu no tinha feito a burrice de marcar duas coisas no mesmo horrio de novo. Claro que no disse isso, mas s vezes d para intuir o que a outra pessoa pensa. 
Ento, ele telefonou no domingo, sem um motivo especfico, s para bater papo, entre uma reunio e outra. O cara trabalhava demais. Era bvio que tinha um emprego 
muito exigente. - Quanto a mim, eu me sentira nas nuvens durante todo o fim de semana aps a incrvel aventura da recuperao de jias com as amigas do Clube das 
Choclatras. Apesar da sensao de euforia por termos conseguido, fui obrigada a ficar deitada no sof e comer muito chocolate, para me recuperar. No tive energia 
para saltitar pela sala com Davina. Com um sorriso nos lbios, por fim, lembrei-me de responder  pergunta de Paquera. - Teria sido timo sair com voc. Como pude 
ter sido to idiota? - O olhar que Aiden me lanou dizia que no era nada difcil acreditar nesse erro. - Mas, sim, ainda estou saindo com o Jacob. De sbito, Paquera 
assumiu uma atitude profissional.
      - Bom - disse ele, aparentando estar ligeiramente ofendido -, no tem problema, porque tambm estou saindo com algum.
      Parecamos mais duas crianas no parquinho do que os adultos maduros, donos de seus narizes, que ramos, mas no pude evitar a pontada de cimes.
      - Ah,?
      - Charlotte, da central de atendimento.
      J tinham me dito que ela era uma mulher vulgar. Esperta, mas vulgar. Destinada  gerncia, na verdade, no fosse tamanha vagabunda.
      - Ela  um amor - disse eu.
      - Eu tambm acho - concordou ele e suas mas do rosto adquiriram um tom rosado infantil, que me deu vontade de gritar. Eles estavam aprontando, eu tinha certeza. 
Podem chamar de pura intuio feminina. No fazia nem cinco minutos que eu sara dali e o cara j estava transando com outra. Se ele achava que eu iria compartilhar 
meu chocolate com ele, estava muito enganado.
      Deu-me um largo sorriso e disse:
      - Ento, que chocolate voc. trouxe hoje? Esfreguei o p no horrendo tapete marrom.
      - Twix. - Ele ergueu a sobrancelha e, dando um forte suspiro, meti a mo na bolsa e tirei o chocolate. Quando abri o pacote, dei-lhe com relutncia uma barra, 
e ele se ps a comer de imediato. Dava para negar alguma coisa para aquele homem? Eu era muito fraca e no tinha a menor fora de vontade. Se tivesse um pingo de 
dignidade, diria para ele ir conseguir chocolate com a vaca da Charlotte. Pelo menos, no mencionei as barras de Snickers e de Mars que estavam escondidas l tambm. 
No era to mole assim. Ah, t. - Melhor eu comear a trabalhar.
      - Daqui a pouco vai ter outro evento de confraternizao da equipe - informou Paquera, com uma expresso jovial. Essa no! A canoagem no tinha sido suficiente? 
Tive a impresso de que ele estava sorrindo por se lembrar do meu bumbum exposto naquele bote. No seria timo arrancar aquele risinho idiota do rosto dele? - E 
melhor voc se encarregar dos preparativos e se certificar de que tudo est bem organizado.
      - Qual ser o evento desta vez? Jantar no Ivy? Um dia no spa do Mandarin Oriental?
      - Corrida de kart! - Um brilho competitivo reluziu em seus olhos. Ah, que maravilha! Kart! -Vai com a gente?
      - Claro! - exclamei, dando de ombros, com indiferena.
      - Beleza! - Paquera recostou-se na cadeira de novo, cruzando os braos, satisfeito. E tive vontade de me beliscar para deixar de ser imbecil!
      
      
      
      
   Captulo Cinqenta e Dois
      
      
      
      
      
      
      
      
C
omo  que foi, fessora? - quis saber Fraser. 
A aula j terminara e ele havia ficado um pouco mais, para falar com Autumn. Os fragmentos de seus esforos criativos - os cacos de vidro espalhados pela bancada 
- estavam  sua frente. O instvel penduricalho de cristal, no qual vinha trabalhando desde o ms passado, comeava, aos poucos, a ganhar forma. Fraser era seu aluno 
mais desorganizado.
Autumn tirou um Dairy Milk da caixa de chocolates da Cadbury que ela comprara com o dinheiro que Lucy lhe dera, aps a aventura no hotel. Entregou a ele.
- O que  isso? - indagou o jovem.
- Um presente de agradecimento que eu e minha amiga estamos dando.
- Quer metade?
      Ela tinha conscincia de que Fraser, tal como os demais estudantes, sabia de seu fraco por qualquer coisa relacionada a chocolate.
- Quero sim.
Tirando dois quadradinhos do tablete, ele os entregou a Autumn, que os saboreou depois de parti-los. Ela sorriu para o rapaz com satisfao, ao sentir o sabor cremoso 
na boca. Por trs do aspecto agressivo, da cabea raspada e dos inmeros piercings, havia um lado mais brando naquele jovem que Autumn gostava de pensar que era 
estimulado por ela.
- Deu tudo certo?
- Correu tudo muito bem - disse ela, com uma ponta de orgulho na voz. - Obrigada pelas lies de especialista!
- Conseguiu recuperar as jias da sua amiga?
-Todas - confirmou ela. - Nem sei como agradecer. Naquela noite, roubei um carto magntico, arrombei uma fechadura e um cofre.
- Mandou bem, fessora!
- ! At eu fiquei surpresa. - Autumn meneou a cabea, como se mal acreditasse no que ela e as outras participantes do Clube das Choclatras tinham feito na sexta 
 noite. Quem diria que Autumn Fielding, tmida, reservada, defensora do meio ambiente, tinha aqueles talentos ocultos? - Mas, por favor, no comente nada por a 
ou vou perder o emprego. E, se isso acontecer, sentirei falta demais de vocs.
Ela esperava que Addison Deacon nunca ficasse sabendo de suas tendncias criminosas. Por algum motivo, de repente pareceu importante a Autumn que seu colega a tivesse 
em alto conceito.
- Deixa comigo, vou ficar de bico calado - prometeu Fraser, de modo solene. - Ainda resta certa honra entre ladres.
      -  claro que eu no aprovaria esse tipo de comportamento, no fosse por uma boa causa. Voc e eu provavelmente ajudamos a salvar o casamento da minha amiga. 
- Fitou com severidade o jovem aluno. - Lembre-se de que o crime no compensa!
Fraser deu de ombros.        
- Eu descobri que compensa, fessora. s vezes!
- Bom - disse ela, suspirando -,  melhor ns dois seguirmos o bom caminho daqui em diante, Fraser.
- Fcil para a senhora dizer, fessora - disse ele, sem rodeios. - Pode voltar para sua vidinha confortvel. Faz meses que estou longe das drogas, mas continuo a 
ser um ex-drogado sem residncia fixa. No  nada mole seguir o bom caminho.
- Eu sei. Mas, pelo menos, est tentando. Se eu puder fazer algo por voc...
- A senhora pode organizar isto daqui, fessora - pediu-lhe, com um sorriso descarado. - Eu fiz a maior baguna e tenho que resolver uma coisa agora.
-Vai l. - Ela fez um gesto indicando a porta. -Valeu, fessora!
- Espero que no seja nada ilegal! - disse Autumn, enquanto ele se afastava. Ele se limitou a erguer a mo e lhe dar um aceno amigvel. As vezes, era melhor no 
saber.
Autumn organizara a baguna de Fraser e dos outros alunos antes de enfrentar seu desafio dirio com a morte ao ir para casa, de bicicleta, em meio ao trfego intenso 
da tardinha. Queria ter se encontrado com Addison de novo naquele dia, mas no o via desde a noite em que a convidara para sair.
      Ao prender a bicicleta na grade diante de seu apartamento, notou que a luz da sala se achava acesa, o que significava que Richard estava l. Chegara a hora 
de seu irmo procurar um emprego adequado de novo, em vez de passar o dia no apartamento, fazendo s Deus sabe o qu. Toda vez que ela voltava para casa, sentia 
um peso no corao. Tudo o que queria fazer era botar os ps para cima e tomar uma xcara de chocolate bem quente. A mistura para chocolate quente da Charbonnel 
et Walker estava no guarda-loua; esse pensamento a animara o dia todo. Queria ficar sozinha. Embora adorasse Richard, no estava nem um pouco a fim de escutar as 
reclamaes do irmo mimado. Ele que tentasse viver como alguns dos rapazes do centro; a, sim, saberia o que era bom para a tosse. Se ela estivesse no lugar dele, 
vivendo  custa da irm, ao menos se esforaria durante o dia, mantendo o apartamento limpo, talvez at preparando o jantar. Mas o irmo no movia uma palha sequer. 
Autumn tentou conter a irritao crescente. Como supor que poderia ajudar seus alunos, quando no conseguia nem dar um jeito no prprio irmo?
A porta estava aberta quando ela se aproximou, o que no era raro naqueles dias. Um fluxo constante de visitantes mal-encarados ia ver Richard durante o dia e a 
noite, e exigir que fechassem a porta ao sair parecia ser demais. Autumn respirou fundo antes de entrar. E, quando viu o que a aguardava, esqueceu-se de expirar.
O apartamento fora vandalizado. Os sofs havia sido cortados e a espuma deles se alastrava pelo cho, como vsceras. As mesas de centro haviam sido viradas de cabea 
para baixo, as revistas que as enfeitavam foram rasgadas e espalhadas pela sala. Os livros tinham sido retirados das estantes e esparramados por todo o tapete. Os 
abajures haviam sido quebrados.
- Richard? - gritou ela. - Richard? - Nenhuma resposta. O nico som era de seu corao batendo acelerado no peito. Quem quer que tivesse passado por ali j havia 
partido fazia muito tempo. Ainda assim, Autumn pegou um pedao de cermica da base de um abajur que pertencera  av. Ele fora lanado para longe durante o caos 
e ela o carregou como se fosse um taco, caso tivesse que golpear algum. O fragmento parecia gelado em sua mo mida.
      Caminhou na ponta dos ps, em silncio, em meio  baguna, com as pernas trmulas. Na cozinha, todas as gavetas tinham sido arrancadas do armrio e seu contedo 
espalhado no cho: facas, garfos e colheres formavam montes desorganizados debaixo da mesa. Todas as latas e os pacotes de comida tambm haviam sido retirados dos 
guarda-louas e jogados no piso. Arroz, lentilhas, farinha e acar acumulavam-se sob seus ps. Ali se encontravam tambm seus adorados pacotinhos com a mistura 
de chocolate quente da Charbonnel et Walker, o que quase a fez chorar.
O pouco que havia na geladeira - iogurtes, tofu e cenouras murchas - j no estava mais l. At a porta do forno, apoiada apenas numa dobradia, oscilava aberta. 
Se ela fora assaltada, o que ser que os vndalos buscavam, para revirar seu apartamento de cabea para baixo, daquele jeito? E onde diabos estivera o irmo, durante 
aquele vandalismo? De repente, ela gelou. Minha Nossa, talvez Richard estivesse ali quando tudo aconteceu!
Autumn dirigiu-se apressada at o quarto dele, sentindo o cho sumir sob seus ps ao se dar conta da extenso do que ocorrera. Aquilo poderia ser obra de homens 
que tinham ido atrs de Richard por algum motivo. Era bvio que no buscavam seu estoque de chocolate, mas sim outro tipo de mercadoria. Sabe-se l o que acontecia 
no lado srdido da vida do irmo? Ela, com certeza, no sabia. Embora esperasse encontr-lo no quarto, no havia o menor sinal dele. Todas as gavetas e todos os 
armrios tambm tinham sido abertos e seu contedo, espalhado no piso. Havia dinheiro no criado-mudo dele - no era muito, mas, de qualquer forma, no fora levado. 
Seja l o que buscassem, pelo visto no era grana. O mais preocupante era que o celular de Richard ficara ali tambm, e ele nunca saa sem o aparelho, pois o considerava 
imprescindvel. O corao de Autumn subiu  boca quando ela disse, em voz alta:
- O que aprontou agora, irmozinho?
quela altura, ela tinha plena conscincia de que seu quarto estaria em condies semelhantes; de qualquer forma, caminhou lentamente at l. No se surpreendeu. 
Sua roupa ntima encontrava-se jogada na cama e suas escassas roupas decoravam o cho. Ela sentou-se na beirada da cama, estarrecida, deixando o pedao de cermica 
que ainda segurava cair no piso. Quer dizer que aquela era a "vidinha confortvel" que Fraser achava que ela tinha? Ela observou o quarto de novo. E agora, o que 
deveria fazer? Chamar a polcia? Richard ficaria furioso se ela o fizesse. Talvez fosse melhor esperar o irmo entrar em contato. Provavelmente, ele daria as caras 
no dia seguinte, com alguma desculpa esfarrapada. Talvez ela estivesse se preocupando  toa. No seria a primeira vez.
S o que podia fazer naquele momento era trancar a porta e torcer para que o melhor acontecesse. De forma alguma queria se ver diante das pessoas que fizeram aquilo, 
seja l quem fossem - ela s supunha que eram parceiros de negcios do irmo. Passaria a noite no sof, com o pedao de cermica em punho, caso decidissem voltar. 
No seria melhor chamar uma amiga sua, para que lhe desse uma fora? Autumn sabia que Lucy iria de imediato e passaria a noite com ela, se lhe pedisse. No entanto, 
era melhor no meter mais ningum naquela histria. Ela enfrentaria tudo sozinha.
Autumn meneou a cabea. O que teria acontecido com Richard? Pelo visto, a coisa era sria. Se ele se metera em confuso, estaria em maus lenis? Lgrimas quentes 
rolaram por seu rosto. Ela as enxugou com uma de suas calcinhas, que estava ao alcance. Esperava que o irmo tivesse conseguido escapar e que, naquele momento, ele 
se encontrasse escondido em algum lugar, talvez no apartamento de um amigo - se  que ainda tinha algum. No lhe restava outra escolha alm de aguardar o retorno 
do irmo. Ainda tinha esperana, embora imaginasse que provavelmente esperaria em vo.
      

      
      
      
      
   Captulo Cinqenta e Trs
      
      
      
      
      
      
      
      
 N
adia sorriu para o filho, enquanto ele brincava aos seus ps e terminava o prato com biscoitinhos de chocolate que os dois compartilhavam. Lewis gostava de comer 
chocolate quase tanto quanto ela; no entanto, ao contrrio da me, no parava um segundo sequer e queimava as calorias sem dificuldades. Essa era a diferena entre 
ter trs e trinta e trs anos. As peas da fazendinha estavam espalhadas por todo o piso da sala e Lewis caminhava despreocupadamente por elas.
      - Este aqui  um porquinho azul - disse-lhe o menino.
      Ajoelhando-se ao lado do filho, Nadia pegou o porquinho que o filho lhe entregara. Parecia mais uma vaca e no era azul, mas marrom. Ela sabia que estava certa: 
um dos poucos benefcios de se ter trinta e trs anos. Tinha que passar mais tempo com Lewis, revendo as cores e os animais domsticos. No fim de semana, ele faria 
quatro anos. Talvez fosse uma boa desculpa para irem ao campo e ficar numa daquelas fazendas to populares nos dias de hoje, em que as crianas podiam acariciar 
os animais. Teria que checar para ver se Toby estava trabalhando no sbado; ele andava ocupadssimo nos ltimos tempos, pegando todos os servios que apareciam em 
sua frente. Se o marido fosse trabalhar, ento, talvez pudessem reservar o domingo e passar o dia fora.
      - Elefante - anunciou Lewis, erguendo outra criatura infeliz. No era.
      -  um carneiro - explicou-lhe Nadia. - Carneiro.
      - Carneiro - repetiu o filho.
      - Que som ele faz?
      - Muu - disse o menino, com toda a convico. - Muu. Muu. Muu.
      Realmente teria de trabalhar com ele.
      s vezes, Nadia se sentia entediada at no poder mais por ser me em tempo integral. Ansiava pela companhia de adultos e por conversas mais maduras - alis, 
por qualquer tipo de assunto. Entretanto, sabia que, quando comeasse a trabalhar, sentiria falta do tempo precioso que passava com o filho, ensinando-lhe ou simplesmente 
brincando com ele, como naquele momento. Uma carta com oferta de emprego chegara pelo correio, de manh. Ela fora entrevistada na semana anterior e se sentia feliz 
por terem entrado em contato to rpido. Era um trabalho de meio perodo, durante o horrio escolar - o ideal para ela. Desse modo, s precisaria de algum para 
cuidar dele nas frias, quando ele fosse para o colgio. O servio seria bem interessante, na rea de marketing de um jornal local. Se, por um lado, no se tratava 
do nvel com o qual ela estava acostumada, por outro no era desprezvel a ponto de faz-la torcer o nariz. No entanto, ganharia uma mixaria. Alm disso, havia aquela 
outra questo relacionada ao trabalho de meio perodo: na maioria das vezes, eram servios de tempo integral encaixados em um horrio mais curto, com salrio mais 
baixo. Porm, quela altura do campeonato, ela no tinha muita escolha.
      Nadia queria pagar Chantal o mais breve possvel, e seria difcil faz-lo com aquele salrio - embora a amiga no fosse cobrar juros pelo emprstimo e insistisse 
em dizer que no tinha pressa de receber. No obstante, ela no tirava aquilo da cabea e queria quitar a dvida o quanto antes. Toby compreendia Nadia e vinha se 
esforando bastante; enviara vrias faturas para seus clientes e ela esperava que algum dinheiro entrasse logo. Ele j fora para algumas das reunies do grupo de 
apoio No  Jogatina e, apesar de dizer que as detestara, ela se sentia grata por ver o marido freqent-las, mesmo a contragosto.
      Nadia sorriu para si mesma. Se Toby soubesse o que elas haviam aprontado na sexta  noite! Ainda bem que tinham conseguido recuperar as jias de Chantal e 
que tudo correra bem. Toby achava que ela fora tomar um drinque com as amigas; Nadia se perguntava o que pensaria se lhe revelasse onde haviam estado e o que tinha 
feito. Ele nunca imaginaria que ela tambm sabia mentir. Contudo, no faria mal manter aquele segredinho. S Deus sabe o quanto ele escondera dela no passado! Felizmente, 
tudo aquilo terminara. Talvez um dia ela lhe contasse, e os dois ririam do ocorrido.
      - Au-au - imitou Lewis, franzindo o cenho. - Cad o au-au? Ela voltou a se concentrar no filho.
      - Deve estar por aqui, em algum lugar. - Nas peas da fazendinha havia um pastor de Shetland, preto-e-branco, com o rabo mastigado, que era o favorito de Lewis. 
Nadia procurou entre os inmeros bichinhos. Mas no encontrou o au-au. A bem da verdade, muitas peas tinham sumido. Havia um trator antigo com um reboque cheio 
de madeira, uma figura de fazendeiro, com uma jaqueta de l velha, vrios currais e pedaos de cerca, alguns porcos panudos vietnamitas e diversas vacas leiteiras, 
que a maior parte das fazendas no via havia cinqenta anos. Onde ser que estavam? - Acho que o au-au deve estar no seu armrio de brinquedos. Espere aqui que a 
mame vai procurar para voc.
      Levantou-se e se espreguiou antes de ir at o quarto do filho. O armrio estava uma zona, como sempre. Se tivesse tido uma menina, ser que ela seria mais 
organizada? Ento, Autumn lembrou-se da baguna de seu quarto, quando criana, e concluiu que no faria diferena. Se ela e Toby se livrassem das dvidas nos anos 
seguintes, poderiam pensar em ter outro filho, antes que Lewis crescesse demais. Seria bom ter uma menina tambm.
      Vasculhando todas as estantes com brinquedos, ela empurrava ursinhos de pelcia, quebra-cabeas, carrinhos e escavadoras para o lado. Meneou a cabea.
      - Este garoto podia at doar brinquedos para os fabricantes! - resmungou Nadia. - No   toa que nunca temos grana. - Alguns deles definitivamente iriam para 
a prxima venda de garagem.
      - Anda logo, me! - gritou Lewis, do trreo.
      - Conte todos os carneiros - ordenou ela. - So os que tm plo branco e focinho preto. Eu j vou descer.
      Deixando escapar um resmungo impaciente, ela voltou a procurar e, dali a pouco, encontrou uma caixa com as peas que faltavam da fazendinha, incluindo o mastigado 
au-au. Nadia puxou a caixa para a parte da frente da estante e, ao fazer isso, trouxe junto uma correia preta. Deu uma puxada mais forte e a caixa empurrou ainda 
mais a correia preta. Uma maleta da mesma cor veio a seguir. Uma maleta preta de computador.
      O corao de Nadia foi parar em sua boca, quando ela pegou-a e tirou-a do armrio. Era um laptop. Um laptop novo. O que fazia escondido, na parte de trs da 
estante de brinquedos de Lewis? Ela soube da resposta no mesmo instante e sentiu o estmago revirar. Levou o laptop para o escritrio e, remexendo de modo atrapalhado 
nos cabos, conectou-o  linha telefnica. Com as mos trmulas, ligou o computador e aguardou. Clicou no smbolo da internet e, tal como esperara, a conexo fora 
restabelecida. Era bvio que Toby recomeara a se conectar.
      Checando o histrico de uso, ela confirmou, como suspeitara, que ele entrara nos cassinos virtuais. O marido a trara. Daquela vez, fora ainda mais tratante 
ao tentar encobrir suas aes.
      Depois de tudo o que ela fizera, aceitando emprestado o dinheiro de Chantal para liquidar suas dvidas, agora ele recomeara a jogar, em segredo. Devia ter 
conseguido outro carto de crdito tambm - no que fosse difcil nos dias atuais, j que os prprios bancos faziam fila para disponibilizar crdito sem objeo. 
O complicado era pag-lo. Nadia se sentiu enjoada. Em quanto tempo estariam mergulhados em dvidas de novo? Desligou o computador, fechou-o e guardou-o na maleta. 
Foi at o quarto do filho e recolocou-o no esconderijo. Por dentro chorava, mas tinha que segurar as pontas. No havia como enfrentar aquela situao indefinidamente. 
Aquilo precisava terminar. Tudo o que ela tinha a fazer era tomar uma deciso imediata.
      Nadia pegou a caixa com as peas da fazendinha e desceu com o corao partido. Independente do que fosse acontecer, no deveria afetar o filho. Ele era sua 
vida, sua nica alegria.
      - Olha s o que eu trouxe - disse ela, com um sorriso fixo no rosto.
      - O au-au! - gritou ele. -Voc achou, mame! Infelizmente, pensou ela, no era tudo o que havia encontrado.
      
      
      
      
      
   Captulo Cinqenta e Quatro
      
      
      
      
      
      
 T
ed mal falara com Chantal durante todo o fim de semana. Depois de sua noite quase fantstica na sexta, ele fora para o quarto de hspedes - o que nunca fizera antes. 
Tratou-a com o mais absoluto desprezo. Ficara mais tempo que de costume no clube de golfe. Os dois jantaram juntos em total silncio, aps trocar alguns cumprimentos; 
depois, ele assistira  televiso at a hora de dormir, ignorando-a por completo. Chantal sentiu-se ainda mais frustrada que de costume. Bom, mas aquele jogo contava 
com dois participantes. Se ele iria puni-la afastando-se ainda mais dela, ento ela buscaria prazer em outra parte.
      Chantal recostou-se no sof e sorveu uma taa de um bom Shiraz. S de pensar em Jazz e em seu corpo jovem e malhado, ficou excitada. O pseudnimo do rapaz 
era mesmo brega e ela se perguntou, distraidamente, qual seria o nome verdadeiro dele. De qualquer maneira, ele tinha inmeras outras qualidades. No era a situao 
ideal ter de recorrer a um garoto de programa para se satisfazer; afinal, que mulher queria fazer isso? Mas, se tivesse de faz-lo, no hesitaria. De forma alguma, 
em sua idade, iria se resignar a seguir adiante sem vida sexual. Tinha de admitir que ficara chocada ao ouvir o ponto de vista de Ted sobre filhos. Podia jurar que 
os dois pensavam da mesma forma quele respeito. Nenhum deles queria ter filhos, chegando a sentir pena dos amigos cuja liberdade era cerceada por eles. Quando seu 
marido mudara de idia? Se se recusasse a dormir com ela, ela lidaria com essa questo  sua maneira.
      Chantal perguntou-se por que Ted no conseguia se sentar com ela para discutir o assunto de modo racional. Talvez porque sabia que nunca concordaria. Sua prpria 
famlia tinha sido to inepta, que ela no gostaria de reproduzir tal situao, trazendo filhos ao mundo para submet-los aos problemas que tivera de enfrentar. 
Chantal no se lembrava de ter ouvido os pais dizerem que a amavam, durante o tempo que morou com eles. Filha nica, era encarada como um mal necessrio. Naquela 
poca, faziam-se filhos; no se tratava de uma questo de escolha. Nem sempre as pessoas se transformavam automaticamente em pais maravilhosos e atenciosos quando 
seus filhos nasciam. Sua me e seu pai trabalhavam muito, deixando-a sozinha, em casa, por longos perodos, em que ela era obrigada a se entreter por conta prpria. 
s vezes, estudava, outras vezes, bebia o Jack Daniels que encontrava no bar e, depois, completava a garrafa com gua. Durante o perodo escolar, Chantal esforou-se 
para ser uma excelente aluna, esperando que sua atitude despertasse, um dia, a admirao e o amor dos pais. No foi o que ocorreu. Apesar de s tirar dez, nunca 
foi elogiada. Alm disso, tambm tinha talento musical, tal como se esperava dela. No entanto, desde que saiu de casa, nunca mais tocou piano.
      Os pais continuavam vivos, mas participavam pouqussimo de sua vida quela altura. O contato se restringia s abominveis ligaes, motivadas por conscincia 
pesada, e  troca de cartes de Natal e aniversrio. Sem dvida alguma, se se envolvessem mais em sua vida, ainda encontrariam algo que no aprovariam. At mesmo 
Ted, com a boa aparncia, o charme e o futuro promissor, no os impressionou, quando foi apresentado como pretendente. O que queriam para ela? Sua prpria felicidade 
no contava? Imagine s que tipo de avs eles seriam, se mal se incomodavam com a prpria filha! E para que ela haveria de ter um filho? Para passar suas neuroses, 
para que ele se sentisse inseguro e desprezado? Nunca fizera parte de seus planos, e Chantal sempre achou que o marido pensava como ela. Pelo visto, estava equivocada.
      Nenhum dos dois pedia desculpas com facilidade, de maneira que aquele impasse poderia durar um bom tempo. Para se distrair, Chantal tinha enviado um e-mail 
para Jazz, pedindo para v-lo naquela semana. Se o marido no a queria, no significava que no poderia se divertir naquele nterim. Em sua opinio, era mais seguro 
divertir-se com Jazz que correr o risco de pegar outro cafajeste em um bar. Estava pensando nisso quando Ted entrou, com passadas largas, no quarto e jogou um pedao 
de papel em seu colo. Era uma resposta ao e-mail que ela enviara ao garoto de programa; dizia simplesmente: Quinta-feira  tarde estaria bem para voc? Jazz.
      Ela fitou Ted, com a boca seca.
      - Jazz? - perguntou ele. Chantal deixou o papel cair, de forma negligente, no piso.
      -  um cliente. O semblante do marido estava sombrio, furioso.
      - No creio que seja, Chantal.
      - Acredite no que quiser! - disse ela, friamente, embora tremesse por dentro. - Que diferena faz para voc?
      - Faz diferena quando tambm noto que faltam trinta mil libras na nossa conta bancria.
      Chantal sentiu o estmago contrair.
      - Emprestei o dinheiro para uma amiga. Ela estava enfrentando dificuldades.
      - Pode me dizer quem? - indagou Ted.
      - No, no posso.
      - Falei com Lucian Barrington esta semana. Disse que Amy se encontrou com voc no saguo do Hotel St. Crispen, na cidade. Contou que agia de modo estranho 
e que quis se livrar logo dela.
      - Aquela mulher, alm de chata,  fofoqueira. Teria sido mais estranho se eu tivesse resolvido tomar um drinque com ela e o Lucian, para fazer a vontade dela.
      - Ela contou para Lucian que um jovem chamado Jazz perguntou por voc na recepo do hotel e que foi at seu quarto.
      Chantal olhou para a frente. Poderia continuar a negar tudo, tentar disfarar, dizer para Ted que se tratava de um cliente, inventar uma desculpa convincente; 
no entanto, para qu? Talvez tivesse chegado a hora de abrir o jogo. Chantal comprimiu os lbios e respirou fundo.
      - Sou culpada - admitiu ela, sem rodeios, virando-se para o marido. -Tenho estado com outros homens.
      - Homens, no plural? - Os punhos de Ted estavam cerrados, brancos.
      - Isso. - Ergueu o queixo de modo desafiador, embora por dentro desejasse atirar-se no cho e chorar. No fundo, ela sabia que esse dia chegaria, o dia do ajuste 
de contas, mas no tinha idia de que seria to doloroso.
      - Ento, acho que no h mais nada a ser dito. -Ted... - comeou ela.
      - Suma daqui - ordenou ele. - Saia da minha frente!
      Chantal levantou-se e caminhou na direo dele. Agora que revelara tudo, sentia-se mal, com nsia de vmito. Queria que Ted a perdoasse, mas no sabia como 
pedir.
      - No quero que o nosso casamento acabe - disse ela, tocando seu brao com hesitao. Ted afastou-se dela. - Queria que a nossa relao voltasse a ser como 
antes. Temos que conversar sobre isso e sobre o que vamos fazer daqui em diante.
      A expresso do marido era um misto de dor e dio.
      - A nica conversa que vamos ter, Chantal, ser por meio dos nossos advogados.
      
      
      
      
      
   Captulo Cinqenta e Cinco
      
      
      
      
      
      
 E
nviei uma mensagem de texto para as minhas amigas, marcando um encontro no Paraso do Chocolate para tomarmos um drinque e saborearmos nosso produto favorito no 
final do trabalho. Jacob ainda demoraria uma hora para chegar, tempo suficiente para ns conversarmos sobre o que ocorrera na sexta  noite, j que eu apagara antes 
que tivssemos oportunidade de comemorar o feito. Queria tambm que as participantes do Clube das Choclatras dessem uma olhada no meu novo namorado e vissem como 
eu conseguia atrair caras bonites, que eram legais, e no babacas melindrosos.
      Eu estava saboreando com agrado vrias trufas de champanhe, confirmando a teoria de que menos nem sempre era mais, quando Chantal chegou. Ela se jogou no sof 
ao meu lado e recostou a cabea, dando um forte suspiro. Parecia mais desanimada que de costume. O semblante estava cansado e contrado. Ela pegou uma das minhas 
trufas, sem entusiasmo, e a comeu. No deixou escapar a costumeira exclamao de prazer.
      - Problemas?
      - Com letra maiscula.
      Pensei que, por ter recuperado as jias em grande estilo, ela ficaria feliz da vida por um bom tempo. Senti uma onda de pnico por dentro, o que anulou o efeito 
reconfortante das trufas.
      - No andou escutando nada sobre John Smith, o Amvel Ladro de Jias, andou?
      - No. - Fez um gesto com as mos, para ressaltar a negao. - Meus problemas esto em casa.
      - Vou pedir uma bebida - sugeri. Pelo visto, ela precisava de uma dose dupla de conhaque. - Da, voc me conta o que houve.
      - Chocolate quente, por favor - disse ela. E fui depressa pedi-lo a Clive.
      Minutos depois, minha amiga segurava uma xcara com a bebida fumegante. Parecia estar melhor. O chocolate tinha mesmo o poder de curar. As mulheres de todas 
as partes do mundo sabiam disso. Minha amiga me fitou, quando sentiu o efeito mgico da bebida.
      -Ted me expulsou de casa - disse ela, dando de ombros ao ver minha expresso chocada. - Percebeu que estava faltando dinheiro na conta e no acreditou na minha 
explicao.
      - Nadia vai se sentir pssima!
      - No conte para ela - implorou Chantal. - J tem muito com que se preocupar. Alm do mais, isso no tem muito a ver com o dinheiro. H outras questes mais... 
importantes tambm.
      - Continuam a no dormir juntos?
      Ela riu, parecendo ter perdido um pouco as estribeiras.
      - Por incrvel que parea, tivemos uma noite tima quando voltei, na sexta. Transamos apaixonadamente no sof, pela primeira vez, depois de meses. - Deu outra 
risada histrica, ciente da ironia da situao. - Ento, eu fiquei sabendo que Ted quer ter filhos. - Chantal lanou-me um olhar espantado. - Ele sabe muito bem 
qual  a minha opinio a esse respeito. Alis, todo mundo sabe o que penso disso.
      -Talvez ele acabe aceitando - disse eu, tentando consol-la. - Ou, quem sabe, voc no muda de idia?
      - No quero ter filhos - insistiu minha amiga. - Nunca quis e nunca vou querer.
      - E o Ted est determinado a ter?
      - Est.
      - Ento, o casamento acabou? Ela assentiu.
      - Pelo visto, sim.
      - O que voc vai fazer? Aonde vai? Se eu no morasse num cubculo, poderia ficar comigo. Posso oferecer meu sof at voc achar um lugar.
      - Eu fiz a mala de manh. Da, entrei em contato com algumas amigas, liguei para umas pessoas, at descobrir algum que pudesse me alugar um apartamento por 
alguns meses. - Arriscou um sorriso. - Eu me mudei para um apartamento mobiliado, de dois quartos, em Islington, esta tarde.
      - Uau! - Fiquei pasma com a rapidez que ocorrera.
      - Se no consigo resolver de uma vez os problemas, fico doente! - admitiu ela, com uma expresso amarga.
      Antes que eu pudesse fazer outro comentrio, Autumn e Nadia entraram na chocolataria. Sentaram-se com alvoroo, enquanto tiravam os casacos e jogavam as bolsas 
num canto. Clive foi nos cumprimentar, com uma luva na mo.
      - Como vo minhas amigas favoritas?
      - Bem. - Achei que "mais ou menos" seria uma resposta mais apropriada, porm eu sabia que isso requereria longas explicaes e precisvamos com urgncia de 
chocolate. Nosso querido anfitrio anotou nossos pedidos e, em seguida, desapareceu, para providenci-los. Nem Autumn nem Nadia pareciam estar animadas naquele dia.
      - Podem desembuchar - pedi. 
      Nadia deu a largada:
      - Descobri que Toby est jogando de novo. Vou deix-lo. 
      Chantal e eu comeamos a rir.
      - O que foi? - perguntou Nadia. - O que  to engraado? 
      Lgrimas rolavam pelo meu rosto, sem que eu soubesse se eram de tristeza ou regozijo.
      - No  engraado - disse eu, tentando controlar o ataque histrico. - No  nada engraado.
      -  sim - discordou Chantal, abraando-se. - Acabei de deixar Ted.
      Ento, Nadia sorriu tambm.
      - Na hora certa! - exclamou ela, com um risinho cansado. - Que grupo infeliz ns formamos!
      Quando consegui me controlar, perguntei-lhe:
      - Aonde voc vai? O que vai fazer? - Parecia inadequado naquele momento; porm, eu quis saber assim mesmo.
      - No sei ainda - admitiu ela.
      - Venha morar comigo - sugeriu Chantal. - Acabei de alugar um timo apartamento, e tem um quarto sobrando.
      Nadia meneou a cabea.
      - No acho que meu parco oramento esteja ao alcance dele, Chantal.
      - No tem problema. Pague o quanto puder - disse ela, com firmeza. - Prefiro compartilh-lo com algum que conheo a vagar por ele sozinha. Seremos livres, 
leves e soltas juntas!
      - No to livre, no meu caso - corrigiu Nadia. - Est lembrada do Lewis?
      Era bvio que Chantal no considerara o garoto ao propor aquele acordo conveniente, mas recuperou a compostura de imediato.
      - No tem problema - disse ela, tentando parecer animada, embora sua voz tenha soado meio abafada.
      -Tem certeza?
      -Tenho. Vamos dar um jeito.
      As duas se entreolharam com tristeza.
      - Seria timo, Chantal - disse Nadia, com suavidade, apertando a mo da amiga. - Assim vou ter meu prprio espao.
      - Ento, resolvido - concluiu Chantal. - Vou anotar o endereo para voc. Leve suas coisas para l assim que estiver pronta.
      Clive chegou com uma bandeja cheia de doces, que colocou diante de ns.
      - Parece que precisam disto hoje, queridas - disse ele. E era a mais pura verdade. Todas nos entregamos  volpia.
      -Tambm me deixaram - informou Autumn, em voz baixa. - O Richard foi embora. - Nenhuma de ns riu daquela vez, pois todas sabamos o quanto Autumn se preocupava 
com o irmo. - Vndalos entraram no meu apartamento - prosseguiu ela, com a voz embargada - e meu querido irmo sumiu do mapa.
      - Ah, Autumn!
      - No recebi uma notcia sequer dele desde ento. - Nossa amiga deixou escapar um suspiro frustrado. - Pensei em ir at a delegacia para comunicar seu desaparecimento, 
mas o que ia dizer? Richard me mataria se soubesse que envolvi a polcia nisso. No fao idia do que fazer, exceto esperar.
      Nenhuma de ns teve uma idia brilhante.
      -  melhor voc dar boas notcias para ns, Lucy - pediu Nadia. - Seria timo saber que pelo menos uma de ns est passando por uma fase boa.
      - Estou bem. Feliz da vida. Marcus est na dele, longe da minha vida, e tenho um namorado novo, muito legal. Tudo anda s mil maravilhas.
      - Ainda bem! - exclamou Nadia, suspirando.
      - Jacob vai chegar daqui a pouco - expliquei-lhes. - E quero que o conheam. No sei se ele  O Escolhido, mas gosto muito dele.
      - Que bom, amigai - disse Chantal. - Dou a maior forai Dei um sorriso tmido.
      - Espero mesmo que esta relao d certo.
      E, bem na hora, Jacob chegou ao Paraso do Chocolate.
      
      
      
      
      
   Captulo Cinqenta e Seis
      
      
      
      
      
      
  Q
uando Jacob entrou na chocolataria, estava um gato. Usava um terno escuro, sensual, com os cabelos louros despenteados, no ponto ideal. Senti uma onda de orgulho. 
Aquele cara estava saindo comigo! R-r-r!
      Assim que me viu, acenou de maneira casual e caminhou em minha direo. E, quando o fez, Chantal soltou uma exclamao. Daquela vez, no de alegria, como seria 
de esperar, mas de terror. Jacob interrompeu sua caminhada confiante por alguns instantes e seu sorriso radiante murchou ligeiramente; em seguida, continuou a vir 
em nossa direo. Chantal mordeu os lbios, nervosa, e sua linguagem corporal demonstrava extremo desconforto.
      - O que foi? - perguntei. - O que est acontecendo? Fez-se um silncio pesado entre ns. Pelo visto, Autumn e Nadia
      estavam to intrigadas quanto eu. Jacob se juntou a ns.
      - Oi - cumprimentou ele, com a voz animada demais.
      - E a? - respondi, com a voz hesitante e ansiosa, sem motivo aparente. Achei que deveria me levantar e beij-lo, ou algo assim, mas no o fiz. Ento, ele 
ficou ali, parecendo pouco  vontade, sem que eu me movesse. - Que bom ver voc! Estas so minhas amigas. Autumn, Nadia e... Chantal. - Notei que meu amigo e ela 
trocaram um olhar ansioso. Uma luzinha acendeu num recndito qualquer da minha mente confusa. - Mas acho que j se conhecem.
      - Oi, Chantal - cumprimentou ele, com discrio. Em seguida, ajeitou, constrangido, o colarinho da camisa.
      - Jazz - disse ela.
      - Jazz? - fitei-a, buscando uma explicao, mas ela continuou calada; foi Jacob quem falou.
      - J conheci sua amiga - disse o rapaz. - Numa situao de negcios.
      Entretanto, eu tive a sensao de que ele no era um dos entrevistados dela para a revista Style USA. Chame de intuio feminina ou de excessiva experincia 
em chifres por causa do Marcus, mas havia algo entre os dois - uma fagulha, uma qumica, uma histria compartida. No sabia exatamente o que era, mas ficaria sabendo.
      - Como? Como se conheceram? Em que circunstncias?
      - Acho que Chantal deveria explicar para voc - sugeriu Jacob. Sua atitude confiante desaparecera e, de uma hora para outra, ele parecia solitrio e vulnervel.
      Virando-me para Chantal, pedi:
      - D para me explicar o que est acontecendo, por favor? Minha amiga olhava fixamente para o prprio colo.
      - Voc provavelmente no vai querer ficar comigo depois disso, Lucy - disse Jacob, com tristeza. - Mas, se ainda quiser, eu gostaria muito que me ligasse. 
Gostei muito da sua companhia, durante o curto tempo que a gente passou junto. Voc  muito legal. Eu pensei que... - Pigarreou, procurando as palavras. - Achei 
que a gente tinha algo especial.
      Fiquei boquiaberta. To boquiaberta que no disse nada ao v-lo dar a volta e se afastar.
      Todas se remexeram, inquietas, enquanto eu permanecia ali, em estado de choque.
      - E, ento, vai me contar o seu segredinho? - perguntei, por fim, a Chantal.
      Esforando-se para me olhar, ela revelou:
      - Seu namorado, o Jacob, Jazz, trabalha como acompanhante.
      - Acompanhante? Como assim, acompanhante? - Tentei me lembrar se ultimamente Chantal havia ido a alguma festa glamourosa, na qual tivesse precisado levar algum, 
que no fosse o marido.
      - Lucy... - disse ela, com um tom exasperado, erguendo a sobrancelha.
      Ento eu me dei conta de que ela no tinha estado em nenhuma festa. Absorvi a informao durante alguns instantes. -Tenho contratado os servios dele.
      - Servios para qu?
      As outras participantes do Clube das Choclatras mudaram de posio, desconfortveis.
      O sangue subiu  minha cabea e, de sbito, tudo ficou claro.
      -Voc tem trepado com o meu namorado? - A pergunta saiu terrivelmente alta, embora eu quase tivesse engasgado ao pronunciar aquelas palavras, e ouviu-se um 
burburinho quando os demais clientes do Paraso do Chocolate se viraram para ver o que acontecia.
      - Lucy - exclamou minha amiga, tentando explicar-se. - Eu no sabia que ele era seu namorado! No fazia a menor idia de que Jacob e Jazz eram a mesma pessoa. 
Como poderia ter adivinhado?
      Eu mal conseguia respirar.
      - Meu namorado  um puto?
      - No  bem assim - defendeu Chantal, aborrecida. - E um garoto de programa.
      - A quem voc paga para transar - retruquei.
      Minha amiga fez a gentileza de enrubescer.
      - No  to srdido quanto voc pensa. Ele  muito profissional.
      - Maravilha. Ah, que bom ento! No queria que voc pagasse por servios de m qualidade.
      - Sinto muito. Sinto muito mesmo. Sei que voc gosta dele.
      - Gostava - corrigi. - Como posso encar-lo agora? Como posso encar-lo sabendo o que ele faz, sabendo que voc... que voc transou com ele antes que eu mesma 
fizesse isso? - Queria apoiar a cabea nas mos e desatar a chorar. Jacob parecia ser to legal, e tudo ia bem com a nossa amizade... relao... Nem sabia como denominar 
o que tnhamos... Mas, enfim, seja l o que fosse, estava me ajudando a esquecer o Marcus. Eu nunca havia sido partidria do "todos os homens so canalhas"; entretanto, 
naquele momento, conseguia entender a fora dessa teoria. Como pude ser enganada to facilmente de novo? Como o infrator principal se mandara depressa (quem poderia 
culp-lo?), dirigi toda minha raiva a Chantal. - Achei que voc fosse mais amiga do que . No d para acreditar que est saindo com o Jacob s escondidas.
      - No estive saindo com ele, Lucy - insistiu ela. - Eu o contratei, por hora.
      - Quanto pagou pra ele? - quis saber.
      - Lucy. No faa isso consigo mesma.
      - Eu quero saber!
      - Duzentas libras por hora. - Autumn e Nadia respiraram fundo. Eu teria feito o mesmo, se pudesse respirar. Era muita grana para os padres de qualquer pessoa.
      - Ele  bom? - perguntei, petulante.
      O semblante de Chantal estava frio quando respondeu:
      - .  muito bom.
      - Eu realmente no quero saber - choraminguei. - No quero saber mesmo.
      
      
      
      
      
   Captulo Cinqenta e Sete
      
      
      
      
      
      
 C
hantal tentou entrar em contato comigo umas duzentas vezes, mas no retornei suas ligaes. Eu estava bastante mal-humorada e, francamente, creio que tinha toda 
razo de ficar daquele jeito. Meu celular tocou de novo e, quando vi o nmero de telefone da minha amiga no visor, deixei-o tocar at a ligao cair na caixa postal. 
Em seguida, guardei-o no bolso.
      - E a, gata? - disse Paquera, surgindo atrs de mim. - Por que est com essa carinha to triste?
      Tambm no estava com saco de aturar aquilo, o tal estmulo  confraternizao da equipe com a corrida de kart.Todo mundo agitado, cheio de energia, louco 
para que a largada fosse dada, e eu l, sentindo-me a pior das criaturas, detestando cada minuto. Ns tnhamos ido at a zona porturia, pois a pista fora construda 
num terreno baldio prximo ao Millennium Dome. Ali, onde Judas perdera as botas, o vento soprava em quilmetros e mais quilmetros de asfalto plano. Por que no 
construam um centro comercial com lojas atacadistas de estilistas naquele lugar? Na minha humilde opinio, o lugar seria muito mais bem aproveitado dessa forma.
      Havamos assistido a um DVD com instrues para pilotos num mdulo, com painis em cores vivas. As imagens fizeram a aventura parecer bastante aterradora. 
Naquele momento, ns nos encontrvamos  beira da pista, aguardando o incio da imperdvel corrida. Se, por um lado, a equipe de vendas mal podia conter a impacincia, 
por outro, eu sabia que no entraria nem morta naqueles carrinhos ridculos. Por que homens maduros, nas mais variadas faixas etrias, ainda sentiam necessidade 
de se divertir com brinquedinhos para provar a masculinidade? Era um aspecto psicolgico complexo demais para a minha cabea naquele momento. Desnecessrio dizer 
que eu trajava um macaco vermelho nem um pouco lisonjeiro, apertado demais nas minhas ndegas grandes e arredondadas, e usava um capacete branco que, naquele momento, 
esmagava os cabelos que eu passara um tempo alisando na esperana de aumentar minha auto-estima destruda. Por que todos os eventos de confraternizao requeriam 
vestimentas to abominveis? Por que no requeriam os pretinhos bsicos de grife que deixavam a gente mais magra? Na prxima vez, eu escolheria o evento para estimular 
a nossa unio e, com certeza, seria algo bem mais agradvel. Ah! Uma semana no spa Chiva-Som, na Tailndia, cairia como uma luva, na minha opinio. Fitei Paquera, 
com as palavras "se manda" na ponta da lngua. Ele apoiou o brao no meu ombro. - Algum roubou o seu estoque de chocolate?
      - No - respondi, com clareza. - Descobri que minha melhor amiga estava transando com o meu namorado.
      - Oh! - O semblante de Paquera se fechou, preocupado. - Nada bom.
      - No.
      - Isto vai animar voc.
      Claro que vai. Correr feito uma doida na pista, num brinquedo de aspecto pattico de criana, sem motivo algum. No sei o que mais poderia reconfortar meu 
corao ferido. Mas eu no tinha nada a perder e iria tentar, pois, at aquele momento, uma barra de Mars e outra de Bounty, um tablete de Turkish Delight, dois 
pacotes de Rolos, uma caixa de Continental, da Thornton, e trs barras de chocolate de origem controlada, com pimenta-do-reino e cardamomo, no conseguiram me consolar.
      Aiden Holby me deu um abrao amigvel.
      - Vou fazer o possvel para que se divirta, gata - afirmou ele, sorrindo abertamente. -Vai levar uma surra nesse seu bumbum cor-de-pssego nesta pista.
      Humm. Quer dizer ento que achava que minha bunda tinha essa cor? Sorri, apesar da dor.
      - Quero ver voc tentar.
      - Aposto dez libras como vou vencer.
      - Fechado. - Apertamos as mos para selar a aposta.
      - Adoro mulheres que no sabem que j perderam. - Apesar de estarmos, teoricamente, num ambiente de trabalho, com a equipe de vendas  nossa volta, ele me 
deu um beijo bastante prolongado na bochecha. E, em seguida, vi a vaca da Charlotte, da central de atendimento, caminhar rebolando at a largada. Paquera tirou o 
brao do meu ombro quando a viu e abriu um amplo sorriso. Voltei a ficar mal-humorada. Que histria era aquela de beijinho para l, beijinho para c, "gata" para 
l e "gata" para c? No era to estpida a ponto de no notar que ele me chutava para escanteio quando a namoradinha dava as caras. Da, eu no era mais to gata 
assim, no  mesmo? Ora essa! Ele no passava de um maldito macho que se achava no direito de brincar com meus sentimentos. Eu podia jurar que tinha fumaa saindo 
pelas minhas narinas. -Vejo voc na pista - disse ele, saindo correndo atrs dela.
      - Pode ter certeza disso! - comentei, entre dentes.
      Minutos depois, j estava amarrada no kart, com o cinto de segurana duplo e a bunda perigosamente prxima ao asfalto. A coluna do volante estava presa entre 
minhas pernas, de um modo nada lisonjeiro. A minha frente, no quarto kart, encontrava-se Paquera - como era o chefe, tnhamos que deix-lo ir na frente. J dava 
para ouvir Charlotte gritando o nome dele dos boxes; tive vontade de avisar que nada acontecera ainda e que ele, na verdade, nem havia arredado o p dali! Ela era 
uma imbecilizada mesmo! Se continuasse assim, ia me dar seriamente nos nervos. Naquele momento, eu me arrependi de ter contado a Paquera o motivo da minha grande 
depresso. Se ele abrisse a boca para a vaca da Charlotte, at o horrio do almoo do dia seguinte todos estariam sabendo e eu teria que sair da Targa. De novo. 
A esse ritmo, o nico emprego disponvel para mim seria o de puta-de-bom-corao. Seria obrigada a entrar em contato com Jacob, Jazz ou seja l qual fosse seu nome, 
para pegar dicas sobre como ingressar na profisso.
      Abaixei o visor preto e, num piscar de olhos, o sinal passou de vermelho a verde, para que dssemos nossa volta classificatria. Fazia anos que eu no dirigia 
e, em questo de dias, eu me vi conduzindo uma megavan e, naquele momento, aquela mquina ensurdecedora. Tive a sensao de estar dirigindo um cortador de grama. 
Meu corao foi  boca, de to nervosa que fiquei. Sei que ns, mulheres, passamos anos promovendo a nossa causa, lutando pela igualdade e tudo o mais, mas vou dizer 
uma coisa: dirigir aquele troo no era a nossa praia. No restavam dvidas de que gostvamos de pintar as unhas dos ps, de fazer os cabelos e as mos. No ramos 
nada chegadas a corridas de automveis e, nesse termo genrico, eu inclua os karts. No fazia parte da nossa estrutura gentica.
      Quando a primeira curva surgiu, um membro da equipe de vendas rodopiou e eu o ultrapassei a toda velocidade, louca para dar uma gargalhada. Em seguida, passei 
voando pelos outros dois karts, levando seus ocupantes a me fitarem pasmos. Quando menos esperava, j estava atrs de Aiden Holby, com o pra-choque dele bem na 
minha frente. Paquera comeou a aumentar a distncia entre ns e eu meti o p na tbua, pisando fundo no acelerador. Se aquele idiota arrogante achava que conseguiria 
se distanciar de mim, estava redondamente enganado! Continuamos a correr, com as curvas chegando cada vez mais rpido, o vento passando a toda por meu capacete. 
Algumas voltas depois, o sinal ficou vermelho e fomos para os boxes. Milagrosamente, eu ficaria na segunda posio, logo depois de Paquera.
      Ficamos l esperando, enquanto os outros membros da equipe concluam as voltas classificatrias. A vaca da Charlotte aproveitou a oportunidade para se jogar 
em cima de Paquera, que no pareceu objetar. Tenho certeza de que ela lanava olhadelas mordazes na minha direo. Galinha! Eu estava farta daquilo. Quando eu j 
havia decidido tirar o capacete e voltar, pisando duro, para casa, recebemos autorizao para ir at a largada. Dessa vez eu ficaria logo atrs do Paquera, nas primeiras 
marcaes, e, podem ter certeza, eu no desgrudaria o olho dele. Meu chefe no iria levar vantagem!
      Paquera virou-se e me soprou um beijo. No sei bem o que aconteceu, mas minha viso ficou turva, meu corao disparou e pensamentos bastante sombrios assolaram 
minha mente. O sinal ficou verde e l fomos ns de novo. Como uma atleta lutando pela posio inicial, grudei no kart de Paquera. Ele quase no conseguiu fazer a 
primeira curva na minha frente. Aceleramos para valer na pista reta. Se a vaca da Charlotte soltou gritinhos para encoraj-lo, no ouvi. Mas vou dizer uma coisa: 
ele bem que precisaria de estmulo. A ponta do meu kart estava a milmetros da traseira dele. Minha idia era ultrapass-lo e faz-lo engolir poeira. Eu no fazia 
idia da posio dos outros motoristas na pista, s sabia que estavam atrs de ns. Tratava-se de uma amarga competio entre mim e meu chefe. Ambos fizemos a curva 
seguinte a toda, com as rodas quase se tocando. No chegamos a soltar fagulhas, mas eu bem que queria que isso acontecesse. Meus braos j doam, enquanto eu lutava 
com o volante. Meu queixo tambm estava dolorido, j que cerrei com fora os dentes. Ento, chegamos a outra curva e, no sei bem o que aconteceu, mas creio que, 
sem querer, encostei na parte traseira do kart de Paquera, porque ele comeou a rodopiar de forma frentica, rumo ao acostamento, onde, depois de girar mais na grama, 
chocou-se de frente com a pilha de pneus que atuava como barreira de segurana.
      Dei um soco triunfante no ar e, em seguida, olhei por sobre o ombro e vi que todos corriam at o kart destrudo de Paquera. Opa! Um homem sacudiu, exaltado, 
uma bandeira preta diante de mim e eu sabia, por causa das instrues que havamos recebido, que teria de sade imediato da pista, por mau comportamento. Encostei 
nos boxes e sa do kart Para ser sincera, fiquei feliz por ter a desculpa de parar para ver como estava Paquera. Tirando o capacete, corri para o local em que ele 
se encontrava. Uma das rodas do kart se curvara por completo e a dianteira do carro ficara toda amassada. Uma pequena multido se agrupara ao redor dele: gente do 
trabalho e, o que era mais preocupante, bombeiros da pista, com expresses sombrias no rosto.
      - Aiden! Aiden! - Charlotte chorava, de modo bastante dramtico.
      Minha boca havia ficado seca, quando fui abrindo caminho at a frente, perguntando:
      - Ele est bem?
      Todos se viraram para mim e seus semblantes lgubres fizeram meu corao como que parar de bater. Um caminho se abriu e eu me ajoelhei na lama remexida, ao 
lado do kart. O capacete de Paquera tinha cado e havia sangue esparramado num dos lados do seu rosto. Meus olhos se encheram de lgrimas. Era tudo minha culpa, 
era tudo minha culpa.
      Fitando-me de cara feia, Charlotte me empurrou dali e agarrou a mo de Paquera, que no segurava mais o volante, estava cada, dbil, sobre a grama. Ela a 
massageou com fora.
      - Aiden! - exclamou, com o tom de voz ansioso. - Aiden, acorde!
      Mas, pelo que pude ver, no havia o menor sinal de vida.
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   
   Captulo Cinqenta e Oito
      
      
      
      
      
      
 C
hantal deu um chute na porta de seu apartamento para abri-la, equilibrando uma sacola de compras no quadril. Em seguida, entrou cambaleando na cozinha e colocou-a 
na mesa, inspecionando o ambiente com um sorriso de satisfao. O apartamento no era nada mal, sendo todo mobiliado com certo bom gosto. Tinha um aspecto moderno, 
embora os mveis fossem simples, e ela podia muito bem viver assim. No lhe restava escolha.
      Naquele dia, ela tentara, em vo, fazer as pazes com Lucy, depois de seu desentendimento por causa de Jazz. Alm de telefonar para ela milhes de vezes, tambm 
tentou falar com o marido, para pedir desculpas a ele. Mas Ted no atendeu o celular, e sua assistente se recusou a transferir a ligao, alegando no poder interromper 
a reunio prolongada, que, na opinio de Chantal, era fictcia. Apesar de ter deixado inmeros recados, nenhum dos dois retornara suas ligaes.
      Como os armrios e a geladeira estavam vazios, ela comprara vrios de seus extravagantes produtos favoritos - entre eles, uma garrafa de azeite de oliva condimentado 
com trufa, um pacote de queijo Camembert envelhecido, que Ted teria banido da casa, j que cheirava  meia suja, e uma embalagem grande da bebida especial de chocolate 
do Paraso do Chocolate, preparada por Clive. Todos esses itens a reconfortariam quando ela necessitasse. E, sem dvida alguma, ela precisaria deles. Seria estranho 
viver sozinha, depois de ter ficado tantos anos com Ted; Chantal conteve uma lgrima ao pensar nisso. Como boa parte do que estava acontecendo era culpa sua, no 
havia motivo para ficar se lamentando. Achava-se em melhores condies do que muitas mulheres em sua situao. Como seu trabalho pagava bem, tinha estabilidade financeira. 
Se os dois decidissem se separar, Chantal procuraria um advogado duro e ficaria com uma boa fatia da riqueza que ambos haviam acumulado. Ted teria de pensar duas 
vezes, se achava que se livraria dela com facilidade.
      Ainda assim, ela esperava que a situao no chegasse a esse ponto. No acreditava que tudo estivesse perdido. Devia haver uma forma de estimular a reconciliao 
entre os dois. Mas, naquele momento, ela no fazia a menor idia de como fazer isso, j que ele se recusava a atender suas ligaes.
      Chantal serviu-se de uma quantidade generosa de Pinot Grigio, apesar de a garrafa no ter sido refrigerada. Em seguida, abriu a caixa de trufas de champanhe 
que comprara no Paraso do Chocolate e levou tudo para a sala. Embora esta fosse bem menor que a de sua casa, era aconchegante e confortvel, com seus tons de marfim 
e bege. Deixando-se cair no sof, Chantal acomodou-se nas almofadas, cruzando os ps sob si. Brincou com as teclas do celular. Achou que deveria ligar para outra 
pessoa tambm e, antes que mudasse de idia, discou o nmero. O celular s tocou duas vezes, antes que o atendessem.
      - Al.
      - Jazz - disse ela, com um tom de voz inseguro. Respirou fundo. -- Jacob,  a Chantal.
      - No achei que ouviria sua voz de novo - disse o rapaz, sem rodeios.
      Ela suspirou.
      - No sei se deveria estar fazendo isso, mas quis ligar e dizer que lamento muito. Contei para Lucy que tnhamos um... - Como deveria cham-lo? Optou por: 
- acordo.
      Chantal ouviu Jacob suspirar tambm.
      - Ela ainda est muito brava?
      - Acho que no seria exagero dizer isso - admitiu.
      - Ento, ela no vai mais me procurar, certo?
      - Duvido muito - disse Chantal. -Tambm no est falando comigo agora. Nunca imaginei que nossos caminhos se cruzariam dessa forma. Talvez tenha sido ingenuidade 
da minha parte.
      - Nunca aconteceu antes.
      - Ento, acho que foi azar mesmo. Lamento ter estragado sua relao. Sei que ela gostava muito de voc.
      - E eu dela tambm. - At pelo telefone dava para notar que ele estava arrasado. - Mas  um dos ossos do ofcio. Assim que elas descobrem como ganho a vida, 
terminam comigo. No tem muita mulher que agenta isso. Daqui a pouco vou ter que mudar de profisso. - Ele deu uma risada amarga.
      - Meu marido descobriu tudo sobre ns tambm - disse Chantal. - Ele me expulsou de casa.
      - Sinto muito. Eu tambm no quis estragar o seu casamento.
      - Ossos do oficio de cliente - disse ela, e os dois deram uma risada desanimada.
      - Foi legal conhecer voc, Chantal.  uma mulher e tanto. Quem dera todas as minhas clientes fossem to...
      Ela no o deixou terminar. No queria, de forma alguma, saber como se comparava s demais clientes dele.
      - Obrigada.
      - Acho que voc tambm no vai ligar mais para mim.
      - No como cliente. Meus dias de sexo ilcito j terminaram. Gostaria de me encontrar com voc como amiga.
      - Seria timo. - Fez uma pausa. - Sabe, no deixei marcarem nenhum encontro desde que... - No terminou a frase. - No sei se vou conseguir levar este trabalho 
adiante. Estou dando um tempo, para pensar na vida.
      -Tenho muitos contatos - disse Chantal. - Se quiser mesmo mudar de profisso, posso ajud-lo. Talvez consiga achar algo mais aceitvel socialmente, s que, 
sem dvida alguma, ser bem menos lucrativo.
      Ele riu. Era mesmo um bom rapaz e ela se perguntou por que teria se metido naquela vida. Quem sabe um dia no lhe contaria?
      - Ento, no vai trabalhar esta noite?
      - No. Se quer saber a verdade, estou aqui cocando o saco, sentindo pena de mim mesmo.
      -Tenho uma garrafa de vinho branco aberta, um monte de refeies prontas, congeladas, e timos chocolates. Ficaria muito feliz se viesse para c, como amigo.
      - E para j, ento - disse ele, sem hesitar.
      Passou por sua mente que seria bom entret-lo em outro mbito, mas ela realmente fora sincera - no queria mais brincar com fogo. Amizade pura e simples daria 
certo tambm. Afinal de contas, amigos muitas vezes eram muito mais importantes que meros amantes. Ela deu a Jacob seu novo endereo e desligou. No foi to difcil 
assim, pensou Chantal, recostando-se de novo na maciez convidativa do sof. Se ao menos pudesse fazer as pazes com Ted e Lucy com a mesma facilidade...

   Captulo Cinqenta e Nove
   
      
      
      
      
      
 E
u odeio hospitais. O cheiro penetrante de desinfetante estava me deixando cada vez mais enjoada. Aiden fora retirado s pressas da pista de kart, numa ambulncia, 
acompanhado da vaca da Charlotte, e eu fui atrs, de metr. Quando cheguei ao setor de emergncia do hospital, ele j fora internado e no havia nada que eu pudesse 
fazer, a no ser aguardar at poder v-lo. As cinco horas que tive de esperar para fazer isso levaram uma eternidade para passar. Se ao menos eu no tivesse agido 
de forma to irresponsvel, to competitiva, to enlouquecida... Ah, sei l.
      Por fim, depois das trinta e oito xicrinhas de ch de mquina e dos seis Kit-Kats da mquina de chocolate que ficava ao lado, uma enfermeira se aproximou de 
mim e informou:
      - J pode ir ver o Sr. Holby agora.
      - Obrigada. - Senti uma onda de alvio percorrer o corpo. - Ele est bem?
      - Vai viver - disse ela, bruscamente.
      Ao vaguear penosamente pelos corredores labirnticos, tentando encontrar o quarto de Paquera, minhas passadas eram to pesadas quanto meu corao. Finalmente 
achei o corredor certo e, aps me anunciar, entrei. O quarto estava na penumbra, j que era tarde - o horrio de praxe de visitas passara havia muito tempo e eu 
me sentia grata por terem me deixado v-lo. A cama de Paquera estava bem prximo  porta. Com a face plida e os olhos cerrados, ele se achava deitado, prostrado, 
com uma das pernas erguida, numa espcie de tipia, e a cabea enfaixada, estilo mmia. A aparncia do meu chefe preferido no poderia ser pior.
      A vaca da Charlotte estava sentada ao seu lado, numa cadeira de plstico rgida. Quando me aproximei, ela me olhou. Aquela mulherzinha era especialista em 
olhares fulminantes, digo isso com conhecimento de causa.
      - Como est ele? - sussurrei.
      Mas, antes que ela pudesse responder, Paquera abriu os olhos e me fitou.
      - Ah - disse ele, com voz rouca -, chegou a Demolidora. Ento, nada de "E a, gata?" daquela vez. Sentei-me na nica
      cadeira que restava, embora no tivesse sido convidada a faz-lo.
      - Estava morta de preocupao! - admiti.
      - Desde quando seu esprito competitivo comeou a ocupar toda a pista?
      - No sei! No fao idia do que houve, mas lamento muito mesmo.
      - Olha s, deixe eu explicar o que aconteceu. Voc simplesmente jogou o Aiden para fora da pista! - informou Charlotte, sem necessidade.
      - S dei uma encostadinha de brincadeira - protestei, envergonhada.
      Paquera sorriu. Seus lbios estavam secos e, se eu estivesse ali na condio de namorada, umedeceria o tempo todo a boca dele. Tive que me esforar para fazer 
a pergunta seguinte:
      - Qual  o diagnstico?
      - Nunca mais vou poder tocar piano.
      - E tocava antes?
      - No - admitiu ele, com um sorriso cansado. Retribu o sorriso. Charlotte dirigiu o olhar fulminante para cima. -Tive uma leve contuso e quebrei a perna.
      - Ah, droga! Sinto muito mesmo!
      - Querem que eu passe a noite aqui, por precauo.
      - Puxa, sinto muito mesmo! - repeti.
      - Quer assinar o gesso? - perguntou ele, com a voz meio dbil.
      - Acho que devia ser a primeira.
      - No sei o que dizer.
      -Tchau poderia ser um bom comeo - interveio Charlotte. - Aiden est muito cansado. Exausto!
      Eu tambm estava esgotada. Dava para ver os cabelos de Paquera aparecendo debaixo da atadura e tive vontade de ajeit-los. Se a vaca da Charlotte era sua namorada, 
por que no cuidava melhor dele?
      - Talvez devssemos fazer a nossa prxima confraternizao num spa - sugeri, tentando amenizar um pouco o ambiente pesado.
      - Conheo um timo.
      -Voc na certa tentaria me afogar na banheira de hidromassagem.
      - Se precisar de algo... - disse eu.
      - Eu posso me encarregar perfeitamente das necessidades do Aiden - esclareceu Charlotte.
      Como eu desprezava aquela fulaninha! Com todas as minhas foras.
      - Chocolate - sugeriu ele. -Traga chocolate para mim. Voc me deve uma.
      -Vou trazer sim. Prometo.
      Paquera fez uma expresso de dor.
      - No vou deixar que quebre a promessa!
      O olhar indignado de Charlotte comeou, claramente, a surtir efeito, pois, de sbito, passei a me sentir fraca.
      - Bom,  melhor eu ir andando. Vou ligar amanh para ver como est. - Levantei-me, com vontade de dar um beijo no rosto dele, mas achei que, se fizesse isso, 
Charlotte saltaria sobre a cama e faria picadinho de mim, a golpes de carat. - Ento, tchau.
      -Tchau - despediu-se Paquera, baixinho.
      -Tchau - disse a vaca da Charlotte, com excessivo entusiasmo, dando-me um adeusinho sarcstico.
      Era difcil deixar meu chefe naquele estado. Mas eu me virei e fui at a porta. Quando cheguei l, ele me chamou, com a voz fraca:
      - Lucy - voltei-me para fit-lo. - Eu teria ganhado! - Sorriu de novo, com o velho brilho maroto nos olhos.
      - De jeito nenhum! - retruquei, antes de ir embora.
      
      
      
      
      
   
   
   Captulo Sessenta
      
      
      
      
      
 N
adia ficou surpresa ao constatar que o corretor colocara a placa anunciando a venda da casa uma hora aps sua ligao solicitando que a imobiliria se encarregasse 
disso. Como chegara  concluso de que era a nica forma de seguir adiante, no fazia sentido desperdiar seu tempo acabando aos poucos com o casamento. Podia ser 
uma atitude drstica, mas, a seu ver, era a nica forma de deter Toby, que parecia estar determinado a faz-los mergulhar cada vez mais em dvidas com sua obsesso 
cega pelo jogo. O marido no poderia ter sido mais claro: as promessas vazias de riqueza e de vida excitante proporcionada pelo luxo importavam-lhe mais que o bem-estar 
da esposa e do filho. Assim sendo, se vendessem a casa rapidamente, talvez ela conseguisse recuperar alguma coisa antes que Toby torrasse tudo.
      Ela contratara uma van, com dois homens fortes, para ajud-la a fazer a mudana. Lucy iria lhe dar apoio moral e, mais uma vez, ela se sentia grata por contar 
com a dedicao das amigas do Clube das Choclatras. As ltimas caixas estavam sendo colocadas na van e eles j se preparavam para sair. Lucy ligara para dizer que 
sara do metr e chegaria dali a cinco minutos. Ainda bem!, pensou Nadia. O que mais queria era dar o fora dali antes que Toby desse as caras. Decidira tirar suas 
coisas enquanto o marido trabalhava; achou que seria menos doloroso assim. Como poderia ter ido embora, se ele estivesse ali, observando-a tirar as pequenas caixas 
que simbolizavam a diviso de sua vida em conjunto? Tinha de ser feito, era melhor assim.
      - Vamos, Lewis. - chamou ela. - A mame quer que voc entre no carro.
      - Aonde  que a gente vai?
      - Lembra que a mame disse que a gente vai viver numa casa diferente da do papai, por algum tempo?
      O menino assentiu, mas era bvio que no entendera, j que mantinha o leve sorriso no rostinho.
      - O papai vai tambm?
      - No. S ns dois vamos. Ser uma grande aventura. Lewis no se deixou impressionar. Talvez um dia entendesse por
      que ela achava que tinha de tomar aquela atitude.
      - O Seu Fedorento pode ir?
      - Claro!
      Ele levava o ursinho favorito debaixo do brao. O animal de pelcia ganhara esse nome porque fedia, j que Lucy s conseguia arranc-lo das mos quase viciadas 
do garoto uma vez por ano, para p-lo na mquina de lavar; ainda assim, subornando-o descaradamente com muito chocolate.
      Um dos sujeitos corpulentos abriu a porta da frente, deixando  mostra apenas a cabea.
      -Tudo pronto. Quando a madame quiser, a gente pode ir.
      - J vou - disse ela. Daria uma ltima olhada na casa, para ver se no se esquecera de nada.
      Foi difcil para Nadia fazer isso e ela percorreu com tristeza os quartos. Por mais que a casa estivesse deteriorada, ela a adorava; continuava a ser o seu 
lar, o lar de sua famlia. Agora, apesar de ainda contar com alguns objetos e mveis, parecia uma concha vazia. No criado-mudo, havia uma foto sua e de Toby no dia 
em que contraram matrimnio. Ela pegou-a e colocou-a na bolsa. No sabia por qu. Quem sabe o fizera em nome dos velhos tempos? Seus pais a excluram de suas vidas 
porque ela se casara com Toby, rejeitando o homem escolhido por eles. Disseram que o casamento no duraria, que a unio por convenincia seria melhor, que alianas 
baseadas s em amor nunca duravam. Pelo visto, tinham razo.
      Pensou em deixar um bilhete para Toby, mas, sem encontrar palavras para expressar o que sentia, mudou de idia. Quando finalmente terminou de checar toda a 
casa, pegou Lewis no colo e saiu. Fechou com firmeza a porta de entrada. Os rapazes j a esperavam dentro da van. Ela viu Lucy chegando, caminhando a passos largos 
pela rua, em sua direo. Acenou-lhe. Abriu a porta do carro e colocou o filho no cho, para que ele pudesse se sentar em sua cadeirinha. Em seguida, com as mos 
trmulas, ps o cinto de segurana no menino.
      Instantes depois, Lucy chegou, esbaforida, em virtude do esforo de subir a ladeira. Deu-lhe um beijo carinhoso.
      -Tudo bem? - perguntou a amiga.
      - Na medida do possvel - respondeu Nadia, - J estamos prontos. No estou levando muita coisa; mais do que tudo, roupas e brinquedos para Lewis. Chantal disse 
que o apartamento que alugou j tem tudo.
      - No duvido nada, pois ela no ficaria sem suas comodidades bsicas! - assegurou  amiga. - No duvido que seu banheiro tenha hidromassagem e sauna.
      Nadia esforou-se para sorrir.
      - Seria timo!
      -Vai dar tudo certo! - exclamou Lucy, apertando seu brao. - Voc vai ficar bem!
      - J expliquei para o motorista da van como chegar no apartamento - disse Nadia. - Ele vai seguir o meu carro.
      - Quer que eu dirija?
      - Quero sim. - Ela estava emocionada demais para se concentrar no trnsito. A amiga pegou as chaves e sentou-se no banco do motorista. Nadia acomodou-se ao 
seu lado. Remexia, nervosamente, os botes da saia. Lucy deu-lhe uns tapinhas carinhosos na mo.
      - Est pronta para partir? - Nadia assentiu. Seus olhos estavam marejados de lgrimas. -Tem certeza de que pegou tudo?
      Ela meneou a cabea mais uma vez, em sinal afirmativo. Lucy j tinha passado a marcha quando ouviram o som de pneus cantando na rua. Olhando pelo retrovisor 
lateral, Nadia viu outra van frear bruscamente atrs delas, e no restavam dvidas sobre quem era o motorista. O veculo mal parar, quando Toby saltou e correu 
para o lado em que se encontrava Nadia, abrindo a porta.
      - Papai! - gritou Lewis, feliz, do banco de trs. Toby comeou a falar, quase sem flego.
      - Um dos vizinhos ligou para avisar que voc estava indo embora. No faa isso, Nadia. Por favor, no faa isso!
      Nadia se sentia angustiada.
      -Tenho que ir, Toby. Eu fiz tudo o que pude.
      - Vou mudar! - prometeu ele, agachando-se ao seu lado. - Estou implorando. Por favor, no v! No leve o meu filho embora!
      - Devamos estar discutindo isso a ss, sem obrigar Lewis e Lucy a testemunharem nossa conversa, pensou Nadia, desolada. -Voc colocou a casa  venda!
      - exclamou ele, pasmo, ao ver a placa fincada no jardim. - Quando fez isso?
      - Hoje de manh.
      - Aonde vai? Como vou entrar em contato com voc?
      - Estou com o celular. Pode me ligar a qualquer hora, e vou manter contato. - Partir era bem mais difcil do que pensara.
      - Quando vou ver o Lewis? - Seu semblante transmitia a agonia que sentia. - Como pode fazer isso comigo?
      - Como voc pde fazer isso com agente! - retrucou Nadia. - No foi nada fcil tomar esta atitude, Toby. Eu ainda amo voc, apesar de tudo.
      - Ento, volte! - Para seu terror, o marido comeou a chorar. -Volte, a gente d um jeito!
      - No posso!
      - J deixei de lado os sites de jogos, como voc pediu. O que mais posso fazer para provar que me importo?
      - No deixou no, - Toby - disse ela, com tristeza. - Achei o laptop que voc escondeu. Sei que a nossa conexo foi restabelecida, que voc conseguiu outro 
carto de crdito e que est jogando de novo, s escondidas. No posso deixar que leve a gente junto para o fundo do poo. Estou agindo assim no s para me proteger, 
mas para resguardar Lewis. - Ao ouvir isso, Toby pareceu se resignar. - Tenho que ir. Precisa me deixar partir.
      O marido se endireitou, aos poucos. Em seguida, aps hesitar um pouco, fechou a porta do carro e disse:
      - Eu amo voc.
      -Vamos - pediu ela a Lucy.
      Sem discutir, a amiga passou a marcha de novo e partiu, seguida da van. Parecia uma procisso fnebre. Nadia no olhou para trs, mas sabia que o marido continuava 
na rua, observando-os ir embora.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Sessenta e Um
      
      
      
      
      
 O
 pior j passou - disse eu a Nadia, embora no tivesse tanta certeza, assim. Chaves caam sempre bem nessas situaes; melhor deixar a dura realidade para depois. 
- Trouxe chocolate para voc e o Lewis. - O garoto brincava com o ursinho de pelcia.
      - Que bom! - Ela estremeceu ao suspirar.
      - Esto na minha bolsa. Pode pegar. Minha amiga ps-se a busc-los, de imediato.
      Eu nunca havia ido  casa de Nadia antes, e creio que nem as demais participantes do Clube das Choclatras. Por algum motivo, ao me deparar com aquela situao, 
vi como ela deve ter lutado para manter o teto sobre sua cabea. A medida que fomos nos afastando, percebi como o bairro era pobre, o que no significava que o preo 
das propriedades fosse razovel, somente menos exorbitante que outros. O local para onde Nadia estava se mudando com Chantal era muito mais sofisticado, mas eu sabia 
que isso nem passava pela cabea da minha amiga naquele momento.
      Meus problemas eram insignificantes, comparados com os dela. Eu ainda estava superpreocupada com o Paquera, mas havia ligado para o hospital de manh e a enfermeira 
da unidade informara que ele dormira bem, mas que eu no poderia me comunicar com ele, j que estava sendo examinado pelo mdico. Eu tentaria mais tarde. Quando 
Nadia me pediu para ajud-la a se mudar para o apartamento de Chantal, quis ser solidria e me prontifiquei a ajud-la. Esperava que, ao dar uma mozinha para minha 
amiga, acabasse ganhando alguns pontinhos com o Cara l de cima e conseguisse manter um lugarzinho no paraso, sem ter que queimar no inferno por jogar o meu chefe 
para fora da pista de kart de propsito.
      O cu de um azul intenso e o dia lindo e ensolarado contrastavam com o que estava ocorrendo. A face de minha amiga estava tensa; pelo visto, ela passara vrias 
noites em claro. E, para completar, era preciso levar em considerao que, s vezes, era mais fcil ser abandonada do que abandonar. Na verdade, eu deveria ter deixado 
o Marcus em vrias ocasies, quando namorvamos, mas nunca conseguia levar isso adiante. Parecia um labrador com uma bola de tnis velha - no a largava de jeito 
nenhum. Realmente admirava a fora e a coragem de Nadia para fazer isso. Devia ser muito difcil para ela.
      Lewis estava sentado, tranqilo, na parte de trs do carro, agarrado ao ursinho; eu me perguntei no que estaria pensando naquele momento e no quanto entendia 
da situao. Nadia tirou da minha bolsa um sapo de chocolate que eu comprara para ele, abriu-o e entregou-o ao filho.
      Ele o pegou com entusiasmo, usando ambas as mos. Descobri que o chocolate atuava como consolo emocional em todas as faixas etrias.
      - Chocolate! - exclamou ele, com os olhos brilhando de imediato.
      - Como se diz? - perguntou a me.
      - Obrigado - agradeceu ele, obedientemente, j com o bom-bom na boca.
      -Voc se lembra da tia Lucy? - indagou Nadia.
      J tnhamos visto o filho de Nadia antes, mas, para ser sincera, s nas rarssimas ocasies em que ela no conseguia sair de casa sem ele. O Clube das Choclatras 
sempre fora o refgio de Nadia no que dizia respeito a todas as coisas domsticas - incluindo o filho.
      - Oi - Pelo retrovisor, pude v-lo sorrindo para mim, com a boca toda melada de chocolate; ser que Chantal agentaria seu hspede mais novo, j que, tal como 
ela mesma admitira, no era l muito maternal? Tnhamos de limpar bem a boquinha do Lewis quando chegssemos.
      Uma hora depois - o trnsito estava um inferno - estacionamos diante do apartamento de Chantal. Era um casaro antigo, cujo interior, pelo visto, fora reformado 
e transformado em apartamentos. Sua localizao era excelente, prximo  Islington High Street. Para ser sincera, no me importaria de me mudar para l; colocava 
no cho meu ap caindo aos pedaos, em cima do salo de beleza. Senti certo nervosismo diante da perspectiva de me encontrar com Chantal, j que no a via desde 
nossa "altercao" por causa de Jacob, Jazz ou seja l qual fosse o nome do cara. Sentia menos animosidade em relao a ela, pois, no fim das contas, o que acontecera 
se devia mais ao meu mau gosto no campo masculino. Tinha conscincia, naquele momento, de que ela no tivera culpa nenhuma.
      Olhando para Nadia de soslaio, notei que estava bastante ansiosa. Apertei sua mo de novo.
      - Poderia recomear a vida de um jeito bem pior. Tenho certeza de que Chantal vai cuidar bem de vocs dois.
      - Ela tem sido to boa comigo! - concordou Nadia. - O que fiz para merecer amigas to maravilhosas?
      - E mesmo. Somos timas, mas espere s at receber a conta! - Recorrer ao bom humor para conter uma cena potencialmente comovente era um dos meus passatempos 
prediletos. Deu certo e Nadia riu. Ainda estvamos dentro do carro, e a van estacionou atrs de ns. - Vamos. Precisamos tirar suas coisas.
      Interfonamos para Chantal, que veio nos receber, beijando Nadia com carinho. Ento, olhou-me e perguntou:
      - Posso cumprimentar voc tambm? - Dei de ombros e permiti que ela me abraasse. - Sinto muito.
      - Eu tambm
      - Jacob mandou um abrao para voc.
      - Essa no! - disse, desesperada, ao me afastar dela. - No continuou a v-lo, continuou? Caramba!
      - Eu o vi sim, mas no dessa forma, s como amigo. E um bom companheiro e, por incrvel que parea, consegui resistir ao seu charme, mesmo como cliente. Tambm 
estou ajudando o rapaz a achar outro emprego. Ele est tentando mudar de vida, Lucy.  preciso reconhecer isso.
      - Bom, acho que isso acontece muito. - Percebi que estava sem foras at para me zangar. Jacob, apesar dos defeitos, era um cara legal. -Tomara que ele consiga.
      - Ele queria ver voc de novo, Lucy. Gosta muito de voc.
      - No me sinto to magnnima assim - disse-lhe eu, rindo. -Talvez um dia voc mude de idia.
      Mas, antes que eu ponderasse sobre o assunto, uma vozinha atrs de ns disse:
      - Oi.
      Chantal ergueu a sobrancelha.
      - Ah, oi.
      Tnhamos nos esquecido de limpar a boca do Lewis, suja de chocolate, e notei que suas mos ficaram todas meladas tambm. Eu torcia muito para que o sof de 
Chantal no fosse bege, mas marrom bem escuro. Sorridente, Lewis entregou o ursinho a ela.
      - Este aqui  o Seu Fedorento - explicou-lhe ele. Chantal segurou o ursinho a distncia.
      - Deu para perceber por qu!
      Nadia mordiscava os lbios, nervosamente. Pegou a mo do filho.
      -Tem certeza que podemos seguir adiante com isso, Chantal? - perguntou ela.
      Se Chantal tinha pensado duas vezes no convite feito aos inquilinos, Nadia e Lewis, no deixou transparecer nada. Seu sorriso manteve-se radiante, enquanto 
pegava a mo melada e grudenta do menino e o levava para dentro.                                               
      - Sei que vai dar tudo certo - respondeu ela.

      
      
      
      
      
   Captulo Sessenta e Dois
      
      
      
      
      
      
 N
aquela noite, eu precisava mais do que nunca da minha aula de ioga. Achava-me na postura da cobra - arqueando o mximo possvel as costas e tentando aparentar tranqilidade. 
Por dentro, estava superansiosa. Ento, relaxei o corpo, ou seja, despenquei no colchonete, formando um montculo ofegante. Era nessas ocasies que eu percebia que 
deveria ter ficado em casa, acompanhada de Keanu Reeves e chocolate. Teria sido a melhor atitude a tomar.
      -Voltem devagar para o colchonete - ordenou minha professora. Persephone era uma moa mida, que se movia como uma fada pela sala. - Assumam agora a postura 
fetal. - Curvei-me toda, formando uma bolinha, tentando relaxar a mente acelerada.
      Tinha muito em que pensar. Paquera j sara do hospital, mas no voltara a trabalhar. Sentia muita falta dele. O escritrio parecia totalmente vazio sem a 
sua presena. A vaca da Charlotte me ignorava de forma deliberada, sempre que eu a vislumbrava nos corredores da Targa. Por sorte, eu nunca tinha que pr os ps 
na central de atendimento, ento nosso contato era mnimo. Eu falara com Paquera algumas vezes pelo celular - sobre assuntos supostamente relacionados ao trabalho 
- e ele pareceu estar bem. Nossas conversas eram meio foradas, mas isso porque eu insistia em pedir desculpas a cada cinco segundos. Implorei s velhas rabugentas 
do Departamento de Recursos Humanos que me dessem o endereo dele, explicando que eu tinha de enviar trabalho para ele, e, por fim, elas me deram, no sem antes 
proclamar todas as leis de proteo de informaes para mim. Ento, naquele dia, pela internet, encomendei uma enorme cesta com chocolates e mandei entreg-la na 
casa dele, para anim-lo. E acabei pedindo uma pequena para mim tambm, para me animar.
      A outra coisa era que tnhamos um grande evento do escritrio chegando: a Reunio Europia de Planejamento Inicial, aps a qual sempre se realizava uma festa 
de arromba. Os chefes vinham de todas as partes do mundo, passavam o dia reclamando dos lucros cada vez menores da Targa e os desperdiavam em seguida, oferecendo 
biritas de graa para todos os funcionrios,  noite. Eu havia perdido a festa anterior, porque estava trabalhando noutro lugar, mas, naquele ano, no s fora encarregada 
de organizar partes dela - a montanha de papis na minha mesa era alarmante -, como participaria depois. Era uma daquelas coisas esquisitas, ou seja, por um lado, 
eu preferiria que arrancassem todos os meus clios com uma pina a ir, e, por outro, no a perderia por nada neste mundo. Alm disso, era praticamente uma obrigao 
comparecer; do contrrio, todo mundo ia ficar falando de voc.
      - Agora, vamos passar para a postura da vela. - Persephone divagou sobre o que deveria ser feito para se chegar  perfeio nessa postura e me desliguei por 
completo. Eu fizera aquela postura um milho de vezes e continuava pssima.
      Meu dilema seguinte, naquele momento, foi: com quem iria  festa? Companheiros e amigos de funcionrios tambm eram convidados e eu sabia que Paquera estaria 
l, de muletas, com a vaca da Charlotte. E nem morta me depararia com eles sozinha! Poderia convidar uma das participantes do Clube das Choclatras para ir comigo, 
mas eu sabia que, se fosse com uma amiga, antes mesmo de se terminar de pronunciar a palavra "sapato", todo o escritrio j estaria me chamando de lsbica. Considerando 
que meu status de funcionria razovel no estava muito arraigado, eu no queria correr o risco de receber outro rtulo. Chantal me encorajaria a levar Jacob, mas, 
podem me chamar de rancorosa e maluca, eu no teria grana para pag-lo. Ele s ficaria o bastante para tomar meia taa de champanhe e, da, sem poder contar com 
mais dinheiro, partiria para outra.
      Eu me deitei no colchonete e, em seguida, tentei erguer todo o peso do meu corpo no ar, resmungando bastante.
      - Ergam esses quadris.- ordenou a professora.        
      Os meus, na certa, eram de chumbo e chiaram  beca ao serem tratados daquela forma. Com os dentes cerrados, tentei colocar as partes do meu corpo no lugar 
correto. Mas meu bumbum se recusava terminantemente a deixar a terra firme. Aps tomar impulso, lanar-me, empurrar o corpo e ofegar, cheguei l. Fiz a postura da 
vela - embora de forma bastante desengonada.
      - Isso, Lucy! - exclamou Persephone, com um tom de voz muito sincero. - Muito bem! - Minha professora de ioga era uma mentirosa, mas tentava encorajar aqueles 
que tinham dificuldade de acompanhar os inexplicveis mistrios do Oriente. Tessa, na minha frente, parecia uma bailarina, de cabea para baixo. Seus ps estavam 
em ponta, sua barriga no mergulhara nos peitos e sua face no ficara roxa por causa do esforo. Como eu a odiava! Mas nada impedia que, um dia, com um pouco mais 
de fora de vontade, no me tornasse to boa quanto ela. Ah, t, me engana que eu gosto!
      Ento, cometi a gafe-mor da aula de ioga. Meu celular tocou e, na pressa de atend-lo, sa de uma vez da postura da vela, pondo em risco minha integridade 
fsica e meu pescoo. O clima da classe foi afetado.
      - Sinto muito! - sussurrei, correndo em direo  porta, com o toque do celular, a msica "I'm Every Woman", de Chaka Khan, ainda soando alto.
      Vrios alunos viraram-se para me olhar, enquanto eu saa, e o que li nos olhos de Persephone foi: "Essa a nunca vai alcanar a iluminao espiritual." Mas 
isso eu mesma poderia ter lhe dito.
      No corredor, encostei-me na parede, ofegando bastante, e atendi o celular:
      - Al.        
      - Oi, Lucy. - Houve uma pausa. -Voc ligou para mim?
      Tinha telefonado, sim, e j estava me perguntando se no cometera um grande erro. Meu corao batia acelerado no peito e eu sabia muito bem que no era apenas 
por causa dos meus excessos na postura da vela.
      - Marcus. Voc quer ir a uma festa comigo?
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   
   Captulo Sessenta e Trs
      
      
      
 A
utumn ouvia seu novo CD, com as flautas de P peruanas, comprado sobretudo porque uma libra esterlina de cada um deles seria usada para amenizar a situao miservel 
dos povos nativos da Amrica do Sul. No sabia ao certo se de fato gostava daquela flauta, mas que mal fazia mudar um pouco o gosto musical em prol de uma boa causa? 
Para desviar a mente do som suave e meio repetitivo, apoiou a caneca com seu chocolate quente favorito no peito e folheou as pginas de um guia til sobre reciclagem, 
publicado pela assemblia local, que, como era de esperar, no prestara ateno na fonte e no papel grosso usados no folheto caro.
      O lado bom daquela msica foi que acabou distraindo-a, impedindo-a de pensar em como se sentia sozinha aps a partida do irmo. Na verdade, preferia t-lo 
ali, metendo o bedelho em sua vida e fazendo algazarra, a no ter a menor idia de seu paradeiro. Fazia duas semanas que partira e,  medida que o tempo passava, 
ela ficava cada vez mais ansiosa. No importava o que ele fizesse, continuaria sendo seu irmo caula e ela sempre tentaria proteg-lo. O mais preocupante era no 
ter escutado nem uma palavra dele, nem recebido um telefonema. Agora, ela se perguntava o que andaria acontecendo com Richard: teria dinheiro, estaria sendo obrigado 
a ficar em algum lugar ou se encontraria jogado em um beco escuro, ignorado e desprezado? Se no aparecesse logo, ela acabaria tendo de ir  polcia. O irmo sempre 
fora irresponsvel, mas nunca sumira de vista por tanto tempo antes, sem fazer o menor contato.
      Autumn tentou, sem sucesso, prestar ateno na msica andina e nos benefcios de se lavarem latas de lixo. Addison estivera no Instituto naquele dia, mas no 
fora conversar com ela na sala de artes. Ele se limitara a acenar alegremente, da porta. Embora estivesse acompanhado de um homem elegante, que trajava terno e parecia 
importante, normalmente teria encontrado um tempinho para bater um papo com ela. Talvez Autumn tivesse perdido sua oportunidade, mas no podia parar para pensar 
nisso naquele momento; j tinha muito com que se preocupar. Entretanto, era uma pena, pois ela achava que gostaria muito dele.
      Antes de se deitar, Autumn tomou um longo banho de espuma na banheira, tentando no pensar nas pessoas de pases atingidos pela seca, que nunca teriam a oportunidade 
de desfrutar daquele simples prazer. Quando sentiu estar prestes a deixar aquela espuma com aroma de alfazema, ouviu o rudo de uma chave na porta da frente. Seu 
corao foi  boca e ela se levantou de um salto na banheira, tateando em busca da toalha. Se no estivesse equivocada, ningum tinha uma chave extra de seu apartamento. 
As dobradias da porta rangeram quando ela se abriu.
      Autumn enrolou-se na toalha e saiu sem fazer rudo da banheira, buscando algo que lhe servisse de arma, mas no encontrou nada. No conseguiria dominar o invasor 
com uma esponja ou uma lmina de barbear. Continuou a examinar o banheiro de modo frentico. A nica coisa que lhe ocorreu foi pegar a escova do vaso sanitrio. 
Retorcendo o nariz, ela optou por utiliz-la. Dava para ouvir passadas vacilantes na sala - talvez de mais de uma pessoa -, e torcia que no fossem os mesmos sujeitos 
que vandalizaram seu apartamento antes, j que tinham feito um timo trabalho e Autumn s conseguira arrumar tudo recentemente. Agora, desejava ter mudado a fechadura 
e colocado mais travas de segurana na porta - correntes, ferrolhos, talvez at um olho mgico e artefatos similares. De que adiantaria uma escova de sanitrio contra 
aquele tipo de gente? Embora fosse prejudicial ao meio ambiente, ela bem que gostaria de ter uma daquelas metralhadoras naquele momento.
      Autumn se dirigiu, em silncio,  sala. Ali, ergueu a escova como se fosse um basto de gladiador e, encostando todo o corpo na parede, arriscou-se a dar uma 
olhadela pela fresta da porta. L, jogado num canto do sof, estava a figura familiar de seu irmo. Ela teve vontade de se jogar no cho, de to aliviada que ficou. 
Richard massageava a testa com uma das mos, mas parou quando a viu entrar.
      - Oi, manai - saudou ele, parecendo fatigado. - O que  que est planejando fazer com isso? Esfregar as minhas costas?
      - E disso que voc precisa? - retrucou Autumn, sentindo-se a um s tempo reconfortada e irritada.
      A aparncia do irmo estava pssima. A face apresentava um tom acinzentado e um suor doentio reluzia na testa. Ele perdera peso. Levava o casaco amarrado na 
cintura do corpo drogado. Os olhos, outrora brilhantes, estavam opacos e as olheiras lgubres que os circundavam eram to escuras quanto hematomas.
      -Tentei entrar sem acordar voc - explicou ele.
      - Voc desaparece durante semanas e, da, tenta entrar sem que eu saiba? Eu mal dormi desde que foi embora! - Apesar de, pelo visto, ela no ter sido a nica. 
- Eu nem sabia que voc tinha a chave!
      - Fiz uma cpia pra mim - admitiu o irmo.
      - Mas podia ter me dito. Pensei que fosse um ladro. Quase me matou de susto! Acho que j sabe que alguns dos seus companheiros de negcios decidiram reorganizar 
meu apartamento na minha ausncia.
      Richard inclinou a cabea.
      - Sinto muito. No queria meter voc nessa histria.
      - Ento pra de traficar aqui.
      - No venha me dar lies de moral agora, mana. - Fitou-a. - No vim para ficar.
      Autumn sentou-se diante dele, deixando a escova cair no tapete, ao lado da cadeira.
      - Continua metido em encrenca? Ele assentiu.
      - Das piores.
      - Por onde andou?
      - Nem queira saber!
      - Esses caras mantiveram voc em algum lugar, contra a sua vontade?
      - De certa forma - disse Rich. - Digamos que vo levar algum tempo para se dar conta de que no estou desfrutando da hospitalidade deles.
      Bem que Autumn suspeitara.
      - Ento, voc conseguiu escapar?
      Richard deu de ombros, exaurido, e ela considerou o gesto uma resposta afirmativa  sua pergunta.
      - Aonde vai desta vez?
      - Para o mais longe possvel. Tenho que deixar o pas o quanto antes. Vou amanh.
      -To rpido assim?
      - Vou para uma clnica de reabilitao no Arizona. Estou na pior. Preciso tomar jeito, Autumn.
      - Vai para o Claustro? - Era o lugar para onde iam todos os viciados famosos. O silncio do irmo lhe disse que acertara em cheio. - Como  que vai fazer para 
pagar?
      Richard a olhou, envergonhado.
      - Fui visitar nossos pais antes de vir pra c.
      Como sempre, os pais no hesitariam em pagar por outro perodo de internao do filho. Autumn suspirou. Podia at ver o pai entregando o carto de crdito 
ao irmo, enquanto ele fazia a reserva. Os pais sempre deram a eles tudo o que queriam, menos seu precioso tempo. Ela se perguntava como seria sua vida, e a do irmo, 
se no tivessem tido pais super-ricos, que nunca estavam por perto para cuidar deles.
      - Ir para outro pas vai impedir essa gente de perseguir voc?
      - No sei. Devo uma grana preta, Autumn, e peguei uma parte da mercadoria deles.
      - Est aqui?  por isso que vandalizaram o meu apartamento? No tem problema eu continuar aqui?
      - Fique fria. - Mas ela no gostou da forma como ele desviou o olhar. - Eles estavam procurando a mercadoria, mas j no estou com ela.
      - No pode dizer isso pra eles? Seu tom de voz endureceu.
      - No se pode dialogar com essa gente.
      - Ento, cad o dinheiro? Com toda a grana que nossos pais tm, no d para acertar as contas com esses caras? - No seria a primeira vez, nem a ltima, que 
eles livrariam a cara do filho, por um motivo ou por outro.
      - Acho que nem mesmo eles me dariam tanto assim - reconheceu ele, suspirando.
      - No vale a pena tentar?
      -  muito complicado - disse o irmo, continuando a evitar seu olhar.
      - Deve ser mesmo, para voc ter que sair do pas. - Alm do mais, apesar de desejar no pensar assim, Autumn sabia que a clnica era apenas uma desculpa para 
ele se afastar.
      - S vim pegar algumas coisas e me despedir. - Sua voz saiu trmula.
      Autumn foi se sentar ao lado do irmo e abraou-o, com os olhos marejados.
      - Queria poder proteger voc.
      - J fez tudo o que podia por mim. E, por isso, sou muito grato, mana. Sei que sou um irmo imprestvel, mas amo voc.
      -Vai conseguir voltar? - quis saber ela. - No vai ficar muito tempo longe, vai?
      - No sei. Sabe-se l quando a poeira vai assentar.  melhor eu tentar recomear a vida em outro lugar.
      - Uma que no envolva drogas.
      - Claro - concordou Richard e, por alguns instantes, ela achou que o irmo fora sincero.
      - Ento,  melhor a gente fazer sua mala - disse Autumn, dando um suspiro profundo, para se acalmar, e levantando-se, embora a ltima coisa no mundo que quisesse 
fosse ver o irmo se afastar dela.


   
   
   
   
   Captulo Sessenta e Quatro
      
      
      
      
      
      
 M
arcus acabou me convencendo de que deveramos passar a tarde juntos. Disse que tnhamos que reservar algum tempo para nos conhecermos melhor, de novo, antes da festa 
da Targa, e, para ser sincera, quando ele sugeriu que fssemos a Hampstead Heath, ao norte de Londres, no domingo, no vi motivo para negar. O nico outro compromisso 
urgente que eu tinha era saltitar na sala com Davina McCall, que, por sinal, vinha sendo ignorada por completo nos ltimos tempos. Minha explicao para aquela ausncia 
de exerccios era que eu estava sendo solidria com Paquera, que, obviamente, fora obrigado a abdicar de todo e qualquer esforo fsico por um tempo, j que teria 
de usar muletas durante algumas semanas. Secretamente, pergunto-me se ele ainda conseguia transar com a vaca da Charlotte, ou se ela estaria fora do cardpio tambm. 
Esse, sem dvida alguma, seria um saldo positivo do meu jeito ousado de dirigir. Pelo menos, no que dizia respeito a mim.
      Antes que eu tivesse tempo de refletir mais sobre o assunto, a campainha tocou, e, quando abri a porta, l estava Marcus. Fazia sculos que no o via, mas 
ele ainda tinha o poder de fazer meus joelhos tremerem.
      - Oi - disse ele, com um sorriso muito sensual. -Tudo bom?
      - Est pronta?
      - S tenho que pegar meu chapu. - No que eu corresse o risco de ter uma insolao; acontece que, pelo visto, o calor atpico naquela poca do ano continuaria. 
Oba!
      Fui com Marcus at o carro. Quando chegamos l, ele, num gesto corts incomum, abriu a porta para que eu entrasse. Peguei-o olhando para minhas pernas e puxei 
o vestido para cobrir os joelhos.
      -Voc est tima! - elogiou ele, com sinceridade.
      - Obrigada.
      Com duas bicicletas presas na parte de trs do carro, percorremos Rosslyn Hill, rumo a Hampstead. Quando chegamos l, o local estava cheio, como sempre. Sobretudo 
nas tardes dominicais, ficava abarrotado de gente. Devamos ter estacionado mais longe e ido de bicicleta - o que na certa teria acabado comigo -, pois achar uma 
vaga parecia impossvel. Entretanto, por sorte, conseguimos encontrar um lugar numa rea boa e, de imediato, Marcus comeou a tirar as bicicletas do carro, enquanto 
eu ficava por perto, tentando parecer til.
      Depois de ajeitar as bicicletas e apoi-las no carro, ele tirou uma pipa do bagageiro. Era do tipo tradicional, grande e branca, em formato de losango, com 
a inscrio EU AMO VOC em enormes letras pretas, com corao vermelho e tudo. Sob ela, com um marcador, Marcus acrescentara LUCY e duas marcas de beijos. Ele me 
deu um sorrisinho hesitante e disse:
      - Para voc.
      - Nem sei o que dizer. - E no fazia mesmo a menor idia, j que eu no previra aquilo. Pensei que simplesmente ficaramos amigos de novo; a possibilidade 
de um encontro romntico nem tinha passado pela minha cabea! Srio!
      - Ento, no diga nada - aconselhou. - Vamos nos divertir juntos, hoje, como fazamos antes.
      Marcus ps a pipa nas costas e nos preparamos para partir; tive que levantar a saia para poder subir na bicicleta. Seria timo se pudesse prend-la na calcinha, 
mas o decoro me impediu de fazer isso. Como fazia anos que no andava de bicicleta, cambaleei um pouco quando samos rumo a Hampstead Heath. Marcus segurou meu assento, 
para tentar me estabilizar mais, e pegamos uma trilha para chegar a um caminho espaoso e relvado. Bastante ofegantes, fomos at o alto da montanha e, dando sonoras 
gargalhadas, descemos rpido, tremulando pela relva, com as pernas estiradas e os pedais girando livremente. Tive vontade de cantar "Raindrops Keep Falling On My 
Head", aquela msica da trilha sonora do filme Butcb Cassidy. No meio do caminho, quando eu no agentava mais rir, percebi que estava prestes a perder o controle 
da bicicleta e me estatelar. Ento, paramos para recuperar o flego, enquanto admirvamos a belssima vista da cidade de Londres, espalhada  nossa frente. Uma brisa 
agradvel nos refrescava e achei que a idia de Marcus de levar a pipa foi tima. Apoiamos as bicicletas no banco mais prximo e, ento, ele comeou a preparar a 
pipa, esticando a linha na grama. Em seguida, meu ex segurou minha mo e perguntou:
      - Est pronta?
      Assenti e, ento, de mos dadas, corremos feito loucos pela colina, com a pipa atrs.
      - Mais rpido. Vamos!
      S que, como eu no estava acostumada a correr, mal consegui manter a velocidade. Imagine se conseguiria ir mais rpido! Alm do mais, eu continuava a rir 
feito uma louca! Ainda assim, a pipa subiu e planou no cu sem nuvens, com a comprida rabiola de laos vermelhos agitando-se sob ela.
      - Uau! - disse Marcus, contemplando-a com admirao. -Voc  um timo soltador de pipa! - elogiei. Passando o brao por minha cintura, ele me puxou para perto. 
-Tome.
      - Nunca soltei pipa antes.
      - Ento, est na hora de reparar essa terrvel falha da sua infncia. Nunca  tarde para aprender a soltar pipa.
      Ele me deu o carretei e abraou-me por trs, para me mostrar como soltar a linha, a fim de empinar cada vez mais a pipa. Ela subiu tanto que mal se liam as 
palavras EU AMO VOC, LUCY. Senti a linha puxar, com fora, e, com Marcus bem atrs de mim, senti uma puxada familiar ali tambm.
      - Continue segurando firme - ordenou ele. -Tenho que dar um telefonema. - E se afastou de mim, enquanto falava em voz baixa ao celular. Perguntei-me para quem 
estaria ligando e, por mais que odiasse admitir isso, senti uma pontada de cime. Fosse l o que me atrasse nele, parecia nunca esmaecer, embora eu tivesse concludo 
que no queria mais nada com ele.
      Quando terminou, sorriu de modo presunoso para mim. -T com fome?
      Minha barriga estava roncando. Nunca deixava de pensar em comida.
      - S um pouquinho - admiti.
      - timo - disse ele, virando-me para o outro lado. No alto da colina avistei trs mordomos, de uniforme e botas, que caminhavam em fila na nossa direo. Trajando 
calas listradas e fraque, exatamente como Jeeves, o personagem de P. G. Wodehouse, eles traziam cesta de piquenique, toalha de mesa e garrafa de champanhe em balde.
      - Ah, Marcus! - disse, sorrindo emocionada. Meu ex realmente gostava de fazer tudo com muita categoria.
      - Achei que seria legal fazermos um piquenique.
      Enquanto o trio de mordomos organizava tudo, Marcus enrolou a linha da pipa. Quando eles terminaram, fizeram uma leve reverncia para ns e partiram, rumo 
 floresta.
      Marcus jogou-se na toalha xadrez estendida na grama e, depois, ergueu a mo, convidando-me para sentar ao seu lado. Serviu o champanhe e brindou:
      - A ns! - Em seguida, comeou a desamarrar as tiras de couro que fechavam a cesta.
      - Que idia incrvel! Muito obrigada. Ele parou por alguns instantes e suspirou.
      -Voc merece! Queria que fosse assim o tempo todo.
      - E at poderia. Sei que no  o momento de falar sobre isso, mas  voc que sempre apronta.
      - Estou determinado a acabar com isso - disse ele, com sinceridade. - Tem que confiar em mim. J no sou mais o mesmo. O tempo que passei sozinho me fez refletir. 
- Fitou-me de modo intenso. - Eu nem ousei ligar para voc, Lucy. No imagina o quanto fiquei aliviado quando telefonou. Pode crer, no vou arruinar esta ltima 
oportunidade.
      No mencionei que, na verdade, no tinha a menor inteno de lhe dar outra chance. Tudo o que queria era algum que fosse comigo  festa da Targa, para no 
fazer feio.
      - O que eu quero  o seguinte: voc! - prosseguiu ele. Fiz meno de dizer algo, mas fiquei quieta.
      Ele ps o dedo nos meus lbios.
      - No diga nada agora. Vamos curtir o piquenique, aproveitar este dia. - E, ento, comeou a tirar pratos, talheres e guardanapos.
      Seria de esperar que aquele cesto estivesse repleto de salmo defumado, diversos tipos de azeitona., ciabatta. Mas no. Marcus conhecia muito bem meu gosto 
mundano no que dizia respeito  comida. Ali havia torta de lombinho, pizza morna, embrulhada em papel-alumnio, vrios pacotes de batatinhas-fritas, meus muffins 
favoritos do Paraso do Chocolate e sorvete com pedaos de chocolate da Ben & Jerry, numa embalagem de isopor. Quando ele ergueu o pote, deixei escapar uma exclamao.
      - Ah, Marcus!
      Ele sorriu de modo confiante naquele momento, ciente de que eu estava na palma de sua mo. E percebi que no conseguiria resistir aos seus encantos. No havia 
nada que eu pudesse fazer: aquele cara tinha um GPS, um Sistema de Posicionamento Global, que o levava direto para o meu corao.




      
      
   
   
   
   
   Captulo Sessenta e Cinco
      
      
      
      
      
 S
e voc comear a sair com o Marcus de novo, sabe que seremos obrigadas a mat-la - disse Nadia. - Foi s um encontro - repeti, sorvendo o chocolate quente com a 
xcara diante do rosto, para disfarar o desconforto. Esperava inutilmente que a fumaa tivesse algum efeito rejuvenescedor, j que aquela turbulncia emocional 
afetara tanto minha pele quanto meu corao.
      Uma reunio de emergncia do Clube das Choclatras fora requisitada. Era o horrio do almoo e todas conseguiram ir, embora o pedido tivesse sido feito na 
ltima hora. No que requerssemos muita persuaso. Se ficssemos vrios dias sem ir at o Paraso do Chocolate, Clive e Tristan comeariam a achar que tnhamos 
morrido em decorrncia de uma terrvel doena, causada pela abstinncia de chocolate. Nunca seria esse o meu caso. Consumia grandes quantidades desse alimento enquanto 
ponderava sobre o encontro recente com Marcus. Eu precisava de conselhos neutros, mas esquecera que as participantes do clube no eram nem um pouco imparciais no 
que dizia respeito ao meu ex. Na mesinha  nossa frente, havia uma bandeja com brownies de nozes e Nadia pegou um.
      - Um encontro - repeti, mais para mim mesma. - Nada mais.
      - Envolvendo um intrincado piquenique teatral e uma pipa com a inscrio "Eu amo voc, Lucy"? - acrescentou Chantal.
      -Tem razo. Foi um encontro bastante romntico. - Eu estava pouco  vontade diante daquele escrutnio. - E s.
      - Ento no est saindo com ele? - quis saber Nadia.
      - No - neguei, mas, em seguida, decidi abrir o jogo, antes que elas descobrissem a verdade. Sei muito bem o que pode acontecer quando a gente mente. - No 
estou saindo com ele no sentido estrito da expresso. Vamos jantar hoje  noite, mas s para reforar nossa amizade antes da festa da Targa. Depois disso, tchau 
e bno.
      - Podia ter convidado uma de ns - disse Autumn, dando a maior fora, para no dizer o contrrio. - Eu teria ido com prazer. Nunca tenho a chance de pr uma 
roupa chique. - Ser que agora faziam vestidos de noite com tecidos de algodo grosseiros? - Alm disso, deixaria de pensar no meu querido irmo, que resolveu se 
mandar do pas de uma hora para outra.
      Autumn acabara de voltar do aeroporto, onde fora se despedir de Richard, sem saber quando teria a oportunidade de v-lo de novo. Ainda que estivesse tentando 
disfarar, seu semblante triste era evidente: os olhos estavam vermelhos de tanto chorar. Ela no deu detalhes sobre o que acontecera com o irmo e o que andara 
fazendo. Sabamos que ele iria para uma clnica de reabilitao - o que era um bom sinal, no era? Autumn vinha se entupindo de brownies, sem nem sequer parar para 
pensar nas massas famintas, o que demonstrava que estava mesmo distrada.
      - No posso ir com outra mulher. Eles vo achar que sou lsbica. - Falei mais baixo, caso Clive e Tristan estivessem espreitando nossa conversa, pois, como 
sabamos, eles eram gays. - No que eu tenha nada contra. Mas, simplesmente, no  a minha praia. Acontece que estou numa idadezinha complicada. Se fico muito tempo 
sem namorado, j vo pensar que comecei a curtir cunilngua.
      Autumn ficou chocada.
      - Como pode dizer isso?
      Era exatamente por esse motivo que eu no podia levar uma amiga para a festa. Boatos sobre mim, com essa terminologia politicamente incorreta, iam se espalhar 
no escritrio e eu nunca mais poderia dar as caras l.
      - Acha que valeria a pena passarmos a noite sendo encaradas como duas mulheres que tm uma intimidade especial?
      - No - admitiu Autumn.
      - Eu tambm no.
      -Voc podia ter convidado Jacob - sugeriu Chantal. Eu sabia que ela ia dizer isso!
      - No vamos enveredar por a. - Meneei a cabea com veemncia. - Depois do que aconteceu, no estou mais a fim dele.
      - Eu tambm no - disse Chantal, tentando amenizar a situao.
      - Bom no muito. - Ela sorriu para mim, do outro lado da mesinha.
      - Ele mudou de profisso e continua a perguntar por voc, Lucy.
      - Bom, pode falar que desejo boa sorte. Tomara que o que ele esteja fazendo agora d certo.
      Ainda havia certa tenso entre ns duas, aps a revelao dos nossos caminhos cruzados com Jacob, e eu no tinha o menor interesse em saber o que Chantal fazia 
ou deixava de fazer com ele; entretanto, tentei evitar que meus sentimentos afetassem nossa amizade. No restava dvida de que ela era uma tima amiga. Ela e Nadia 
compartilhavam sem problemas o novo apartamento e pareciam estar se dando bem. Naquele dia, tinham levado Lewis, que estava sentado confortavelmente prximo a Chantal, 
no sof. Quando Nadia e eu fomos at o balco escolher os brownies, ela me contou que Chantal insistia em ler histrias de ninar todas as noites para Lewis e que 
passara quase todo o sbado com ele, ensinando-o a pintar com os dedos. Nada mal para quem afirmava odiar crianas. Sorri por dentro ao ver que Chantal e Lewis pareciam 
estar muito  vontade, juntos. Diante do menino, havia um pratinho de biscoitos com pedaos de chocolate, para mant-lo entretido (era bom mesmo que estivssemos 
criando a prxima gerao de choclatras). Ele estava folheando um livro, embora os olhos revirassem de cansao.
      -Tome cuidado - avisou Nadia, dando-me tapinhas no joelho. - No queremos que caia nas garras do Marcus de novo. Quando menos esperar, vai estar dormindo com 
ele, no sentido estrito da expresso - disse, imitando-me. - Da, toda aquela turbulncia emocional vai recomear. Acredite, sei bem do que estou falando.
      - Mas ele aparenta estar to mudado - insisti, assumindo a defensiva. - Nunca foi to atencioso.
      - Lucy- aconselhou Chantal. -V com calma. J era hora de voc se dar bem, mas o Marcus no tem um bom currculo. S vai machuc-la de novo, e ningum merece 
ter o corao partido tantas vezes, ainda mais pelo mesmo cara.
      - O que voc acha, Autumn?
      - Acho que temos que comer mais brownies - respondeu ela, evitando a pergunta. Em seguida, pegou a bandeja vazia para lev-la ao balco.
      Ento, todas as minhas amigas votaram contra o reatamento. Eu sabia que deveria confiar nos seus instintos, pois, afinal, no podiam ser piores que o meu. 
Mas, se tivessem estado com Marcus na vspera e presenciado seu comportamento maravilhoso, quem sabe no pensassem, como eu, que, talvez, ele tenha mesmo mudado?
      
   Captulo Sessenta e Seis
      
      
      
      
      
A
cabei comprando um vestido de mulher fatal, juntamente com sandlias de saltos fatais, para usar na festa do escritrio. Eles eram mesmo de arrasar, pois estavam 
me matando! A noite mal comeara e meus dedos j estavam retorcidos e inchados. O vestido era to justo - para usar um eufemismo para apertadssimo - que eu quase 
no conseguia respirar. No sei a quem eu estava tentando impressionar com aquele traje, mas que eu queria estar deslumbrante, queria. E no era porque seria a primeira 
vez que Paquera apareceria na empresa desde o acidente, e eu estava, por algum motivo, nervosssima diante da perspectiva de v-lo. Nem porque ele levaria a vaca 
da Charlotte.
      Nas ltimas semanas, Marcus e eu tnhamos reatado. Ele vinha agindo como namorado ideal e, para ser franca, at me assustei com isso. Andava to atencioso 
que quase se tornara um perseguidor obsessivo. Estvamos inseparveis desde aquele dia maravilhoso em Hampstead Heath, e os seus galanteios - se  que no era uma 
palavra antiquada demais - no cessavam. Mais um pouco e correramos o perigo de nos tornar Terry & June, o casalzinho feliz e satisfeito da comdia inglesa de ttulo 
homnimo. Eu vinha desfrutando de mais jantares romnticos que esquentando comida congelada. At eu j estava me cansando da nossa troca de olhares lnguidos ao 
compartilhar uma musse de chocolate. Davina e eu teramos que saltar na sala juntas, nos prximos cinco anos, para que eu conseguisse queimar todas as calorias consumidas 
em nome do amor. Talvez fosse por isso que meu vestidinho fatal estivesse me sufocando mais hoje do que quando o comprei.
Parecia estranho estar junto com Marcus de novo, depois de eu ter declarado com a mais absoluta veemncia que jamais voltaria com ele. Mas ser que era amor mesmo? 
Daquela vez, uma vozinha em minha conscincia no me deixava relaxar por completo. Talvez minha confiana nele tivesse sido corroda demais ao longo dos anos, dando-me 
a sensao de estar reprimindo algo. Ser que aquela "fase de lua-de-mel" duraria? Mas, depois daquela histria do Jacob e de sua profisso "alternativa", em quem 
eu poderia confiar" Seria melhor ficar com o Marcus e ser condenada a viver no inferno? Ao menos, eu j conhecia os defeitos dele. E, sabe-se l, talvez ele tivesse 
mudado mesmo. Resolvi desistir de analisar minhas relaes, pois nunca dava certo; era melhor deixar a situao rolar.
      A festa estava sendo realizada num enorme salo, prximo ao escritrio. O local fora decorado com as cores da empresa, azul-marinho e prateado. Fiquei encarregada 
de organizar os bales, as flmulas, os lana-confetes, os chapus de festa e os tradicionais cilindros de papelo, com surpresas, nos tons do escritrio. Eu passara 
o dia todo ali, supervisionando o enchimento dos bales e determinando onde as flmulas deveriam ser penduradas. O salo ficou lindo. Helen, a chefe rabugenta do 
RH, contratou uma banda que homenageava os Blues Brothers e um DJ supostamente conhecido - embora eu nunca tenha ouvido falar dele - para entreter os funcionrios. 
Marcus e eu nos encontrvamos num dos lados do salo, um pouco afastados da multido. Eu estava ansiosa, torcendo para que tudo corresse bem e ele segurava minha 
mo com fora, para me tranqilizar. Sorvamos champanhe rose com satisfao. Eu sabia por que estava bebendo feito uma esponja, como se a bebida fosse acabar, mas 
no entendia muito bem por que meu namorado o fazia.
- J disse que amo voc? - perguntou ele, apertando um pouco mais minha mo, com suavidade.
- No nos ltimos dez minutos - respondi, sorrindo.
- Bom,  o que eu sinto. Voc est linda.
Continuei sem flego naquele vestido. Ento, quando eu me preparava para respirar fundo, minha tentativa foi interrompida, pois Paquera entrou, saltitando com as 
muletas. Tomando um gole do champanhe, percebi que ele tinha se arrumado bastante naquela noite. Estava um gato de smoking, conseguindo at transmitir charme e elegncia, 
apesar de estar de muletas e de uma das pernas da cala ter sido descosturada at o joelho, por causa do gesso. No havia sinal da vaca da Charlotte. Paquera esquadrinhou 
o salo, como se estivesse procurando algum - na certa, a tal fulaninha em pessoa. De imediato, foi rodeado por um grupo de funcionrios atenciosos, que lhe deram 
tapinhas nas costas, como se ele tivesse acabado de cruzar sozinho o Atlntico, num barco a remo. Engasguei com o champanhe, soltando borbulhas pelas narinas. Marcus 
tambm me deu tapinhas nas costas, mas de outro jeito.
- Melhor eu ir cumprimentar o meu chefe, para ver como ele est - disse, quando parei de tossir.
-  o cara que voc jogou para fora da pista de kart? - quis saber Marcus.
- Ele mesmo.
      Meu namorado franziu o cenho.
-  bem mais jovem do que pensei. E mais bonito.
No que eu tivesse descrito Paquera como se ele fosse um velho gordo, mas talvez nunca houvesse comentado com Marcus o quanto Aiden Holby era atraente.
-Venha conhec-lo.
-Talvez mais tarde - disse ele, franzindo ainda mais a testa. - Pode ir. Vou esperar aqui.
- Est bom. No vou demorar muito. - E, deixando Marcus prximo aos canaps, fui falar com Paquera. quela altura, quase todos os funcionrios atenciosos haviam 
se dispersado e, quando os poucos que ficaram me viram me aproximar, deram o fora tambm, cientes de que eu era a responsvel pelo atual estado de sade delicado 
de Aiden. Aposto que pensaram que poderia haver uma cena.
Meu chefe deu um de seus sorrisos cativantes.
- Oi, gata.
-Tudo bom? Como est indo?
Ambos olhamos as muletas com desconforto.
- Sou especialista nelas agora, mas mal posso esperar para tirar o gesso - respondeu ele, suspirando. - Coca pra caramba.
- Sinto muito.
- No comece de novo - avisou. - Isso j  coisa do passado. Um dia, vamos lembrar do que houve e rir. - Seus olhos brilhavam e eu sabia que ele no me culpava pelo 
incidente. - Obrigado pelo fornecimento constante de chocolate. Adorei. Minha convalescena foi muito gostosa.
- Era o mnimo que eu podia fazer. - No havamos tido a oportunidade de falar abertamente nas ltimas semanas. Nossas conversas se restringiram a questes de trabalho, 
j que lhe enviei inmeros documentos, alm de chocolate, pelo correio, Mas isso foi tudo.
      - Cad a Charlotte? - perguntei, sem pensar duas vezes.
- Ela vem mais tarde. Com outro.
- Ah! - Fiquei rubra.
- No agentou ficar com um velho aleijado.
-  O que demonstra como ela  ftil - disse, deixando claro meu ponto de vista.
- Assim que nossa incrvel vida social ficou restringida, ela se mandou.
- Sinto muito...
- Pare de pedir desculpas, gata - solicitou ele, com firmeza. - Isso, com certeza, no foi culpa sua.
- Eu teria ficado com voc - disse eu, enrubescendo mais ainda.
- Sei que teria. - Os olhos dele faiscaram de novo. -Talvez a gente possa danar mais tarde, para voc compensar o que fez. Mas vai ter que ser uma dana superlenta.
Dei uma risada nervosa.
- Na verdade, estou com o Marcus - expliquei, olhando por sobre o ombro para ele. Meu namorado ergueu a taa, saudando-nos. - Marcus, meu namorado.
- Ah - disse Paquera, parecendo ter ficado desapontado. - Quer dizer, ento, que voltaram?
- Voltamos. Quer dizer, mais ou menos. Eu no tinha mais ningum para trazer... - No soube como explicar. No pude dizer a Paquera que eu e o Marcus s tnhamos 
reatado porque eu no queria ficar l sozinha, observando ele e Charlotte danarem. Em vez disso, soltei um suspiro imperceptvel e sussurrei: - E... estamos juntos, 
sim.
- Ento, fica para a prxima.
- Ah... sim... claro - balbuciei, sem conseguir parar. -Vou at l, ficar com o meu namorado.
      - Melhor eu ir - disse ele, triste. - Divirta-se.
      
- Obrigada - agradeci rigidamente. -Voc tambm. Ele se inclinou e me deu um beijo no rosto, sussurrando:
      - A propsito, voc est linda! - Com um pulo desajeitado, ele se virou e se afastou, caminhando com dificuldade, deixando-me ali, tocando o local em que estiveram 
seus lbios.
      
      
      
      
   Captulo Sessenta e Sete 
    
   
   
   
 E
u estava incrivelmente bbada, trbada. Minhas sandlias de saltos fatais haviam sumido, e eu no fazia idia do seu paradeiro; minha dor tambm havia desaparecido, 
eu j no estava toda dolorida Se o sucesso de uma festa pode ser medido pelo grau de alcoolismo e bomia, eu diria que a do escritrio foi incrvel At as velhas 
rabugentas do Departamento de Recursos Humanos se divertiram.
      A banda que homenageava os Blues Brothers estava cheia de gs, como eu. Marcus e eu nos encontrvamos na pista, danando cheios de ginga a msica "Mustang 
Sally". Em meio  dana, notei que Paquera estava sentado  extremidade da pista, com a perna quebrada apoiada numa cadeira. Ns nos entreolhamos, e li nos olhos 
dele amargura e pesar. O chefe parecia estar bem mais so do que a funcionria e, por alguns instantes, fiquei sbria, embora estivesse pra l de Bagd. Durante 
um breve momento, pensei que seria timo estar ali sentada com Paquera, em vez de requebrar ao som da banda; sorri para ele. Quando meu chefe retribuiu o sorriso, 
Marcus agarrou meu brao e me fez rodopiar na pista. Naquela espcie de coreografia de dana de salo, eu continuava a girar, oscilante. De sbito, perdi o contato 
com o cho e me desequilibrei. Minhas pernas se enroscaram e, com mais entusiasmo que elegncia, eu me vi rumando direto para meu chefe. Tropecei e me espatifei 
no colo dele, provocando um som surdo.
      Apesar da limitao fsica, Paquera foi gil e amortizou minha queda. Seus braos fortes circundaram minha cintura, puxando-me para perto e impedindo que eu 
me estatelasse no cho e passasse por um vexame ainda maior.
      - Obrigada - consegui dizer.
      - De nada, gata - disse ele, sorrindo. - A sua tcnica de navegao melhorou. Desta vez vai levar nota dez no quesito interpretao artstica. Est tentando 
quebrar a minha outra perna?
      - Tenho que ir - balbuciei. Eu queria acariciar o rosto dele, embora estivesse ligeiramente fora de foco. Quem sabe at dar um beijo gostoso naquela boca sensual.
      Ento, senti os braos de Marcus me puxarem.
      - Obrigado, cara - disse ele a Paquera, bruscamente.
      Meu namorado me levou de novo para o meio da pista e recomeamos a danar, com mais discrio. Mas, quando a cano terminou, eu ainda sentia o olhar de Paquera.
      Como todos pareciam exaustos aps o esforo, a banda resolveu tocar algo mais calmo e os acordes suaves de "Have I Told You Lately That I Love You", de Van 
Morrison, comearam a soar.
      - Esta  dedicada a voc, Lucy Lombard - anunciou o cantor, de culos escuros. O pblico aplaudiu e eu fiquei rubra.
      Marcus puxou-me e abraou-me com fora, enquanto nos movamos, cambaleando. Estvamos nos apoiando um no outro, pelo que pude constatar.
      - Obrigada.  muito linda.
      - Eu amo voc - disse-me ele, com ardor. - Sou correspondido? No era o momento de revelar quaisquer dvidas sobre a nossa
      relao ou tratar dos detalhes relacionados ao significado da palavra "amor" e Marcus vinha se comportando de forma impecvel nos ltimos tempos. No restava 
dvida de que estava lendo o manual Como se Tornar um Excelente Namorado. Ento, respondi: - E - e ele me deu um abrao to apertado que mal consegui respirar.
      Sua voz soou embargada quando disse:
      -Voc no faz idia do quanto desejei ouvir isso. - Eu escutava a letra da cano de Van Morrison enquanto danvamos cambaleantes, dando voltinhas incertas; 
tentei no olhar muito para Paquera, a fim de ver se ainda me observava. Porm, toda vez que me virava em sua direo, ele me fitava. Quando a msica acabou, Marcus 
apertou de leve meu brao e informou: - J volto.
      Deixou-me sozinha na pista, enquanto os outros casais retornavam aos seus lugares. Dei a volta para sair, pensando em ir falar com Paquera, mas, ento, o cantor 
disse:
      - Ateno, senhoras e senhores. - Contemplando o palco, vi que Marcus se encontrava ao lado dele. - Com vocs, Marcus Canning!
      Para meu horror, ele pegou o microfone. Estava tudo indo to bem; o que diabos Marcus ia aprontar agora? No me avisou que faria isso! Na verdade, eu no tinha 
a menor idia do seu prximo passo. Quis assobiar para meu namorado, com o intuito de pedir que descesse dali e no nos expusesse ao ridculo, s que ele estava 
longe demais. Ento, Marcus disse:
      - Esta tambm  para Lucy. - E comeou a cantar. Eu no sabia que ele tinha esse talento, embora costumasse cantarolar no chuveiro.
      Eu estava s, no meio da pista, pois os funcionrios da Targa formaram um crculo ao meu redor. Inclinavam o corpo ao som da msica enquanto Marcus interpretava 
surpreendentemente bem "Three Times A Lady", do grupo Commodores. Ele devia estar assistindo demais aos programas de TV que buscavam talentos musicais. Mantive os 
olhos fixos em Marcus, sem ousar dar uma espiadela na direo de Paquera. O que ele estaria achando daquilo? Nem eu mesma sabia o que pensar!
      Quando meu namorado terminou a cano, que pareceu durar uma eternidade, j que ele deve ter interpretado a verso mais longa, todos  minha volta aplaudiram 
com entusiasmo. Eu me uni a eles. Realmente, Marcus fizera uma bela apresentao. Entretanto, tambm aplaudi porque estava feliz por ele ter terminado. Meu namorado 
fez uma reverncia e pediu silncio, com um gesto. Quando todos ficaram quietos, ele disse:
      - Lucy Lombard, voc me daria a honra de se tornar minha esposa?
      Mais aplausos, enquanto o impacto do que ele dissera me atingiu em cheio, levando-me a recuperar a sobriedade num instante. Eu podia jurar que meu queixo tinha 
cado, j que no consegui falar. Pelo visto, isso sempre acontecia quando estava com ele. No podia acreditar que me pedira em casamento, e na frente daquela multido! 
Ele continuava de p no palco, esperanoso, e minha pobre mente alcoolizada no conseguia computar direito o que acabara de ouvir. Marcus, o galinha mentiroso, avesso 
a compromissos, tinha acabado de pedir a minha mo!
      Ao meu redor, os aplausos espontneos tornaram-se ritmados, e a multido comeou a entoar:
      - Sim! Sim! Sim!
      Marcus continuava a me olhar com expectativa. Meus colegas de trabalho, por fim, foram perdendo o entusiasmo. O barulho cessou de tal forma que se podia ouvir 
um alfinete caindo. Mas eu no conseguia sair do estado catatnico.
      Meu namorado umedeceu os lbios, nervosamente.
      - Lucy? Ento, por algum milagre, consegui balbuciar:
      - Sim. Todos os presentes comemoraram, felizes. Marcus saltou do palco e correu em minha direo, ajoelhando-se na minha frente. A algazarra aumentou. Em seguida, 
ele tirou do bolso uma aliana enorme e reluzente. Srio, dava a impresso de ser maior que a bola de discoteca, pendurada no alto. Havia uma deslumbrante esmeralda, 
com lapidao em degraus, incrustada no centro, circundada de diamantes. Marcus colocou-a no meu dedo. Estava meio apertada, mas, com um pouco mais de fora, entrou.
      - Espero que goste.
      - E linda! - E era mesmo. No se tratava do solitrio com brilhante com o qual eu sempre sonhara, mas, sem dvida alguma, era belssima e devia ter custado 
uma fortuna. Minha boca estava seca quando eu disse: - Obrigada.
      Ele me deu outro abrao forte. No consegui me conter e olhei por sobre o ombro dele para Paquera, que ergueu as mos e bateu palmas sem muito ritmo, com um 
sorriso triste.
      - Amo voc - sussurrou Marcus no meu ouvido. Mal me dei conta do que acontecia. Mas sabia muito bem que minhas queridas amigas do Clube das Choclatras me 
matariam quando soubessem disso. Eu deveria estar exultando de felicidade, mas talvez estivesse alta demais para sentir o que quer que fosse. Era o que eu queria, 
certo? O que eu sempre quis.
      A banda comeou a tocar um rock estridente e a pista de dana lotou, com os funcionrios pulando feito loucos.
      Marcus, feliz da vida, continuou a me fazer rodopiar. E, em meio a uma das giradas vertiginosas, notei que Paquera tinha sado.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Sessenta e Oito
      
      
      
      
      
      
      
 D
epois que Marcus colocou a aliana no meu dedo, todo mundo quis dar uma olhada na minha jia nova. At mesmo as velhas rabugentas do RH ficaram impressionadas - 
embora estivessem to verdes quanto minha esmeralda, quando nos felicitaram com os dentes cerrados. Paquera sumira de vista e supus que ele partira depois da apresentao 
inesperada e bastante impressionante de Marcus. Talvez tenha sido melhor ele ir embora.
      Meu noivo - como soava estranho! -, ento, tirou-me depressa do salo, levando-me para fora. Foi um evento do qual com certeza vou me lembrar por um longo 
tempo.
      Do lado de fora, um motorista trajando um elegante terno branco, em vez do costumeiro jeans surrado e camiseta, j nos aguardava num riquix decorado com bales 
brancos. Marcus me ajudou a entrar e partimos. Enquanto o motorista pedalava pelas ruas londrinas, tomvamos champanhe. Os carros que passavam buzinavam para ns, 
no para que sassemos da frente, mas para nos felicitar. A noite estava agradvel e uma brisa nos refrescava. Marcus me dera seu palet, que coloquei nos ombros. 
Pelo visto, a ressaca chegaria cedo, pois minha cabea latejava e eu estava meio enjoada. Meu namorado - noivo - puxou-me para perto, e me aninhei nele, apesar de 
ainda me sentir distante.
      - No sabia que voc cantava to bem - disse eu.
      - Fiz algumas aulas.
      - S para mim? Ele assentiu.
      - Estou impressionada.
      - Achei que voc ficaria. - Marcus me abraou. - Mas o meu repertrio  superlimitado. Na verdade, s canto aquela msica mesmo.
      Ri.
      - Muito legal voc ter se dado ao trabalho de fazer isso. Ele me fitou e acariciou meu rosto.
      - Queria ter certeza de que voc aceitaria. - E me perguntei se teria sido por isso que ele escolhera um lugar to pblico para me pedir em casamento. Ou ser 
que ele agira de modo tpico? - Acho que a gente pode se casar o mais rpido possvel. No vejo motivo para esperar. Voc v?
      E, para ser sincera, no via, apesar de a idia fazer meu estmago embrulhar. Eu vou me casar. Com o Marcus. Talvez, se eu repetisse bastante as frases, acabasse 
acreditando nisso.
      - Gosto da idia de me casar no inverno - prosseguiu ele. O inverno estava prestes a chegar.
      - A primavera  uma poca legal tambm.
      - Pensei em fazer uma megafesta - disse meu noivo. (No, ainda no me acostumei com a palavra.) - Sem economizar nada. Quero que todos os nossos amigos e parentes 
estejam l para ver eu me declarar para voc.
      Pessoalmente, eu preferiria um casamento tranqilo, numa praia de areia branca, em um lugar distante da costumeira confuso.
      - A gente podia planejar uma cerimnia pequena e simples.
      - De jeito nenhum! Agora que resolvi ir em frente, quero tudo em grande estilo!
      Acho que deveria ligar para meus pais errantes e dar as boas-novas, mas no sentia vontade de fazer isso naquele momento. Alm do mais, j estava tarde. Ligaria 
no dia seguinte. Eles s estiveram com Marcus algumas vezes, mas sei que gostaram muito dele. Tambm, pudera, nunca contei como ele partira meu corao inmeras 
vezes ao longo dos anos. O que os olhos no vem o corao no sente, certo? No gosto de dar motivos para os meus pais se preocuparem comigo. Aquele no era o momento 
de ter pensamentos negativos, mas de curtir a felicidade. Seria bom ligar para as participantes do Clube das Choclatras tambm, porm preferia contar tudo pessoalmente. 
Sabia que elas questionavam a sinceridade do Marcus, mas tinha certeza de que ficariam felizes por mim, quando lhes dissesse que era o que eu queria.
      - Eu amo voc - repetiu Marcus com delicadeza. - Quero lhe dizer isso todos os dias da minha vida.
      Recostou o corpo no meu e me deu um beijo profundo. Um suspiro escapou dos meus lbios. Eu queria relaxar nos braos dele; no entanto, por algum motivo, uma 
onda de pnico comeou a crescer dentro de mim. Eu vou me casar. Eu vou me casar. Quando cerrei os olhos, tentando me entregar ao abrao suave do meu noivo, no 
consegui tirar da cabea a face triste de Paquera.
      
      
      
      
      
   Captulo Sessenta e Nove
   
   
   
      
 A
s persianas de madeira haviam sido abaixadas e uma placa de Fechado fora colocada na porta do Paraso do Chocolate. Era a tarde seguinte aps a festa do escritrio 
e eu continuava enfrentando as repercusses da noite anterior. Passara o dia todo mostrando a aliana na Targa e trabalhando pouqussimo. Paquera no fora ao escritrio 
nem retornara minhas ligaes - que eram todas urgentes, relacionadas ao trabalho, claro -, mas, Helen, a chefe rabugenta do RH, contou-me que ele voltaria na segunda. 
Todas as participantes do Clube das Choclatras estavam sentadas perto de mim, juntamente com Clive e Tristan.
      - Bom, e a? - perguntou Nadia. - Desembucha. Qual  o grande anncio que tem a fazer, que a levou a reunir a gente aqui? Respirei fundo. -Vou me casar.
      Todos ficaram mudos e estarrecidos, como era de esperar. Meus pais agiram da mesma forma. As pessoas se casavam o tempo todo, s que, pelo visto, minhas amigas 
mais ntimas e meus pais no achavam que eu contrairia matrimnio.
      Por fim, Clive quebrou o gelo, juntando as mos. Todas nos assustamos.
      -Vou pegar champanhe - disse ele. Ns o fitamos sem expresso. - Estamos comemorando? - perguntou nosso amigo, hesitante.
      Nadia me olhou.
      - Estamos comemorando?
      - Claro! - exclamei. - Eu vou me casar!
      - Com Marcus - observou Chantal.
      - No  prova de que ele mudou? - Minhas amigas se entreolharam, consternadas, deixando claro que no estavam convencidas. - Foi incrvel. Ele pediu minha 
mo na festa do escritrio. Subiu no palco e cantou uma msica.
      - O Marcus? - Nadia estava pasma.
      - E ainda contratou um riquix para levar a gente para passear pela cidade. Foi muito romntico.
      Autumn segurou minha mo.
      - Parece que foi incrvel mesmo, Lucy. Fico feliz por voc. - Dito isso, ela olhou de esguelha para as outras. - Ns todas ficamos, no  mesmo?
      - Muito legal - disse Nadia, mudando de tom repentinamente. Acho que algum andou dando cutucadas debaixo da mesa. - Deixe a gente ver a aliana.
      Mostrei-a.
      - Uau! - exclamou Chantal. - Quem gasta esta grana toda deve estar falando srio. E linda. - Eu admirei o anel de novo; cada vez gostava mais dele. Minha amiga 
se aproximou e me abraou. - Parabns, Lucy. No d ateno a mim e a Nadia. Como acabamos de nos separar dos nossos maridos, viramos mulheres amargas.
      - Ela tem razo - concordou Nadia. - Voc e Marcus tm tanta chance de fazer o casamento dar certo quanto todo mundo nos dias de hoje.
      Acho que foi um elogio.
      -Vou pegar o champanhe - disse Clive, suspirando de alvio.
      Tristan levantou-se tambm.
      - Que pena que voc no contou para a gente antes! Da, teramos preparado algo especial. Vai deixar a gente fazer o bolo de casamento, no ?
      - Claro que sim - respondi, embora nem tivesse parado para pensar no assunto.
      Tanto ele quanto Clive sumiram de vista, indo para os fundos da loja.
      - J marcou a data? - quis saber Autumn.
      - Ainda no. Marcus quer se casar o mais rpido possvel, mas no quero apressar nada. Prefiro que acontea no momento certo.
      Elas se entreolharam de novo. Desta vez, seu olhar me dizia que eu deveria levar o Marcus para a nave da igreja o quanto antes. Porm, para ser sincera, eu 
precisava de algum tempo para me acostumar com a idia. Se, depois de todo aquele vaivm, eu finalmente ficara noiva, queria prosseguir devagar, curtindo tudo.
      Clive voltou com o champanhe e as taas. Tristan veio atrs, com um bolo de chocolate. Eu no sabia qual dos dois itens me deixava mais animada. Na verdade, 
sabia. Ele colocou o bolo bem na minha frente.
      - Ensaio! - disse Tristan, entregando-me uma faca grande. - Vamos, corte o bolo!
      Fazendo o que me fora solicitado, cortei o bolo de modo teatral, enfiando a faca na cobertura cremosa e espessa. Todos bateram palmas. Senti meus olhos ficarem 
marejados. Podia me acostumar com toda aquela ateno. Tristan pegou o bolo e, com agilidade, cortou fatias caprichadas. J nos conhecia bem o bastante para saber 
que no ramos do tipo que comia pedaos minsculos. Ento, ele distribuiu os pratinhos.
      - Est uma delcia! - elogiei, aps a primeira mordida. - Acho que esse  o sabor que vou querer na festa de casamento.
      - Boa idia - disse Nadia.
      - Paquera estava na festa? - perguntou Chantal.
      - Estava. - De repente, o bolo pareceu enjoativo.
      - Ficou feliz por voc?
      - No sei - sussurrei. - No disse nada. - Meus olhos definitivamente ficaram marejados. Coloquei o prato na mesa. Como poderia lhes contar que eu no conseguia 
deixar de pensar no olhar triste quando eu disse sim? Como poderia lhes contar que a reao de Paquera me incomodava mais do que devia, naquelas circunstncias? 
S me restava enfrentar o fim de semana, para descobrir qual era a opinio dele quando voltasse ao trabalho na segunda. - Mas tenho certeza de que ele vai ficar 
feliz. - Menti. - Por que no haveria de ficar?
      Eu mesma tinha de me fazer essa pergunta - por que no haveria de ficar? Eu no ficaria feliz por ele, se me contasse que se casaria com a vaca da Charlotte? 
No, de jeito nenhum.
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Setenta
      
      
      
      
      

E
stvamos no carro do Marcus, indo para o campo. A msica "Songs About Jane", da banda Maroon 5, soava alto. Imagine amar tanto algum, a ponto de compor todo um 
lbum de canes para essa pessoa, embora a relao tenha terminado mal? (No  o que acontece com todas?) Talvez esse seja o prximo grande passo de Marcus. Em 
vez de se limitar a cantar baladas, passar a comp-las tambm. Tendo estabelecido um padro to alto nos nossos ltimos encontros, eu me pergunto o que ele faria 
para manter nossa relao num patamar to romntico. Ser que o resto da minha vida se tornaria um grande anticlmax? Cortei de imediato essa linha de raciocnio.
- Este lugar  lindo - disse Marcus, no trajeto. -Voc vai adorar. Sei que vai.
      Estvamos indo para o local em que ele gostaria de realizar o casamento. O caminho me pareceu familiar, mas ele no quis revelar onde era, para me fazer uma 
surpresa. Tomara que fosse a nica. Eu esperava que quando chegssemos l no nos deparssemos com um salo cheio de bales, com a inscrio Lucy e Marcus e com 
mais de duzentos convidados aguardando para nos ver trocar nossos votos de casamento. No dava para prever o que Marcus faria naqueles dias. Ele estava me deixando 
nervosa. Desejei ter lavado o cabelo e emagrecido uns quinze quilos. Para diminuir a ansiedade, comi um tablete de chocolate ao leite, extracremoso, de Clive. Coloquei 
um pedao na boca de Marcus.
- Eu amo voc. - Ele acariciou minha coxa. - Estamos quase chegando.
Dali a pouco, entramos numa viela estreita e, antes mesmo de ele passar pelos imponentes portes de ferro forjado e nos dirigirmos ao lago e  fonte de golfinhos, 
eu sabia exatamente onde estvamos.
Olhei fixamente a paisagem horrorizada.
- E aqui? - perguntei, atnita.
- Lindo, no ? - perguntou Marcus, achando que eu estava emocionada.
Trington Manor era mesmo lindo  luz do dia, mas no poderia me casar ali, palco do nosso embaraoso roubo de jias. E se algum me reconhecesse?
- Reservei uma mesa para o nosso almoo - informou meu noivo. - Mas achei que seria legal conhecer tudo antes.
Eu no queria conhecer nada. Aquele lugar j era por demais familiar!
- Eles tm uma capela aqui - disse-me ele, ao estacionar diante da bela edificao. Tenho que admitir que no descobrira isso quando fizera a pesquisa para o assalto. 
-  pequena, mas d para colocar umas cem pessoas l.
- Cem! - Eu me dei conta de que continuaria a ficar pasma por um bom tempo.
- Querida - disse ele, com um sorriso complacente -, eu fiz o esboo de uma lista e precisaramos ter, no mnimo, cem pessoas l. Ainda assim, algumas teriam que 
vir s para a recepo.
Eu no sabia que tinha cem amigos. J me daria por satisfeita com trs: Chantal, Nadia e Autumn. No fazia questo que meus pais viessem. Ento, noventa e sete convidados 
eram da lista de Marcus. Ele saltou do carro, todo animado.
-Venha, Lucy, vamos dar uma volta.
Sa mais do que apreensiva do carro. Por que nada  simples na vida? Na minha vida?
Meu noivo segurou minha mo, levando-me a subir as escadas e entrar na recepo do hotel. Dei graas a Deus pelo dia ensolarado e por meus culos escuros. A nica 
coisa que faltava era o Mercedes de John Smith, que, quela altura, j devia ter sido retirado do lago. Infelizmente, eu tinha certeza de que a recepcionista era 
a mesma que estava trabalhando durante nossa aventura. Torcia para que ela no me reconhecesse. Fiquei mais afastada, mantendo os culos e tentando jogar os cabelos 
no rosto, enquanto Marcus lhe informava que tnhamos hora marcada com a organizadora de eventos.
E se John Smith estivesse por ali, sabe-se l com qual carro novo? Era s o que faltava! Passei os olhos pelo bar, nervosa. Por que no usamos perucas durante o 
assalto? Ou bigodes falsos? Foi uma grande falha do meu plano. Tambm, pudera, no imaginei que voltaria ali em breve para visitar o hotel e, talvez, para me casar.
Michelle, a organizadora, chegou. Levou-nos at o jardim, para mostrar a capela. O dia estava lindo, ensolarado e tudo o mais, e sentimos a fragrncia de todo tipo 
de flores silvestres nativas, cujos nomes eu desconhecia. A vista englobava o que havia de melhor nos campos britnicos; os convidados podiam apreci-la do belo 
terrao de pedra lavrada. Atravessamos o gramado rumo  capela, com Michelle falando sem parar sobre uma srie de pacotes, o tipo de comida disponvel e as acomodaes 
do hotel para os incontveis convidados que Marcus planejava chamar.
- Nos casamentos, ns colocamos um lindo caramancho, que vai at a entrada da capela - disse Michelle, mas no prestei muita ateno. Eu no iria me casar naquele 
lugar de jeito nenhum, embora fosse, sem dvida alguma, encantador. A capela, construda com pedras rsticas, datava do sculo catorze. Seu interior idlico me tirou 
o flego. O sol passava pelos vitrais, refletindo um arco-ris no piso de pedra. At mesmo com meus culos escuros, a viso me pareceu incrvel. Arrisquei dar uma 
espiada no alto deles. A capela ficaria linda, decorada com flores brancas. Podia me ver caminhando lentamente pela nave, com um vestido simples, de cetim branco. 
Cem pessoas ali tornariam o ambiente aconchegante... s que, como eu no iria me casar naquele lugar, no fazia diferena.
Marcus apertou minha mo e perguntou:
- Gostou?
- Gostei, mas...
Michelle nos tirou rapidamente da capela, levando-nos para o hotel.
- Quero mostrar para vocs o salo de festas. Est arrumado para um jantar que faremos hoje. Ali cabem duzentas pessoas.
- timo - disse Marcus.
Duzentas? A gente teria de alugar convidados para chegar a essa quantidade.
A organizadora abriu as portas do salo e quase perdi o flego de novo. As janelas em arco, de cantaria, e as luminrias de parede com caixilhos de chumbo tornavam 
o ambiente claro e arejado. Havia inmeras mesas com toalhas de linho branco, sobre as quais tinham sido colocados a loua, os talheres de prata e as taas de cristal 
reluzentes. Por toda parte viam-se arranjos de rosas de tom rosa-claro e lrios perfumados: nas mesas, nos peitoris das janelas e nos longos pedestais de ferro. 
O salo estava perfeito.
- Pensei que podamos planejar algo exatamente assim - disse Marcus.
      - , mas...
- Vamos almoar. - Meu noivo me puxou, exultante, at a porta. - Ento, podemos conversar mais sobre isso.
Ns nos despedimos de Michelle e fomos at o bar.
- O que est a fim de tomar? - perguntou-me ele, enquanto aguardvamos o barman.
-Vinho - disse, de modo categrico. -  do que estou precisando, de muito vinho.
Meu noivo sorriu, satisfeito, para mim. Ento, o barman chegou.
-Tudo bom? - cumprimentou ele, dirigindo-se a mim.
Tanto esforo para manter o incrvel disfarce dos culos escuros! Tirei-os de imediato e guardei-os na bolsa.
- Oi - Dei-lhe um sorriso apreensivo e passei a me concentrar na paisagem, para que o sujeito no puxasse mais conversa.
- Uma taa de vinho branco seco e um suco de laranja, por favor - pediu Marcus e, quando ele foi cuidar do pedido, meu noivo se virou para mim. -Voc j esteve aqui 
antes?
- Nunca - disse eu, esperando no estar muito vermelha. - Ele deve ter me confundido com algum. - Como poderia revelar a Marcus que, na ltima vez que estivera 
ali, eu e minhas amigas participamos de um assalto? Embora se tratasse de um furto de objetos que, tecnicamente, pertenciam a uma de ns. No sei bem o que a lei, 
ou meu noivo, pensaria disso. Talvez eu e Marcus rssemos da histria, mas talvez, tambm, ele no achasse graa nenhuma. - Ser que eu tenho uma irm gmea?
- Nem pensar! O barman serviu nossas bebidas e, graas a Deus, afastou-se.
Marcus fez um brinde e bebemos ao mesmo tempo. Quer dizer, ele tomou um gole, eu quase entornei a taa.
- Este lugar  deslumbrante, no  mesmo? - disse Marcus.
      - Lindo. - Era mesmo. Seria um timo lugar para um casamento. Em outras circunstncias. - Mas a gente no pode se casar aqui.
Marcus ficou intrigado.
- Por que no?
- Ahn... Ahn... - Aquele teria sido um bom momento para contar a verdade. Mas no foi o que fiz. Em vez disso, comentei: -  caro demais. Meus pais no tm grana 
para isso, e eu no teria coragem de pedir para eles. Eu tambm no tenho dinheiro sobrando para bancar este salo. - Era tudo verdade.
Marcus segurou minha mo. Com os dedos, brincou com a minha aliana de noivado. Os diamantes reluziram.
- No quero que voc se preocupe com nada - disse ele, sorrindo com carinho. - Eu tenho dinheiro suficiente. Vou arcar com tudo.
- Marcus...
-Voc gosta daqui?
- Gosto, mas...
      - Que bom! - exclamou ele, continuando a sorrir, satisfeito. - Porque eu j contratei os servios deles.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Setenta e Um
   
   
 T
ed, por fim, atendeu a uma das ligaes de Chantal e, o que foi mais surpreendente, concordou em se encontrar com a esposa. Como insistiu com ela para que escolhesse 
o local, Chantal marcou um encontro no Paraso do Chocolate, pois era o lugar em que se sentia mais  vontade. Como teria de lidar com o marido em circunstncias 
difceis, ento era melhor faz-lo cercada de seu alimento favorito.
      Chantal sentou-se em um dos lugares  janela, e Clive lhe trouxe uma fatia de torta de chocolate e um cappuccino, enquanto ela aguardava, ansiosa, o marido.
      Clive deu-lhe uns tapinhas na mo, de modo paternal.
      - Anime-se! Voc est linda, queridinha - disse, ostentosamente. - Ele no vai conseguir resistir aos seus encantos!
      - Tomara que tenha razo! - exclamou Chantal e, naquele momento, a porta se abriu e Ted entrou. Deu um meio sorriso quando a viu e caminhou at ela. Chantal 
levantou-se, mas, antes que tivesse a chance de abra-lo, ele se sentou na cadeira diante dela. O rosto do marido parecia cansado e triste. Talvez tivesse perdido 
peso tambm.
      - O que gostaria de tomar, Ted? - perguntou Clive, e o marido de Chantal demonstrou surpresa ao ser chamado pelo nome. - Sinto muito, deveria ter dito Sr. 
Hamilton, mas  que tenho a sensao de conhec-lo h anos. Chantal fala muito de voc.
      A expresso de Ted indicava que ficara ainda mais perplexo com aquela revelao.
      - No tem problema - disse ele. Chantal torcia para que o papo informal e aberto de Clive surtisse efeito. -Tambm quero isso - pediu, apontando para o pedido 
da esposa.
      - tima escolha. - Clive piscou para ela, por trs de Ted, e, antes de sair, disse: - Que gato!
      Apesar da tenso, ela sorriu e sentou-se de novo.
      - Bom ver voc, Ted.
      O marido relaxou visivelmente e tirou a jaqueta, pendurando-a no encosto da cadeira. Ao menos planejava ficar ali por algum tempo.
      - Estranho a gente se encontrar dessa forma - admitiu ele.
      -  verdade - concordou ela, fitando o caf para no enfrentar o olhar intenso do marido. - Mas estou feliz por voc ter vindo.
      - Eu tambm. - Ele se recostou e contemplou a chocolataria.
      - Ento  aqui que passa horas com as amigas? - Chantal assentiu e sorveu o cappuccino. - E bem aconchegante - elogiou ele, no momento em que Clive trazia 
o pedido.
      - Nossa, obrigado, Ted! - Clive estava agindo de modo cada vez mais afetado, e Chantal teve a impresso de que flertava com seu marido.
      Quando ele se retirou, ela riu e comentou:
      - Acho que Clive se apaixonou por voc.
      - Ele  o nico? - indagou Ted, falando srio, de repente.
      - No. Eu ainda o amo muito.
      Ele olhou fixamente para a janela. Naquele momento, foi a vez de Ted evitar seu olhar.
      - Senti sua falta - ressaltou. Ela chegara  concluso de que queria salvar o casamento e fora at l com a inteno de fazer as pazes e no de falar do passado 
e discutir quem tinha feito o que ou iniciado a briga. Se quisessem ficar juntos de novo, teriam de enterrar o passado.
      Ted virou-se para ela de novo.
      -Tenho sado com outras mulheres, desde que voc foi embora.
      - Ah. - No lhe ocorrera que, enquanto estava longe dele, Ted tomaria essa atitude. - Alguma relao sria?
      - No. - Ele meneou a cabea. Em seguida, deu um suspiro profundo e Chantal sentiu o estmago embrulhar. - No quero ficar solteiro de novo. A situao est 
terrvel por a. Estou velho demais para voltar a namorar. As mulheres... bom, elas mudaram, so to... complicadas! - Deu uma risadinha. - Acho que no me dei conta 
de quanta sorte eu tive. - Era um bom sinal, pensou Chantal. timo! - Mas isso no quer dizer que eu queira continuar casado com voc - admitiu ele, e a esposa, 
que comeara a se animar, voltou a ficar triste. - Tenho conscincia de que voc no  a nica culpada pelo nosso rompimento. Sei que tenho minha parcela de culpa. 
Ns acabamos nos afastando, e admito que errei tambm. Mas, para mim, est sendo difcil lidar com a sua soluo para o problema.
      Ainda bem que Ted no descobrira que ela, na verdade, pagara para ter relaes sexuais com Jacob. Chantal tinha certeza de que ele no perdoaria isso. Era 
um segredo que teria de levar para a sepultura. Se o marido descobrisse o que andara aprontando, ela acabaria indo para aquele tmulo mais cedo do que esperava.
      O marido se distraiu ao pegar um pedao da torta de chocolate.
      - Est uma delcia - elogiou.
      -  a melhor. - Chantal teve vontade de acrescentar: como nossa relao foi um dia.
      - Dormi com uma mulher com quem estive saindo. Achei que ajudaria.
      - E ajudou?
      - No. S me fez ver que  com voc que quero ficar. - Tinha que ser um bom sinal, pensou Chantal. - Porm, no me sinto preparado para reatar. Preciso de 
mais tempo sozinho, para organizar os pensamentos.
      - Podemos seguir as suas condies, Ted - disse ela, ciente de que parecia desesperada. -Vamos resolver tudo  sua maneira.
      - E muito doloroso, no  mesmo? - Seu tom de voz era emocionado.
      - Muito. - Ela queria toc-lo, mostrar que se importava, mas no ousou tentar. E se ele a afastasse, como fizera tantas vezes recentemente?
      - Onde est morando?
      - Aluguei um apartamento em Islington. No  exatamente um lar, mas d para quebrar o galho. A Nadia, aquela amiga minha, est morando comigo, junto com o 
filho, Lewis, de quatro anos.
      - Quer dizer que o menino est l tambm?
      - Est.
      Ted arqueou a sobrancelha.
      -Voc compartilha o apartamento, de livre e espontnea vontade, com uma criana?
      - Lewis  um amor - disse ela, sorrindo. - Ele est me ensinando muita coisa. J assisti a todos os desenhos animados da Disney. Decorei a trilha sonora de 
A pequena sereia, O rei leo e Mary Poppins. Aprendi a pintar com os dedos. Sei de cor mais canes de ninar do que eu podia imaginar. E agora consigo, com bastante 
esforo, tocar o nariz com o dedo do p.
      Esses fatos levaram Ted a dar um largo sorriso.
      - Impressionante.
      - Nunca pensei que as crianas fossem to divertidas - disse ela, apesar de saber que estava tocando em um assunto delicado. - Acho que toda vez que tnhamos 
contato com os filhos de nossos amigos eles acabavam tumultuando a nossa vida. Com Lewis l em casa o tempo todo, eu me acostumei a ter um menino por perto. No 
 to complicado, quando se estabelece uma rotina.
      - Ento agora est dando uma de me?
      - S estou dizendo que j no acho a idia de ter filhos to abominvel quanto antes. - Chantal no contou para Ted que passava uma hora, na maior parte dos 
fins de semana, circulando pelo apartamento com uma lata de tinta, para pintar as marcas de lpis de cera e as diminutas impresses digitais de chocolate que surgiam 
do nada nas paredes. Era difcil deixar de ser exigente sob certos aspectos. - Por que voc nunca me disse como se sentia?
      - E os homens falam sobre isso?
      -Talvez no, mas deveriam- argumentou ela.
      - Acho que precisamos ir com calma. Tem uma distncia muito grande entre ns, e no sei se vamos conseguir diminu-la.
      -Temos que tentar.
      Ted comeu o ltimo bocado de sua torta e tomou o restinho do cappuccino.
      -Vamos sair para jantar, no final da semana - convidou ele.
      - Seria timo.
      Ele apertou rapidamente a sua mo.
      - Ligo para voc amanh.
      Chantal teve vontade de chorar. Talvez, se comeasse a sair com o marido de novo, ele voltasse a descobrir o que amara nela, um dia.
   Captulo Setenta e Dois
   
   
 M
arcus marcou o casamento para o Dia dos Namorados na Gr-Bretanha: assim sendo, 14 de fevereiro seria o dia D. Para mim, D de desnimo. Aquela data no deveria estar 
me entristecendo, mas estava. Como as coisas mudam! Antigamente, a nica coisa que me abalava era a possibilidade de ser dispensada por ele.
      Naquele momento, eu estava olhando pela janela, tentando fazer minha mente se concentrar no tipo de flor que eu usaria no buqu, quando Paquera chegou ao escritrio. 
A equipe de vendas se levantou e bateu palmas para ele, que retribuiu com um aceno animado. Eu me encurvei mais  minha mesa, fingindo estar concentrada no trabalho. 
As previses de vendas nunca foram to interessantes; meu corao batia acelerado s de ler aquilo. O que estava acontecendo comigo? Ento, um par de muletas surgiu 
 minha frente, ao lado de Aiden. - E a, senhora Gata?
      Meu corao disparou. O olhar de Paquera se dirigiu  aliana de noivado. Tirei as mos da mesa e me sentei nelas.
      - Oi
      - Como estamos hoje?
      - Bem - respondi. Ainda tentando encontrar uma desculpa para no me casar em Trington Manor, embora Marcus j tivesse feito o vultoso depsito; s que Aiden 
Holby no precisava saber desse detalhe. - Mas o importante agora : como voc est?
      - Prestes a voltar a ser o velho Aiden de sempre - assegurou-me.
      - Mal posso esperar - brinquei.
      - Senti sua falta. - Ele baixou a voz. -  bom voltar, e nunca imaginei que diria isso sobre esta empresa.
      - O escritrio ficou supertranqilo sem voc.
      - E isso  bom ou ruim?
      - Pssimo! Trocamos sorrisos.
      - Obrigado pelo sortimento dirio de chocolate. Gostei muito.
      - De nada. Espero que tenha feito voc se sentir melhor. - Ento, sem refletir, acrescentei: - Se precisar de algo mais,  s dizer.
      - Ento pode pegar meus cafezinhos. De hora em hora, traga um. No d para saltar e carregar xcaras ao mesmo tempo. Desde o acidente, tomo tudo em p, perto 
da chaleira, na cozinha.
      - Lamento muito ouvir isso. O mnimo que posso fazer  me tornar sua escrava de mquina de caf at voc se recuperar totalmente.
      - Humm. tima idia. Voc aceitaria se submeter ao meu comando em alguma outra rea?
      - No amolei - Eu no sabia ao certo se teria saco de agentar aquelas brincadeirinhas, agora que tinha ficado noiva. Aquele tipo de comportamento era mesmo 
aceitvel no ambiente de trabalho moderno? Eu no deveria desencorajar as cantadas do meu chefe, agora que o noivado fora oficializado? Se fizesse isso, o trabalho 
na Targa com certeza se tornaria bem mais tedioso. Eu no via possibilidade de as piadinhas se transformarem em outra coisa. J estava ali fazia um tempo e Paquera 
nunca passara dos limites. Exceto por um beijinho. Por que ele haveria de mudar agora?
      Talvez fosse mais seguro pedir demisso e procurar outro emprego, para no cair em tentao. Mas, na verdade, no poderia fazer isso. Depois das recentes experincias, 
ambas breves e desastrosas, s mesmo a Targa se disporia a me contratar e a agentar minha tica de trabalho duvidosa. Alm do mais, eu no gostaria de ir para um 
lugar longe do Paraso do Chocolate. Afora o salrio nfimo e o trabalho maante, aquele era um emprego legal. E eu tinha certeza de que toda aquela histria relacionada 
ao "Paquera" fora obra da minha imaginao entediada, por falta do que fazer ali. Assim que eu comeasse a organizar o casamento, meu chefe sairia da minha cabea. 
Afinal, Aiden Holby nem era to bonito assim. No mesmo.
      Paquera fez meno de se dirigir  prpria sala, mas, ento, virou-se para mim e disse:
      - Acho que deveria felicit-la pelo casamento em breve. Fitei-o.
      - Obrigada.
      - Marcus deu um show e tanto!
      - No foi incrvel? -Tentei, sem sucesso, sorrir. Paquera permaneceu imvel. Em seguida, pigarreou.
      - E o que voc quer?
      - E - disse eu. Empinei o queixo, involuntariamente. Por que ningum acreditava que eu ia me casar? Ser que no me viam como uma mulher responsvel e caseira? 
Ou, quem sabe, fosse Marcus que as pessoas no conseguiam ver desempenhando esse papel? - Por que no haveria de querer?
      - Ento, espero que sejam muito felizes juntos. -Tenho certeza de que seremos.
      Ele se virou e caminhou, mancando, quase at sua sala; ento, mudou de idia e voltou para minha mesa.
      - S gostaria de dizer uma coisa. - Ficou de p, na minha frente, endireitando uma mecha de seu cabelo, distraidamente. - Lamento no ter convidado voc para 
sair quando tive a oportunidade. Teria diminudo bastante minha expectativa de vida, mas acho que eu e voc amos nos divertir muito juntos, Lucy Lombard.
      Em seguida, retirou-se, sem mais nem menos, deixando-me totalmente confusa, em busca da barra de chocolate Mars mais prxima.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Setenta e Trs 
      
      
      
      
      
      
 O
 nico problema com a zona rural era o cheiro forte. Nadia torceu o nariz de desgosto quando Toby estacionou o carro na Fazenda Medley. Lewis, ainda sentado em sua 
cadeirinha, comeou a se agitar, feliz.
      - A gente chegou?
      - Chegamos, querido,  aqui.
      Em vez de Toby levar Lewis no seu domingo de visita, eles decidiram passear juntos. A ltima coisa que Nadia queria era ver o ex-marido se tornar um pai que 
s levava o filho para lanchonetes, embora tivesse certeza de que o filho no hesitaria em consumir refeies ligeiras o tempo todo. Ele no estivera com eles no 
aniversrio do filho, o que deixara Nadia chateada; ela esperava que aquela viagem compensasse o que ocorrera. Conforme combinado, ela pegou Toby um pouco antes 
das dez, em sua casa, e, uma hora depois, j se achavam no interior de Bedfordshire, na regio campestre, cercados de campos, de colinas e do odor fresco da natureza, 
ou seja, de estrume.
      A atmosfera no carro fora relaxada, levando Nadia a se lembrar dos velhos tempos. No restava dvida de que ela ainda amava o marido, que repetira diversas 
vezes, ao longo das ltimas semanas, que a amava. Tudo o que ele tinha a fazer era provar-lhe, por meio de suas aes. Nadia tirou o sorridente Lewis do carro, que 
saiu correndo at a entrada da fazenda de crianas, exultante. Apesar de o lugar ficar distante de Londres, os preos continuavam astronmicos. Era uma diverso 
que, a bem da verdade, estava acima de suas possibilidades, mas, se ajudasse o filho a sentir que a famlia no se destrura por completo, o sacrifcio valeria a 
pena. Alm disso, havia o aspecto educativo. Apesar das horas que Chantal passava estimulando Lewis, ele continuava a no identificar bem os animais domsticos. 
Toby pagou a entrada e todos receberam o carimbo de porquinho nas mos, alm de um saquinho de rao para alimentar os animais.
      A primeira parada da famlia foi no celeiro. Um rebanho de cabras pigmias, num cercado grande, comeou a berrar, esperanosamente, to logo viram um novo 
grupo de alimentadores felizes chegar. Nadia e Toby se agacharam e colocaram a rao nas mos de Lewis, enquanto as cabras se empurravam para pegar, com delicadeza, 
a comida. O menino mal podia conter a felicidade.
      - Que legal - disse Toby, com tranqilidade. - A gente devia ter feito isso mais vezes.
      Nadia concordou com ele. Era timo sair da cidade nos fins de semana.
      Quando toda a rao foi consumida pelas cabras, eles foram para a parte em que os animais podiam ser tocados. Havia fardos de palha espalhados, para que as 
crianas se sentassem, e Toby colocou Lewis num deles, junto com outros meninos. O garoto ficou encantado ao ver coelhos e porquinhos-da-ndia comportadssimos saltitarem 
e moverem-se prximo s suas pernas. De vez em quando, um dos coelhinhos tranqilos ficava um pouco mais por ali, querendo subir no colo de Lewis ou mordiscar suas 
galochas. O menino estava no paraso, e Nadia perguntou-se, de novo, por que tinham decidido viver em Londres. Quais eram os benefcios, nos dias atuais, a menos 
que se gostasse de construes pichadas e de sujeira? No seria melhor eles se mudarem para um lugar como aquele? Provavelmente teriam que continuar a viver numa 
casa geminada, de trs quartos, mas talvez conseguissem poupar mais dinheiro, investindo numa regio mais econmica. O que ser que Toby acharia da idia? Ento, 
Nadia se deu conta de que ainda pensava neles como famlia, esquecendo-se de que, na verdade, sua casa j fora at colocada  venda.
      Quando o filho se distraiu, acariciando um coelhinho branco bem peludo, de focinho achatado, ela perguntou:
      - Alguma novidade com relao  casa?
      Toby arrastou o p no cho de terra, exatamente da mesma forma que Lewis fazia quando estava pouco  vontade.
      - Teve bastante gente interessada. Algumas pessoas foram ver a casa, mas ainda no recebi nenhuma oferta.
      Nadia deu de ombros.
      - Ainda est cedo.
      - Nadia, eu nem queria fazer isso - disse ele, com toda a franqueza. - No tem necessidade. Eu vou largar este hbito de uma vez por todas. Dei o laptop para 
um amigo, para ficar longe dele, e cancelei a conexo de internet. No entro naqueles sites de jogos desde que voc foi embora.
      - Que bom - disse ela, tambm sendo sincera.
      - O que eu tenho  uma doena - informou-lhe ele. - Foi o que disseram l no No  Jogatina.
      - Pode ser uma doena, mas no  como um resfriado ou catapora. No  algo que a pessoa pega, mas escolhe pegar. S que ela tambm pode optar por lutar contra 
essa praga.
      - Eu vou conseguir, juro.
      Nadia passou o brao pelo dele e apertou-o. -Tomara que sim.
      - Quando vejo Lewis assim, sinto que no quero que a gente se separe.
      - Eu tambm no, mas, at ter certeza absoluta de que eu e o seu filho somos mais importantes para voc do que sua paixo pelo jogo, vamos continuar assim.
      Alm do mais, eles precisavam resolver as dificuldades logo. Nadia considerava Chantal uma tima amiga, mas no podia viver de caridade para sempre. Vinha 
acompanhando, com satisfao, a reconciliao gradual da amiga e de Ted, embora ciente de que, se Chantal voltasse para casa, ela e Lewis estariam em maus lenis, 
pois ela no teria condies de arcar com o custo daquele apartamento em Islington sozinha.
      Quando Lewis comeou a perder o interesse nos coelhinhos, os pais o levaram para ver os porquinhos recm-nascidos, que chiavam e ziguezagueavam no cercado. 
Toby passou o brao pelo ombro de Nadia, quando se inclinaram na cerca de metal, e no o tirou mais. Depois, os trs usaram mamadeiras com bicos enormes para dar 
leite quente aos cordeiros, que sugaram com avidez e entusiasmo.
      Na hora do almoo, fizeram um piquenique, saboreando os sanduches de presunto e os brownies que Nadia preparara de manh. Os bolinhos no eram to deliciosos 
quanto os do Paraso do Chocolate, mas os dois clientes pessoais de Nadia gostaram muito deles. Ela e Toby relaxaram sob os exguos raios de sol, enquanto Lewis 
subia no forte de madeira e jogava areia nas botas de borracha, com um balde de plstico vermelho. O sol foi aquecendo o corpo de Nadia, tirando a tenso de seu 
pescoo e suavizando dores que nem mesmo ela sabia existirem. Talvez fosse o ar campestre, mas no se lembrava de ter se sentido to bem ou de ter visto o filho 
to feliz.
      - Ainda vamos andar de jumento e pegar ovos no galinheiro de tarde. E, se quiserem, podemos ordenhar vacas! - Nadia sorriu. - Espero que depois de toda essa 
diverso na fazenda nosso filho consiga diferenciar cordeiro de vaca.
      - Quando formos ordenhar, espero que eu consiga diferenciar a vaca do touro.
      Ela deu uma risada.
      Toby acariciou os seus cabelos. Estava com a testa franzida, preocupado.
      - No quero que este dia acabe - disse ele, hesitante.
      - Eu tambm no - concordou Nadia.







Captulo Setenta e Quatro

      
      
      
 A
utumn estava inserindo com cuidado a moldura de chumbo no penduricalho de cristal em que Fraser estava trabalhando. Teoricamente, ela s deveria dar uma ajuda, mas, 
na verdade, vinha fazendo todo o enfeite para o rapaz, enquanto ele se apoiava no balco e lanava olhares lnguidos para Tasmin, no outro lado da sala. A jovem 
fingia no perceber que era observada enquanto trabalhava.
      - Est prestando ateno, Fraser?
      - No, fessora. - Pelo menos, era sincero. - No d para a gente se concentrar quando est apaixonado.
      -  mesmo? - indagou Autumn, com uma pontada de amargura na voz. Fez um gesto em direo a Tasmin e sussurrou: -Voc  correspondido pelo objeto do seu amor?
      - Ainda no - respondeu Fraser, com a costumeira presuno. - Ainda no.
      Ah, nada como ser jovem e otimista!, pensou Autumn. Sempre admirava os adolescentes que mantinham a esperana, apesar das situaes adversas em que se encontravam. 
Talvez ela aprendesse algo com Fraser, se seguisse seu exemplo, para variar. Lembrou-se da noite da Operao Resgatar Jias de Chantal - no seria a primeira vez 
que a experincia dele viria a calhar.
      Embora estivesse triste com a partida de Richard para os Estados Unidos, no fundo sentia uma paz enorme. A atual tranqilidade s demonstrou como os ltimos 
meses haviam sido caticos. Autumn amava Richard - ele era seu irmo, que outra escolha tinha? -, porm, sem dvida alguma, seu nvel de estresse sempre aumentava 
vertiginosamente quando ele estava por perto. No havia ch de camomila, cntico ou chocolate que tornasse sua relao menos complicada. Ela vinha recebendo notcias 
de Richard, por e-mail, desde que ele se internara na clnica de reabilitao; no entanto, as mensagens eram vagas. Ele afirmava estar bem, e no dava para ler nada 
nas entrelinhas. Autumn no sabia se tudo estava dando certo l, alm do fato de ele ter conseguido escapar do perigo iminente. Com toda aquela distncia, s lhe 
restava torcer para que o irmo criasse juzo e desse um jeito em sua vida.
      Naquele dia, os raios do sol passavam pela janela, levando um raro calor  sala de aula decadente e afugentando a atmosfera lgubre. Autumn se sentia egosta 
por pensar assim, mas era timo ir para casa tranqila, sem se preocupar mais com o que encontraria l, quando chegasse. Por precauo, mudara a fechadura do apartamento 
e colocara ferrolhos de segurana na porta Esperava que, com a partida do irmo, no ocorressem mais arrombamentos. Ainda assim, o reforo na entrada a ajudara a 
relaxar mais,  noite, evitando que prestasse ateno em cada rudo ao se deitar.
      A porta da sala de aula se abriu e, quando Autumn ergueu o olhar, viu Addison Deacon sob o vo. Sorriu ao v-lo. Ele no tinha ido muito ao instituto ultimamente 
e ela sentira sua falta. Nada a deixava mais feliz que a presena de Addison em sua sala. Como sempre, ele sorria, bem-humorado.
      - Trouxe chocolates e flores - disse o amigo, entregando-lhe uma caixinha de bombons finos e um buqu de rosas brancas. - Reservei uma mesa naquele restaurante 
no final da rua. J sei que eles servem bastante tiramisu. Tambm deixei uma garrafa de vinho tinto arejando. Mal posso esperar para ouvir voc aceitar o convite.
      Autumn enrubesceu e observou os alunos, antes de aceitar os presentes de Addison.
      - Adorei. - Ela sentiu o aroma delicado das rosas, embora, na verdade, j estivesse de olho nos chocolates.
      - Convite melhor do que esse, impossvel, fessora - disse Fraser, apesar de no ter sido consultado. Se at os alunos percebiam que, no que dizia respeito 
 sua vida amorosa, Autumn estava matando cachorro a grito, ela precisava mesmo tomar uma atitude. A maioria deles s se preocupava com a prxima vez em que se drogariam. 
- O Addison  um cara legal.
      Sorrindo para o pretendente, Autumn disse:
      - J viu referncia melhor do que essa?
      - Ento, aceita?
      - Ah! - Ela levou a mo  testa. - Eu tenho que ir a uma reunio de professores hoje, que deve comear daqui a quinze minutos. - Ento, franziu o cenho. - 
Alis, no foi voc que a marcou?
      - Foi sim - admitiu Addison. - Mas s ns dois vamos nos reunir.
      - Ento, como posso recusar, se se trata apenas de negcios? - brincou ela.
      - Eu queria ter certeza de que voc avisaria a seu irmo que chegaria tarde hoje.
      - O Richard foi embora. Vai morar nos Estados Unidos por um tempo. No tenho que dar satisfao a ningum, agora.
      - Ento, no tem mais desculpas.
      - No preciso de desculpas. Eu adoraria jantar com voc.
      - timo.
      - E isso a - acrescentou Fraser, assentindo, satisfeito.
      - S preciso terminar isto. - Autumn olhou para o penduricalho de cristal. Fraser tomou de sua mo o ferro de soldar.
      - Tem coisas mais importantes na vida que vitral, fessora. Pode deixar que eu termino isso aqui. Depois, dou um jeito na sala.
      - Mais uma oferta irrecusvel - disse ela, sorrindo, agradecida. -Vou pedir para a Tasmin me ajudar - disse ele, dando a piscadela mais maliciosa que ela j 
vira.
      Que Deus ajude a pobre moa!, pensou Autumn. Tasmin no teria escapatria quando Fraser jogasse todo o seu considervel charme em cima dela.
      Ostentando um largo sorriso no rosto, Addison abriu a porta para que Autumn passasse. Ela relaxaria e aproveitaria aquela noite, decidiu. O amor, pelo visto, 
estava no ar.
      
      
      
      
      
      
   
   
   
   
   Captulo Setenta e Cinco
      
      
      
      
 M
arcus me devolvera a chave do apartamento. Disse que no havia motivo para esperarmos at o casamento para que eu fosse morar com ele e pediu que eu me mudasse o 
mais rpido possvel. Ento, eu j havia contratado um sujeito com uma van para levar todas as minhas posses mundanas para o apartamento do Marcus, no sbado. O 
dele era muito mais agradvel que o meu. Ainda mais agora que ele se livrara dos pitus estragados - algo que eu sei que se tornar uma das nossas histrias engraadas 
no futuro, quando recebermos convidados. Um dia, no entanto, procuraremos um lugar maior. Quando resolvermos ter filhos, uma casa com jardim ser mais adequada.
      Peguei a chave no criado-mudo e fiquei brincando com ela. Embora ainda nem fossem 5h30 da matina, eu j tinha acordado, por incrvel que parea. Dava para 
ouvir o barulho do trfego na Camden Road, e a trepidao das minhas janelas, em virtude da passagem dos caminhes pesados. Eu me revirara na cama durante quase 
toda a noite. Naquele momento, milhares de pensamentos me vinham  mente, impedindo-me de voltar a dormir, apesar de eu ainda poder contar com uma hora de sono antes 
de ter que me levantar para ir ao trabalho. Eu poderia aproveitar para saltitar na sala com a minha velha amiga Davina ou para dar o ar da minha graa na academia, 
mas a idia de gastar tanta energia naquela hora do dia me desanimou. Outra possibilidade seria ir correr ao longo do Canal Grand Union, porm era bem provvel que 
me assaltassem para levar o iPod - a ltima moda naquela cidade. Por mim, eu continuaria a ficar deitada, pastando; no entanto, para ser sincera, estava pensando 
demais em Paquera e no era nada relacionado ao trabalho. Eu tinha umas sensaes estranhas em lugares imprprios, considerando que se tratava do meu chefe. No 
era um bom sinal, era? Aquela histria de casamento vinha deixando meus nervos  flor da pele - como se s recentemente eu tivesse me dado conta da complexidade 
do compromisso. A bem da verdade, sempre soube que o casamento era um grande passo, mas parece que s naquele momento a ficha caiu. Sa da cama e, enquanto tomava 
uma ducha quente e relaxante, decidi dar um pulo no apartamento do Marcus para ver se me sentia melhor, antes de ir para o trabalho.
      Coloquei a chave no bolso, caminhei at a estao e peguei o metr para ir at o outro lado da cidade. Ns no tnhamos nos encontrado na noite anterior, j 
que ele trabalhara at tarde, e eu estava empacotando minhas coisas; entretanto, ele ligara  meia-noite, para dizer que me amava. Isso deveria bastar para mim, 
mas... bom, eu s queria v-lo naquela manh. J eram quase 6h30 e ele se levantaria em breve para ir correr, de qualquer forma. Quem sabe eu no me deitaria com 
meu noivo, se ele ainda no tivesse levantado, para convenc-lo a fazer outro tipo de ginstica para aquecer e suar... Andei rpido pela rua, com o intuito de encontr-lo 
em casa. Quando cheguei, abri a porta em silncio e entrei.
      Marcus j estava de p, tomando caf. Difcil  descrever em que p estava a situao. Ele tomava iogurte com frutas vermelhas amassadas e um toque de granola. 
Mas, em vez de usar a costumeira tigela, ele se achava na mesa, montado em cima da mesma mulher com quem estivera na ltima vez em que eu o pegara no flagra - cena 
que, por mais humilhante que fosse, no era to explcita quanto aquela. Joanne, de braos e pernas abertos, gemia de prazer. Marcus lambia o iogurte dos peitos 
incrivelmente eretos dela; as frutas haviam sido espalhadas na barriguinha sarada da moa e, para ser franca, eu no fazia a menor questo de saber onde tinham colocado 
a granola. Digamos que eu no imaginava que as pessoas, fora do universo dos filmes porns, comiam totalmente peladas.
      Fiquei assistindo  cena por alguns instantes, numa espcie de horror paralisante, enquanto o traseiro do meu noivo subia e descia. Minhas amigas do Clube 
das Choclatras tinham toda razo: Marcus nunca mudaria. Se eu me casasse com ele, teria que enfrentar aquele tipo de situao pelo resto da vida. Enquanto pensava 
no que fazer, notei que a gemedeira tinha cessado. Ele e Joanne me fitavam e no sei dizer quem estava com os olhos mais arregalados.
      -Vim tomar caf-da-manh com voc - disse eu, com firmeza. - Mas, pelo visto, voc comeou sem mim.
      Quando Marcus se ergueu, ouviu-se um "ploct". Notei que seu pnis cada vez mais murcho estava coberto de iogurte, e a idia de que assim, pelo menos, no teria 
que se preocupar com fungos cruzou a minha mente. Normalmente, meu noivo s comia torrada de manh. Fiquei imaginando quem teria ido comprar todos os ingredientes; 
ento, ca em mim: s mulheres compravam granola.
      Fitei a mulher e fiquei me perguntando o que acontecera com o conceito de irmandade. Se as mulheres parassem de fazer isso umas com as outras, haveria bem 
menos dor no mundo. Os homens, tenho que admitir, so uma causa perdida, mas bem que ns poderamos deixar de trair outras mulheres com seus maridos, namorados e 
noivos. Joanne ergueu um pouco o corpo, apoiando-se nos cotovelos, e me lanou um olhar to desafiante que eu quis arranc-lo da cara dela, de preferncia com um 
taco de beisebol.
      - Quem diria que veria voc de novo, e to rpido!
      O prato do caf-da-manh de Marcus pareceu estar desconcertado.
      - Eu posso explicar - disse ele, tentando descer da mesa com certa dignidade. Tarefa complicada.
      - Sou toda ouvidos.
      - Esta foi a ltima vez - disse ele, com seriedade. Havia pedaos de framboesa nos joelhos dele. - A ltima mesmo. Estava tendo um caso antes de me acomodar. 
Assim que voc viesse morar aqui, eu seria totalmente fiel.
      Pelo visto, Joanne no estava por dentro daquela parte do acordo, e olhou-o furiosa. Talvez, depois, ela arrombasse o apartamento e colocasse restos de comida 
nos sapatos e nas roupas dele, e ainda deixasse pitus fedorentos nos mveis sofisticados. Porque eu, com certeza, no me daria a esse trabalho de novo.
      -Voc ligou para dizer que me amava com ela aqui?
      Era evidente que a mulher tambm no ficara sabendo desse detalhe. Marcus mordeu os lbios.
      Fitei-o como se o estivesse vendo pela primeira vez. Parecia ridculo: iogurte no pnis, pedaos de frutas espalhados pelo peito e pelas pernas, cereal nos 
cabelos. De repente, comecei a dar gargalhadas. Ele tambm, de nervosismo.
      - Ah, Marcus - disse eu, abraando-me. - No d para acreditar que voc fez isso de novo. - Dobrei o corpo de tanto rir.
      - Eu amo voc. - declarou-se ele, desolado. E continuou a rir junto comigo, embora de modo forado.
      Quando, por fim consegui me controlar de novo, disse, com suavidade:
      - No estou morrendo de rir com voc, mas de voc, Marcus. - Tirei a aliana de noivado do dedo e coloquei-a com delicadeza no pote de iogurte prximo ao p 
de Joanne. Em seguida, peguei o pote e virei-o em cima da cabea de Marcus. O iogurte foi caindo aos poucos no rosto dele. Ele lambeu a bebida dos lbios. Talvez 
Joanne fizesse isso para ele, quando eu fosse embora. - Esta , sem sombra de dvida, a ltima vez que voc faz isso comigo, Marcus.
      Ento, sa do apartamento, fechando a porta com suavidade. Peguei a chave, que acabara de recuperar, e joguei-a na caixa de correio.
      Da rua, ouvi os gritos do meu ex-noivo, que tentava atrair minha ateno; no entanto, suas splicas se perderam na brisa. A caminho do metr, tive outro acesso 
de riso. Lgrimas comearam a rolar por minha face, enquanto eu gargalhava histericamente pela rua. Quando cheguei  estao, no consegui fazer minhas pernas se 
moverem mais e ca sentada no cho, perto das mquinas de venda de bilhetes. Eu me abracei e me encolhi toda num canto. Continuei a rir, enquanto os passageiros 
passavam por mim para comprar seus bilhetes, indiferentes aos problemas da mulher atordoada aos seus ps. Ria sem parar. Ria do ridculo da situao. Ria da estupidez 
de ter acreditado que Marcus tinha mudado. Ria ao lembrar do pnis coberto de iogurte, naquela que foi uma das cenas mais idiotas que eu j vi na vida. Ria por estar 
sozinha de novo, sem saber o que fazer. Ria porque j no precisaria mais encontrar uma desculpa para no me casar em Trington Manor. Ria tanto que chorava, sem 
parar.
      
      
      
      
      
      
   Captulo Setenta e Seis
   
   
  Q
uando cheguei ao escritrio, meu estado de nimo se tornara melanclico. No tinha mais acessos de riso e j consumira trs tabletes de Crunchie, chocolate com recheio 
de caramelo aerado, na esperana de aumentar meu nvel de acar e me sentir melhor. Marcus me ligara trinta e seis vezes at aquele momento; ignorei todas as mensagens, 
que, francamente, no eram nada originais: Eu amo voc, posso explicar, ela no significa nada para mim e assim por diante. Por que os homens sempre achavam que 
deviam desmerecer a mulher com quem eram pegos, dizendo "ela no significa nada para mim"? Seria para nos fazer sentir melhor? Se algum resolvia colocar em risco 
uma relao, que ao menos o fizesse com uma pessoa significativa. No vejo motivo para esse pequeno contratempo atrapalhar nossos planos de casamento foi a outra 
mensagem enviada, que quase me fez gargalhar histericamente de novo.
      Paquera j tinha chegado quando entrei na sala, ento fui at a mquina de caf e me arrisquei a lidar com a complicada tecnologia, para pegar um caf com 
leite e dois saquinhos de acar. Ento, levei-o para ele, juntamente com o Twix que lhe comprara.
      Aiden Holby estava recostado na cadeira, com o p da perna engessada apoiado na mesa. Coloquei o caf com leite e o chocolate na frente dele.
      - Caiu do cu - disse ele, esfregando as mos. Quando comeou a abrir o Twix, perguntou: -Tudo bem com voc hoje, Sra. Gata?
      - Srta. Gata - corrigi, esticando a mo para mostrar o dedo sem aliana.
      - Nossa! - observou Paquera. -To rpido?
      - Diamantes so para sempre. As esmeraldas, pelo visto, tm vida curta.
      - Quer falar sobre o que houve?
      - Na verdade, no.
      - Olhos vermelhos e mas do rosto manchadas nunca so bons sinais numa mulher. Voc pegou o cara transando com outra?
      - Peguei.
      - Quando? Olhei para o relgio.
      - Faz quase uma hora. Mas eu j estou bem. - Senti uma pontada no corao. Nunca mais ia tomar iogurte de novo, nem comer frutas vermelhas, nem granola. Ainda 
bem que Marcus no tinha espalhado chocolate naquela galinha.
      - Vou levar voc para almoar - disse Paquera, de forma decisiva. - Escolheremos um lugar especial e fingiremos que estamos falando de trabalho. Voc vai incluir 
nos gastos e eu vou aprovar. Certo? - Assenti. -Tenho uma notcia para contar.
      -  boa? - No achava que agentaria receber outra m notcia naquele dia.
      Paquera moveu os dedos na extremidade do gesso e estudou-os atentamente.
      - Depende do ponto de vista.
      Parecia se tratar de algo que eu no queria escutar, mas, como envolvia boca-livre, no vi motivo para deixar de ir.
      - Bom, melhor eu ir trabalhar um pouco - disse eu. Ou, ao menos, fingir que estava fazendo alguma coisa. Meu nvel de produtividade no seria muito bom naquela 
manh.
      - Fico feliz em saber que no vai se casar, por motivos totalmente egostas.
      - E quais seriam eles?
      Ele formou um tringulo com as mos e me fitou, sobre elas.
      - Se algum vai se casar com voc, serei eu.
      - No achei nada engraado! - exclamei, batendo a porta da sala ao sair.
      
      
      
      
      
      
      
   Captulo Setenta e Sete 
      
      
      
      
 A
 hora do almoo levaria uma eternidade para chegar. Enquanto isso, eu me distra registrando as cifras de vendas no computador; no entanto, acabei perdendo as informaes. 
Como a minha meia-cala rasgou por causa de uma lasca debaixo da mesa, fui me queixar das precrias condies de trabalho da empresa com Helen, a chefe rabugenta 
do RH. Ela revidou afirmando que, como meu contrato temporrio talvez no fosse renovado no final do ms, no faria a menor diferena para mim.
      Para completar os eventos matinais, ignorei outras quarenta e trs ligaes de Marcus. Cheguei a desligar o som do celular, deixando o aparelho no vibracall, 
de modo que, embora eu ainda tivesse de v-lo se mover loucamente em cima da minha bolsa, no precisava mais escut-lo tocar. Tomara que meu ex tivesse uma leso 
por esforo repetitivo no dedo, de tanto teclar. Tomara que as teclas do celular dele emperrassem.
      Por fim, quando estava prestes a apoiar a cabea na minha mesa e chorar, j convencida de que Paquera se esquecera por completo do convite para almoar, ele 
foi at a minha sala e perguntou:
      - Est pronta, gata?
      Pegando o casaco, eu o segui at o elevador, percebendo que, nas ltimas semanas, meu chefe vinha se locomovendo cada vez melhor com as muletas. Senti uma 
enorme compaixo por ele e, quando ficamos sozinhos no elevador, sorri afetuosamente.
      - O que foi? - perguntou Paquera, franzindo o cenho.
      - S estou sorrindo para voc, com simpatia.
      Ele deu um assobio e meneou a cabea como um servente de obras tarado.
      - No sei se posso agentar isso, gata.
      Eu o golpeei com a bolsa, de brincadeira. Talvez tenha usado fora demais, pois acabei tirando a muleta de sua mo, fazendo-o perder o equilbrio.
      - Ah, droga! - exclamei, dando um salto para ajud-lo.
      - Assim est bem melhor! - disse ele, com um sorriso satisfeito ao se levantar de novo, limpando o terno. - Essa  a Lucy que eu conheo e adoro.
      - Melhor se comportar ou vou prender sua perna na porta do txi! - avisei-lhe.
      Quando conseguimos chamar um, tomei todo o cuidado para ajudar Paquera a entrar primeiro e no prender a perna dele na porta. Afinal, toda brincadeira tem 
um fundo de verdade.
      O taxista nos levou rapidamente ao The Tower, um dos restaurantes mais badalados da cidade. Ficava num armazm reformado, ou algo assim, situado na margem 
sul do Tmisa. Com vista para o rio, era administrado por um daqueles famosos chefs da TV, no o que falava palavro pra caramba, o outro. Era o tipo de lugar em 
que eu faria o possvel para no deixar ervilhas - ou o mlange de petits pois - carem na mesa ou no cho, evitando pagar mico. Ns pegamos um elevador at o quarto 
andar e nos sentamos a uma mesa perto da janela. Paquera colocou as muletas no cho, perto de ns.
      - Que lugar lindo - disse eu, perguntando-me se ele j teria levado a vaca da Charlotte e Donna, do processamento de dados, ali. Barcos lotados de turistas 
iam e vinham nas guas acinzentadas do Tmisa. Naquele dia, o sol brilhava, fazendo o rio cintilar como prata. Apesar de morar em Londres h anos, eu nunca tinha 
ido aos lugares tursticos; talvez devesse visit-los no vero seguinte. Com certeza teria muito tempo livre dali para a frente.
      O cardpio era incrvel, mas no meu no constavam os custos dos pratos. Seria por causa do movimento em prol da igualdade? Porm, eu no tinha dvidas de que 
ali no se consumia nada por menos de cinco libras, nem mesmo um copo d'gua. Mas a conta ficaria a cargo da Targa, que s me pagava uma misria. Fizemos nossos 
pedidos e, ento, Paquera sugeriu:
      - Vamos tomar champanhe. Estou precisando beber, e acho que voc tambm est. - O garom nos trouxe uma garrafa de uma marca carssima, que borbulhou nas nossas 
taas. Meu chefe fez um brinde: - Isto est parecendo um encontro pessoal, gata. - E, ento, deu uma risada nervosa.
      Eu fiz o mesmo e comentei:
      - Tem razo, est parecendo sim. - Em seguida, virei a taa, agradecida. - Posso fazer uma pergunta? - Resolvi faz-la de qualquer forma, antes que eu mudasse 
de idia. - Voc comeou a me chamar de gata porque no se lembrava do meu nome?
      - No, simplesmente porque voc  uma gata.
      - Ah. - Ele me fitou esperanosamente. - Bom, ento, tudo bem - acrescentei, como se o estivesse perdoando.
      Ele riu de novo e, para minha surpresa, segurou a minha mo, sobre a mesa. Meu corao comeou a bater acelerado.
      - Hora da verdade. Fui eu que mandei aquele buqu de rosas, que custou uma fortuna, para o escritrio.
      - Voc? 
       Ele assentiu.
      - E eu que achei que tinha sido o Marcus!
      - . Eu fiquei puto da vida com isso. Fiquei horas pensando numa mensagem enigmtica adequada, e a o Derek Sujo vai e perde o carto. Acabou me fazendo perder 
a garota tambm.
      - No de todo - corrigi.
      - Fazia sculos que queria chamar voc para sair - confessou ele, com uma expresso amarga, entrelaando os dedos nos meus. - No sei por que no chamei.
      -Talvez por ser um misgino avesso a compromisso?
      - Ou simplesmente por ser tmido e inseguro. - Ambos demos risadas. - E ns dois estvamos envolvidos em outras relaes.
      - Bastante desastrosas - lembrei-lhe.
      - Um brinde a isso, gata - disse ele, erguendo a taa.
      - Bom, estou disponvel agora - avisei, sem dar uma de recatada. Era evidente que j sentia o efeito do champanhe. -  melhor voc me pegar logo, antes que 
eu me torne freira. Ou lsbica. Ou ambas.
      - De repente, vou esperar para ver - brincou ele. - Acho que vai ser divertido.
      Soltei um suspiro e recorri  minha melhor voz sensual.
      - No acha que a gente j esperou demais?
      - Eu tinha planejado trazer voc aqui hoje para tentar convenc-la a deixar o Marcus - admitiu Paquera, enrubescendo um pouco. - Ainda bem que ele facilitou 
as coisas para mim. - Comecei a rir, mas nada que se assemelhasse ao ataque histrico que tivera de manh. - Agora, s preciso convenc-la a ficar comigo.
      - Acho que no vai precisar se esforar muito. -Teoricamente, eu deveria ficar algum tempo sozinha para me refazer do corao partido, mas, como j agira assim 
tantas vezes antes, sabia que no dava certo. Na minha opinio, era melhor mesmo mergulhar de cabea numa relao e mandar tudo para o inferno.
      Paquera fez um biquinho.
      - S que tem um pequeno porm. Por que eu no estava surpresa?
      - Eu fui promovido.
      - Que legal! Parabns! -Tocamos as taas de novo e sorvemos a bebida. O mundo comeou a girar um pouco mais rpido do que deveria. - Mas no  uma boa notcia?
      -Vou ser diretor do Departamento de Vendas Internacionais.
      - Uau! Acho que deveria tirar o chapu para voc.
      - Dou a maior fora. Pode tirar. - Ri, enquanto tomava mais champanhe. - Minha primeira misso ser criar um novo setor de marketing...
      -Voc vai fazer um timo trabalho. -... Na Austrlia. O mundo parou.
      - Austrlia?
      - No  to longe assim - acrescentou ele, depressa. - No mesmo.
      Ficava a lguas dali. A lguas e mais lguas. E mais lguas ainda... At mesmo nos dias atuais, em que se viaja com tanta facilidade, em que o mundo ficou 
pequeno e virou uma aldeia global, a Austrlia ficava longe  beca. Quando no se pode ir at o pas com uma passagem de dez pratas comprada naquela companhia area 
supereconmica, significa que o lugar fica mesmo no fim do mundo.
      -  s por seis meses, nada mais. E da, eu volto para c.
      Seis meses. Sabe-se l o que poderia acontecer nesse nterim. Quais eram as chances de ele evitar as atraes locais durante vinte e seis semanas? J podia 
at v-lo, correndo na praia de Bondi, em cmera lenta, ao lado de uma louraa peituda, que nem a do seriado S.OS. Malibu com pranchas de surfe debaixo dos braos, 
os corpos bronzeados torrando sob o sol forte. No era um cenrio agradvel.
      - Acontece que... - comeou Paquera, e tentei apagar aquela viso deprimente da minha mente. - Acontece que... eu queria que voc fosse comigo, gata.
      Ento, entrei em estado de alerta.
      - Eu? Com voc? Na Austrlia? - Minha voz soou mais alta do que deveria naquele restaurante chique, ou, a bem da verdade, em qualquer lugar. - Eu? Com voc? 
Na Austrlia? - repeti, incrdula. Por isso, nunca tinha sido uma das melhores alunas no colgio. Minha mente trabalhava superdevagar nos momentos de crise. Sofria 
 beca na hora das provas.
      - Hoje de manh, no pensei em outra coisa. Seria timo. - Ele apertou minha mo, encorajando-me. - O momento no poderia ser melhor, de certa forma. O que 
a prende aqui? Voc e o Marcus terminaram. Seu trabalho  uma droga, sem perspectiva. No tem compromissos.
      No sei se gostei do jeito humilhante como Aiden Holby descreveu minha vida. Parecia real demais.
      - Ser uma forma de ns dois comearmos do zero. A gente pode deixar a nossa relao se firmar longe de toda essa confuso. - Fez um gesto amplo. - O que temos 
a perder? Ns nos conhecemos bem o bastante para saber que pode dar certo, no acha?
      Comecei a rir de novo, dessa vez com certo toque de histeria, talvez ressaltado pelo consumo excessivo de lcool.
      - Acho - concordei, sem flego. Assim que exprimi isso em voz alta, pensei: a gente pode fazer isso, pode sim. Como ele mesmo tinha dito, o que me prendia 
ali? As nicas pessoas de quem eu realmente sentiria falta seriam as minhas amigas do Clube das Choclatras. Sem dvida, haveria um grande vazio na minha vida sem 
elas. E havia algum mais com quem eu no pudesse deixar de viver? Nem uma s alma. Alm do mais, na Austrlia tem chocolate, no tem? Claro que sim. Ou, ento, 
o Clive poderia me enviar caixas deles pelo correio. De repente, eu at abriria uma filial australiana do Clube das Choclatras.
      - Quer dizer que aceita? - Ele parecia estar ansioso. -Voc vai comigo?
      -Vou - disse eu, rindo. -Vou sim.
      Acomodando melhor a perna, Paquera inclinou-se sobre a mesa e me puxou para perto.
      - No sabe como fico feliz em ouvir isso.
      Ento, sua boca foi ao encontro da minha e ele me beijou, no meio daquele restaurante gr-fino, com todo mundo olhando. Ouviu-se um bater de talheres. Tive 
a impresso de que acabei jogando ervilhas no cho, mas nem liguei. Os lbios dele eram quentes, macios e tinham gosto de champanhe. Um tremor de excitao percorreu 
todo o meu corpo, indo at a ponta dos ps, parando em lugares estratgicos no caminho. E eu sabia que tambm estava feliz por ter aceitado ir.



Captulo Setenta e Oito



 P
edimos outra garrafa de champanhe e comeamos a tom-lo rpido demais. A bebida subiu direto para minha cabea, provocando certa vertigem. Mas eu no estava s tonta 
em virtude da bebida, mas da felicidade que sentia.
      - Quando voc acha que vai? - perguntei, sonhadora.
      - Quando ns vamos, gata - corrigiu Paquera, e senti outra onda percorrer lugares estratgicos. - Assim que eu tirar isto. - Olhou para o gesso. - Acho que 
no se pode viajar com a perna engessada. Mas, pelo que sei, vo tirar o gesso na semana que vem. Ento, eu vou na outra.
      S faltavam duas semanas!
      - Preciso alugar o meu apartamento. -Tambm precisaria de shorts, camisetas, protetor solar fator quinhentos e repelente de mosquitos com potncia industrial.
      -Vou pagar a passagem para voc.
      - Nem pensar! - exclamei, com mais ousadia do que meu saldo bancrio permitia. -Voc, na certa, vai gastar muito dinheiro agora. Posso dar um jeito. - Pagaria 
com o carto de crdito, usando todo o limite. Ser que minhas dvidas teriam que ser pagas, do outro lado do mundo? Acho que sim.
      - A gente vai ficar em Sydney - explicou Paquera. Ele estava comeando a tropear um pouco nas palavras e achei que deveramos beber mais devagar; entretanto, 
pelo visto, a garrafa j fora esvaziada. Como  que o champanhe acabou to depressa? - No conheo, mas dizem que  tima. A Targa vai pagar o aluguel do meu apartamento.
      - Do nosso - corrigi, e demos risadinhas infantis. - Nossa, o que  que vo dizer l no escritrio?
      - Que diferena faz? - indagou Paquera, acariciando minha mo.
      - Acho que vo se surpreender. Eu estou surpresa. - Esperem s at a vaca da Charlotte ficar sabendo. R-r-r. Quem diria! Mulherona esqueltica e linda? 
No. Choclatra cheinha? Sim.
      - Eu vou poder trabalhar l?
      - No sei - reconheceu Aiden. - Talvez a Targa consiga dar um jeito.
      -Vou falar com as velhas rabugentas do RH. - Acho que adorariam encontrar algo para mim na Austrlia, se soubessem que se livrariam de mim por algum tempo.
      Conseguimos ficar sbrios o bastante para pedir sobremesa. Uma imensa taa foi colocada entre ns e eu tentei colocar a ltima poro de musse de chocolate 
branco na boca de Paquera, s que errei o alvo e acertei a ponta do nariz dele. Demos risadinhas abafadas enquanto ele se limpava com o guardanapo.
      -Tem certeza mesmo de que quer fazer isso? - perguntei, tentando parecer o mais sbria possvel.
      - Dividir a sobremesa?
      - No, seu bobo. Me levar para a Austrlia. - Continuamos a ter pequenos ataques de riso.
      -Tenho certeza. E voc? Fiquei emocionada ao responder:
      - Eu tambm.
      Com o polegar, ele enxugou a lgrima que rolou pelo meu rosto.
      - Quero cuidar de voc. - Contemplou-me com olhar sonhador. - Com muito carinho e amor.
      - Eu tambm quero fazer isso - disse eu, sem flego. Peguei a mo dele e a mantive na minha face. - No vamos voltar para o escritrio - sugeri. Para ser franca, 
eu queria que o carinho e a paixo comeassem logo. - Ningum vai sentir nossa falta. Vamos para o meu apartamento.
      -  uma tima idia, gata.
      De alguma forma, conseguimos pagar a conta e levantar. Paquera oscilava enquanto saltitava, tentando colocar as muletas numa posio confortvel.
      -Voc est bem?
      Ele deixou escapar um suspiro forte, tentando se equilibrar e parecer sbrio.
      - Estou, estou sim.
      Tentei gui-lo enquanto saamos do restaurante, tirando cadeiras do caminho para abrir passagem, embora eu mesma estivesse cambaleando. A segunda garrafa de 
champanhe no tinha sido uma boa idia; no mesmo.
      Assim que samos do restaurante e chegamos a um corredor tranqilo, Paquera me puxou para si. Eu encostei o corpo na parede, e ele pressionou o dele contra 
o meu, beijando-me com ardor. Suas mos passearam pelo meu corpo e eu desejei que minhas roupas fossem mais finas e sedosas, e que no estivessem ali. Fervendo por 
dentro, eu o abracei, notando que, antes, no fazia a menor idia do que era um verdadeiro amasso. O pouco bom senso que me restava foi embora, num piscar de olhos. 
Mal podia esperar para lev-lo ao meu apartamento.
      - Ser que perdemos a cabea, agindo assim? - sussurrou Paquera, no meu ouvido.
      - Perdemos sim - respondi, ofegante. - Estamos sendo totalmente imprudentes, o que eu acho maravilhoso.
      - Eu tambm.        
      Era evidente que Paquera me queria tanto quanto eu o desejava. Por que os restaurantes no alugavam quartos para os clientes? Prestariam um excelente servio 
se fizessem isso. Devia haver outros casais que ficavam daquele jeito, depois de um timo almoo e muita birita. Casais! Paquera e eu estvamos juntos! ramos um 
casal!
      Antes que explodssemos, ns nos separamos com esforo, ajeitamos as roupas e trocamos olhares ligeiramente tortos de desejo para, s ento, tentarmos sair 
do restaurante. Tudo ia muito bem at chegarmos ao elevador. Tinham pendurado uma placa com a inscrio COM DEFEITO na porta.
      - Droga, ele quebrou. E agora?
      - Posso descer de escada - disse ele, corajoso.
      - Mas a gente est no quarto andar.
      Um olhar de incerteza cruzou seu semblante. -Tenho certeza de que consigo.
      - J tentou fazer isso de muletas?
      - No - admitiu ele.
      -Vamos ver se tem um elevador de servio. Mesmo que a gente desa junto com as verduras, ser melhor que usar a escada.
      - Eu consigo, sem o menor problema - disse Paquera, j se dirigindo para a escada e se pondo a saltar com cuidado os degraus. Meu corao foi  boca, pois 
ele estava sem equilbrio. Eu tambm cambaleava bastante e nem tinha que lidar com um complicado par de muletas. No conseguia nem olhar para ele.
      Mal tnhamos descido meia dzia de degraus e Paquera oscilou perigosamente; entretanto, equilibrou-se a tempo. Deu uma risadinha ao recuperar o flego.
      - Esta foi por pouco! - comentou.
      -  melhor eu ir na sua frente. Vou tentar firmar mais as muletas.
      - No  necessrio.
      - Pode crer,  necessrio sim.
      Ento, recomeamos o processo, desta vez comigo na frente, descendo de costas, virada para ele.
      Paquera saltou na minha direo. Acho que estava um pouco mais firme.
      -Vamos. Isso. Cuidado!
      - Estou bem Lucy, srio! Melhor voc prestar ateno na escada. Eu estava com os braos abertos, para segur-lo caso ele tropeasse.
      - Assim. Devagar.
      - A escada est estreitando atrs de voc - avisou Paquera.
      - O qu? - Quando me virei para olhar, no sei bem o que aconteceu, mas torci o tornozelo, perdi o equilbrio e cambaleei. Por instinto, Paquera largou as 
muletas e inclinou-se, tentando me segurar, mas escorregou e no conseguiu. Ento comecei a cair. E fui caindo, caindo, caindo no ar.
      
      
      
   Captulo Setenta e Nove 
   
   
   
D
avina saltava feito uma louca, ao contrrio de mim. Eu estava deitada no sof, saboreando uma caixa de chocolate Gorgeous, da Bendicks, equilibrada na minha barriga. 
Fingia que, pelo simples fato de assistir a um DVD de exerccios, estaria perdendo calorias por osmose. Minha perna quebrada, com o gesso rosa-shocking, encontrava-se 
apoiada num monte de almofadas. Parecia que milhares de formigas andavam l dentro, enlouquecendo-me. Era inacreditvel que Paquera tivesse enfrentado aquilo sem 
reclamar. J eu tomava analgsicos sem parar e me queixava da vida para qualquer um estpido o bastante para me ouvir. Cheguei at a ligar para minha me todos os 
dias, para me lamentar; ento, d para ter uma idia do ponto a que cheguei. Por algum motivo, senti que o gesso era um pequeno preo a pagar aps ter despencado 
espetacularmente na escada do The Tower.
      Ouviu-se uma batidinha alegre  porta e Aiden entrou. Por ironia do destino, ele, ao contrrio de mim, j no tinha que suportar o peso do gesso, embora usasse 
uma bengala, que lhe dava um ar sofisticado. Meu namorado foi me dar um beijo.
      - Como est se sentindo esta manh, gata?
      - Mal-humorada - avisei, afastando a caixa de chocolates, no antes de ele pegar um.
      - Anime-se! - disse ele, dando-me outro beijo.
      Fazia uma semana que Paquera tirara o gesso e, obviamente, ele tinha que ir para a Austrlia como diretor do Departamento de Vendas Internacionais, para criar 
a nova diviso de marketing da Targa. Partiria naquele dia. Sozinho.
      - Est com um bom estoque de chocolate? - perguntou Aiden. A geladeira estava entupida de guloseimas. Eu estava entupida delas. Apesar de ter um namorado supersexy, 
era minha nica fonte de consolo. Por causa da minha deficincia temporria, Paquera e eu ainda no tnhamos consumado a relao - o que era mais do que frustrante. 
Claro que a gente tinha dado uns tremendos amassos,  moda antiga, mas, s vezes, no basta, no ? Ainda mais considerando que ele estava prestes a sumir de vista 
no outro lado do mundo, por seis meses.
      - Trouxe mais para voc. - Paquera colocou diversas barras e caixas de chocolate na mesinha de centro. - Caso voc estivesse a perigo.
      Eu me tornaria uma baleia de cem quilos, cheia de espinhas, quando comeasse a andar. Mas, por incrvel que parea, apesar de todos os percalos daquele momento 
da minha vida, eu estava mais satisfeita do que nunca. J no metia a cabea na privada por causa dos excessos, o que era uma tima notcia, certo? Estava com a 
auto-estima em alta, mais satisfeita comigo mesma, chegando at a melhorar a autoconfiana debilitada. Embora nfima, uma sementinha de felicidade ameaava crescer 
e florescer dentro de mim. Eu atribua tudo isso ao trmino irrevogvel do namoro com Marcus, o Maldito Namorado do Quinto dos Infernos, e sua substituio pelo 
sereno Paquera, que vinha sendo absolutamente incrvel nas ltimas semanas. Como eu conseguira viver sem ele todo aquele tempo? Como conseguiria viver sem ele quando 
partisse? Acesso de pnico. Pegar chocolate. Comer chocolate. Suspirar aliviada. Vou ter que agentar as pontas enquanto ele estiver do outro lado do planeta.
      Todas as amigas do Clube das Choclatras tinham ido me visitar naquela semana, levando inmeros chocolates, de diversos tamanhos e formas, alm de muita comiserao. 
Deram-me tambm alguns dos livros sobre meu alimento favorito, que podiam ser encontrados na pequena livraria do Paraso do Chocolate, para que eu me distrasse, 
juntamente com os DVDs Chocolate e A Fantstica Fbrica de Chocolate, ambos com o inigualvel Johnny Depp. Ser que ele tambm era louco por esse confeito? Eu o 
idolatraria mais ainda se fosse. Naquele momento, eu me dedicava  leitura do livro "Amigos, Amantes e Chocolate", de Alexander McCall Smith. Preferi deixar Johnny 
Depp para depois, quando eu estivesse no fundo do poo. Minhas amigas iriam me visitar mais tarde, para me animar.
      - Que flores lindas! - exclamou Aiden.
      Havia um imenso buqu de flores holandesas no aparador.
      - Entregaram esta manh. - Daquela vez, eram mesmo do Marcus. Mas que tremenda cara-de-pau! No sei como descobriu que eu tinha quebrado a perna; na certa, 
algum amigo em comum deve ter contado para ele. O carto, com suas palavras piegas, foi direto para o lixo: Eu ainda a amo muito. Beijinhos. Sinto muito! Balela! 
J tinha visto aquele filme, Marcus; aquela histria no colava mais. Estava com um namorado fabuloso no seu lugar. R! Ainda assim, gostei tanto das flores que 
fiquei com pena de jog-las fora. Teria sido um desperdcio. - Um velho amigo mandou! - disse para Paquera, sem querer nem mesmo pronunciar o nome de Marcus, quanto 
menos dar a ele crdito pelo bom gosto em flores.
      Se meu novo namorado suspeitou da procedncia das flores, no disse nada.
      - No quero deixar voc - revelou ele, acariciando meus cabelos e prendendo uma mecha atrs da minha orelha.
      -Vou ficar bem - disse-lhe, comeando a chorar. Ele me abraou.
      - No vai demorar muito. Assim que voc tirar o gesso, pode ir tambm. - Ainda levaria algumas semanas; eu sabia, por experincia prpria. Ele enxugou as lgrimas 
com a ponta da minha camisa. - Vou deixar tudo pronto para a gente. Talvez seja melhor assim. - Ento, deu-se conta da idiotice que falara e ambos rimos. - Est 
bom talvez no seja melhor assim, mas voc entendeu o que eu quis dizer.
      Eu me recostei de novo nas almofadas. O acordo parecia um pouco ilusrio para mim, naquele momento. Ainda achava que, assim que Paquera chegasse ao outro lado 
do mundo, iria se esquecer de mim. O filme com a loura peituda na praia continuava passando na minha cabea.
      - No posso ficar muito - disse ele, cortando a tempo meu filmezinho, que estava prestes a se tornar meio porn. - Chamei um txi para me pegar daqui a pouco, 
pois tenho que empacotar um monte de coisa.
      - Espero que d tudo certo por l. Vou sentir muitas saudades suas.
      - Eu tambm, gata. - Ele se ajoelhou na minha frente e ps as mos no meu quadril. Instantes depois, estvamos nos agarrando. Ento, aos poucos, ele comeou 
a desabotoar minha camisa, de baixo para cima, dando beijos quentes em toda a minha barriga  medida que o fazia. - Quero me lembrar de voc exatamente assim.
      - O qu? Gorda, desarrumada, triste, debilitada e totalmente frustrada?
      - No. Linda como sempre.
      - A gente podia transar pelo menos uma vez - sugeri, esperanosa. - Aqui. Agora. Rapidinho.
      - No quero apressar as coisas. - Aiden franziu o cenho. - J esperamos tanto para ficar juntos que quero fazer tudo direito.
      - Eu me daria por satisfeita com tudo errado,
      - A gente pode esperar.
      Talvez ele pudesse, mas eu no tinha tanta certeza, assim.
      -Venha deitar aqui, pertinho de mim. - Eu troquei de posio e Paquera se deitou ao meu lado. - S me abraa.
      E, obviamente, em questo de segundos, estvamos indo muito alm de um simples abrao. Com lbios febris, buscvamos mais. Nossas mos se moviam com uma agilidade 
impressionante. A camisa de Paquera estava aberta e, a minha, j havia sido atirada em algum canto; o suti, em breve, tambm seria arrancado. A tenso aumentava. 
Meus mamilos - e outras coisas - estavam bastante eretos. Todos os lugares que deveriam ser beijados foram, at mesmo os que, talvez, no devessem. Tudo ia s mil 
maravilhas, como mandava o figurino. Suspirei de prazer.
      - Ah, Lucy - sussurrou Aiden, no meu ouvido.
      Aquilo era um sonho. Cada clula nervosa do meu corpo adquiriu vida prpria, provocando incrveis sensaes. Aiden abriu o zper da minha saia. Com muita dificuldade, 
ele a passou pelos meus quadris, deixando-a na altura do gesso. Por mais que eu estivesse entrevada por causa da perna quebrada, meu poder de deusa do amor no diminura 
- de jeito nenhum! Naquele momento, s a minha calcinha fina e sensual se entrepunha entre mim e o xtase; ainda bem que eu colocara uma roupa ntima legal naquela 
manh. No que achasse que aquilo iria acontecer... Imagine! Paquera ps os polegares na minha calcinha e, dando por encerrada, de uma vez por todas, minha antiga 
ameaa de que ele nunca colocaria as mos nela e no meu bumbum, comeou a tir-la.
      - Espere! Espere! - pedi. -  melhor eu virar para este lado, para facilitar as coisas. - Mais fcil falar do que fazer. Eu joguei a perna sobre Paquera e, 
no sei bem o que aconteceu, mas acabei girando demais.
      - Ai, Lucy! - No foi um grito de felicidade.
      Ele me soltou, e eu ca do sof, despencando toda desengonada no piso. Darren acharia que eu estava fazendo exerccios com Davina de novo.
      -Voc est bem? - quis saber Paquera. Ele me olhava de esguelha, esforando-se para conter o riso.
      - No quebrei a outra perna, se  o que quer saber.
      Paquera me ajudou a levantar, ajeitando a minha saia, que continuava a circundar meus joelhos. J no havia mais clima. s vezes, a gente simplesmente sente 
que o momento passou.
      - Melhor esperar voc tirar isso - sugeriu meu namorado. Obviamente, ele se referia ao gesso, e no ao resto da roupa. - No quero que se machuque mais.
      A nica coisa ferida ali era, mais uma vez, meu orgulho. Paquera abotoou a camisa.
      -Tenho que ir, gata.
      - Bem que eu podia ir at o aeroporto...
      - Preferiria que voc ficasse em casa e no fosse a nenhum lugar at retirar esse troo. - Apontou para o gesso. - Se j se mete em confuso quando est bem, 
no quero nem pensar no que pode causar com um par de muletas.
      -Voc no teve problemas.
      -  porque os homens so seres superiores no que diz respeito a... bom, tudo.
      Bati nele com uma das minhas almofadas.
      - Quer refrescar minha memria e me dizer por que eu amo voc?
      - Porque assim que voc estiver bem vou lev-la para uma vida melhor, como todo bom paladino de armadura brilhante.
      Meus olhos ficaram marejados de lgrimas de novo. Chegara a hora de Paquera partir. Mordi os lbios, tentando no chorar.
      - Eu amo voc.
      -Tambm a amo, gata.
      - No vai se esquecer de mim, vai?
      Ele segurou minha face e me deu um sonoro beijo.
      - Como poderia?





Captulo Oitenta 





      
 M
inha vida amorosa no passa de um mar de lgrimas, pelo qual navego com dificuldade - disse eu, suspirando profundamente, como uma herona romntica. - Em breve 
sua vida amorosa ser um campo primaveril, repleto de flores silvestres, pelo qual voc serpentear feliz - ressaltou Chantal.
      - Isso depois que tirarem o gesso da minha perna, no ?
      - Claro.
      - Tem campos com flores de primavera na Austrlia? - indaguei.
      - Pare de reclamar, Lucy - pediu Nadia. - Coma mais chocolate.
      Ficaria feliz em obedecer, mas eu no conseguia alcanar a bandeja de biscoitos com pedaos de chocolate, j que estava com a perna engessada apoiada numa 
cadeira. Para faz-lo, teria que recorrer a uma das minhas posies mais radicais de ioga, o que eu no estava nem um pouco a fim de fazer naquele momento. Autumn 
ps um fim  minha tormenta, pois, assim que acabou de assinar o gesso com um marcador preto, passou um biscoito para mim. Eu estava recostada num monte de almofadas, 
no Paraso do Chocolate.
      - Este  s um contratempo temporrio - lembrou ChantaL - Quando menos esperar, j estar a caminho da Austrlia.
      - Ser mesmo? - Do jeito que as coisas iam na minha vida, um final feliz nunca era uma certeza.
      - Paquera envia mensagens de texto e telefona dez vezes por dia - disse Autumn.
      Sorri, satisfeita. Graas  tecnologia moderna, ns nos comunicvamos com facilidade, apesar de morarmos em lugares com fusos horrios diferentes. Abracei 
com carinho uma das almofadas de Clive.
      --  verdade.
      - Ento, quando chegar l, ele estar babando por voc. Considerando as mensagens picantes que vnhamos trocando,
      acho que j estava. Nossa tentativa frustrada de transar no sof l de casa no tinha desestimulado meu namorado.
      - Alguma notcia do canalha do Marcus? - perguntou ChantaL Meneei a cabea. - No.
      - timo. Vamos torcer para que nunca mais a procure.
      - E exatamente o que eu desejo.
      - E bem possvel que ele venha buscar mais informaes quando souber que voc est indo para a Austrlia. No baixe a guardai - avisou Nadia,  semelhana 
de um carto-postal dos tempos de guerra.
      - No posso acreditar que vai nos deixar - disse Autumn. - O que vamos fazer sem voc?
      Para ser franca, eu tambm no acreditava que estava indo. O que eu faria sem minhas melhores amigas? A quem recorreria nos momentos de crise? Eu no tinha 
dvidas de que, embora estivesse me mudando para o outro lado do mundo, as crises me perseguiriam como uma matilha faminta. Ns tnhamos passado por tantas coisas 
juntas nos ltimos meses. O que eu faria sem os encontros freqentes com as participantes do Clube das Choclatras?
      -Voc vai manter contato? - prosseguiu Autumn, com os olhos marejados.
      - Caramba! Eu no vou amanh. Levarei semanas para conseguir organizar tudo. - Olhei com desdm, mais uma vez, para o gesso. - Ainda tero que me agentar 
por um bom tempo. Vo ter que dar um jeito na vida de vocs antes que eu parta. Ento, vou querer receber notcias o tempo todo, na Austrlia. - Acenei para Autumn. 
- No se esquea de mandar para mim o convite do casamento, se tudo der certo entre voc e Addison. Posso voltar a qualquer momento.
      Autumn enrubesceu.
      - Lucy!
      - Sei de um bom salo que tem vaga no Dia dos Namorados. No tem lugar mais romntico! - sugeri.
      - Bom, eu continuo tentando dar um jeito na minha vida - informou Nadia. - J faz mais de um ms que o Toby no joga. E, desta vez, acredito nele quando diz 
que abandonou de vez o vcio. S quero ter certeza antes de voltar correndo para ele, com o Lewis. Se Chantal continuar a agentar a gente... - Fitou a amiga.
      - Pode acreditar - disse Chantal -,  um prazer. Quando chego do trabalho, encontro um jantar incrvel me esperando, com uma taa de vinho. Talvez devesse 
me separar do Ted e me casar com voc, Nadia.  uma tima companheira! - Todas rimos, embora os casamentos gays fossem agora permitidos por lei no Reino Unido e, 
tecnicamente, elas pudessem fazer isso. - Alm disso, estou acostumada a ter seu filhinho por perto. Se voc reatar com Toby, vou ter que comear a comprar aqueles 
pacotes imensos de chocolate s para mim!
      - Como vo as coisas com Ted?
      - Estamos saindo juntos - informou-nos ela, dando de ombros. - Uma ou duas vezes por semana. Vamos assistir a filmes ou jantar fora em restaurantes legais; 
daqui a pouco vou virar uma baleia. - Chantal puxou a cintura da cala. Talvez estivesse mais apertada do que de costume. Ento, suspirou. - Mas ainda acho que estamos 
evitando o cerne da questo.
      - No seria melhor dar tempo ao tempo? - sugeri.        
      - Acho que sim, at porque no estou com pressa. No se preocupem, eu vou continuar assim at ele se cansar. Mas eu s queria dizer que no sei como teria 
enfrentado tudo sem vocs. Todas tm sido timas. So grandes amigas.
      E, como ela ainda era americana, de corao, ns reforamos o que ela disse, segurando as mos em torno da mesa.
      - Ao Clube das Choclatras - disse eu. - Que dure muito tempo!
      A bem da verdade, os homens das nossas vidas podiam ir e vir, podiam nos deixar tristes ou nos fazer felizes, que, seja l o que acontecesse, contvamos umas 
com as outras e com chocolate. Ningum tiraria isso de ns.
      No balco, havia um executivo alto, de terno elegante, pedindo diversos chocolates para Clive. O sujeito nos deu uma olhadela e sorriu.
      - Uau! - exclamou Chantal. - Que gato! -Todas ns a olhamos de cara feia. Ela ergueu as mos e disse, depressa: - S estava admirando!
      - Autumn. - Dei-lhe uma cotovelada. - Ele  o seu tipo?
      - Na certa vota no Partido Conservador, no no Verde - observou ela, fazendo uma careta. -Vocs acham que  o tipo de pessoa que lava as latas usadas para 
recicl-las?
      - No - respondemos em unssono.
      - Ento, vou ficar com o Addison - informou Autumn, com um sorriso de satisfao. - No aparenta ser to macho.
      -  melhor mesmo. Pouqussimos caras por a preenchero seus requisitos exigentes.
      O homem sorriu para ns e, depois, acenou animadamente, antes de sair. Ns retribumos a saudao e, em seguida, comeamos a rir. Clive foi falar conosco, 
todo alvoroado.
      - Pelo visto, vocs tm um admirador, senhoras. - Nosso fornecedor carregava uma bandeja com seus melhores chocolates. - Ele me pediu para presentear estes 
a vocs.
      Eles foram entregues para Lucy.
      - Para mim ou para todas?
      - Para todas. Mas ele quis saber quem voc era, Lucy.
      - Eu, especificamente?
      - Se quer os mnimos detalhes, ele perguntou: quem  aquela loura bonita, de gesso?
      - Sei. Mas ser que fez a pergunta por sentir pena da minha pessoa ou por ter gostado de mim?
      - E eu l sei? - Clive fez um gesto exasperado. - Sou homem e gay. Descubra por si mesma.
      Ele foi embora, deixando o presente ali. Olhamos com admirao a bandeja de chocolates.
      - Humm! - disse eu. - Seja quem for, tem bom gosto. Passei a bandeja e cada uma pegou seu favorito. Nadia, o Gengibre Picante, em cujo recheio Clive colocara 
essa iguaria, ralada; era o chocolate ideal para ser consumido nas manhs de inverno, com caf. Autumn demorou um pouco, mas escolheu o Rosa Inglesa, preparado com 
primor por nosso amigo; de sabor delicado, era recheado com um creme de chocolate e nata, condimentado com uma infuso de ptalas de rosas destilada. Chantal pegou 
o Ch Preto, com seu toque inconfundvel de bergamota, cujo sabor perdurava por um longo tempo, dando a sensao de que se consumiram dois bombons, no um s. Ento, 
chegou a minha vez. O que escolheria? Como sempre, havia muitas opes. Minha mo pairou sobre os confeitos, todos apreciados e desejados. Limo e tomilho? Pimenta 
de Sichuan? Acabei pegando uma das especialidades da casa: Caramelo com Sal Marinho.
      Eu me reacomodei nas almofadas de Clive e esperei um pouco, apreciando a expectativa. Em seguida, mordi o bombom e saboreei o chocolate ao leite cremoso e 
o caramelo de consistncia perfeita, sentindo o toque de mestre acrescentado por Clive: sal marinho no-refinado, da Bretanha. O recheio foi derretendo aos poucos 
na minha boca. Naquele momento, eu realmente estava no Paraso do Chocolate; suspirei de prazer.
      Que diamantes que nada! Vocs vo acabar descobrindo que o melhor amigo das mulheres  o chocolate!



FIM






1
